14 maio 2013

Fiel até à morte: da África Oriental alemã ao campo de concentração de Sachsenhausen


Por razões profissionais, estou a regressar ao alemão após vinte e tal anos de indigno esquecimento a que votei essa bela língua matemática. Nada melhor que voltar ao contacto com uma língua que o de ler, anotar, sublinhar um livro. Pensando estar a fazer exercícios, deixei-me subjugar pela grandeza da narrativa do jovem sudanês Mahjub bin Adam Mohamed, nascido nos confins da África, mas que se transformou num herói alemão, combatendo na Grande Guerra sob o comando do também lendário Letow von Vorbeck. O soldado askari ganhou em batalha as mais relevantes condecorações do Reich. Ao chegar a derrota, em 1918, não quis abjurar da sua condição de alemão, fixou-se no Reich, foi tradutor e professor universitário de swahili, casou com uma alemã e transformou-se em pendão de honra das mil associações coloniais e de ex-combatentes que mantinham vivo o sonho de ver restituídas à Alemanha as colónias perdidas.
O nazismo deixou-o em relativa paz, mas em 1941 foi acusado de "vergonha racial" - isto é, de manter relações com uma ariana - e enviado para o campo de Sachenhausen, onde morreria vítima de doença em 1944.
Tudo isto me faz lembrar o meu empregado doméstico Augusto Matavela  de Sousa, que um dia, lá para 1972, nos entrou casa adentro fardado. Havia-se alistado como voluntário no Exército português para defender "a nossa pátria". Sei que estas coisas estão proibidas entre nós, que muita má consciência que por aí ciranda nos quer fazer esquecer os milhares de negros que por nós combateram e, no fim, foram entregues à tortura, aos campos de concentração e às valas comuns dos "libertadores".

4 comentários:

martin cruise disse...

Procuro informações sobre o naufrágio do navio Bolama ocorrido a 4 de Dezembro de 1991. Investigação jornalistica. Ver Blog: naviobolama.blogspot.pt

José Domingos disse...

A grande maioria, foi fuzilada, pelos "revolucionários" , um aviso á navegação, onde só existem dois campos, a favôr ou contra. Era assim o "homem" novo. O comunismo no seu melhor. Trinta e tal anos depois, continuam na mesma, a tentar vender o peixe, de que são democratas, claro que são. Enquanto não mandarem.
Mas esta história, não dá jeito falar, não é a oficial, é a verdade a que temos direito.
Cumprimentos

António Sousa Leite disse...

O tempo ainda lhes há-de fazer justiça!

Ana Castro disse...

Leitora habitual do seu "blog", que muito aprecio, não resisto a comentar esta referência, inédita ou quase, àquela que considero ter sido a maior e a mais imperdoável das traições cometidas pela "descolonização exemplar". Passados quase 40 anos, a memória de uma imensa manifestação silenciosa que desfilou pelas ruas de Luanda, em Agosto ou Setembro de 1974, com cartazes em que se lia "Nós também somos Portugueses", ainda me aperta o coração.