03 março 2013

Eu também trabalhei nas matas, eu também sou "classe trabalhadora"


Outra comoção lacrimejante, com arrepelos e indignações. Salgueiro falou em trabalhos nas matas, em ajudantes de trolha e assistência a idosos e logo os senhores doutores que o não são - em Portugal, a licenciatura é uma jarreteira - saíram em defesa da sua dignitas ofendida, lembrando a velha resistência das auto-proclamadas elites nativas ao "trabalho que suja", a saber, o trabalho manual. Um "doutor" não suja as mãos com ocupações destinadas às mulas humanas; um "doutor" não ofende o status com ocupações destinadas ao vulgo, à plebe, aos sherpas. 

Ora, o meu pai, quando chegámos de África com uma mão à frente, outra atrás, andou pelas ruas a vender livros porta-a-porta e a minha mãe "sujou as mãos" fazendo o que podia para que não morressemos à fome. Foram anos a carcaças, sem um bife, sem cheirar um frango, com leite trocado por senhas da UNICEF, quilómetros a pé para ir e voltar da escola e roupa em segunda mão. Nós fomos 300 ou 400.000, ninguém se preocupou com os nossos padecimentos, com privações extremas, com uma solidão social digna de hilotas, pois nesses tempos estávamos, aos olhos da Grândola e dos cravos, a pagar a culpa colectiva de inimigos do sentido da história. Eu tive o meu primeiro emprego aos 15, o segundo aos 17, o terceiro aos 18. Trabalhei em livrarias, numa tipografia na Alemanha e em cursos de alfabetização para ciganos para, logo depois, seguir para o exército, onde estive sete anos para poder pagar os estudos. Depois, trabalhei numa firma comercial, dei aulas, fiz traduções, biscates aqui e ali. O trabalho não custa, pois a parasitagem, a desocupação e os subsídios esses, sim, escravizam quem deles vive. Eu nunca tive alimenta do bom Estado e se hoje tivesse a desdita de cair no desemprego, trabalharia nas matas, nas obras ou em qualquer ocupação.

No pós-guerra, muitos alemães - catedráticos, médicos, engenheiros, arquitectos - escolheram a Austrália, mentindo sobre a sua condição profissional, pois ali um lenhador, um pastor ou um trolha valiam o peso em ouro. Fizeram o que lhes era pedido, tal como os célebres ucranianos fugidos ao naufrágio da URSS. Os portugueses brincavam e até havia quem gargalhasse com o médico que tinham a servir copos, a bióloga que tinham a limpar-lhes a casa, a engenheira química que lhes lavava as cuecas. O trabalho nunca sujou. Os europeus habituaram-se a mandar em meio mundo, proclamando mil e um direitos, elencando as grandes Cartas, conquanto essas conquistas lhes permitissem viver entre os 5% da humanidade com quatro refeições por dia, 14 salários, casa própria e carro cada três anos. Agora que o alcatruz da nora se inverteu, temos de reaprender a dignidade de qualquer trabalho ganho com honra. Quando voltarem dias melhores, então, cada um segundo a sua preparação.

Hoje, ao assistir pela tv ao imenso flop da manif que não encheu 1/4 do Terreiro do Paço - 40.000 pessoas logo multiplicadas por dez ou por vinte pelos mitómanos de serviço - surgiu na pantalha uma "trabalhadora" que em tempos foi minha chefe. A fulana, absolutamente falha - uma nulidade profissional montada sobre duas pernas - discreteava sobre as dificuldades do tempo presente, esquecendo-se dos ultrajes e prepotências a que continuamente submetia os seus subordinados. Era, na altura, do "clube dos Alfies" (Alfa Romeos) e zarpou para a reforma com uma reforma que fará inveja a quatro ou cinco famílias de sherpas. No estrado da manif, um outro "trabalhador" emérito, um assistente da faculdade que nunca deu uma aula, que era mimoseado por gerações de alunos como o "baldas da FLL", sempre metido em curibecas, redes de amiguismo, empregos imerecidos. Quando um destes santarrões dos "direitos dos trabalhadores" se me atravessa no caminho, lembro-lhe que, no particular, o trabalhador sou eu. Eu posso, por direito adquirido, invocar como meu o hino do trabalho dos peronistas; eles não ! Não é um trapo vermelho ou a oratória do corta-cola das sebentas que faz um trabalhador. Não é a inveja nem a servidão das esmolas ditas "sociais" que honram o trabalho. Eu também sou da classe trabalhadora !

Hoy es la fiesta del trabajo, Unidos por el amor a Dios, Al pié de la bandera sacrosanta, Juremos defenderla con honor... Que es nuestro pabellón azul y blanco La sublime expresión de nuestro amor. Por él, por nuestros padres, por los hijos... Por el hogar, que es nuestra tradición... Se enoblece la vida trabajando, Se quiere más la patria y el hogar, Cuando el sudor bendice nuestro esfuerzo, Cuando ganamos, trabajando el pan... San Martín venció al Ande trabajando Y traspuso las cumbres hacia el sol, Cumpliendo los deberes de argentinos, Tendremos los derechos y el amor.

5 comentários:

Isabel Metello disse...

Miguel, está tudo tão bem observado que até me comoveu: quem não teve/tem Ética, tendo empregos por amiguismos e corporativismos, não tem moral para ir contestar seja o que for, pois essa mediocridade que deu cabo do país- tirou o lugar a alguém com mérito, que potenciaria o desenvolvimento interno.
Eu preferi fazer trabalho comunitário, depois do julgamento da difgamador que passou a coisa difamada, do que deixar os meus Pais serem mais chulados por gente que nos anda, há anos, sem que haja Justiça, a acossar e impunemente. Fiquei feliz, vou poder ter uma ocupação e o meu cv está pleno de trabalho voluntário (com Generosidade, sem a matriz maléfica do toma lá dá cá e quantos lacraus que eu ajudei me picaram a mão de forma infame!Isso diz tudo de não gente!), trabalho escravo (na Universidade Independente et alii...), desde aquele que tem a ver com as minhas competências, como limpando desde a casa-de-banho, aos móveis, arrastando-os para eventos que lá iriam decorrer, às peças, aos vidros, até à calçada da frente da loja onde deixavam dejectos de cão. Adoro varrer! O trabalho honesto é sempre dignificante! Mas garanto-lhe que neguei trabalhos indignificantes- um dos quais que me foi proposto por um "amigo" de um "amigo" que caiu de pára-quedas na minha vida, hoje, sei comprado por alguém (que, hoje, tb sei praticou um crime grave...), para que eu andasse a vender capas de outra empresa, de porta em porta, com um autocolante- sabe o que lhe respondi? "NÃO, O QUE O SENHOR ME ESTÁ A PROPOR É CRIME E A MINHA ÁREA É DE COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA, ESSE MATERIAL É DE OUTRA EMPRESA REGISTADA E COM DIREITOS DE AUTOR!"
Tb acabei a minha licenciatura a traballhar em lojas e tive o 1º emprego numa embaixada aos 18 anos e, ontem, fui a Santos, mas quando vi que as manifs se juntavam com os da "Grândola Vila Morena", fui mas é para um local de Oração! Já não tenho pachorra que não percebam que a grande hecatombe advém da máfia que operou das bases ao topo desde o 25/74. Daí que a Justiça seja uma anedota! Os estivadores, os pilotos da TAP e demais pessoal e os maquinistas cometeram crimes de lesa-pátria, pois recebem acima da média e prejudicaram/am sectores fulcrais ao desenvolvimento e produtividade de um país. Deveriam pôr os olhos egocêntricos naqqueles trabalhadores de um hotel de 5 estrelas, construído na era do Pinho, que, estando este na falência, trabalharam até ao último hóspede sair sem receber, para que a imagem do país não fosse afectada! Tenham Ética- só quando lutarem contra a estrutura profunda é que eu participarei em manifs!

João Amorim disse...

Miguel

Obrigado pelo seu texto. Para mim, a sua índole e inteligência tem mais força que cem terreiros perdidos cheios de cantorias.

sobrevive-se disse...

Ah, os pilotos da TAP, evidentemente. Essa corja ignóbil que, como bem se sabe, ganha fortunas colossais para passear de avião, dormir em hotéis de luxo e paragens exóticas e manter uma vida de devassidão.

Uma pena, uma lástima, que pessoas de bem, que habitualmente apresentam de forma escorreita aquilo que pensam e pareçam regular-se pelo bom senso, se deixem encantar pelos usuais lugares-comuns de ódio e pela tão lusa ânsia de arrastar para baixo quem teve a inaceitável ousadia de ficar um pouco acima do "remediado".

Os tão propalados salários são, saiba-se a excepção e não a regra. São o cume de carreira a que nem todos têm oportunidade de aceder. São a contrapartida, em boa medida mito, insisto, de uma profissão onde a cada seis meses se é sujeito a uma prova técnica que, se mal sucedida, pode ter consequências gravíssimas na carreira, onde a cada doze meses uma inspecção médica lhe pode pôr fim. São o prémio de uma formação - porque nem todos transitam da Força Aérea - onde facilmente se gasta perto de cem mil euros antes de receber o primeiro cêntimo.

Esses salários, podem bem ser (e são-no) o derradeiro bastião de famílias onde os velhos envelhecem com reformas ridículas e os novos não conseguem autonomizar-se. Mas como esse bastião é um piloto, esse bastião é um criminoso a apontar e punir com zelo de fanatismo depurador.

Tresanda a estalinismo, isto.

Costa

alberico.lopes disse...

Parabéns,Miguel!

EJSantos disse...

Não sou preconceituoso. Trabalho honesto é trabalho honesto. Quero é trabalhar e ganhar o meu sustento.