21 fevereiro 2013

B.S.S. e a metafísica do Estado Social


Boaventura Sousa Santos "exige" a saída do governo e afirma que as "conquistas" não se derrogam. Para um sociólogo encartado, a afirmação soa como uma contradição, pois abaixo da filosofia do Direito e do Estado - que lida com conceitos transfinitos - a realidade social é mutável, sujeita a constante conflito de interesses e insusceptível de outra abordagem que não a compreensiva. 
O "Estado Social" - sabe-o B.S.S. - resultou da acumulação de riqueza em sociedades que detinham hegemonia industrial, tecnológica e financeira, que dominavam a economia mundial, eram centros de impérios coloniais e, assim, se permitiam artificializar os níveis de rendimento e conforto das chamadas classes populares. No fundo, o Estado Social era uma injustiça, na medida que resultava da transferência de meios da periferia do Euromundo para o centro.
A desagregação dos impérios, a emergência de novos pólos de poder, a incapacidade da Europa em concorrer com outros regimes laborais, salariais e legais, os custos incomportáveis que passou a pagar pela importação de matérias-primas, tudo isso foi escamoteado durante três ou quatro décadas. Agora que a Europa deixou de ser a fábrica do mundo, como manter um regime social privilegiado? 
A partir da década de 90, surgia claro aos mais avisados que a manutenção do Estado Social se mostrava incompatível com o lento apagamento do velho continente. Para contrariar a tendência que qualquer estudo prospectivo punha em evidência, a Europa derrapou para a demagogia e para o endividamento. A Suécia e a Finlândia reformaram o Estado Social na década de 90; os outros - franceses, italianos, espanhóis, portugueses e gregos - chegaram à miragem do abundantismo precisamente no momento em que a globalização mostrava o fim à vista da preeminência europeia. Os suecos e os finlandeses saíram-se bem; nós, caímos no vórtice.
B.S.S., se fosse consequente no apostolado da "aldeia global", aceitaria de bom grado vencer como um sociólogo paquistanês, viveria num daqueles cortiços da Bangkok destinados a professores universitários (que vencem 600 Euro por mês), comeria em cantinas (como comem os catedráticos indianos e chineses), viajaria uma vez por ano para participar em conferências e seminários, sempre aboletados em hotéis de 2 estrelas. Mas não, a esquerda chique e o revolucionarismo de pacotilha só exaltam a austeridade, incensam a moderação e a simplicidade não-burguesas e anti-consumistas se tais prendas forem para os outros.

3 comentários:

Luís Lavoura disse...

Excelente post, muito clarividente.

José Domingos disse...

Este " camarada" devia ter vergonha.
Apregoa uma moralidade, que não pratica, á boa maneira da esquerda.
Eu, com as calças do meu pai, sou um homem.

Luís Palma de Jesus disse...

ah o BSS...

lembram-se do pessoal da Brigada do Reumático?... eram uns sofisticados se comparados com os actuais «brigadeiros» do regime....