09 março 2013

O Irão não constituiu o perigo



A França e Israel - por acaso duas potências desnuclearizadas - pedem o reforço das sanções contra o Irão. A história é velha e cheia de contradições. Os primeiros reactores nucleares foram vendidos pela França ao Irão nas vésperas da revolução islâmica, recebendo Teerão autorização norte-americana para o vasto programa então aceite pela Agência Internacional de Energia Atómica. Por seu turno, coube a empresas israelitas, via África do Sul, facultar aos iranianos o know how para a concepção de centrais nucleares.
No desatino e errância que a caracteriza, a direcção norte-americana destruiu o único Estado laico com capacidade para confrontar o Irão e passou a interessar-se pelo Paquistão, suposto aliado dos EUA, que foi introduzido no clube dos candidatos à bomba atómica. Ora, o Paquistão, suposto aliado do Ocidente, ao invés de apoiar a pacificação do Afeganistão, passou doravante a apoiar os talibãs. Em todo este imbróglio, o Irão portou-se sempre à altura do seu estatuto. Nunca o Irão invadiu um vizinho, como apoiou os EUA por ocasião do 11 de Setembro, fornecendo informação vital e recomendação de amigos e aliados no Afeganistão. Os EUA traíram o desanuviamento e, logo, inscreveram o Irão no "eixo do mal". Como hoje sabemos, a Al Qaeda foi criada, subsidiada e instruída pela CIA. No quadro de enfrentamento interno que ensanguenta o chamado mundo islâmico - uma generalização, não mais que isso - o extremismo violento leva a marca do sunismo, não do xiísmo. Os mais radicais entusiastas da guerra santa são os sunitas, não os xiítas. O Irão não é um perigo. Não tem agenda expansionista, é inimigo da Al Qaeda, não apoia e até combate o terrorismo, não pretende exportar o seu modelo e encontra-se na defensiva perante a expansão do fundamentalismo jihadista, pago pelos petrodólares de aliados dos EUA.
Todos sabemos que o Irão não é propriamente aquilo que a CNN e a Al Jazeera pretendem oferecer. O Irão tem, no quadro regional onde se insere, o exclusivo dos adereços de democracia inexistentes no restante Médio Oriente. Ali há eleições disputadas, há relativa independência da imprensa, as mulheres ocupam 50% dos lugares de liderança no aparelho do Estado e na vida empresarial, um terço do parlamento pertence-lhes, o serviço militar obrigatório não as excluiu, como o regime também não exclui as minorias religiosas - judeus, cristãos e zoroastrianos - oferecendo-lhes 14 dos 290 lugares do parlamento. Não se esqueçam os cultores do terror que o quarto maior partido iraniano é a União Trabalhista, um partido social-democrático com  agenda centro-esquerda muito parecida com a dos seus homólogos europeus. Há muita mentira sobre o Irão e tal só tem permitido ao regime vitimizar-se e radicalizar-se. O Irão, que sofre de nostalgia de potência mundial da Antiguidade, deveria ser tratado de outra forma. Decididamente, o Ocidente não tem sabido encontrar as pontes para o regresso desse grande país à comunidade internacional.
É evidente que o Irão seria bem mais interessante se fosse uma monarquia progressiva e libertadora, tal como o foi até 1979. Mas isso compete aos iranianos.

9 comentários:

AMCD disse...

Diz o Miguel que o Irão "não apoia e até combate o terrorismo". O Irão não apoia é o terrorismo sunita. Mas consta por aí que apoia o Hezbollah e o Hamas, e que no passado ano foi grande o júbilo pelo atentado perpetrado em solo búlgaro contra israelitas, do líder do Hezbollah, que previamente o anunciou com contentamento, mas sem os devidos detalhes claro (lugar e hora), não fosse a coisa gorar-se.

Agora corre uma entrevista muito interessante ao presidente Shimon Peres na Euronews (eu sei, eu sei, a tendenciosa Euronews, como são todas as outras, que nesta guerra mediática não há inocentes. Ou há?)

Luís Lavoura disse...

AMCD,
(1) o Hizbullah não é um grupo terrorista. É uma milícia de defesa do seu país, o Líbano. Nunca o Hizbullah se meteu em atos de terrorismo contra populações civis, apenas em atos de combate contra tropas inimigas.
(2) Tenho as mais sérias dúvidas de que o Irão apoie o Hamas, que é um grupo sunita. De qualquer forma, se o apoia, é apenas enquanto entidade governante da faixa de Gaza. E essa entidade governante é muito mais apoiada por países árabes como o Qatar do que propriamente pelo Irão.

no passado ano foi grande o júbilo pelo atentado perpetrado em solo búlgaro contra israelitas, do líder do Hezbollah

Não sei exatamente a que júbilo se refere, mas uma coisa é ficar-se alegre por um atentado, outra muito diferente é ter colaborado na sua perpetração.

Maria disse...

Perdi um comentário agora mesmo, se ele ainda aparecer por favor apague este, já que o outro está mais completo.

Concordo com pràticamente tudo o que escreveu.
Os E.U. estão há décadas a lançar o terror, através de guerras fraticidas artificiais, pelos cinco Continentes. A desculpa deles é que estão a "levar a democracia aos países de regimes ditatoriais". Mas estranhamente esses mesmos países não a pediram nem a desejam.
O Irão não incomoda nenhum país à sua volta. Segunda o seu Presidente afirma repetidamente há vários anos, não tem a mais pequena intenção de o fazer, independentemente de possuir ou não armas nucleares.
Os E.U. fazem o mal e a caramunha. Deus queira que o terror que têm lançado pelo mundo não se inverta e caia a dobrar sobre o seu solo. E pelo andar da carruagem parece que já faltou mais.

Maria disse...

Magnífico e esclarecedor documentário. Gostei bastante de ver. Por mim agradeço o tê-lo colocado.
Maria

Bmonteiro disse...

Nada de novo na frente:
President of the United States (and former General of the Army) Dwight D. Eisenhower used the term in his Farewell Address to the Nation on January 17, 1961:
A vital element in keeping the peace is our military establishment. Our arms must be mighty, ready for instant action, so that no potential aggressor may be tempted to risk his own destruction...
"This conjunction of an immense military establishment and a large arms industry" is new in the American experience. The total influence — economic, political, even spiritual — is felt in every city, every statehouse, every office of the federal government. We recognize the imperative need for this development. Yet we must not fail to comprehend its grave implications. Our toil, resources and livelihood are all involved; so is the very structure of our society. In the councils of government, "we must guard against the acquisition of unwarranted influence, whether sought or unsought, by the military-industrial complex". The potential for the disastrous rise of misplaced power exists and will persist. We must never let the weight of this combination endanger our liberties or democratic processes. We should take nothing for granted. Only an alert and knowledgeable citizenry can compel the proper meshing of the huge industrial and military machinery of defense with our peaceful methods and goals so that security and liberty may prosper together.

DDE: «Cada espingarda que é produzida, cada barco de guerra que é lançado ao mar, cada granada que é disparada significa, em última instância, um roubo a quem tem fome e não tem que comer» - “Economia”, Samuelson.

João Pedro disse...

Talvez o Irão não seja exactamente aquilo que os EUA pintam, mas também não confortam ninguém: quando ouvimos o seu presidente negar o Holocausto, afirmar que "Israel deve ser riscado do mapa", que "o 11 de Setembro é uma invenção", não se pode ignorar a sua busca incessante por energia nuclear. Importante relembrar também que Sadatt foi morto por dar abrigo ao Xá. E ao contrário do que se diz nos comentários acima, o Hezbollah está envolvido em atentados terroristas, e não é pouco: veja-se o assassínio do primeiro-ministro Hariri, em 2005, atentados contra várias embaixadas, os bombardeamentos ao norte de Israel, em 2006, e o supracitado atentado em Burgas, no Verão passado, da autoria de...dois membros do Hezbollah.

mujahedin مجاهدين disse...

Mas e qual é o problema de negar seja o que for? Ou para o Irão já há crimes de pensamento?

Antes negar o Holocausto do que dedicarem-se a recriá-lo pelo mundo fora, como fazem os paladinos da democracia.

E devia informar-se em vez de papaguear tretas mediáticas. O que foi dito foi que Israel desapareceria do mapa. Naturalmente, entenda-se, por ser uma criação sem sentido naquele espaço geográfico e cultural, na óptica de quem o disse.
Nunca foi dito que alguém faria desaparecer Israel, e muito menos que esse alguém seria o Irão.
Até porque Israel tem armas nucleares, pelo que qualquer ataque seria suicida.

Essa tradução errónea veio de uma "organização" israelita, MEMRI, e quem quer que saiba persa pode dizer-lhe que não é verdadeira.

O Irão tem tanto direito a energia nuclear como qualquer outro país. Incluindo armamento nuclear se tal entender. E, pessoalmente, fora eu iraniano e acharia que já ontem era tarde... Israel tem-nas e ninguém se queixa. Demais a mais, ignora todas as resoluções da ONU e até faz pouco delas, e nunca assinou nenhum tratado de não-proliferação nuclear, ao contrário do Irão.
Por último, de referir também que em termos de terrorismo, Israel tem pouco que aprender seja de quem for. Desde o rapto e assassínio de cidadãos estrangeiros em solo estrangeiro, a atentados terroristas de grande envergadura (Hotel Rei David em Jerusalém, o mais mortífero do século XX - à volta de 90 vítimas, mulheres e crianças, árabes e judeus). A diferença é que israelitas terroristas ganham prémios Nobel. Os outros são eliminados e deitados ao mar...

PS: não sei porque diz o Miguel que a França e Israel são desnuclearizadas. Que eu saiba, Israel nunca confirmou nem desmentiu oficialmente a posse de armamento nuclear, pelo que se torna difícil saber de "deixou de ter" o que nunca admitiu ter. Quanto à França, não faço ideia nenhuma, mas acharia muito ingénuo que se tivesse visto livre de todo o arsenal. Ou então não estou a perceber o sentido da palavra "desnuclearizadas".

Marco disse...

O regime iraniano criou um regime de apartheid religios para a maior minoria religiosa não-islâmica do país: os Bahá'ís.

http://www.povodebaha.blogspot.pt/2013/03/violencia-com-impunidade.html

As outras minorias apenas possuem uma proteção teórica. Não te lembras do pastor que foi condenado à morte?

A única mulher iraniana que era membro do governo demitiu-se (ou foi demitida) há alguns meses.

Todas as organizações internacionais de Direitos Humanos são unanimes em condenar o Irão pelo seu tratamento dado a mulheres, jornalistas, minorias religiosas, oposicionistas...

João Pedro disse...

Caro Mujahedin, parece-me que na sua apologia ao regime iraniano entra em contradição: crimes de pensamento? Pergunte ao Salman Rushdie como passou a viver depois da Fatwa lançada por Khomeini e da recompensa pela sua cabeça desde que publicou os Versículos Satânicos. Assassínios no estrangeiro também é coisa que o actual regime iraniano conhece bem, como o antigo primeiro-ministro Bakhtiar. E quanto às declarações sobre o desparecimento de Israel, elas foram ditas por Ahmadinejad, estão documentadas e gravadas, bem como aquelas onde ele diz que "não há homossexuais no Irão", ou do congresso que ele convocou para "provar" que o Holocausto "era um mito". Talvez a política israelita tenha erros e controvérsias, a começar nos colonatos, mas fazem eles muito bem em possuir armas nucleares: ameaçados por povos em volta que os querem atirar ao mar, alguns deles absolutamente bárbaros, é da maneira que os dissuadem de maiores atrevimentos. Não é Israel que enforca gays em guindastes, nem ameça fazer desaparecer outroas nações: foram os persas que foram perseguidos, e sim, os judeus, por muito que haja quem considere o Holocausto "um mito". A queda do regime dos Ayattolahs tarda em cair.