27 março 2013

A pobreza sem miséria, a riqueza do exemplo


Em meados de 1691, o aventureiro alemão gelbert Kaempfer, autor de uma Histoire naturelle, civile, et ecclesiastique du Japon, passou por Ayutthaya, então capital do Sião, tendo vivido por algumas semanas no bandel dos Portugueses. Foi convidado por um sacerdote português para se instalar na cabana onde este vivia. O sacerdote dormia numa esteira, tinha uma gamela, um copo, uma garrafa e o mobiliário de tão pobre choupana limitava-se a uma arca onde se guardavam livros e paramentos. Pelas paredes e no tecto, lagartos insectívoros, únicos companheiros do missionário, deslocavam-se pachorreiramente comendo moscas e mosquitos. Era assim que viviam aqueles pobres do mundo, líderes das cristandades espalhadas pelo espaço de missionação do Oriente. 
Quanto a São Francisco Xavier, o Apóstolo das India, morreu em Sanchoão aos 46 anos de idade minado pela exaustão e pela doença. Na choça que lhe servia de abrigo, tinha como únicos bens uma esteira de vime, um manual e uma bíblia.
O Papa Francisco recusou os Prada vermelhos, recusou 12 dos 14 automóveis, o médico pessoal, o mordomo, o telefonista, o cozinheiro particular. Agora, recusa o apartamento pontifício e vai viver na Casa de Santa Ana com outros bispos e padres. O escândalo parece ter-se apoderado dos falsos príncipes da Igreja. Calcula-se o estupor que tal despojamento causará nas cabeças da plutocracia. O Papa vai bem e não há melhor forma de fazer escândalo edificante que o de se separar dos trastes que preenchem a existência de meio mundo.
Há três ou quatro anos, de visita a um "templo da floresta" no planalto central da Tailândia, mosteiros conhecidos pelo rigorismo, fui conduzido à presença de um homem santo. Disseram-me que fora, em tempos, dono de um banco e que de tudo se havia afastado para imitar o Iluminado (Gautama). De todo o país vinham peregrinos para lhe pedir conselho e orientação. É esta a força desses homens e mulheres de excepção. Há quem vire os olhos e não queira aceitar estes excêntricos da ordem prevalecente no mundo, da crença burguesa segundo a qual cada um é aquilo que exibe. Estou certo que no que ao Papa Francisco respeita - se o não matarem - que está a dar exemplo de sobriedade e ensinará aos europeus a arte de viver sem a tão famosa "comodidade". Vestir o que se tem, comer do que há, viver onde houver uma cama; eis, tão simples, o fim da "civilização do capitalismo".

6 comentários:

João Pedro disse...

Duas correcções: é Casa de Santa Marta, não de Santa Ana; e os sapatos não são Prada, isso é daqueles mitos urbanos que puseram a correr.

Luís Lavoura disse...

Exatamente, se o não matarem.
Ainda não se tem a certeza de que não tenham matado João Paulo 1º.

José Lima disse...

Parece-me que o Miguel está a ser muito injusto com o Papa emérito Bento XVI, confundindo o decoro e a dignidade de estado inerentes ao exercício da função papal com a humildade pessoal de quem concretamente exerce essas funções (humildade pessoal que em Bento XVI era e é absolutamente irrepreensível).

Quanto à lenda urbana dos sapatos vermelhos “Prada”, como bem a definiu comentador precedente, convém lembrar o seguinte:

1º) Os sapatos não eram Prada; ao invés, eram ofertados pela Casa Gamarelli - uma antiquíssima alfaiataria e sapataria eclesiástica romana que os confeccionava artesanalmente;

2º) O vermelho nas vestes pontifícias não é nenhuma manifestação de ostentação ou soberba, mas antes uma lembrança do sangue derramado dos mártires cristãos;

3º) Estranha-se, enfim, que o Miguel, tão acérrimo defensor do rígido e dispendioso protocolo de monarquias como a britânica ou a tailandesa, surja agora a implicar com os sapatos do Papa Bento XVI, numa manifestação inesperada - por vir de quem vem - de pequenez intelectual.

Combustões disse...

José Lima
O Papa Emérito é um grande homem. A referência aos Prada - que agradeço a correcção - assim como ao vermelho das vestes, não diminuem a dignidade do bispo de Roma. Aliás, escândalo, julgo que a velha coroa pontifícia e a sede gestatória eram belíssimos atributos dos Papas. Pena foi que a Igreja deles se desfizesse para contentar os preconceitos do tempo.

Isabel Metello disse...

Miguel, pois eu subscrevo tudo o que disse e friso: "se não o matarem"! Eu não sou católica, já fui- afastei-me, por razões ônticas e teológicas, mas sou Cristã e Jesus e Qualquer Representante de Deus na terra (Eleito por Deus e não pelo homem, no sentido de humanidade!), seja que religião professe (ironicamente até poderá ser um ateu- há-os mais Éticos do que as beatas falsas- há de tudo em todo o lado!...:), pois A Gramática Universal É a mesma, os parâmetros superficiais é que são culturais, particulares, esse representante (tantos anónimos, cidadãos comuns...!) não necessita de parafernálias nem luxos para Dignificar e Actualizar A Palavra, muito pelo contrário! Se os sapatos eram Prada ou não, pouco me importa, agora, que o luxo e muito menos o elogio do Tribunal da Inquisição (como assisti creio que em 2003 numa entrevista)e o branqueamento de barbaridades nada têm a ver com Jesus, muito pelo contrário- Jesus Aspirá-los-ia com Um Aspirador Asséptico! A igreja católica faz muito Bem pelo mundo (nomeadamente aqui em Portugal), mas muito mal foi feito e, durante séculos, foi abafado tb! Lá está- é uma instituição de homens, com interesses próprios (então, esse argumento só é válido quando se querem relativizar certos aspectos?!), mas que juraram perante Deus ser os seus servidores, ora tal é usar O Santo Nome de Deus em Vão, negando-O na Sua Essência e todas as barbaridades deveriam ser bem punidas, provindas de que organização provenham! Ao contrário do Papa anterior, gosto do Papa Francisco, creio que está ali, pelo menos, um homem que contribuirá para a reformulação das mentalidades (o fundamental no fundo...), mas Santos para mim só mesmo Exemplos como S. Francisco de Assis, o Senhor Cônsul Aristides de Sousa Mendes, a Senhora D. Adelaide de Bragança, que não Necessitam de canonizações para O Serem deveras e de facto...

Pedro Marcos disse...

"E Sócrates, vendo que Antístenes exibia ostensivamente a parte mais degradada da sua capa, dizia-lhe: “Vejo, pelo teu manto, ó Antístenes, que procuras a glória.”