24 maio 2013

Janos do multiculturalismo










É evidente que em cenário de crise - que já não é crise, é declínio, empobrecimento que veio para ficar - a questão das minorias étnicas, até há pouco entendida como mero resultado de migrações de força de trabalho, assume a real dimensão de um problema civilizacional. Altercações de bairro, tensões de vizinhança, suspeição e xenofobia sempre existiram. Durante os anos de falsa abundância endividada, pensaram os sociólogos que tudo se reduzia à desigualdade de oportunidades, a diferenças de rendimento e propriedade, bem como a pontuais dificuldades de inserção. Os problemas eram calados com subsídios, as ONG's lucravam com o paternalismo da caridade laica, inventavam-se lugares para gente que não produzia, escolas e programas para os que não queriam estudar, linhas a fundo perdido para dourar a auto-estima daqueles que se pensava queriam entrar na Cidade herdeira do Iluminismo, da revolução da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Um magrebino, um paquistanês ou um bangla queriam, cada uma à sua maneira, transformar-se em europeus. 

Porém, na década de 90, a Europa descobriu que na agonizante Jugoslávia croatas matavam sérvios, que bósnios eram massacrados por croatas, que albaneses trucidavam sérvios com uma ferocidade tamanha que até o mais escorreito e miserável cardápio do linearismo marxista se mostrava impotente para compreender a profundidade das raízes que levam ao choque. Aquela gente havia morado paredes meias durante séculos - ortodoxos, católicos e muçulmanos viviam nos mesmos bairros e aldeias - a estrutura das diferentes comunidades era similar, sendo também análogas as possibilidades de ascensão social, o reconhecimento e recompensa pelo mérito de cada um. Não fosse a dimensão intangível da religião, da maneira de ver o mundo, da honra e dos deveres que cada um transportava, a Jugoslávia era um modelo eloquente de triunfo de uma ideia artificial de nação acima da ferocidade tribal. Tudo isso ruiu em meses.

Infelizmente, na Europa Ocidental, ninguém quis estudar o tema. Havia, é certo, uma Frente Nacional em França, o discurso "anti-imigração" ia conquistando adeptos, as comunidades migrantes iam-se enquistando em guetos, respondendo aos infantis chamamentos da assimilação com algo que então foi tolamente interpretado como um direito à diferença. Para alindar o problema que se acastelava, inventou-se - nobilitando-o com a chancela da universidade - o multiculturalismo. É evidente que nessa empresa jogou forte o oportunismo da extrema-esquerda anti-democrática em busca de novos nichos eleitorais, como forte jogou o capitalismo do lucro-imediato que reduz a vida social ao mercado. Agora sabe-se que a própria ideia de Europa, confundida com apaziguamento pelo consenso democrático, nada diz a populações que possuem uma hierarquia de valores que não só desprezam (como odeiam) o principio democrático, como contra ele se rebelam em nome de uma verdade inegociável e superior de natureza religiosa. A macabra decapitação londrina, os graves incidentes de ontem na Suécia, a guerra dos minaretes na Suíça, a matança congeminada por Breivik na Noruega, a quase guerra interétnica na Bélgica, na Holanda, na Áustria e em França, a instalação do caos na Grécia, tudo são manifestações claras de algo que vai abrir portas a uma nova era. É tempo, decididamente, dos governantes europeus pensarem, legislarem e agirem para evitar o pior pois, tudo o indica, estamos na iminência de algo de terrível. A Europa, pela estupidez de angelismos, abstrações e agendas para a desestabilização está a caminho de novas formas de hitlerismo.

Há anos, de passagem por Lisboa, fui em romagem ao Mosteiro dos Jerónimos. Era um dia de semana. Para além dos turistas, deparei-me com outra enchente, desta vez miúdos de uma qualquer escola secundária. Eram aos centos. As professoras gritavam, urravam mesmo, para impor autoridade a essa mole de rapazes e raparigas trazidos dos arrabaldes da capital. Verifiquei que as turmas eram, na sua grande maioria, mistas; ou seja, em cada trinta alunos, mais de metade constituídas por gente oriunda das áfricas, das ásias e até de mais longe. Tentei estudar-lhes o semblante. A professora lá ia gritando a aula. O olhar dos alunos era apagado, distante, de olímpica desatenção. Ali falta tudo: a curiosidade, o interesse pela matéria portuguesa, a falta de compreensão pela ideia de Portugal. Saí dali com a clara sensação que a cidadania não se faz. Ou se tem, ou não passa de ficção.

9 comentários:

História Maximus disse...


Exclente.

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/05/janos-do-multiculturalismo.html

Eu ando a dizer precisamente o mesmo há anos, até uso o exemplo da Jugoslávia com bastante frequência.

Há alguns anos, quando eu ainda andava a fazer a minha licentciatura em História, tive a "ousadia" de falar sobre esta situação e chamar a atenção para algumas questões "politicamente incorrectas" nas quais ninguém quer pensar.

Bem, basta dizer que na altura me chamaram "louco", "alucinado", "racista", "xenófabo", etc...

Hoje, essas mesmas pessoas que na altura me criticaram já admitem que afinal eu "tinha uma certa razão"...

Não há-de faltar muito para me dizerem que afinal "eu tinha toda a razão"...

Combustões disse...

Não é matéria fácil, mas requer intervenção urgente. Se o não fizermos agora, dentro de vinte ou trinta anos teremos um sério problema. Há nas sociedades um instinto de sobrevivência. Os europeus vão recorrer a soluções extremas e vão prescindir da democracia se aqueles a quem cabe resolver o problema o não fizerem.

Luís Lavoura disse...

Não explica que solução preconiza para o problema.
É impossível pôr as fronteiras totalmente estanques.
Além disso, mesmo que fosse possível, não seria desejável, dado que o declínio da natalidade requer um constante influxo de imigrantes para manter a mão-de-obra necessária.
Depois, muitas das populações marginalizadas e alienadas que por aí há já são de segunda ou terceira geração. São pessoas que nasceram e cresceram cá. Não se pode chutá-las de cá para fora.
Além disso, também há pessoas brancas e portuguesas de gema que fazem toda a casta de disparates. O assassino de Utoya era branquinho e as pessoas que ele matou eram na sua maioria também branquinhas. Tipos que fazem disparates, há-os de todas as origens culturais e com as mais variadas "razões".

Combustões disse...

Caro Luís Lavoura:
Perdoe-me, mas quem parece quer evitar qualquer solução é o meu caro amigo. Deixar correr tem sido a política. É verdade que há muita ralé branca, mas com a nossa ralé podem as leis, a polícia, os tribunais e as prisões.

Luís Lavoura disse...

quem parece quer evitar qualquer solução é o meu caro amigo

É verdade que quero.

Mas ainda assim as questões que eu coloquei permanecem: que soluções preconiza Você? É que parece-me muito fácil denunciar os problemas, mais difícil parece-me preconizar soluções concretas.

Quer que se expulse de Portugal algumas centenas de milhares de indivíduos - na maioria cidadãos probos - por terem antepassados estrangeiros?

Quer que as pessoas voltem a ser revistadas nas fronteiras de cada vez que entram em Portugal?

Quer que sejam expulsos de Portugal os milhares de chineses, ucranianos, bangladeshis, turcos, brasileiros, etc que por cá montaram negócios e empresas?

Quer que a polícia ande a investigar as filiações religiosas de cada um?

Eu não quero nada disso. Você quer?

Combustões disse...

Meu Caro, parece-me que está a fazer amálgama. Sem saber o que penso do problema (pois que de problema se trata), elenca um comboio de soluções radicais que não subscrevo. Alguém falou em expulsões? Alguém misturou a eito ucranianos, chineses e turcos?
Os imigrantes são convidados e a sua entrada deve depender do interesse de quem os recebe a prazo. Aliás, a questão está em vias de resolução, pois o mercado de trabalho em alguns sectores económicos está a decair de tal forma que para 2040 se prevê que, dada a robotização em curso, a classe operária europeia perca metade dos actuais efectivos. O que disse foi muito simples: a imigração tem de ser consentânea com a atmosfera cultural. Mais imigração incapaz de se adaptar concorre para mais anomia, mais marginalização e, por fim, perigosa radicalização política de quem chega e de quem vive.

História Maximus disse...


Eu muito sinceramente não acredito que seja possível encontrar uma solução "pacífica" e que agrade a todas as partes para resolver este gravíssimo problema.

Primeiro, porque a actual classe política europeia está completamente bloqueada e não consegue fazer nada porque qualquer medida que decida tomar é automáticamrnte atacada por toda a espécie de organizações de "direitos humanos" que têm as suas próprias agendas.

Segundo, porque já foi ultrapassada a linha vermelha. Já entraram tantos imigrantes na Europa e já existem tantos de segunda e terceira geração, que não acredito que seja possível resolver nada de forma "pacífica".

O que assistimos hoje na Europa é semelhante ao que assistimos com os judeus na Alemanha durante o século XIX. Faziam-se petições ao Bismarck para resolver o "problema judaico". A situação foi-se arrastando e a classe política alemã nunca foi capaz de solucionar o problema de forma pacífica. Seguiu-se a política do "deixa andar" e acabou como todos sabemos: Num holocausto com 6 milhões de mortos...

Hoje, eu questiono-me: Será que na actual Europa também se vai "deixar andar" até chegar outro ditador ao poder e fazer mais um holocausto?

O que muitos se esquecem é que a História tem uma inevitável tendência a repetir-se e tal como no cinema, por vezes a sequela é pior do que o filme original...

Isabel Metello disse...

Miguel, o problema é muito mais complexo do que o mero recurso a estereótipos, sempre redutores, simplistas e injustos! Diga-me: lendo o Correio da Manhã, diariamente, com quantos casos nos deparamos, internos de todas as cores e feitios, de familiares que se matam uns aos outros pela vil matéria?! Quantos casos de violência doméstica, de todas as cores e feitios, com prévias queixas efectuadas nas polícias, que mais parecem defender os agressores, encolhendo os ombros, face à inexistência de perícias forenses?! Quantos casos de barbaridades cometidas por todas as cores e feitios?! Se este caso na Inglaterra é bárbaro?! É-o, certamente, uma chacina, como o serão os casos, por todo o mundo, onde 100 mortos são uma tragédia, 10.000 uma mera estatística! Veja o Kosovo: quem é que beneficia com a barbárie do tráfico de órgãos humanos?! Não serão os mesmos que beneficiam com a barbárie do fundamentalismo islâmico, instigando-o, para, mais tarde, o combater?!Onde é que está o mal e o Bem aqui?! Estão sempre em lados opostos, mas nunca escolhem formas, jamais!

História Maximus disse...

Aqui está um exemplo da decência e civilidade:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/06/a-mesquita-que-recebeu-extrema-direita.html

Ainda há esperança...