08 janeiro 2013

Quanto custa um doutoramento


Ontem entretive-me a reunir documentos, facturas e comprovativos de pagamentos referentes a cinco anos de preparação e redacção da dissertação de doutoramento em História das Relações Internacionais sobre as relações luso-siamesas, que tardo em defender. Entre viagens e deslocações, aluguer de um pequeno apartamento em Bangkok, estadia, livros, fotocópias, microfilmes, frequência de quatro níveis de língua thai, traduções, propinas e outros emolumentos, a coisa vai nos 85.000 Euros e ainda não acabou. Dado ter recebido uma bolsa de estudo de longa duração,  prescindi por três anos do meu vencimento como funcionário público, correspondendo a bolsa a 30% daquilo que  habitualmente recebo, pelo que durante os anos que passei na Tailândia fui forçado a desbastar o pé-de-meia que havia amealhado ao longo de anos.

Há quem goste de dizer mal dos bolseiros, há quem pense que a diferença entre um bolseiro e um turista é coisa ténue, que a investigação, os milhares e milhares de horas aplicados na leitura em bibliotecas e arquivos, a compilação de dados, a elaboração e a redacção que exigem sucessivas noites em branco e o sacrifício de fins de semana e férias, não merecem o esforço desenvolvido. Habitualmente, quem tais tais sentenças emite - satisfeito na escrevinhação de posts de blogue ou na cavaqueira da "cultura" de café, onde se emitem sem qualquer pudor cheques-carecas de infundada erudição - não se dá conta da diferença de escala e modo que separam a opinião da verdade, o palavrório do raciocínio, o improviso do método.

Porém, também há quem faça teses de mestrado e doutoramento como quem queima etapas, sem outra ambição que a de cumprir requisitos regulamentares e administrativos. Em Portugal, no domínio das Ciências Sociais e Humanas continua a praticar-se a "tese teórica", a monumentalidade das fachadas sem caboucos, o citar comboios de autores, o fazer filosofice mais ou menos atinada sem jamais entrar num arquivo, sem compilação, selecção e interpretação de dados. Começa-se pelo plano e não se chega a concluir o telhado. Vistas de cima, parecem imponentes, mas, depois, nada há para lá do magnífico plano mental ou sob o brilho das telhas, dos mármores e das madeiras odoríferas dos grandes portais.

A vida é breve, o tempo não pára e não se compadece da ligeireza dos desocupados ou dos falsos arquitectos-decoradores. Pergunto-me se vale o esforço, num mundo cada vez mais entregue a habilidosos, à "cultura do café" ou à torrente de opiniarismo que se vai lentamente transformando na "cultura do nosdo tempo". Já não estarei muito longe do calvinismo.

1 comentário:

Arun Mai disse...

Well, unlike many other meaningless contributions to the pile of waste paper, your work will without a doubt be read. So, when will the book be published either in Portuguese or English?