06 fevereiro 2013

Estalinegrado, 70 anos


Não há melhores memórias que as dos homens simples. Raramente, por inibição ou exagerado sentido do ridículo, os pequenos deixam notas sobre a sua passagem por esta vida breve. Dir-se-ia que memórias e autobiografias são prerrogativa dos chefes e de tantos quantos julgam merecer lugar na história. Uns fazem-no por bazófia; outros para exaltar a sua participação nos triunfos; outros, ainda, para diminuir a sua responsabilidade nas catástrofes. Raramente as memórias são limpas de intenções - como excepção, cito de cor as belíssimas memórias de Jefferson Davis, o Presidente da Confederação, que deixou um The Rise and Fall of the Confederate Government - e raramente aqueles que as lêem se conseguem furtar à astúcia do autor. Ora, os pequenos raramente se justificam. Assumem a sua parte nas tragédias como as formigas empurradas por fatalidades irrevogáveis; logo, ali não há ardil, não há rebusco nem aspiração outra que não seja a de contar uma história, a sua história, no torvelinho de acontecimentos que marcaram a sua vida.

Este ano de 2013 será fértil em títulos evocativos do ano decisivo do século passado, 1943, ano em que se deram grandes mudanças que selaram o futuro da Europa e do mundo. Aqui voltaremos com apontamentos sobre o ano da queda do fascismo em Itália, a opção alemã pela Guerra Total, a batalha de Kursk, o reconhecimento de Tito como líder da resistência jugoslava, a Conferência de Teerão e a exigência da capitulação incondicional do Eixo pelos Aliados. Tais eventos, de natureza militar ou diplomática com larga repercussão condicionante sobre as décadas que se lhes seguiram, ditaram o mundo bipolar, o colapso do Euromundo, as novas modas políticas e aquelas crenças, ainda indiscutíveis, sobre a Segunda Guerra Mundial, se é que ainda alguém minimamente arguto persiste em falar em Guerra Mundial como acontecimento único. A Segunda Guerra Mundial não foi una. Foi, talvez, a justaposição de quatro ou cinco conflitos em simultâneo, dificilmente relacionáveis, mas agregados ex post-facto para aplacar dúvidas, suspeições, rivalidades e ódios entre os vencedores.


Uma das guerras da "Segunda Guerra Mundial" foi a guerra germano-russa, cujo momento culminante se deu nas margens do Volga entre Setembro de 1942 e Fevereiro de 1943, na cidade de Estalinegrado. Há tempos, na biblioteca do Instituto Alemão, requisitei Vermißt in Stalingrad: als einfacher Soldat überlebte ich Kessel und Todeslager, 1941-1949, de Dieter Peeters. Peeters, um rapaz de 20 anos, chegou ao Volga integrado no 6.º Exército de von Paulos, naquela ofensiva que Berlim anunciava coroaria o triunfo das armas alemãs sobre o comunismo. Afinal, ao simples soldado não estava destinado assistir à vitória final da Alemanha, mas ao enterro da Nova Ordem de Hitler - império breve de 6 anos (1938-1944) que empurrou a Europa para a decadência que hoje provamos amargamente - e para a experiência do cativeiro num dos centos de campos de prisioneiros, de onde regressaria em 1949.
As memórias de Peeters são belíssimas, mesmo que não possuam a erudição e o recorte literário das epopeias. São de uma autenticidade e espontaneidade desarmantes. Ali não há ideologia, fanatismo, olhar turvo nem "filosofia da história". A trama dos factos, a luta pela sobrevivência, a fome, o frio, o medo e a crueldade crua que só conhecia das memórias do Sargento Bourgogne, participante de uma outra Campanha da Rússia, elevam a ego-história a um nível raramente conseguido pelos trabalhos historiográficos de gabinete. Peeters devia ser traduzido para o nosso idioma pois, mais que a guerra, revela a insuspeita capacidade dos homens em querer viver, mesmo após comprovarem a inutilidade, pequenez e absurdo daquilo a que chamamos de vida.

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