29 janeiro 2013

Não, não foram a Inquisição, o terremoto ou os franceses


Persiste a cómoda lenda de imputar à Inquisição, ao terremoto e aos franceses o atraso cultural e científico do país. Lenda bela, apaziguadora que não deixa melindres, impoluta para bons portugueses, aquietadora de fantasmas. Porém, há um véu espesso cobrindo a verdade histórica, há responsáveis facilmente enumeráveis, há actos deliberados, legislados até, que qualquer historiador honesto pode desvendar sem grande dificuldade. O descalabro de Portugal não aconteceu, como alguns ingenuamente repetem, quando Pombal - figura sinistra - ascendeu ao poder, como não aconteceu quando a corte rumou ao Brasil perante a iminência da entrada de Junot. O verdadeiro pesadelo aconteceu depois, no início da década de 1830, quando todo o país foi submetido aos "freedom fighters" de então, recrutados no Havre e em Bristol para libertarem Portugal da "tirania" e do "absolutismo". 

Não, Portugal de D. João V não era, como diz a historiografia oitocentista, um país bisonho, um "reino cadaveroso", "supersticioso" e fora das grandes correntes do pensamento ocidental do tempo. Para contrariar tais estórias, leia-se a obra de Henrique Leitão, que vai ano após ano lapidando as fanadas mentiras que se foram acastelando desde há mais de século e meio sobre aquele monarca a quem Lisboa deveu dois observatórios astronómicos e a mais persistente política de mecenato cultural, tecnológico e científico da nossa história. Portugal era, ainda no século XVIII e graças à Companhia de Jesus - verdadeira internacional de conhecimento - um país tocado pelas musas do engenho, do experimentalismo e da curiosidade.

O atraso, o desinteresse pelo estudo e pela leitura, o desprezo pela cultura e pela promoção pelo mérito das canseiras do espírito começou naquele fatídico 1834 com a confiscação por atacado dos bens das Ordens Religiosas, acompanhado pelo saque, queima e venda de um património riquíssimo em terras, alfaias, paramentos, aparelhos científicos, pintura, estatuária, cartografia e bibliotecas existentes em mosteiros e conventos que cobriam a geografia do país. O insuspeito Ernesto José Caldas (ver História de um fogo morto (...), Porto, Imprensa Moderna, 1903) afirmava: "livrarias a monte. Tudo roubo. Primeiro acudiam os que se tinham na conta de autoridades; depois os curiosos; por último a canalha rara que roubava para vender a peso. As mercearias encheram-se de missais, de breviários, de sermonários (...)". Nessa hecatombe perderam-se para sempre incunábulos, códices, arquivos, impressos, mas perdeu-se, até hoje, a quadrícula de ensino, a selecção dos mais inteligentes e das elites naturais que permitiam à sociedade portuguesa nutrir-se dos seus melhores, indiferentemente da sua origem social.

Paulo Barata publicou há anos um importante estudo intitulado Os livros e o Liberalismo (2003), verdadeira história de terror que deve ser lida, meditada e divulgada. Barata faz o inventário do colapso de um país e de uma sociedade, oferecendo copiosa safra de testemunhos arquivísticos - recitativo abracadabrante - que explica, sem devaneios, sem "teoria" e sem preocupações literárias o saque e destruição das livrarias conventuais portuguesas, política de quase terra-queimada e latrocínio que Portugal viveu ao longo da década de 1830. Tudo o que existia desapareceu num curto período. As elites locais foram privadas de poder e substituídas por "funcionários públicos" pagos por Lisboa, os centros de decisão local decapitados, os viveiros de gente letrada assassinados. Entre 1833 e finais da década de 1870, ou seja, durante meio século, a província regrediu, perdeu o contacto com o ensino, esqueceu-se das letras, das artes, foi culturalmente decapitada. O atraso da província data dessa época. Em Lisboa, uma nova elite (política, mas não social] passou doravante a mandar, mas o país deixara de ser, a liberdade proclamada nas constituições, nas leis e nas tribunas deixou de corresponder às gentes que, alheando-se, estupidificado-se, se remeteram ao cinismo, à acrimónia e à desesperança. Assim tem sido Portugal desde então, um desfiar de mentiras institucionalizadas, com os portugueses de costas voltadas, desconfiados e embrutecidos por um crime cometido contra a nossa terra pelos avós dos nossos bisavós.

6 comentários:

PFGFR disse...

Para ler, reler, e divulgar sem cessar. Parabéns e MUITO OBRIGADO por este texto!

FB disse...

Caro Miguel Castelo Branco,

Em tempos lembro-me de ter comentado um artigo seu em que fazia algumas afirmações parecidas com as que faz no seu texto de hoje. Na altura não concordei com algumas observações que fez e hoje continuo a não concordar. No que diz respeito ao que sucedeu às elites locais depois de 1834, para irmos directos aos Arquivos sem passar pela teoria vamos esbarrar-nos com a dispersão dos estudos feitos sobre a matéria e, em alguns casos, com a sua inexistência.
No Minho (região para a qual há bastantes estudos) verificamos que antes de 1834 nas Câmaras Municipais o sangue (isto é a nobreza ou a fidalguia) prevaleciam sobre o mérito (isto é uma boa cabeça ou uma boa carteira). Em Braga houve uma guerra entre os velhos fidalgos e os novos nobres (estes últimos não conseguiam ascender à vereação). Em Guimarães, depois de 1820 começam a entrar os mais ricos e os mais considerados. A sociedade transformou-se, houve, claro está, gente que foi saneada, as Casas mais antigas mantiveram a sua preponderância (umas até à Regeneração outras até ao século XX) e os funcionários públicos que optaram pela neutralidade mantiveram os empregos. É claro que houve gente que foi perseguida, que caiu na pobreza e que perdeu os cargos que ocupava. Teria essa gente mais mérito e mais qualidades do que aqueles que lhes sucederam? Não sabemos. Não há estudos. Quanto às elites locais passaram a usar o poder de outra forma (igualmente arbitrária), o "cacique" do recrutamento foi substituído (ou acumulou funções) pelo cacique eleitoral...
É claro que um Estado mais forte e mais centralizador limitou as liberdades de certas comunidades. Substituiu (com menos proximidade) por uma entidade distante, o Capitão de Ordenanças, o Vereador e o Padre que eram vizinhos de quem lhes batia à porta...Já a proximidade com o tabelião o boticário ou com o advogado ficou igual. É sabido que houve, de facto, um saque aos Conventos, que os frades ficaram desamparados (alguns tornaram-se criminosos), que as bibliotecas foram vendidas (a quem?), etc. Já as bibliotecas particulares mantiveram-se na maioria dos casos e, a julgar pelos inventários, continuaram nas mesmas famílias até ao século XX...A questão é a seguinte: num caso e noutro quem tinha acesso a elas?
Com todos os defeitos que o Liberalismo teve (o principal é ser mais uma importação...) não me parece que a ele se deva o atraso de Portugal.
Saindo da esfera dos Arquivos e passando para a teoria, creio que esse atraso terá começado quando Portugal deixou de ser original.Talvez no tempo de D. João III.
Quanto à Inquisição, sem tecer grandes considerações sobre o assunto, posso apenas dizer que para um pequeno trabalho (pequenas biografias) que estou a fazer sobre portugueses notáveis no "pensamento" e na ciência, é triste ver como a Inquisição os incomodou a quase todos (Adnré do Avelar, António Vieira, Bartolomeu de Gusmão, Verney, etc).

Melhores cumprimentos,
Francisco Brito

jorge.oraetlabora disse...

Parabéns ! Sempre a aprender no seu belo blogue... !
Dá gosto passear por aqui... Tudo bem explicado, organizado, conhecimento seguro.
Abraço !

Combustões disse...

Caro Francisco Brito
Sei que não é a ocasião nem o local para uma discussão de fundo sobre matérias que requerem outras condições e meios que o formato de um blogue oferece. Agradeço-lhe o contributo, mas lembro que coloquei o problema na sua mais vasta (e imprecisa) latitude, remendo apenas para dois autores que contrariam uma tradição historiográfica datada. O que disse é o que penso. Ao trabalhar em documentação portuguesa referente ao Oriente, deparo-me diariamente com testemunhos pungentes do fim de uma certa ideia de Portugal que se confundia, ao fio dos séculos, com uma ideia de missão que, depois, por mais adereços de modernidade que se colassem, jamais recobrou. Perdeu-se muito com aquela estúpida guerra civil e dessa trágica luta nasceu certamente uma gente mais pequenina, mais mesquinha, mais alienada e envergonhada da sua identidade. O século XIX foi um inútil derramamento de talento e desse processo de empobrecimento cultural - por vezes salpicado de ilusões de génio - caímos nisto.

Maria disse...

E ainda há quem diga que a História não se repete. Ai não, que não se repete! Repete-se e de que maneira, com a diferença de que é sempre para muito pior e com outros actores. Personagens de uma farsa que em determinadas épocas da História entram em cena para representar os mesmos papéis maquiavélicos e que mais não são do que clones dos actores que os antecederam. Nestas suas linhas está a prova provada disso mesmo. A podridão política que vicejava em pujança no Portugal do séc. dezanove, no período que cita, mergulhando o país na corrupção, no roubo, no crime, nos assaltos, na ignorância e na miséria, é a mesma sem tirar nem pôr, embora com outra roupagem, cujos crimes reproduziu no país com o advento do 25 de Abril, com sobras. E continua. A malignidade que norteia os descendentes desses escroques d'então, de que estão possuídos todos os que nos têm vindo a fazer a vida negra vai para quarenta anos, é igual à que norteava os seus diabólicos antepassados.

Um dia, que se quer muito próximo, estes traidores, desavergonhados ladrões de casaca, têm que ser varridos daqui para fora nem que seja à força. Isto antes de Portugal implodir e com ele todo o povo.

Não se aguenta mais este clima de terror, tristeza e desesperança permanentes, consequência directa do dia fatídico em que os portugueses ingènuamente se deixaram agraciar pelos coveiros de países e assassinos de povos, através de promessas cínicas e mentirosas de riqueza e progresso para todos, tendo sido afinal o dia mais trágico dos seus últimos noventa anos, aquele em que Portugal assinou a sua sentença de morte como Nação.

FB disse...

Caro Miguel Castelo Branco,

De facto são assuntos demasiado complexos para tratar aqui. E, de facto, o caso em análise é demasiado lato para que se chegue a alguma conclusão concreta.
No meu comentário centrei-me mais na questão das elites porque acho que estão mal estudadas ou, pelo menos, até há bem pouco tempo, os estudos centravam-se muito no poder central e pouco nos poderes locais...

Melhores cumprimentos,
Francisco Brito