06 março 2013

Hugo não foi um ditador


Com todas as reservas que o homem levantava, o agora falecido presidente da Venezuela não era, decididamente, um desses ditadores à moda antiga. Dele não ficará memória do déspota banhado em sangue, sob o seu regime cesarista e plebiscitário não houve registo de prática consecutiva de destruição física de opositores e violência sistemática, de campos de concentração e desaparecidos. É evidente que deixou a Venezuela à beira do precipício económico, que foi demagogo e acicatou o despeito e a luta de classes, alimentou uma geração de subsídio-dependentes, mas não foi um monstro. A sua religiosidade infantil, a bonomia e uma indiscutível generosidade - traços de carácter inibidores do excesso - impediram a deriva totalitária. Morreu hoje às cinco da tarde. Em alguns blogues vejo euforia - coisa feia, sobretudo quando as pessoas que assinam tais cretinices se dizem "cristãs" e "personalistas" -; noutros, da banda oposta, a presunção do martirológio. Ninguém tem razão perante um morto. 
O chamado "chavismo" não terá passado de um justicialismo nutrido pela pobreza de milhões postos à margem num país que ainda é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Para a sua ascensão e êxito terá certamente concorrido o estreito egoísmo da burguesia venezuelana, que queria viver em abundância cercada de miséria, bairros de lata e peões sem quaisquer direitos de cidadania. Não há melhores aliados das revoluções que esses "fazedores de comunistas" derrancados nas cartilhas hipócritas do business first, da livre iniciativa sem coração, na liberdade de alguns sobre a dignidade de todos.

9 comentários:

Luís Lavoura disse...

Excelente post. Muito bem.

João José Horta Nobre disse...

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/03/hugo-nao-foi-um-ditador.html

Isabel Metello disse...

Miguel, lamento, mas como Cristã a morte deste homem só me mostrou que já está com Quem Fará Justiça. Não desejo a morte de alguém, mas há Tantos Inocentes a Padecer nas ~mãos de crápulas (não acredito que esta criatura e o seu regime não tenham/tivessem cativeiros especiais para os dissidentesa, à semelhança do seu mentor ideológico e de moda (os famosos fatos-de-treino, que já tantas vítimas fez! A prova foi o linchamento dos repórteres de uma tv oposicionista...No outro dia, vi um documentário sobre a "verdadeira" Cuba- um horror! Ok, na Venezuela, este Chavez pode ter, na sua boçalidade campesina, alfabetizado muita gente, mas não lhe leio nos olhos alguma humanidade e nem lha reconheçarei jamais! Claro que estes fenómenos surgem face ao capitalismo selvagem e a clivagens socioeconómicas criminosas, mas os extremos tocam-se!

Flávio Gonçalves disse...

Gostei de ler, esta semana tenho tido razões de sobra para me envergonhar da Direita. Parece que o desejo de títulos, dinheiro e criadagem lhes tolda o julgamento.

José Lima disse...

Chavez, com todos os seus defeitos, foi um cristão digno desse nome. Que em Portugal não agrade a uma direita farisaica e hipócrita, profundamente anticristã na sua idolatria neoliberal e no seu ódio aos mais fracos, direita que se supõe cristã por se borrifar com umas gotas de água benta, isso é algo já bem diverso e que não causa admiração de maior. Concordo, portanto, com tudo o que o Miguel aqui escreveu.

Flávio Gonçalves disse...

Bravo, José Lima. Shame on you, Isabel Metello.

Isabel Metello disse...

"Shame on me", Flávio, por que razão? Por discordar de si? Que matriz sociocultural mais desvitalizante! E, para que conste, não sou de direita nem de esquerda, sou do Altíssimo, mas far, far away from urban madness as well as from the Vatican- sou mais de rezar holisticamente até debaixo de uma Árvore e não suporto quem usa O Santo Nome de Deus em vão, seja este de que religião for! Momento de legítima defesa em regime não proporcional: Sabe que o Flávio é um cliché? Quando não gosta de argumentos válidos, que não sejam os seus, desce ao ataque pessoal, ad mulierem/ad hominem...Agora, face a isso é que posso eu dizer: shame on you and go and try yo reach enlighment...Sou uma leitora assídua deste blog há anos- por vezes, concordo, outras discordo, naturalmente- cada qual deve ter a sua capacidade individual crítica proactiva, desde que argumente com honestidade intelectual. Nunca gostei do Chavéz (adorei o "por qué non te callas?!", apesar de não simpatizar muito com o Rei de Espanha (manias!...)), não é agora com a sua morte que vou passar a admirá-lo! Tenho é Compaixão (não confunda com aquela compaixãozinha de falsa beata de velório enquanto reunião social, ao som de benzeduras e do "ai coitadinho que já se foi!" , mesmo que a criatura em vida fosse um(a) crápula, que se inscreve no paradigma da "não inscrição" da obra basilar do meu blog: "Portugal Hoje:O Medo de Existir", que uma personagem de BD, há uns anos, pressagiou: "Portugal Hoje: O Medo de Implodir"...E não é que implodiu mesmo?! Sabe a causa estrutural da implosão, pressuponho?! As dominantes falta de Ética, corrupção epidémica, incapacidade para o debate elevado, mas a apetência pela reunite aguda, o ódio à polilogia e Verdadeira Liberdade de Expressão! É o abrilismo na sua pujança- só apreciam quem subscreva as suas opiniões...Tão democráticos- se tivessem distanciamento narrativo assumiriam que são os verdadeiros herdeiros do regime anterior. Nada se alterou, apenas se perderam as colónias, A Dignidade Colectiva, o ouro dos cofres do Banco de Portugal e a vergonha, a censura é a mesma, só que muito mais sofisticada- é pós-moderna e vale-se da matriz do show business!

Maria disse...

Excelente escrito. Parabéns. Subscrevo ainda por inteiro as palavras do comentador José Lima.
Maria

DPP disse...

bravo isabel! bravo!!!!!
porque nao sempre se tem de ser por um ou por outro; somos individuos, nao manadas deles, basta de manipulac,oes! somos seres pensantes individuais!
bravo por sus palavras isabel,
obrigada!
meu avÔ foi advogado condtitucionalista, da mesa que escreveu a constituçao após a derrota de perez jimenez ( leiam a historia de venezuela pre-chavez; há toda uma historia entre bolivar e Chavez...) . Esta constituçao foi a que Chavez teve a pedancia de mudar a seu favor. Meu avô em sua juventude, criado na mesma zona dos andes que chavez, era considerado um "rojo" - depois foi reitor da univ central aos 32 anos, e logo ministro de educaçao. isto sem levantamentos militares, sem rebeldias mas sim com educaçao. filho bastardo, ganhou seu primeiro premio literario aos 9 anos, aos 19 dava aulas na universidade que ainda era na capital mérida;
chavez tb foi bom aluno de escola.... .
que chavez USE a "seu" povo para glorificarse, para mostrar se e para satisfazer um egocentrismo clinico, o levou a morte. como surgiu, morreu, só - e assim sera esquecido.
a historia ainda vai contar.
"passou por aqui um soldado que fez muito barulho com sua trompeta..." -
e que mais?