15 janeiro 2013

D. Luís da Cunha, glória da diplomacia na Biblioteca Nacional


Do ponto de vista historiográfico, a história da diplomacia portuguesa é uma lástima. Excepção feita ao clássico Biker, ao esforçado Brazão, ao importante Borges de Macedo, assim como aos contemporâneos Isabel Cluny, António Vasconcelos de Saldanha e Abílio Diniz da Silva, tudo está por fazer, pois se estudos monográficos esparsos existem - sobre períodos, relações bilaterais e figuras - falta uma obra magna que permita uma compreensão latitudinal das constantes da nossa política externa, para lá das generalizações, da repetição de topos e da mera verbalização. O tentame de Soares Martinez é um nado-morto, pois nada acrescenta ao rememorar de actos diplomáticos há muito referidos com propriedade pela historiografia geral, de Fortunato de Almeida a Veríssimo Serrão. Quem trabalha em assuntos relacionados com a história das relações externas de Portugal, saberá do que falo. Para lá das excepções aludidas, o investigador tem de se debater com os caixotes das Necessidades, da Torre do Tombo e do Arquivo Histórico Ultramarino, dédalos de silvas jamais desbastadas. Como em tantas outras áreas das Ciências Sociais e Humanas, no caso vertente os trabalhos sobre relações internacionais são um oceano de "teorias", "conceitos", "escolas" - tudo regado a Nozik, a Hayek, Rawls, moda actual depois de esgotados Habermas e Foucalt - mas trabalho de mina (de biblioteca, de arquivo) nada.

No ano em que se celebram os 300 anos das Pazes de Utreque e das missões aí despachadas para entabular negociações com vista ao termo da Guerra da Sucessão de Espanha, nomeadamente as do Conde de Tarouca e de D. Luís da Cunha, a Biblioteca Nacional preparou uma exposição e um colóquio sobre o homem e a obra daquele que é, sem dúvida, o maior expoente da diplomacia portuguesa.. Visionário e inspirador remoto da ideia de um Portugal liberto do rectângulo peninsular - defendeu a transferência da capital do Reino para o Brasil - pensador ousado e reformista, adepto entusiasta do predomínio da aristocracia (que entendia como meritocracia), coube a este homem de excepção, ouvido pelas cortes, conselheiro e hábil defensor dos interesses da Coroa, transformar uma derrota militar numa vitória de Portugal em Utreque. Um exemplo inspirador para os dias de hoje.

1 comentário:

Duarte Meira disse...

Desde o afonsino João Peculiar que a Diplomacia Portuguesa foi uma das traves-mestras da sustentação da nossa independência.

Este D. Luiz da Cunha - adepto duma aristocracia forte como sustentáculo da Realeza - parece-me que só se enganou com a protecção e crédito que deu a Sebastião José, destruidor da aristocracia.