27 dezembro 2013

Os Bragança, exemplo de serviço


A família real portuguesa tem sido, desde o regresso do exílio, exemplo de moderação e incomparável desamor pelo exibicionismo. Ultrajada, silenciada, esbulhada do seu património e até ocultada dos portugueses, nunca dela se manifestou um queixume, a exigência de reparações justiceiras, um elementar pedido de desculpas do Estado. Ao contrário de Espanha, onde a possibilidade da Restauração foi secundada por vencedores e aceite pelos vencidos da guerra civil - pelos vencedores, pois não queriam o retorno da república; pelos vencidos, pois a monarquia possuiu o génio da integração - em Portugal, irremediavelmente tosco politicamente e sempre em mãos de elites vorazes que aspiram ao controlo integral da maquinaria do Estado, como um salteador se agarra ao saque, a possibilidade do retorno da monarquia tem sido, desde há um século, combatida pelas famílias e grupos políticos, da extrema-direita à esquerda mais radical, mas sobretudo pelos vários arcos de governação. Em 1951, através do tandem Marcelo Caetano / Albino dos Reis, o Estado Novo, pensando-se perpétuo, proclamou-se republicano. Em 1975, a Constituição elevou a forma republicana a limite indiscutível. 

Em 1950, o regresso da família real, se reparava o banimento, continha, também, um refinado cálculo. A família real, cujos bens haviam sido devolvidos em finais da 1ª República, regressou ao país sem poder prover ao seu sustento. A criação da Fundação da Casa de Bragança, em 1933, arranjo em que se fizera casuística a partir de umas vagas considerações de Dom Manuel II sobre o destino a dar ao seu património cultural - leia-se livros antigos de tipografia portuguesa - testemunha a perversa intenção, logo traduzida em actos, de reduzir a liberdade da Família Real, expondo-a aos caprichos do poder instituído. O imenso património fundiário, imobiliário e artístico dos Bragança viu-se, assim, sequestrado por uma entidade que se dizia existir para garantir a inalienabilidade patrimonial de bens pertencentes a cidadãos que a eles tinham pleno direito. Mas o Estado foi mais longe na montagem do dispositivo preventivo. Sabe-se hoje que por ocasião do regresso dos Bragança ao seu país, foi-lhes sugerida instalação em localidades da raia, tão longe quanto possível de Lisboa, ao que o então Chefe da Casa Real recusou. Perante a firme recusa, supremo sarcasmo, foi-lhes proposta instalação num castelo arruinado. Queria-se, pois, uma família real pobre e mendicante, sujeita à prodigalidade ou à avareza do esmoler. Depois, por maior que fosse o afinco e honestidade dos seus administradores, a fundação sob tutela do Estado foi sempre gerida por homens de formação republicana e até conhecida vinculação a organizações secretas. A situação mantém-se há mais de setenta anos e estimamos que só com uma decidida reclamação às instâncias europeias se poderá resolver o lamentável imbróglio. 

Pois bem, não obstante os sacrifícios, os Bragança viveram sempre com digna parcimónia, nunca perdendo a dignidade, nunca se submetendo aos interesses de regimes, governos e facções que ocuparam sucessivamente o poder. Cumpriram sempre as suas obrigações de cidadania, deram sempre provas de ânimo, boa-fé, entrega a causas de natureza nacional, social e cultural, muitas vezes excedendo largamente as suas modestas posses. Há dias soube que o Príncipe da Beira, o Infante Dom Afonso, consagra grande parte do seu tempo livre a obras de caridade. Fá-lo sem alarde, com enorme sacrifício e com a discreta elegância de quem se entrega ao bem sem busca de notoriedade. Que eu saiba, raros são os rapazes da sua idade que fazem o que faz. Aqui está um exemplo - um exemplo mais - desta família que serviu e continua a servir o país há meio milénio. 

26 dezembro 2013

A revolução que não aconteceu: breve reflexão sobre o fim das revoluções


Os messiânicos de todos dos matizes aguardaram-na com impaciência durante décadas, asseverando o cataclismo com a certeza de uma fatalidade purificadora. A crença no colapso foi tão longe, que certas forças políticas e movimentos, considerando-se conhecedores da matéria não acessível a profanos, encheram-se daquela pistis dos escolhidos das catacumbas, dos perseguidos e dos indesejáveis, exultando com a marginalização a que eram sujeitos. A Europa das décadas da abundância encarregara-se de reduzir ao patético esses últimos crentes das teorias catastrofistas. Eram poucos, especializados numa literatura codificada, de semântica só por eles entendida, cultores de referências e textos por eles partilhados. Sonhavam com a É a Hora, com a revolução e com a Nova Era que surgiria quando as conjunções se operassem. No fundo, eram crentes, e os seus grupúsculos seitas, na acepção rigorosa do termo: a fé que haviam racionalizado com maior ou menor aparato erudito era o único agente recrutador desses movimentos que se digladiavam, entre-devoravam, colidiam e se apostrofavam na reivindicação de uma ideia de pureza quase religiosa.

De súbito, por volta de 2007, as conjunções realizaram-se. Um novo 1929, a derrocada do ímpio poder, o fim das ilusões dos alienados, a confirmação daquilo há muito anunciado. Contudo, após quase sete anos, a revolução não aconteceu. Não aconteceu pela esquerda new age, como não aconteceu pela direita do mito regressivo de um passado ante-histórico, "tradicionalista" na acepção de Evola. A Grécia, a Espanha, a França e Portugal não caíram na revolução das massas dirigidas por uma nova "estirpe" (cara aos tradicionalistas) ou por uma nova "vanguarda consciente". A teoria da decadência da democracia ocidental, mais as críticas realistas às suas perversidades funcionais, não conseguiu oferecer uma alternativa. As revoluções não se deram, como as rebeliões mostraram à saciedade - para desencanto dos revolucionários - que os mais expostos às devastações produzidas pela crise não reclamavam a revolução, mas o retorno aos tempos dourados do consumismo, do bem-estar e da despreocupação anterior à crise. A chamada classe média, uma invenção da sociedade de bem-estar, não reivindicou uma alternativa; antes defendeu o Estado Social, as políticas integradoras, a redistribuição, as conquistas históricas da educação para todos, da saúde universal, do emprego e das reformas e pensões garantidos. 

As democracias ocidentais, certamente muito diminuídas moralmente pela oligarquização de décadas, continuam a ser, sem oposição, o modelo mais exaltado e reclamado pelas sociedades europeias. Se a democracia falhou estrepitosamente enquanto força de afirmação da superioridade ocidental perante o mundo, se não conseguiu a universalização - vide exemplos do Iraque e do Afeganistão, as grandes cruzadas pela imposição do Ocidente no início do milénio - e se mostrou à saciedade as suas limitações e aspirações em galáxias civilizacionais que a confundiu com a forma mais simples de caucionar e legitimar o direito da maioria sobre as minorias - vide a chamada Primavera Árabe - e, por último, se tornou notória a capacidade do Ocidente em orientar os sonhos do mundo.

As críticas cerradas à democracia decorrem de um certeiro diagnóstico às doenças da democracia, conhecidas desde Aristóteles: horizontalização, embrutecimento, demagogia, favorecimento e, mais recentemente, partidocracia. Contudo, tal não implica o declínio da ideia democrática de igualdade perante a lei, direito à participação e à representação, respeito pela diversidade, direito à expressão da opinião. Pelo contrário, nunca como hoje, se pede maior transparência, maior justiça, mais espontaneidade e participação. A crise veio mostrar que, afinal, a democracia está para ficar.

20 dezembro 2013

Campanha de Reis

O nosso país atravessa um período difícil e é sabido que alguns dos nossos concidadãos sentem diariamente na pele essas dificuldades de uma forma agravada. A quadra natalícia, tempo de partilha por excelência, obriga-nos a encarar de frente as carências dos portugueses menos afortunados.

Pedimos, pois, a vossa especial atenção para a iniciativa Campanha de Reis, organizada pela Juventude Monárquica Portuguesa em colaboração com a Cáritas Portuguesa. Poderão contribuir com bens essenciais (arroz, leite, óleo, azeite, massas), que deverão ser entregues na nossa sede (Praça Luís de Camões, 46 2º Direito) até ao dia 5 de Janeiro (das 15:00 às 18:00 de segunda a quinta, das 10:00 às 13:00 às sextas ).

A Direcção da Real Associação de Lisboa
Praça Luís de Camões, 46 2° Dto
1200-243 Lisboa

18 dezembro 2013

O sonho que falta


O grande e incontornável problema das esquerdas e direitas de hoje: há cifras, há contas, mas não há ideias. O drama de Portugal resume-se a isso: não há uma ideia, um partido de ideias, um sonho para o futuro. Está o país derrancado na contemplação do vazio. Há quem pretenda preencher o vazio com ruído, protestos, indignações. Contudo, falta a ideia que provoque o repicar dos sinos do coração, que ajunte e exprima colectivamente a vontade desta gente em não desaparecer do palco da história. Falta a unidade que não se discute, falta o Nós que restitua a coragem, a segurança e a vontade de viver. Falta, em suma, um Rei a Portugal.

09 dezembro 2013

O Álvaro da telenovela chorona ou o anti-Cunhal


Os dias andam grandes para esses Nilos e Amazonas dos afectos, causídicos de todas as campanhas do coração, hipertensos da lágrima patega. As comemorações do centenário de Cunhal e agora os fastos fúnebres de Mandela são elucidativos da incontrolável tendência para o ridículo que irmana os nossos queridos concidadãos nesses potlach do coração. A tendência, convenhamos, é transversal e quase unânime, não conhecendo barreiras de geração, preparação e cor política; da esquerda, que acossada pelo ferrete do anacronismo, converte as ideias outrora dominantes em sentimentalismo, e da direita, que sem saber por que terça convicções, vai fazendo o jeito aos adversários, aderindo tolamente às falácias do politicamente correcto.

Mandela era um gigante africano, bem o sabemos. Conseguiu o impossível, mesmo que o impossível se mantenha impossível e que a África do Sul caminhe irreversivelmente para o colapso, que de tão suave, continua adornado com as falsas roupagens do sucesso. Contudo, antes Mandela que Neto ou Machel, antes Mandela que Mugabe; apenas o tempo mais dilatado para quem quiser fugir o faça com calma e sem precipitações. Mandela subiu ao poder após uma não-declarada guerra civil, concluída com a vitória dos xhosa sobre os zulus. O ANC não é, convenhamos também, o "comunismo", mas a maioria tribal xhosa. Em África, os partidos são, sempre, expressão dessa realidade que se mascara com bandeiras de conveniência ideológica ou legibilidade "internacional". Bem, o assunto fica para outra ocasião, pois estamos aqui para falar de Cunhal, ou antes, do anti-Cunhal recentemente produzido para os consumidores de afectos e lágrimas.

Folheei este fim de semana o livrinho de Judite de Sousa "Álvaro, Eugénia e Ana". Cunhal não merecia esta redução ao patético. Cunhal era, indiscutivelmente, de uma raça aparte. Foi candidato a ditador comunista português, serviu com ferocidade as suas convicções, era esquemático, fanático, amoral até na sua obstinação. Tivesse atingido os seus objectivos e Portugal ter-se-ia transformado num imenso campo de concentração. Naquele homem não haveria certamente lugar para as palurdices da Judite de Sousa. Entre Cunhal e aqueles missionários evangelizadores do século XVI e XVII não haveria outra diferença que a dos argumentos. Secreto, silencioso, teimoso, implacável, fez da sua vida uma missão. Ao pé de Cunhal, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Soares seriam pouco mais que amostras franzinas da espécie que faz os homens públicos e os políticos profissionais. O PCP foi Cunhal e morrerá no dia em que quiser ser outra coisa senão Cunhal. A sua sucessão mostra que Cunhal é, ainda, e sê-lo-á sempre, o líder daquele partido-igreja. Do insignificante Carvalhas e do pobre Jerónimo de Sousa - apóstolos que conheceram o anacoreta - nada ficará, pois não existem senão como testemunhas que receberam a unção do fundador. Cunhal tinha, decididamente, o seu mundo: sabia ler, tinha necessidades artísticas, deixou escritos e até páginas de doutrina, mesmo que tudo isso fossem expressões de uma especialização da qual não se conseguia libertar. A cultura que liberta, essa nunca existiu em Álvaro Cunhal. Cunhal era, sem tirar, um homem enclausurado nas suas obsessões, um prisioneiro de crenças em que acreditava. Em nome delas, mandou silenciar adversários no partido e certamente silenciaria 10% dos portugueses que julgava representantes do "mal" que impedia a realização do seu paraíso para cá da morte.

Judite de Sousa substituiu Álvaro Cunhal por simplesmente Álvaro. Fá-lo certamente por temor reverencial, mas sobretudo por absoluta incapacidade em entender o homem religioso capaz de extremos de sacrifício; logo, capaz de aplicar e exigir dos outros tudo, até a vida. O anti-Cunhal de Júdite de Sousa está fazer furor entre os telenoveleiros encarniçados. Trata-se, tão só, de mau gosto, pois o gosto discute-se e aquele Álvaro acaba por ser um segundo funeral de Cunhal.

30 novembro 2013

Como o prosaico se transforma em arma


Tive hoje acesso a documentação vária existente no Arquivo Histórico Diplomático, tratando de questões ditas menores da política externa portuguesa no ano de 1967, momento particularmente sensível em que as posições defendidas por Portugal sobre o Ultramar eram objecto de crescente hostilidade por parte da comunidade internacional. Em Dezembro de 1966, uma moção aprovada pela Comissão de Curadorias da ONU reiterava prévias acusações contra Portugal pelo incumprimento da Carta das Nações Unidas a respeito do direito à autodeterminação dos povos das províncias africanas. Dessa decisão aprovada por maioria, desenvolveu-se na imprensa europeia e norte-americana intensa campanha, acompanhada de actos de protesto, seminários e abaixo-assinados exigindo o corte imediato da assistência militar a Portugal por parte dos restantes membros da OTAN. Em Março de 1967, informavam as embaixadas portuguesas em Londres, Paris, Bona e Washington que os argumentos portugueses já pouco acolhimento ganhavam junto das chancelarias, posto as opiniões públicas estarem convencidas que Portugal exercia a soberania sobre os povos africanos de forma atrabiliária, ali cometendo atropelos aos direitos humanos, negando a cidadania e praticando a segregação racial. Por todos os meios se tentou esclarecer, por comunicados e conferências de imprensa, que Portugal não era a África do Sul, que em Angola e Moçambique estava em curso uma profunda mudança envolvendo as populações dos territórios. Em vão, pois a imprensa não só boicotava tais iniciativas, como redobrava em ataques e denúncias.
Em Abril de 1967, realizou-se em Viena um dos mais mediáticos eventos musicais da época. Então, o festival da Eurovisão era seguido e discutido por praticamente todos os europeus. Tal espectáculo, que hoje já nada representa, gerava grande expectativa e a imprensa dedicava-lhe honras de primeira página. Para esse concurso, Portugal enviou o angolano português Eduardo Nascimento. Voz poderosa e grande simpatia pessoal, homem educado e poliglota, a sua prestação provocou um sismo. Escrevia para Lisboa um embaixador de Portugal que Eduardo Nascimento sobre o palco tivera tal efeito que, de súbito, se calaram todos os protestos e boicotes contra as nossas representações diplomáticas. Eis como uma simples cançoneta pode valer todas as campanhas de propaganda e todas as operações militares. Eduardo Nascimento fez nessa noite o que toda a nossa diplomacia não conseguira durante anos: demonstrou que a questão ultramarina portuguesa não era simples e que havia quem a soubesse defender com a sua voz. Nascimento merecia uma medalha, mas hoje ninguém dele se lembra.

24 novembro 2013

Viva a República ou como correu bem o congresso dos reformados


Almeida Santos (87), Pezarat Correia (82), Manuel Alegre (78), Alfredo Bruto da Costa (75), Carlos do Carmo (74), Boaventuta Sousa Santos (73), Vasco Lourenço (72), Bento Domingues (69), António Capucho (68), Ruben de Carvalho (68), Helena Roseta (66), Pinto Ramalho (66), Vítor Ramalho (65), Rosário Gama (65),  Pacheco Pereira (64) e outros centos juntaram-se em algazarra na Aula Magna, nem mesmo faltando ao evento a inefável Pilar del Rio, que lá estava em representação de Saramago e da fundação que a fundo perdido vai recebendo do Estado os restos da magnanimidade que nos arruinou. O Congresso em defesa do passado foi eloquente testemunho da falta de sabedoria de quem nada aprendeu com 40 anos de usufruto do poder exclusivo, não deixou nem obra material, nem obra cívica, ludibriou os portugueses com quimeras que sabiam inalcançáveis, espalhou o facilitismo, a cultura da rabugice e do chupismo, arruinou a Universidade, destruiu as Forças Armadas, promoveu a mediocridade, impôs um tipo absolutamente novo de censura invisível que acabou por transformar os portugueses em sociedade incapaz de pensar. Esta tirania que não dá pelo nome está a viver os últimos dias. O dinheiro acabou - eles bem o sabem - pelo que o apelo à violência é um aceno a nova turbamulta que lhes garanta adiar o fatal dia em que Portugal terá de virar a página a esta III República.


O congresso, ao contrário do suposto elã, foi mais demonstração de fraqueza que afirmação de poder desse regime saído da Constituição de 76. Não compreendem - pois não vivem como os outros - que aquela mole grisalha que ali estava para os aplaudir não faz revolução alguma, que ali estão para contrariar os imparáveis ventos que, diz a sociologia política, assolam qualquer regime envelhecido. Perante o espectáculo da passada 5ª feira, aqueles que quiserem dar o passo decidido para a mudança, podê-lo-ão fazer sem grande risco.

Em registo final, marcado pela sabedoria - para isso servem os filósofos - ocorre-me a consabida frase de Shopenhauer, para quem "só podemos formular um juízo correcto sobre coisas passadas e um prognóstico acertado sobre as coisas do futuro, quando estas não nos dizem respeito; quer dizer, quando em nada afectam os nossos interesses". 

23 novembro 2013

Kennedy, plutocracia, propaganda e sub-cultura anti-portuguesa na Sala Oval


Copiosas badaladas não param por John Fitzgerald Kennedy, o malogrado presidente assassinado em Dallas há precisamente meio-século. Como tantos outros líderes mitificados, o culto que lhe é tributado parece não resistir à mais leve acareação. Sobre a família - "aristocrática", diz-se - importa lembrar que era de recente assentamento em solo americano, onde fizera grossos cabedais no honrosíssimo negócio dos saloons. O mito do anti-catolicismo da sociedade de Boston em relação aos Kennedy fundava-se, afinal, na origem escusa da fortuna do clã. A família não se conteve e logo, pelo engenho de Joseph P. Kennedy, Sr. - o pai do futuro presidente - dedicou-se à especulação bolsista e à manipulação do mercado, antes de dedicar a fortuna à importação de álcool nos anos da Lei Seca. As relações dos Kennedy com a Mafia têm origem nesses anos. Coube a Kennedy Sr. o papel de promotor da institucionalização do crime organizado nos corredores da Câmara dos Representantes, no Capitólio e na Casa Branca. Comprou a candidatura de Roosevelt em 1932, passando a exercer uma influência que jamais homem de negócios algum detivera sobre a administração. Mas aspirava a mais, e por falecimento do seu filho mais velho, inventou Jack e deu-lhe roupagens de homem do destino.

John Kennedy, cujo currículo foi literalmente inventado a expensas de pai, rico e corruptor como Midas, jamais teria galgado um só degrau sem a imensa fortuna que lhe foi dispensada a fundo perdido. Sobre Kennedy enquanto "académico", sabe-se o suficiente para não alimentar quaisquer ilusões a respeito da honestidade intelectual do debutante: a sua tese de licenciatura foi escrita por uma mão invisível e logo transformada em best-seller em 1941, e o Profiles in Courage - que lhe garantiu o prémio Pulitzer em 1957 - foi, sabe-se, escrito por Ted Sorensen. Absolutamente impreparado, produto de promoção postiça, 
Kennedy pouca obra deixou e a que tentou realizar acabou por resultar equívoca, se não perniciosa: o envolvimento no Vietname (talvez a mais desastrada guerra travada pelo Ocidente), a absurda aventura da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis - que afinal se saldou por uma derrota americana, pois se os russos retiraram as ogivas que preparavam em Cuba, os EUA retiraram os seus mísseis da Turquia - e a disputa pela África pós-colonial.

No que a Portugal respeita, foi um inimigo ajuramentado das posições portuguesas. Quando se levantou a questão da Índia Portuguesa, a administração americana nunca esboçou o mais leve interesse em analisar e compreender os fundamentos das partes em conflito, reduzindo-o a uma caricatura [tipicamente americana]. 
John Kenneth Galbraith, o todo-poderoso conselheiro para a política externa dos EUA, só entendia a permanência de Portugal em Goa e a defesa da nossa soberania sobre Goa, Damão e Diu, "dadas as receitas que a potência administrante retirava do tráfico de whisky" (v. Galbraith embassador’s diary). 
Muito embora Kennedy tivesse repreendido a União Indiana pelo acto de força contra o Estado da Índia, a invasão de Goa deu-se, sintomaticamente cinco semanas após a visita de a Nehru a Washington. Ser-nos-á lícito depreender que Washington deu luz verde à agressão, mas evitou um corte com Lisboa, temendo que Salazar denunciasse o acordo das Lages.

Em relação à África Portuguesa, foi Kennedy quem mandou subsidiar a UPA e inventar ab ovo um ignoto funcionário da ONU, um tal Mondlane, de imediato posto à cabeça de um inexistente "movimento de libertação". O desnorte e a ignorância norte-americana em relação a África era tamanho, que Robert Kennedy (o irmão do presidente), ao receber Mondlane, perguntou-lhe se Moçambique era português. Fracassado o levantamento da UPA, o presidente manteve ao longo de 1963 intensa troca de correspondência com Touré e Nyerere com vista a resolver o “problema português(1)”. Perante o exposto, afigura-se-nos estranho que os comentadores de serviço nutram pelo presidente assassinado tamanho entusiasmo.

(1) Robert Rakove, Kennedy, Johnson and the nonaligned world, Cambridge, University Press, 2013

22 novembro 2013

A propósito de outros "libertadores": os falsos "bravos do Mindelo"


No seguimento de um post aqui publicado há semanas (v. Um tal Herculano de Carvalho Araújo), sobre o homem e não sobre a obra de Alexandre Herculano, recebi e mantive longa troca de correspondência com leitores desta tribuna. Ora, entre as mensagens recebidas, destaca-se a de João Nuno de Almeida e Sousa. Com autorização do autor, aqui está um contributo que estimo relevante para o debate então iniciado.

"Li com reverência, e a atenção de quem sempre aprende com os seus escritos, o perfil pouco laudatório do "pequeno" grande Alexandre Herculano. Entre várias cogitações, a propósito dos “Bravos do Mindelo”, ocorreu-me esta leitura que a seguir transcrevo:“D. Pedro e a sua expedição desembarcaram na Praia dos Ladrões, cerca do Mindelo, a 8 de Julho. As forças liberais – que foram chamadas os “7 500 Bravos do Mindelo!” – eram constituídas por 2 300 franceses, 2 130 ingleses, 900 belgas, 500 polacos, 400 irlandeses e 370 escoceses; portugueses eram apenas 900; quanto à esquadra, comandavam-na e tripulavam-na ingleses. Lê-se nas Memórias do Conde de Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal (Imprensa da Universidade de Coimbra 1933, vol II) coevo dos acontecimentos, que quase todos os mercenários estrangeiros “saíram das classes menos estimáveis da sociedade, isto é, dentre os homens que, por sua imoralidade e vícios, estão dispostos a cometer toda a espécie de crimes”, sendo “muitos dos soldados ratoneiros e homens saídos das prisões, e os oficiais, com poucas excepções, são uma corja de beberrões” (pp. 337-387).” (Portugalidade – biografia duma Nação – Domingos Mascarenhas). Como se vê os “Bravos do Mindelo”, saídos daqui do Relvão em Ponta Delgada , mais não eram do que um corpo expedicionário misto de soldados da fortuna, gente de baixa extracção social e alguns revolucionários disfuncionalmente românticos.

Nas poucas horas vagas que tenho dedico-me também a ler sobre a nossa História e depois de um “mergulho” estival sobre a época de oitocentos registei, sem espanto, que subitamente a minha ilha que era Miguelista recebeu em prostração servil D.Pedro ! Como sabe este acidentalmente teve de aportar a Ponta Delgada depois do barco onde seguia ter sido desviado do rumo à Terceira por razões climatéricas. Muito antes da República já tínhamos entre nós o costume dos “adesivos” e num ápice fervorosas famílias Miguelistas viraram a casaca e deram Real estada a D. Pedro. Muito interessante de se lerem são os relatos de época de piqueniques, burricadas e bailes da sociedade ! Confesso que li o que pude sobre o assunto e no final acabei com uma simpatia emocional e racional pela causa Miguelista!

Um outro facto histórico que me importava também pesquisar foi o desembarque aqui em São Miguel de um contingente liberal que na célebre Batalha da Ladeira da Velha deu um derradeiro golpe nas aspirações das forças Miguelistas na Ilha de São Miguel. Fui ao local do desembarque na Freguesia da Achadinda onde, em 1 de Agosto de 1831, desembarcaram tropas vindas da ilha Terceira para manietar o último reduto do Miguelismo nos Açores : a ilha de São Miguel. Tenho pena de não ter feito um levantamento fotográfico pois o local é de acesso absolutamente alucinante. Uma praia mínima de calhau periclitante, uma ravina escarpada e sujeita e fácil emboscada, e um relevo daí em diante sempre acidentado. Espantou-me que no dia seguinte tais tropas já estivessem a confrontar-se na Ladeira da Velha, a uns bons quilómetros, e também num local de topografia bastante acidentada e irregular. Enfim, curiosidades menores mas ainda assim interessantes.

No meio destas leituras fiquei também com uma convicção reforçada sobre a dúbia nobreza de carácter de heróis da revolução como Saldanha e outros. Porém, uma figura gostaria de conhecer melhor : Vila Flor ou Duque da Terceira. Se tiver bibliografia sobre esse Senhor que agora repousa indiferente à revisitação da História no pedestal do Cais do Sodré ficaria-lhe muito agradecido.
Com os meus melhores cumprimentos e Saudações Açorianas,

João Nuno Almeida e Sousa"

20 novembro 2013

A teimosia, o fechamento e o patético



O Congresso das Esquerdas surge como um sarcasmo e parece uma vingança póstuma de Salazar, o "velho" de 70 anos, o "homem que não saía", o "dono da vida pública". No elenco da gerontocracia que agora não sai, Soares nonagenário ocupa lugar cativo. Um mês após a realização em Lisboa do 2º Congresso Internacional Karl Marx, e tendo como bandeiras a Constituição e o Estado Social - a primeira coisa recentíssima, como se sabe, e o segundo um feixe de convicções datadas - tal ajuntamento de macróbios demonstra a caquexia dos fundamentos de um  regime que já em 1975 nascia 50 anos desajustado, mas que teimou, teimou, até nos trazer a este atoleiro.
Tudo isto é confrangedor. A cronofobia das esquerdas, a falta de pudor em reclamar para a oligarquia um lugar que não soube merecer, a insensibilidade quase patética, o fechamento autista em relação ao país, o espírito de aquário de gente que se habituou a mandar, a monopolizar lugares e a dominar todas as manifestações de vida política com a naturalidade de quem respira; tudo isto é sintomático de um fim de ciclo histórico a que o bunker responde com mais fechamento, mais teimosia, mais  intolerância. Estas esquerdas não têm 90 anos como Soares; não, são avós intelectuais dos anciãos que as manipulam.
Agora compreende-se a "teoria dos miúdos" [de 50 anos] que nos governam. Pois, quem tanto os ataca tem 75, 80 ou 90.

16 novembro 2013

Importante descoberta para a história da Missão Portuguesa no Sião



Há quase três anos, nos trabalhos de investigação conducentes à publicação de Das Partes do Sião, comemorativa dos 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia, eu e António Vasconcelos de Saldanha estivemos por diversas ocasiões na Igreja da Conceição, em Bangkok, na companhia do Comandante Ing Saravut Dias, o saudoso chefe daquela cristandade luso-descendente. O motivo dessas visitas prendia-se com uma representação de Nossa Senhora da Conceição. Da história da imagem pouco se sabia, pelo que foi necessário recorrer ao cruzamento de testemunhos arquivísticos de diversa proveniência para reunir elementos sobre a sua origem. Em Paris, na biblioteca das Missions Étrangères, localizei cartas de padres franceses, datadas de meados do século XIX, que aludiam à sua existência acidentada. Depois, foi pedida peritagem ao Professor Pedro Dias, que nos ofereceu valiosa informação sobre a quase certa origem goesa da mesma. Pensamos, então, tratar-se da mais antiga imagem votiva portuguesa existente na Tailândia. Porém, recentemente, fui informado de nova como importante descoberta. Datada de finais do século XVII, mercê de peritagem agora realizada por uma equipa de restauradores franceses, a imagem de Nossa Senhora que se encontra presentemente na Igreja do Rosário, em Bangkok, vem engrossar o património de memória da cristandade portuguesa do Sião. Trazida da antiga capital, Ayutthaya, destruída pelos birmaneses em 1767, foi submetida ao longo dos séculos a múltiplos restauros e pintura, dezasseis segundo a equipa de restauro. O trabalho agora realizado restituiu-a à beleza primitiva, permitindo igualmente confirmar materiais, técnicas e antiguidade.



Surge de manifesto que o interesse da imagem não se limita à sua origem portuguesa. O Menino sustenta um globo da orbe terrena, significativamente inscrevendo as regiões do Oriente sob jurisdição apostólica do Real Padroado Português do Oriente antes da intrusão da Propaganda Fide e seus vicários apostólicos. Aos restauradores e artistas, o penhor do nosso agradecimento pelo amor, extrema paciência e maestria demonstrados ao longo da demorada operação.


15 novembro 2013

O "C-A-F-E" da nossa esquerda golpista


Manuel Alegre alheou-se de presunções de estilo e desceu à prosa, afirmando que "se isto não vai a bem, vai a mal". Não é a primeira vez que ameaças nuas são impunemente desferidas contra o governo legítimo - constitucional, eleito e ajuramentado - embora os venerandos sacerdotes do culto constitucional, o Procurador Geral e outras magistraturas não manifestem o mais insignificante gesto, pedindo explicações ou exigindo instauração de inquérito às circunstâncias que envolveram tais ameaças. Soares ameaçou o chede de Estado, afirmando que por menos "mataram o Rei" [D.Carlos]. Se alguma dúvida subsistisse a respeito do carácter homicida de tais apóstrofes, dias depois de novo voltou à velada ameaça, agora contra a totalidade do governo, afirmando ser "necessário derrubar esta gente". Há dias, reincidente, Soares afirmou sem rebuço que este é "um governo de homicidas".
Esta deriva homicida do bunker da oligarquia desocupada agarrada a privilégios, velhos de décadas, esta apologia descarada da violência e do golpe, apenas me lembra o críptico entoar do slogan C-A-F-E, que se ouvia no fim do almoço na messe dos oficiais dos aquartelamentos espanhóis semanas antes da eclosão do levantamento nacional de Sanjurjo, Molla e Franco, no verão de 1936. Não, os oficiais não pediam o café, mas sim "Camaradas, Arriba Falange Española".
O bunker imobilista está em efervescência, deixou cair a máscara e está disposta a tudo, a aliar-se com as mais alfurjas para garantir que o regime que trouxe Portugal a este atoleiro fique como está, ou seja, que nada mude. Tenho para mim que se trata de irreparável erro, pois se o regime pode subsistir, deverá passar por uma profunda reforma, sem a qual cairá inapelavelmente. Ora, Passos Coelho, como aqui repetidamente temos afirmado, é o último dique contra a derrocada.

06 novembro 2013

O fim trágico da monarquia laociana


Há cerca de um mês, por ocasião da minha estadia em Bangkok, comprei The Last Century of Lao Royalty: A Documentary History, de Grant Evans, decerto importante contributo para uma melhor compreensão da história contemporânea do Laos, o Estado-tampão criado pela França em finais do século XIX. O actual Laos decompunha-se em pequenos principados que prestavam vassalagem ao Rei do Sião. Quando passou a orbitar a Indochina Francesa, o Príncipe de Vientiane foi elevado à dignidade de Rei. Ao contrário dos países circunvizinhos, o Laos manteve até 1975 uma democracia gabada pela tolerância e respeito pela separação de poderes, não obstante a guerra que flagelava a região. O Rei Sisavang Vatthana, considerado uma força moderadora e agente de modernização, fiel ao papel de um monarca constitucional, sempre recusou caucionar uma ditadura militar, procurando apaziguar as tensões irredutíveis que opunham monárquicos a comunistas. Em 1975, o Pathet Lao - Partido Comunista apoiado por Hanói - tomou o poder e logo instaurou uma sanguinária ditadura que ainda hoje persiste.


Ao contrário das proclamações do novo governo, que assegurara respeito pela instituição real, o Rei e sua família foram detidos e confinados a campos de concentração. A deposição pública foi, entre tantos outros agravos morais, um instantâneo da revoltante humilhação. Antes de serem separados, o Rei e a Rainha foram obrigados a sentar-se no chão, pedir desculpas ao povo e agradecer a libertação comunista. Insultados, empurrados e obrigados a repetir slogans revolucionários, os reis receberam então a sentença do colectivo popular: condenados por "feudalismo", "parasitas do povo" e "aliados dos imperialistas". Dessa cerimónia subsiste uma fotografia.



Aos 70 de idade, despido de todas as atenções devidas a um homem da sua condição, o Rei foi confinado a uma cabana e submetido a "reeducação pelo trabalho", ou seja, o cultivo de campos de arroz , oito horas por dia, seis dias por semana. Sisavang Vatthana foi separado da rainha, partilhando uma choça com o seu herdeiro. Submetido repetidamente a maus tratos, tortura e rações de cascas de arroz e ratos, valeu-lhe a piedade filiar do Príncipe Herdeiro, que alimentou o seu pai até, por fim, morrer por inanição. Em 1978, minado pela doença, faleceu. Até meados da década de 80, o governo comunista continuou cinicamente a assegurar que o monarca ainda vivia em reclusão domiciliária e cercado de cuidados. Todos os testemunhos são unânimes em reconhecer a grande dignidade que o Rei exibiu ao longo dos terríveis anos de cativeiro, a desarmante bondade que sempre opôs à crueldade dos seus algozes, a determinação em manifestar a sua condição de monarca budista. 

03 novembro 2013

Um tal Herculano de Carvalho e Araújo


Media um metro e cinquenta e três, mas foi, sem dúvida, um dos grandes vultos da cultura portuguesa de Oitocentos. Do autor da Portugaliae Monumenta Historica, de A Voz do Profeta e do Bobo sobrevive - como o romantismo o esculpiu - a legenda de um homem sisudo e probo, entregue à paixão devoradora do estudo no silêncio do gabinete, do desapegado das mundanidades e do exilado de Vale de Lobos. O Liberalismo reconheceu-lhe os méritos e a tradição liberdadeira dele fez um santo laico. De quando em vez, já entrado nos anos, Herculano saía da sua voluntária reclusão e dardejava sem clemência a pequenez dos homens e das suas superstições; a sua voz ecoava então como oráculo de verdade e rigor, a sua imperturbável serenidade calava os exaltados, a sua clareza matemática estabelecia o critério.

Este é o Herculano da lenda. Há uns anos, num debate público, afirmei perante o estupor dos circunstantes, que esse Herculano jamais existira e que o verdadeiro Herculano era, talvez, um mentiroso, um faccioso e um cínico. Reuni alguns dados biográficos para corroborar as minhas provocações, mas o vozerio foi tamanho que me rendi ao silêncio. Acalento ainda poder um dia fazer a impugnação desse mito e demonstrar que Herculano foi, na mudança do Portugal Antigo para o Portugal que temos, um dos mais afincados carreiristas. Herculano tinha momentos de grande elevação - a sua face benigna - como quando defendeu os egressos, ou seja, os pobres monges das extintas ordens religiosas, obrigados a abandonar os mosteiros e reduzidos à miséria. Porém, neste particular, Herculano fora um dos milhares de cúmplices nesse tremendo como irreparável crime metódico praticado contra a vida provincial portuguesa, a rede educativa, a selecção da elite e até a estrutura da economia rural do país. Os mosteiros e as ordens religiosas eram, desde há séculos, o pilar da organização da cultura, do dinamismo económico e da vida local. Ao serem extintos, morreu a diversidade e a riqueza e o país ficou, desde então, reduzido a Lisboa.

Herculano era um rapaz de pouco mais de vinte anos quando abandonou o país para se juntar à causa pedrista. Aqui começa a lenda. Esteve em França, onde afirmou ter frequentado a biblioteca de Rennes e, depois, ter transitado para Paris, onde teria estudado ou frequentado a École des Chartes, instituição onde despontavam os estudos medievalistas. Contudo - e Vitorino Nemésio na sua Mocidade de Herculano não resolve esse mistério - não há na referida instituição o mais leve traço da passagem do jovem português. Na altura, para poder residir em Paris e frequentar as universidades, era exigida da prefeitura da polícia um documento que atestasse ser o estudante estrangeiro pessoa sem registo criminal e meios de subsistência. Ora, tais documentos não existem; logo, Herculano nunca esteve na École des Chartes.

Quando os liberais - ou antes, os famosos Bravos do Mindelo, seis mil e quinhentos mercenários ingleses, alemães, irlandeses, franceses, polacos, italianos, recrutados e pagos para combater uma guerra que não era sua - desembarcaram nas cercanias do Porto, Herculano era um dos raros portugueses que vinham nessa expedição paga pela banca da city londrina, graças aos bons ofícios do espanhol  Mendizábal, como se sabe causídico de todas as causas justas, que cobrava até ao último real. Mendizábal, autor da famosa desamortização que leva o seu nome, quiçá o maior roubo organizado perpetrado pelo Estado contra os bens fundiários pertencentes ao clero regular, logo levados a hasta pública e vendidos à nova oligarquia capitalista, estaria para o tempo como os actuais angariadores das "guerras justas".

Ocupado o Porto, o nosso bravo Herculano não foi enviado para a frente de combate. Deram-lhe um lugar de bibliotecário na Biblioteca do Porto. Ficou aboletado, com lenha, água, luz e cama, em casa de um rico comerciante. A guerra em que Herculano combateu foi agasalhada, sem percalços e com caldo servido em boa casa burguesa. Se bem que depois tenha escrito uma Elegia de Soldado, apenas terá empunhado a espingarda  por alturas da fracassada tentativa do exército real em tomar o Porto, bem como no combate de Ponte de Ferreira. Ali, conta, recebeu ferimento de que sobreveio a famosa cicatriz na face. Na altura, a generalidade dos combatentes apresentava cicatrizes faciais causadas, não pelo fogo inimigo, mas pela deficiente qualidade das munições que explodiam, causando queimaduras ou golpes nu atirador. Terá sido essa a cicatriz de Herculano?

Herculano, um sincero amante da documentação, parece ter usado os seus excelentes conhecimentos para os usar em causa imprópria. Terá sido um historiador na acepção regular do termo, ou um investigador ao serviço de uma causa, ocultando-a com roupagem de respeitabilidade? Na História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, coube-lhe tecer a teoria da decadência, a lenda negra de Dom João III e Dom Henrique I, o desprezo pelos Bragança (ver Opúsculo V), tópicos que desde então têm sido os mais insistentes veículos do anti-monarquismo. Infelizmente, a nossa gente não tem hábitos de leitura. Cita, mas não lê. Ora, Herculano di-lo expressamente na introdução à História da Origem e Estabelecimento. Afirma que escreveu a obra contra a "reacção teocrática e ultramontana" e com uma finalidade prática, para servir um ideal político e não por especial interesse na matéria. Herculano historiador?

Na acidentada vida política do primeiro vinténio liberal, Herculano envolveu-se activamente. Opôs-se ao Setembrismo - onde campeva Garrett, esse um homem curioso - mas tal parece não ter afectado sobremaneira a sua carreira pública. Em 1837 (com vinte e sete anos) tomou conta do Diário do Governo, mas também foi director da revista Panorama - revista milionária na época - e dois anos depois ascendia a bibliotecário da rainha, vencendo 600 mil reis anuais, uma fortuna para o tempo. As funções de bibliotecário régio eram habitualmente confiadas a um literato idoso, pois o posto assegurava respaldo de sobrevivência. Herculano conseguiu-o aos 29 ! Nesse mesmo ano (1839), recebia a ordem de cavaleiro da Torre e Espada. Será lícito que nos interroguemos sobre a origem dessa distinção. Não o faremos, deixando ao leitor a faculdade de pensar. A quem estaria ligado, que cumplicidades manejava, quem o poderia promover?

Depois, lendo a abundante documentação existente na Biblioteca da Ajuda, resta-nos e espanto. Herculano, na sua correspondência particular, só abordava questões de dinheiro: a quem vender o vinho e o azeite,  pedidos para a intercessão de amigos na praça, crédito e empréstimos a baixas taxas de juro, etc. Herculano, um grande homem das letras? Sem dúvida, mas também um bom figurão.



26 outubro 2013

Mais flagelados dos últimos dias do regime


Hoje cruzei-me com a procissão milenarista que se arrastou pelas ruas de Lisboa. Uns troikos de gente, umas centenas, logo inflamadas pelas rádios Moscovo de serviço, que avaliavam em "milhares de pessoas" tal romaria. Indignações, exaustos estribilhos, mantras, vitimização, muitos afectos; eis ao que se reduzem estas patuscadas errantes carregando certamente uma dimensão terapêutica que qualquer médico encartado aconselharia, mas que pouco acrescentam ao inexistente debate sobre as origens da crise, as culpas da crise e, sobretudo, soluções para a sua superação. Apercebi-me - lobriguei entre os marchantes muitas caras conhecidas - que aquilo não é o 4º estado, gente esfomeada, açoitada pela penúria e pelo desespero. Fulanos e fulanas de meia-idade, casual Rua do Ouro, cada qual tomado de frenesim comunicacional enviando mensagens pelo twitter ou fotos para o facebook, muito sr. doutor das universidades, do funcionalismo público que raras vezes funcionou, reformados dos pináculos, meninas e meninoscos das universidades; uma "classe média" que nunca se interrogou se o tal português europeu, inventado por Cavaco, Guterres, Barroso e Sócrates, era coisa justa; gente que nunca perdeu pitada do abundantismo de obras públicas feitas para enriquecer as betoneiras; todos endividados pelo carrinho e casa fora de portas com que o regime foi enchendo vaidades agora estilhaçadas. À frente, um figurão que foi em tempos recuados o meu pior professor - homem que nunca deu uma aula, conhecido entre os alunos por o baldas - de punho cerrado, epiglote tremelicante berrando contra a exploração, os "assassinos" e os "ladrões" que, dizem, estão no governo. 
Decerto que estas errâncias gritantes nada acrescentam ou retiram ao que muito bem sabemos. Esta gente não tem a assisti-la uma só molécula argumentativa. Todo aquele ruído ambiente e decibéis não conseguem ocultar um absoluto vazio programático; pior, são um mau exemplo para aqueles que não vão a estas patuscadas - aqueles que nunca estiveram ligados a tríades de amiguismo, com ou sem avental, que nunca foram favorecidos num concurso público, que nunca se espreguiçaram na gelataria italiana, que não têm um amigo na direcção geral e que pode dar uma mãozinha -; estes burgueses com estridências de bunker em fim de regime sabem que o futuro se fará sem eles.

21 outubro 2013

Ainda se pode evitar a ditadura que chega


Aqui tenho dito e repetido vezes sem conta: Portugal tem uma solução alternativa clara ao regime que nos trouxe à humilhação, à fome e à insignificância; Portugal tem os meios de que necessita para regressar de cabeça erguida ao concerto das nações; não precisamos de teorizar nem de think tanks do rotundo intelectualismo; nada há a pensar fora das coordenadas daquelas que foram, desde sempre, as constantes e linhas de acção e sentimento da nação portuguesa. Para quem, minimamente habilitado e experiente na análise histórica, se atrever perder o medo, a resposta é muito simples, tão simples que surge como uma evidência: monarquia. 

Persistem uns quantos retardatários em pedir calma e paciência, contando com uma menos que provável recuperação do sonho Europeu, sonho que não passa disso: ilusão. A Europa tábua-de-salvação, a Europa maná e cornucópia, essa morreu há dois ou três anos. De agora em diante, vingança das nações, será cada um por si. A fórmula europeia já não se discute, pois a Europa contra as nações, descerebrada, envergonhada de si, a que perdeu o orgulho e se refugiou na reforma dourada da velhice cobarde - pronta a tudo ceder e mutilar-se a vergonhosos extremos de humilhação - essa acabará dentro de dois ou três anos. Ou não viram, meus caros amigos, como cheios de cautelas, nos estão já a preparar para o triunfo de Marine Le Pen em França, para o triunfo das direitas nacionalistas nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, para a mais que certa saída do Reino Unido da União, a tal que de união só leva o nome ?

Ainda há tempo. Ao ler a clarividente entrevista de SAR o Senhor Duarte a um jornal de Macau, no decurso de uma viagem que está a realizar pelo Extremo-Oriente - fazendo o que os nossos pobres diplomatas não sabem, não querem nem podem fazer - só me posso perguntar:

- Por que raio mantêm os donos do país o espesso manto da censura, a sistemática desinformação, o escamoteamento da evidência em torno da questão de uma mudança de regime que tornasse possível garantir a liberdade, sabendo que ao fatídico e já irreversível colapso desta III República sucederá uma ditadura?

12 outubro 2013

Michel Clouscard, o melhor marxismo


Confesso que quando li Le Capitalisme de la séduction e, logo, La Bête sauvage, Métamorphose de la société capitaliste et stratégie, de Michel Clouscard - certamente o mais pujante pensador marxista após Gramsci - reagi negativamente. As circunstâncias e a reacção epidérmica a rótulos e a arrumação genérica do autor como "inimigo", impediram-me de o compreender e de lhe atribuir o lugar cimeiro que ocupa na reflexão sobre o liberalismo libertário, estimulado na Europa pelo Maio de 68 e terminado em tragédia com a demolição/diabolização do Estado pelas mãos dos meninos burgueses e consumistas que, sendo de esquerda, transformaram o capitalismo em selva. Eis, finalmente, que Clouscard ganha plena legibilidade.

A liberdade com roupagem de opulência, consumo, "conforto" e prazer escondia, pois, indústrias milionárias de alienação, a destruição sistemática das instituições inculcadoras da ordem  social, cultural, e política. Foi com a benção do consumismo, do crédito para todos, do dinheiro barato que se semeou a crença que a felicidade individual só se realizaria com a substituição do dever pelo prazer e quando todas as formas de autoridade fossem substituídas pela cultura do lúdico. Certamente que ao cerrado combate para a destruição da escola e da cultura na sua expressão mais latitudinal - hoje transformadas em negócio e consumo - implicaria ipso facto o fim da própria ideia de cultura. Pensaram os ingénuos que se abria uma nova era de ilimitado experimentalismo e busca de um novo tipo de homem. Compreende-se agora o mito da "classe média", solução engenhosa para desagregar a cultura de classe (inerente a cada grupo social) e sobre ela criar uma só classe de consumistas, angariadores de crédito e prazer. A bolha imobiliária (como a bolha do automóvel para todos, a bolha das PPP's para abrir estradas levando às "novas urbanizações") - tudo isso um negócio que requeria mais mercado.

A verdade é que o capitalismo libertário se desfez deliberadamente de todas as formas de limitação - por via da moral, da ética, da responsabilidade - para, assim, implantar, não o contrário da velha ordem burguesa, mas uma sociedade sem centro, um não-Estado, uma anti-economia. Assim se explica a continuada mutilação da dimensão integradora do Estado - assistencial, educadora, codificadora, policiadora - ao longo das últimas três ou quadro décadas. Assim fica explicado o derrube da ideia de fronteira política e económica, a desvalorização moral do trabalho, a exaltação do protestarismo, o culto do "Outro" (multiculturalismo), o combate cerrado contra o patriotismo, as forças armadas e a "educação autoritária". Neste combate, a esquerda divulgou, vulgarizou, legitimou os chamados "sentimentos nobres", enquanto aderia sem reserva alguma à globalização, às migrações, à "cidadania universal". A "cidadania universal" queria apenas dizer mais imigrantes, derrube do sistema social europeu, deslocalização do aparelho produtivo. A Europa, que por via dos fascismos e do comunismo, se armara de dispositivos para regular o desespero dos pequenos, assistiu ao longo dos últimos anos a um recuo civilizacional sem precedentes. Para iludir o vazio, o liberalismo libertário inventou a ilusão da participação, estimulando o convivialismo das internets, as tribunas opinadoras, as causas que - tantas são - dispersam a angústia e compensam psicologicamente os cidadãos pela perda efectiva de capacidade interventora.
Leia-se, pois, sem inibição, Michel Clouscard.


06 outubro 2013

As fabriquetas de falsa consciência da ideologia anti-ocidental

Passando pela secção de humanidades da Bertrand, apercebi-me do imenso caudal de títulos sobre escravatura que se vêm publicando entre nós, montra da recente revoada de estudos ditos africanos a que se têm dedicado esses institutos de estupidez inteligente que entre nós dão pelo nome de universidades. Demasiado ocioso para reproduzir informação sobre o tema, remeto para o impagável Olavo de Carvalho a impugnação dos afoitos "investigadores" nativos.

02 outubro 2013

Morreu o último general


Morreu Silvino Silvério Marques, um dos últimos governantes do Império, certamente o último general digno das estrelas e das passadeiras vermelhas. Conheci-o há cerca de vinte e cinco anos e dele retive deste o primeiro encontro as prendas da inteligência, da boa cultura - aquela que se alimenta do convívio com os clássicos e se alicerça no conhecimento da língua - do patriotismo sem medo do nome e um tom senhorial que já não se encontra numa terra rendida ao jugo da meia-tigela. Com o António Manuel Couto Viana, o Manuel Maria Múrias, o Eduardo Quinhones e o Diogo Loureiro - amigos de primeira linha, todos entretanto falecidos - passei várias vezes pela casa do General ao Restelo, com ele discutindo a possibilidade da transformação da então Nova Monarquia em partido político, iniciativa que, de tão combatida por muitos, acabou por ser inviabilizada. Não fosse tal guerra surda e hoje, talvez, os monárquicos tivessem há muito em S. Bento uma bancada parlamentar. Anos volvidos, ocupando eu as funções de director-adjunto de um jornal diário, tive o prazer de reencontrar o General. Escrevia SSM duas ou três vezes por mês para uma coluna em que aflorava os temas  (proibidos, censurados) do lento descambar para o precipício, da epidemia de estupidez que se foi espraiando e minando ano a ano e até ao desastre presente a sociedade portuguesa. Depois, passei a encontrá-lo de quando em vez - na Sociedade de Geografia, nas celebrações do 10 de Junho, num ou outro lançamento editorial - gabando-lhe a lucidez, a afabilidade e bondade de carácter, o transbordante amor a Portugal que não mais cabia neste portugalinho enganado, pelintra, "europeu", servil de hoje.
O Portugal de Silvério Marques era o meu Portugal; grande, aquém e além mar, fraterno, diverso, conjuntivo. Tudo isso acabou e com a partida de SSM a memória de um outro Portugal vai-se desvanecendo. Estamos mais pobres, mas de tão alienados, poucos se darão conta. Hoje morreu um dos poucos homens que sabia que Portugal era mais, imensamente mais que isto que hoje temos.

27 setembro 2013

Ai como fazem falta profissionais do serviço público: a minha comezinha teoria sobre a quebra do rating

Eu tenho uma teoria sobre a deterioração da avaliação das agências. Como a crise no governo ocorreu em véspera de férias, ninguém se preocupou em informar e esclarecer as ditas agências sobre a superação da mesma, daí resultando esta amarga notícia. Para muitos, a praia estava primeiro. Partiram em tropel para os cremes protectores, esquecendo-se do importante. Aí, como são desleixados os "assessores" ad-hoc e que falta fazem os verdadeiros e únicos servidores do Estado, ou seja, os funcionários públicos.

A mais estúpida decisão do governo


Decididamente, parece existir no governo um demónio disposto a inquinar a já difícil relação entre o executivo e a função pública. O governo precisa da função pública - da lealdade e esforço daqueles que dão execução às políticas dos ministérios - pelo que tudo quanto concorra para socavar a disponibilidade dos servidores do Estado, acaba por diminuir a eficácia da acção governativa. Tal como aconteceu no passado, tudo sugere que alguns ímpetos irreflectidos - uns ditados pelo preconceito, outros pelo fanatismo ideológico, outros ainda pela estupidez chã - decorrem da imaturidade de quem opina e determina medidas que inapelavelmente resultam na gratuita criação de inimigos e ressentidos entre pessoas que jamais alimentaram qualquer animosidade e reserva. 

O governo esmera-se em ofender aqueles que o servem, eis quanto depreendo da recente decisão em aumentar para oito horas diárias (acrescida de uma hora para almoço) a presença dos funcionários públicos nos respectivos postos de trabalho. Trata-se de medida que estimo inútil, malsã e perigosa. Depreendo que seja produto de elocubrações de pirralhos que nunca trabalharam (ou que pela primeira vez trabalham, tendo sido angariados nas sortes do recrutamento partidário), mas igualmente de ódio de natureza ideológica contra o Estado, produto de meia dúzia de leituras que satisfazem o diminuto horizonte das necessidades de mundo dessa gente. Quem tal medida desencantou, ou quer precipitar uma vaga de rescisões amigáveis, ou age por condicionamento e paixão sectária, esquecendo-se - tamanha a sua falta de experiência - que as rescisões vão afectar prioritariamente os quadros superiores, posto que os funcionários mais humildes e desclassificados se agarrarão em desespero aos seus lugares por mais insultos que recebam. Os fedelhos intoxicados de liberalismo pronto-a-vestir que tais medidas advogam esquecem-se que a generalidade dos funcionários do Estado trabalham num mês aquilo que eles não trabalharam toda a vida. Esquecem-se que o congelamento de admissões na função pública, a introdução da avaliação e objectivos, provocou a duplicação do expediente dos serviços. Esquecem-se que generalidade dos quadros do Estado não trabalham oito nem nove horas diárias, mas dez e onze horas para manter viva a máquina do Estado.
Medidas destas, a singrarem, anunciam a alienação definitiva da disponibilidade psicológica de meio milhão de pessoas. O resultado da aplicação da insana medida vai provocar resistência passiva, rancor e indisfarçável ânsia em ver o governo sair pela porta grande de uma derrota eleitoral.


25 setembro 2013

Catorze razões para não votar nas autárquicas

O Carvalho de Mancelos

Martins, o progressista de Valdreu

A Troika de Quelfes

O imparável de Candemil

Os conhecedores de Freguim

O abridor de Pataias e Martingança

A tríade de Panque

O futurista de Almancil

O cardíaco de Irivo

O medonho de Fernão Ferro

O timoneiro de S. Cristóvão

O rigorista de Valongo

O ajuntador de Mogofores

Os experimentados de Castro Marim

24 setembro 2013

Certamente que não voto para as autárquicas


Que me lembre, já não voto para as legislativas desde 2005 e para as chamadas autárquicas desde 1997. Para as presidenciais - por as considerar feridas de nulidade por usurpação - nunca votei. Durante muito tempo, pela minha formação, considerei as eleições autárquicas as mais relevantes e verdadeiras, posto serem emanação das realidades locais e darem voz a essa entidade mítica que dá pelo nome de povo. Contudo, foi corrigindo a minha teimosa ingenuidade a respeito desses micro-estados que dão voz, presença, micro-poder e dinheiros a uma constelação de pequenos interesses, pequenas ambições, pequenas habilidades e enorme impreparação. Hoje, tendo presente o triste historial desse "poder local", miniatura do regime dos partidos, das comanditas e redes clientelares que chega a superar em perversidade a matriz inspiradora, julgo que a administração local é assunto demasiado sério para repousar em mãos amadoras. A gestão dos assuntos locais devia - não temo a provocação - estar integrada na administração pública preparada, isto é, profissionalizada, trabalhando por objectivos, avaliada, fiscalizada; ou seja, devia ser uma carreira confiada a quadros superiores do Estado. O poder local centuriou e feudalizou a geografia portuguesa, não exprime qualquer realidade social, não promove nem forma uma elite local, não é racional nem eficaz. É, tão só, um agente empregador de base destinado a alimentar milhares de amigos, familiares, protegidos, satisfazendo o estrato mais baixo das lideranças partidistas. 

23 setembro 2013

Venceu o mittelstand


A geografia dos resultados eleitorais na Alemanha não deixa margem para dúvidas. Com excepção da Renânia do Norte-Vestefália (conglomerado urbano e industrial), do Hessen (tendo por capital Frankfurt am Main) e do Brandemburgo (no Leste), o voto na CDU-CSU foi maioritário e absoluto na Alemanha católica, maioritário na Alemanha marítima e comercial do Norte, maioritário também em Sachsen. Ou seja, a CDU só perdeu nas regiões da indústria pesada, nas praças fortes da alta finança e no extremo Leste, ainda combalido dos efeitos retardados da inclusão pós-reunificação. O voto à esquerda (Linke pós-comunista e Grünen) parece ter angariado velhas clientelas dos apparatchik nostálgicos do estatismo da RDA, bem como da geração grisalha também nostálgica do "Estado social" que fez história nos anos 70 e 80. Quanto ao SPD, só mantém vantagem em regiões onde o sindicalismo tem implantada forte rede de clientelas, ou na região peri-urbana de Berlim, onde predomina o funcionalismo público. 
No que ao voto de direita extrema respeita (Alternative für Deutschland), apenas superou os 5% na capital e nas regiões mais conservadoras da Alemanha rural, sendo que o voto na extrema direita (NPD) quase desapareceu, confinando-se a bolsas no Leste e Baviera.
A Alemanha do mittelstand das pequenas e médias empresas, a Alemanha dos negócios familiares e das explorações agrícolas - a Alemanha do trabalho e do risco - votou pela manutenção de Merkel. 

A vitória do rigor


Finalmente estabilizada no centro - no coração, no cérebro e na sua força de trabalho - a Europa poderá encontrar a unidade de procedimentos que, sem paternalismos, torne possível impor do centro à periferia as ideias de competência, de organização eficaz e de transparência na governação. Os alemães demonstraram hoje que ali não campeiam o amadorismo, a demagogia e o clientelismo que devastaram o mundo mediterrânico. A vitória de Merkel foi, afinal, um prémio à clareza, à honestidade e ao rigor. Os europeus que aprendam a viver segundo as suas possibilidades.
Uma vitória do SPD, esperada por quantos não querem e se recusam encarar os dilemas e desafios - aqueles que teimam em prolongar a agonia de uma ilusão de desafogo [a crédito] - iria certamente adiar o que já não pode ser adiado.

22 setembro 2013

Os fantasmas de António José de Almeida e de Benito Juaréz e a cegueira dos nossos populistas


Em 1861, o México recusou pagar à Grã-Bretanha, França e Espanha os juros da então astronómica quantia de 17 milhões de £ esterlinas devidas a sucessivos empréstimos. Um corpo expedicionário invadiu o país. No momento inicial da intervenção, antes que Napoleão III se decidisse pela mudança de regime no México e pela concessão da coroa a Maximiliano de Áustria, a troika franco-hispano-britânica contentou-se com a gestão das receitas angariadas pelo Estado mexicano em taxas sobre a importação de bens entrados nas alfândegas, bem como pelo imposto sobre a produção da prata mexicana. Como o México continuou a recusar os termos exigidos pelos credores, a intervenção resultou em ocupação e guerra.

Em 1922, para celebrar um século sobre a independência do Brasil, o presidente António José de Almeida realizou ao país-irmão uma visita de Estado. Zarpando do Tejo em finais de Agosto, o paquete Porto só chegaria ao Rio na segunda semana de Setembro, após inenarráveis acidentes motivados pela depauperada condição das máquinas e falta de carvão para alimentar as fornalhas. Contudo, algo de insólito iria atormentar a visita, de imediato exposta a contingências que os governantes portugueses haviam descurado. Portugal devia milhões e encontrava-se em incumprimento devido a obrigações com a toda-poderosa banca britânica. As autoridades brasileiras receberam instruções para que o Porto fosse notificado de cassação e penhora, passando a propriedade de uma asseguradora britânica. António José de Almeida regressou a Lisboa a bordo de um paquete de uma transportadora britânica, só podendo viajar após angariação de piedosa colecta reunida pela comunidade portuguesa no Brasil.

Os nossos demagogos e populistas - os tais que sonham com a denúncia do acordo ; aqueles que julgam possível "bater o pé" aos nossos credores, gente poderosíssima - não sabem nem lêem  história. Desconhecem que os modos da plutocracia que abraça todo o mundo têm a defendê-la disposições legais retaliatórias de alcance e efeito devastar, que Portugal - colocado nesta vergonhosa situação por décadas de má governação de um regime alcandorado na demagogia - seria de imediato alvo de medidas vexatórias. Se os funcionários do Estado, os pensionistas e os orçamentos ministeriais se esgotassem por falta de provisão, também companhias, bancos e até propriedades pertencentes ao Estado português fora de fronteiras (nomeadamente sedes de embaixadas e consulados) poderiam ser cassados. Mas nada disto parece afligir gente que vive da mentira, da propaganda e da exploração da ignorância colectiva. 

Não há eleição que altere a geopolítica

20 setembro 2013

A monarquia, escola de moderação


Anteontem, no avião, li um texto da autoria de um desses auto-proclamados "intelectuais" que tanta confusão têm semeado ao longo destas tristes décadas de desnorte. Afirmava que a raiz da actual crise se deve à "manutenção do espírito monárquico", Engana-se redondamente o confuso escriba. Sou um realista e aquilo que destaco na monarquia é a continuidade: a monarquia é continuidade.
Sou um funcionalista e aquilo que destaco na democracia é o facto de ser um dado de civilização e a melhor resposta à conflitualidade inerente à vida política. Quem da democracia tem um entendimento diferente são os intolerantes da tolerância e parece haver mais rabos-de-palha nos totalitários que o negam que entre os velhos e empedernidos liberticidas. Contudo, a democracia manifesta perigosas tendências que importa controlar: a tendência oligárquica, a confiscação da vida política por grupos de interesses, a demagogia, o populismo e a incapacidade de consenso.
Logo, concebo a monarquia como um sistema não-democrático que permite caucionar a mudança. A prová-lo, o facto da totalidade das monarquias existentes constituírem no seu respectivo quadro geográfico exemplos de adesão às cartas internacionais, modelos de tolerância e abertura à mudança; contrastando com as repúblicas que são, têm sido desde a revolução francesa, escolas de tirania e imposição.
A monarquia, ao contrário das ditaduras, melhor serve a mudança, pois limita o apetite pelo poder nu daqueles que encaram a acção política como arte (os revolucionários ou engenheiros sociais). Ora, em política, os homens não devem submeter-se a teses; devem viver em sociedade.
Nas monarquias, ao contrário do que dizem os seus detratores, não se colocam as estafadas superstições dicotómicas de razão/ sentimento, progresso/reacção, ciência/fé, luzes/ supesrtição; em suma, a monarquia é espelho da cultura, de progresso e estabilização. É uma escola de moderação e uma força conjuntiva.

17 setembro 2013

Maçonarias


Há pouco mais de dois anos, num jantar na embaixada de Portugal em Bangkok, perante o estupor de uma roda de conversa, afirmei ao embaixador da França que a religião oficial da República Francesa é a religião maçónica. Em surdina, a simpática embaixatriz francesa disse-me que não fizesse tais afirmações demasiado "assertivas", pois coisas dessas não "se podiam afirmar em público". Senti que a simpática senhora sabia do que falava e que, talvez - a hipótese é minha - haveria naquela sala vários irmãos que certamente não tinham gostado da minha "provocação". A notícia do DN não me espanta. Dir-se-ia que para lá dos partidos, a democracia e o sistema representativo foram há muito raptados por forças que são a negação clara do princípio da transparência propalado pelo regime, que redes informais poderosas mutilaram e mataram a leal concorrência, que as instituições que são salvaguarda da liberdade postulada desfiguraram a extremos de caricatura a igualdade perante a lei. É evidente que nas maçonarias há excepções e que ali também há gente honesta e limpa. Contudo, parece haver tamanha colisão de interesses entre a vida pública e as organizações secretas que, sem chegar ao extremo de advogar a interdição do acesso a cargos públicos a cidadãos que prestem obediência a tais associações, deveria ser-lhes exigida declaração de vinculação. 

16 setembro 2013

O anti-monarquismo psicológico


Grande parte dos chamados “problemas filosóficos” e dos “problemas teóricos” têm como origem o temperamento, como notava William James. No que à intriga polítiqueira respeita, não funciona o amor à verdade nem preocupações éticas. Sendo a menos interessante, ocupa lugar cativo no sentimento anti-monárquico e recruta sobretudo argumentos de traumatismo social, despeito e ressentimento. O velho Gregorio Marañon (neurologista) escreveu nos anos 30 um belíssimo ensaio sobre a pecha do ressentimento na política (O Ressentimento em Tibério) que se aplica como uma luva ao arsenal de móbiles de que se serviram os agitadores para destruir a reputação da Casa Real, das Instituições e até da Liberdade – a mais ampla que se viveu em Portugal nos seus oito séculos de História – que foi a chamada Monarquia Constitucional. O ressentimento dos traumatizados sociais foi particularmente importante na agitação do movimento republicano e há casos gritantes de republicanismo (isto é, anti-monarquismo) para com ele perdermos muito tempo, como são os casos de Guerra Junqueiro, do Sr. Grandela e tantos outros chefes de fila republicanos que assim se fizeram por não verem cumpridas expectativas de reconhecimento e negócios.
As tertúlias maledicentes do velho Café Gelo do Rossio, “O Marquês da Bacalhoa”, de António de Albuquerque, que Raul Brandão calcinou: “Agora é jornalista, escritor, poeta, e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto. Assim, parte apreciável dos escritos republicanos estão manchados pelo humor raivoso.
Serviu-se o ressentimento de meios de grande violência psicológica, pela palavra e pela palavra escrita, que abriram portas ao revolverismo ao bombismo, à apologia da violência e até do regicídio, quiçá o mais vergonhoso acontecimento da vida política portuguesa. Vulgarizada a violência, tornou-se justificável toda a violência que foi a história da chamada 1ª República; em suma, aquilo a que um arrependido, Homem Cristo Pai chamou de banditismo político.
De notar que, para os não-traumatizados sociais, o problema da destruição da monarquia nunca se colocou. Eça aceitou a monarquia como um dado da identidade política portuguesa, assim como António Sérgio – um homem da esquerda e monárquico – filho e neto dos viscondes Sérgio de Sousa, que até quebrou a espada de oficial da marinha quando veio a tal república.
Houve, também, os arrependidos da república: Braancamp Freire, Fialho de Almeida (que foi perseguido e deixou de poder publicar em Portugal e teve de editar no Brasil), António Sardinha, Alfredo Pimenta.
Actualmente, posto que o número de traumatizados sociais tendeu a decair com o fim da tal classe operária, que se tornou proprietária, consumista e viajada para as repúblicas dominicanas e brasis, a base de recrutamento passou a ser feito entre os alpinistas e trepadoristas sociais: a nova classe de parvenus, os novos colarinhos brancos dos aparelhos dos partidos, dos Calistos Elói e do alto funcionalismo improdutivo e, sobretudo, da alta finança, que já não é a alta finança de outrora (do Visconde de Balsemão, de Teixeira de Barros, até dos Espírito Santo e dos Melos), mas essa plutocracia semi-letrada, carregada de baias e deslumbramentos de socialite. Esses são, verdadeiramente, a nova classe que não tolera a possibilidade de uma restauração monárquica. Seguem a velha lógica do incendiário: “se não posso ter, deito-lhe fogo”.

30 agosto 2013

E porque o Reino Unido ainda é um país livre e uma monarquia...


A Tony Blair, hoje transformado em caixeiro-viajante de todas as causas iníquas - aquelas que concorrem contra a liberdade dos povos, o jugo da alta finança rapinadora, o desprezo pelo Direito Internacional, o aventureirismo belicista - sucedeu David Cameron. Pensei, ingenuamente, que Cameron refreasse os ímpetos gangsterescos da clique do New Labour, cultivasse a Real Politik, o bom senso, a cautela; tudo atributos de um conservadorismo sem cruzadismos, e fizesse fincapé na autonomia da política externa britânica. Afinal, Cameron é, também ele, não obstante a sua remota ascendência real, um candidato a caixeiro-viajante da plutocracia que mutilou a extremos a plácida face das democracias ocidentais. Os últimos dez anos reservaram-nos indesejáveis surpresas. Para quantos pensavam que os EUA e os regimes que vigoram na Europa Ocidental estavam imunes aos demónios da governação atrabiliária e ao despostismo, eis que chegamos a este 2013 com a clara percepção do afundamento da mitologia democrática. Os EUA são, sem tirar, uma oligarquia plutocrática. Ali já não vigora a democracia e a legislação limitadora das liberdades caminha pari passu com a inimputabilidade e irresponsabilidade presidencial. Ali, manda-se matar, prender sem mandado, bombardear e até fazer a guerra sem fiscalização de qualquer instituição. 
Contudo, ontem na Câmara dos Comuns, o que remanescia da velha Albion fez recuar a maré da impunidade neo-con. Os deputados de S.M. - livres, porque eleitos uninominalmente - disseram não à mais acabada canalhice, à mais desbragada mentira e ao maior atentado ao Direito Internacional. Desde 1991 que a política ocidental - que tem a arrogância de se constituir em "comunidade internacional" - exibe todos os tiques das outrora potências totalitárias. Em nome da Liberdade e da democracia, povos são sujeitos a bloqueio económico, países soberanos são invadidos e submetidos à condição de protectorados, populações indefesas bombardeadas. O Ocidente transformou-se na caricatura de tudo quanto afirmava representar. Ontem, Cameron e a sua clique morderam o pó da humilhação no parlamento de S.M. Afinal, a democracia britânica - democrática porque monárquica - voltou a restituir a esperança a quantos já haviam desistido de justapor a bondade dos princípios e a mentira dos factos.

28 agosto 2013

Mísseis de Agosto: a iminência de um conflito global ?


Um consagrado articulista britânico chamou ontem à atenção para as flagrantes similitudes entre o acidental despoletar da Grande Guerra, em Agosto de 1914, e a sucessão de episódios que acastelam os piores augúrios sobre a presente crise internacional. Falharam os mecanismos que podiam evitar que o conflito atingisse proporções por ora inimagináveis: a conferência de paz prevista para se realizar na Suiça não aconteceu; os mercenários terroristas pagos pelas petro-monarquias wahabistas e pelos EUA não vingaram; a guerra tende a espalhar-se pelos países circunviznhos da Síria; o Conselho de Segurança da ONU não consegue encontrar um entendimento; os EUA, França e Grã-Bretanha pretendem calcar os fundamentos plasmados na Carta das Nações Unidas; a Rússia surge como grande potência disposta a correr todos os riscos para se afirmar como obstáculo às investidas imperialistas.
Tal como em 1914, a diplomacia falhou e a política externa dos Estados parece estar ao serviço de agendas belicistas, parecendo não haver a mais pequena margem para um acordo genérico. Ora, o ataque dos EUA e seus parceiros implicará, tudo o indica, o envolvimento directo da Rússia numa guerra no earth land, situação que expõe o poder marítimo a riscos incalculáveis.A acontecer, os parceiros ocidentais terão de contar com o envolvimento directo de Israel, pelo que o Irão (e talvez a China) serão chamados a secundar o governo sírio mas, sobretudo, a Rússia.
Podemos estar, pois, na iminência de uma grande guerra no Médio Oriente e, até, de uma conflagração mundial cujo resultado é incerto. Um dia, os manuais de história dirão que neste Agosto de 2013 o Ocidente foi humilhantemente derrotado nos areais do Médio Oriente e que nesse Agosto se iniciou a retracção dos EUA enquanto potência global.