02 janeiro 2013

A guerra de 2012 contra Passos Coelho


Contrariando o ritual da passagem de ano - os bloguers têm todos um gene de Professor Karamba - não deixei quaisquer previsões sobre 2013. Contudo, não me posso furtar a um sumário balanço do ano que agora terminou, menos terrível do que muitos apocalípticos previam, bem pior do que teria sido se ao longo dos últimos 30 ou 40 anos não tivessemos sido governados por gente absolutamente falha daquela elementar faculdade que se exige dos políticos, ou seja, da racionalidade. A crise que nos bateu à porta arrasou modos de vida, destruiu sonhos, mordeu com o desemprego, a fome e a emigração forçada centenas de milhares, mas teria sido pouco mais que um sobressalto se os portugueses - manietados, condicionados e cloroformizados de demagogia - não tivessem querido sucessivamente Cavaco, Guterres, Barroso e Sócrates, não se tivessem iludido com um "Estado social" feito à medida de uma riquíssima Suécia, não levantassem a mais leve objecção a respeito de um consumo que muitas vezes duplicava o rendimento por via do crédito. 
O desmancha-prazeres foi Passos Coelho. Contra ele - o único que não fugiu (vide Cavaco, vide Guterres, vide Barroso, vide Sócrates) - levantaram-se os lóbis, as corporações, as redes formais e informais do empregadorismo, as lojas e as sotainas, as fardas, os debitadores de conselhos, os ricos do aparelho do Estado, os reformados milionários, os médicos, os professores, os enfermeiros, os estivadores, os pilotos, os autarcas, os polícias e até a velha classe política que não quer ceder passo a uma nova geração.
A guerra atingiu culminâncias de paroxismo em Setembro, com a tal manifestação por muitos já mitificada (antes, a juventude fazia revoluções, hoje invoca uma passeata metendo abraços e beijos aos policias) que mostrou a que ponto a tal classe média, filha dilecta do regime, não queria abrir mão da ilusão.
A guerra de 2012 passou. Quem se opõe ao governo sabe que não há outro caminho, que Portugal só tem pela frente um desafio (regressar aos mercados para garantir crédito), que o Estado social deve servir os pobres e não os ricos, que o país tem de produzir e exportar mais sapatos, mais vinhos, mais celulose, mais madeira e cortiça. De fora ficam os reaccionários que pensam que Portugal poderá regressar a 1980, a 1990 e a 2000 - o tal dos "projectos", da subsidiação a fundo perdido, do emprego nas autarquias, do "rendimento mínimo garantido" - e que aqui estávamos, solarengos neste canto da Europa meridional, de mão estendida aguardando os fundos europeus e que a Alemanha - grande leiteira que a todos alimentava - estaria disposta a eternizar um estado de coisas no mínimo aviltante para que recebe.
Cada um deve fazer por si. Portugal tem um bom governo (compare-se Crato, Portas, Mendo, Macedo, Gaspar, Santos Pereira com os titulares dos últimos vinte governos) e poderá passar da aflição em que se encontra. De consenso em consenso, de negociação em negociação, de cedência em cedência chegámos a isto. Passos Coelho é tão odiado precisamente por ter assestado o golpe na floresta de nós Górdio que em clima de festa nos iam estrangulando. Só lhe desejo coragem, que "se lixem as eleições" e que em 2013 possa dar seguimento à mesma política porque, se não o fizer ou se não o deixarem fazer, a única solução que se pode prever é a do derrube do regime e o regresso de uma via autoritária.

8 comentários:

vazelios disse...

Excelente texto, exactamente o que penso mas num grande Português!

Cumprimentos

Werther disse...

faço minhas as palavras anteriores. é bom ainda encontrar alguma snesatez no meio de tanta loucura.

(a prova que não sou um robot é chatinha...)

alberico.lopes disse...

Conheço bem o Pedro!E conheço bem a sua família,designadamente o Dr.António!Tudo pessoas de rija têmpera!Portugueses dos 4 costados!Para lá do Marão!Julgo que vai superar as traições e todas as bacoradas com que o têm mimoseado!Faço votos para que consiga desligar-se dos "bem cotados" na vida,que nos chupam há longos anos!Para o Pedro os meus maiores encómios!E que não lhe falte a força anímica para,muito em breve,vermos a quixotagem desses opinadores a rabiarem e meterem a viola no saco!Vamos aguardar mais uns meses!

Catarina Barradas disse...

Parabens. Excelente artigo. Fiz questão de o partilhar no meu mural e dos meus amigos. O Dr. PPC vai conseguir aguentar esta cambada da Comunicação Social e dos comentadores da treta que não o largam ao minuto. Ele é forte e sabe quem são e onde estão os seus inimigos. Os barões do PSD mordem-se de inveja por ele ser tão determinado. O GOVERNO E PPC VAI CONSEGUIR TIRAR-NOS DESTE SUFOCO.

Pedro disse...

Concordo quase completamente com o que refere. Os diversos interesses levantam-se contra Coelho. Desde os militares aos magistrados ,tudo reclama. Esqueceu-se porém da RTP. Ela está na linha da frente da guerra contra coelho. Na semana anterior à grande manifestação popular de 15 de Setembro, a RTP foi passerelle dos criticos de Coelho e da TSU. Tudo o que era anti Coelho por ali passou. Eram resmas de criticos de Coelho à hora do jantar. Depois dessa semana de loucura ,dá-se " a grande manifestação popular" contra a austeridade e o come cenourinhas. Não concordo com a critica que faz ao rendimento minimo. Isso é das poucas coisas boas que existe.Isso é o pão na mesa de muita gente. Deveria tentar cortar-se em outras coisas.

Jim Pereira disse...

Muito bom!
A guerra de 2012 contra Passos Coelho

Manuel Queiroga disse...

Os cães ladram e a caravana passa.Bom artigo. É o que penso.

Manuel Queiroga disse...

Os cães ladram e a caravana passa. O artigo traduz o que penso da situação política actual.Só é pena o "dr" Relvas ainda estar no governo. Não gosto de videirinhos espertalhões.