22 março 2013

Agora como há 100 anos, o país do bota-abaixo


Dia de debate acalorado no parlamento. Agressividade nas palavras, deserto de ideias. Uma oposição acéfala, repetindo evidências estatísticas, desabafos e pieguices, acenando ao povo-rei com mentiras. Não ouvi daquelas bocas deputadas a mais pequena sugestão, pois o parlamento não as tem. O governo, submetido a estas catilinárias semanais, parece ter-se cansado de explicar racionalmente a origem da crise, pois os senhores deputados disso não querem saber. Ali não há debate, dali nada sai, comprovando que em Portugal, quando se reúnem mais de três pessoas, uma faz a rábula do surdo, a outra do mudo e a terceira da cega. Depois queixam-se, quando vier a tal ditadura.

"Quem ler os jornais chega a convencer-se de que este país não tem outro que o exceda em teorias. Que belos artigos de fundo eu tenho lido nestes últimos tempos !
Que lógica e que retórica ! (...) Desgraçadamente, é Portugal a nação da Europa que podemos sem dúvida classificar em último lugar [no que] respeita à sua desorganização e desorientação e ao modo errado como a grande maioria dos seus habitantes consideram o que há a fazer para sairmos das grandessíssimas dificuldades em que nos encontramos. Eu entendo e creio que terei muita gente que concordará comigo, que é indispensável acabar-se com a polémica jornalística e facciosa, com os escândalos e finalmente com a guerra desenfreada aos que governam, sejam eles quem forem, quando levados legalmente ao poder".

Alberto Morais de Carvalho, Recordações de um velho militar, Lisboa, s.n., 1928

2 comentários:

Vivendi disse...

Para quando um cortes nos deputados para estes perceberem que a crise chegou e veio para ficar.

Maria disse...

A História repete-se. (Neste Parlamento) todos diferentes, todos iguais aos do passado. Só mudaram as personagensse. A mesma hipocrisia, a mesma truculência fingida, as mesmas mentiras, as mesmas pseudo discussões, as mesmas partes-gagas, é tudo fingido, findas as sessões vão todos jantar juntinhos porque são todos amiguinhos. O folclore que decorre lá dentro só serve para impressionar e enganar o povinho.

No que à política (interna e externa) de Portugal diz respeito, tudo é decidido no Parlamento Europeu. Aos 'nossos' pseudo deputados, só lhes cabe 'debater' assuntos de lana-caprina. Eis porque nos é dado assistir às mais ridículas, banais e cínicas 'discussões' jamais ocorridas no Parlamento português, só comparáveis às verificadas nas sessões parlamentares da 1ª. República. Eles foram lá colocados pelos seus partidos - note-se, os únicos consentidos por um sistema embusteiro e podre desde o seu início - e ainda que não mexam sequer uma palha durante cada um dos mandatos, agarram-se ao cargo com unhas e dentes (passa-se exactìssimamente o mesmo no Parlamento Europeu), o que lhes assegurará uma bruta reforma ao fim de quatro ou oito anos de "intensa actividade política" em prol do "bem estar" dos portugueses. Os chamados deputados da Nação não desenvolvem deputação alguma que se aproveite nem sequer prestam para elaborar as leis com que nos regemos (estas são todas decididas e impostas pela U.E.), o que se traduz num vácuo legislativo paupérrimo e num desperdício brutal (que dói) dos dinheiros públicos, que muito mais utilidade e naturalmente muito melhor proveito teriam se aplicados a outros sectores extremamente carentes da sociedade.
Reduzir os deputados a metade, que já significava qualquer coisa de útil, ainda assim seria pouco. Só deveria existir UM deputado por CADA partido, que chegavam e sobejavam, uma vez que eles não estão lá para resolver nada e muito menos para decidir coisíssima nenhuma.

Que haja alguém com bastante poder e suficiente patriotismo para acabar de vez com aquele antro de farsantes e oportunistas, verdadeiras marionetas do poder instalado, que fingem trabalhar abnegadamente pelo povo que hipòcritamente dizem representar, mas o que eles realmente estão ali a fazer é a apoderar-se velhacamente do produto do sangue e suor dos portugueses, traduzidos num esforço de trabalho insano, este sim abnegado e titânico, patente na sua luta diária pela sobrevivência.

O que se passa de extremamente grave com esta espécie de regime, que vai perfazer quarenta desperdiçados e infelizes anos, não obstante classificado pomposamente pelo poder instalado "de democrático" sendo o seu completo oposto, é de tal modo promíscuo, degradante e grave que, não se duvide, a História de Portugal registá-lo-á como um dos períodos mais tenebrosos e dramáticos de toda a sua longa e Gloriosa História.