22 dezembro 2012

Receita infalível para destruir a economia portuguesa


Se os adeptos do quanto pior, melhor, continuarem a insistir na alteração daquela segurança mínima requerida pela indústria turística, estão no bom caminho. No Magreb, o turismo caiu 40 a 50% desde o início da Primavera Árabe e na Grécia os resultados são igualmente devastadores, registando-se em Outubro uma quebra de 200 milhões de Euros face a dados homólogos de 2011. Os operadores turísticos europeus advertem os incautos sobre os perigos que espreitam os viajantes que demandam a Hélade. É sabido que reconstruir a imagem turística de um destino é mil vezes mais penoso que a criar. Os nossos agitadores profissionais sabem o que fazem. Depois das exportações, miseravelmente estropiadas por uma greve terrorista nos portos, podem lançar mão ao turismo, que subiu 4% desde 2011, gerou 2.000 milhões de Euros de receitas e garante cerca de meio milhão de empregos. Continuem, pois, a brincar e teremos mais 500.000 desempregados.

Bárbara sentença


O porta-voz da National Rifle Association, Wayne LaPierre, afirmou ontem que "a melhor defesa contra um tipo mau portador de arma de fogo é um bom tipo portador de arma". A lógica do far west num país onde circulam 350 milhões de armas aplica-se como uma luva à doutrina externa de um país habituado a exercer violência preventiva, bem como violência retaliativa numa escala nunca proporcional à ameaça do agressor real ou imaginado. A cultura da arma - invocada como um direito cidadão - gerou um complexo sistema de manifestações que contrariam o carácter apaziguador das sociedades face ao uso da violência individual. Neste particular - vide o cinema, os jogos de computador, o prático decisorialismo norte-americano - o recurso à violência assenta como condição prévia ao triunfo. O direito a matar, real ou figurado, o direito a passar por cima dos concorrentes gerou a convicção segundo a qual não há triunfo sem a eliminação do próximo. Coisa terrível, sem dúvida, pois a violência, ultima ratio, passou a prima ratio, da qual todas as outras se legitimizam. A democratização do porte de armas contraria a velhíssima instituição militar, que Georges Dumézil considerava um dos três pilares da ordem trifuncional (guerreiros, sacerdotes, camponeses) e é aval para o terrível diagnóstico de uma sociedade disfuncional onde todos se guerreiam e matam uns aos outros.

21 dezembro 2012

Quatro perguntas sobre a TAP após o fim do mundo

1. Quem vai pagar os 500 milhões do passivo da TAP-Brasil?
2. Quem vai pagar o passivo acumulado de 1.500 milhões da empresa?
3. Quem vai garantir emprego aos milhares de funcionários da TAP que deverão ser despedidos nos próximos dois anos, após cortes em pessoal já decretados na Iberia, British Airways, Air France e Lufthansa?
4. Como se fará a renovação da fronta existente, hoje obsoleta, conhecida a interdição da UE a qualquer injecção de capitais públicos em transportadoras aéreas de bandeira?

Se a crise persistir, não havendo outro candidato, a companhia vai-se esvair lentamente, não obstante o esforço em lutar contra o inevitável. Em 2012, os excelentes resultados obtidos pela empresa não impediram o aumento da dívida que, ao invés de minguar, aumentou, demonstração clara que se trata de um problema estrutural. 

20 dezembro 2012

A geração que queria ser europeia


Helena Roseta mostra as maiores reservas sobre a possibilidade de junção entre a TAP e a TAAG, aplaude a inviabilização do negócio com os brasileiros. Invoca os "grandes desiquilíbrios" e desigualdades culturais para, logo, exprimir preferência por uma solução "europeia" para a transportadora aérea nacional. Para mais, referindo-se aos angolanos, resolve o problema recorrendo à psicanálise pronto-a-vestir, aludindo a uma "vingança da história" e à "colonização do ex-colonizador". Esta gente não tem emenda. Odiaram Portugal como os seus maiores inimigos não o fizeram, nunca puseram um pé na África portuguesa e viram o fim do império como a libertação de um fardo, esquecendo-se que Portugal não era a Bélgica, a França ou a Grã-Bretanha, que se podiam dar ao luxo de manter o poder colonial através de uma elite nativa que lhes garantia a intocabilidade da exploração.
Quiseram meter-nos no redil europeu a empurrões e pontapés, sem condições, assinando de cruz e dos fundos europeus - que escondiam a destruição da economia portuguesa - fizeram bandeira para justificar a submissão colonial, a evacuação da soberania, a raquitização do Estado. Viveram como "europeus", imersos  na rede de cumplicidades que os mantinha por cá como procuradores de interesses que serviam mas não controlavam. Quando tudo acabou - chegados a esta ignominiosa situação de mão em concha, mendigando favores - não conseguiram pensar para além do que tinham aprendido. Insistem e até esqueceram as torrentes palavrosas da "lusofonia" sem obras, este adereço que ocupava o vazio deixado pela redução de Portugal às fronteiras do século XV. Agora, já nem Pessoa lhes interessa, tão ligados estão à feudo-vassalidade que os prende aos "europeus". Assim não vamos lá. Portugal está a perder a experiência do mundo, pois coisas destas não estão na genética mas no exercício e práticas de relacionamento. Estamos a transformar-nos numa Catalunha, na Sicília ou em mais uma dessas veneráveis carcaças históricas, cheias de passado e sem futuro algum.

O bezerro de ouro


Está bem, tudo é trabalho, tudo faz currículo, tudo é mercado. Acordei, li e já dei umas boas gargalhadas. Este país é uma pilhéria, pelo que me admiro como ainda nos deixamos colher por surpresas deste jaez. Os empresários, aqueles que investem, dão emprego, pagam impostos, exportam e reinvestem com risco, esses não têm "carreira", este senhor, sim. Depois, fatalidade das fatalidades, a "carreira académica" na lusófona, o  doutoramento, a farpela catedrática. Um velho general disse-me um dia que já não vestia a farda há muitos anos, precisamente a partir do dia em que viu fulanos que nem para soldados arvorados tinham gabarito passearem-se com galões e calças de passadeiras vermelhas.

19 dezembro 2012

China: a grande ilusão ou nas vésperas do IV Império?



Wang Gungwu é uma das incontornáveis referências da sinologia contemporânea. Chinês da diáspora, autor de reconhecida argúcia e complexidade, tem sido um dos mais proeminentes críticos dos mitos que envolvem a China actual. Para quantos, aterrorizados pelo "perigo chinês", julgam inelutável a expansão chinesa sobre o mundo, Wang Gungwu constituiu um bálsamo, apontando as deficiências, as fracturas e a instabilidade interna inerentes a um modelo de desenvolvimento incontrolável que gerou grandes desigualdades e ressentimento, dependência extrema do país face à economia mundo mas, sobretudo, novas elites que tarde ou cedo concorrerão com a elite dominante do PCC. Confrontados com o dilema de destruírem a China, alçando-a a potência global alicerçada num mundo há muito ocidentalizado, ou manterem a mais antiga civilização - única sobrevivente da Antiguidade - recusando o Ocidente, conseguirão os chineses superar a actual fase de abertura ao mundo exterior que sempre olharam com reserva e medo?
A invenção da etnia, a construção de uma língua unificadora - parte mística da identidade chinesa - o serviço do Estado, tudo isso corre riscos de alcance ainda não previsíveis. Estará o capitalismo a destruir as condições que fizeram a China? Será a democracia uma via para China? Ouvi-lo, proporcionará aos leitores desta tribuna uma compreensão menos simplista do Império do Meio.

18 dezembro 2012

Ah, senhores jornalistas !

O DN informa hoje que a Coreia do Sul se situa no Sudeste Asiático. Confundir o Sudeste Asiático com o Extremo Oriente está para a Ásia como confundir a Escandinávia com a Península Ibérica. Se já nada nos pode espantar, há mínimos de algibeira requeridos. Nestes tempos de proletarização do jornalismo e dos cursos de composição, corte e recorte, já nem a famigerada wikipédia consultam. 

Sombras: Malraux


O autor de Les Conquérants, La Tentation de l'Occident, La Statuaire, La Monnaie de l'absolu, André Malraux, jornalista, editor, conferencista, globe-troter, resistente, ministro da cultura, oficial da Legião de Honra, orador cativo em todos os grandes fastos da V República francesa, continua a reclamar sucessos editoriais trinta e seis anos a pós a sua morte: reedições, antologias, correspondência, biografias e estudos enchem estantes. Um dos mais recentes estudos sobre Malraux - André Malraux: un combattant sans frontières - está disponível numa das mais conhecidas livrarias de Lisboa. Apresenta-o como a perfeita coincidência entre o homem de acção e o intelectual, o arista da palavra e o metteur em scène dos grandes mitos pelos quais os homens se oferecem às balas e ao martírio laico na luta pela liberdade.
Folheei e procurei, procurei, mas não encontrei aquele pequeno detalhe que faz o retrato sem adorno do biografado. 

Especulador bolsista, em 1923 Malraux estava à beira do colapso financeiro. Ainda rapaz, tornara-se famoso pelas vibrantes conferências sobre a arte, abrira uma editora, aspirava à grandeza e ao reconhecimento público, sonhando, talvez, vir a ser o mais jovem imortal da Academia. O esteta, o amante das belas formas, o pregador do sublime que carrega qualquer peça artística, resolveu o problema que o afligia. Enganou a direcção da École Française d' Êxtreme Orient, falsificando documentos que o encartavam como arqueólogo, conseguiu cartas de apresentação destinadas a garantir o apoio do Governador-Geral em Saigão, meteu-se num vapor e rumou à Indochina Francesa. Ali chegado, organizou uma expedição e internou-se pelo Camboja, acampando nas imediações de Angkor. Durante semanas, em vez de extasiar perante as estátuas khmeres, Malraux dedicou-se a destruir baixos-relevos de  Banteay Srei, cortando-os, embalando-os e enviando-os para França, onde seriam vendidos a coleccionadores. Apanhado em flagrante, foi preso e condenando. Em tribunal defendeu-se, afirmando estar a ser vítima de perseguição política, pois era um feroz crítico do colonialismo. Ao regressar a Paris, entregou-se freneticamente à escrita da Voie Royale, romance em que relata o insucesso da sua peregrinação ao Camboja. Lutadores destes que escrevem junto malfeitorias e vocações libertadoras não são tão raros como podemos pensar; diria mesmo que a ego-história de qualquer ficção é mais poderosa que qualquer impulso criador. Desde o dia em que soube do passado de Malraux, deixei de lhe conferir o mínimo interesse, como homem e como autor. Sei que sou um desmancha-prazeres. Há quem idolatre o fazedor de proezas, mas quem pode gostar de um falsificador ou de um traficante de tesouros artísticos?

A quem interessa continuar a mentir sobre a situação na Síria?

Imagens captadas ontem em Aleppo, onde se trava dura batalha há mais de cinco meses. A população continua a resistir à escalada salafista. Quem, nos EUA e na Europa, persiste em financiar, armar e treinar os verdadeiros inimigos do Ocidente?

17 dezembro 2012

Necrofilias


A capital da Coreia do Norte conta a partir de hoje com mais uma atracção. O corpo do Querido Camarada Kim Jong-il passa doravante a estar patente ao público, juntando-se ao de seu pai Kim il Sung, que repousa numa mastaba-mausoléu. O culto pelas múmias expostas, inaugurado pelo cadáver de Lenine -logo seguido de Mao e agora da dinastia Kim - é uma manifestação da psicótica relação dos comunistas com a eternidade. Porém, no que respeita a chineses e coreanos, acresce tratar-se de um insulto aos mortos, cremados no Coreia e inumados na China. Aqueles regimes, tendo-se firmado sobre a destruição de interditos culturais, declararam guerra às respectivas culturas, demonstrando que o marxismo foi, na Ásia, o mais poderoso agente de auto-colonização. O materialismo tem destas coisas. Tão arrogante, tão explicativo e pretensamente "científico", baqueia perante o mistério da morte. São estes cadáveres expostos a melhor impugnação do absoluto imanente?



Portugal de parte no business e na barganha



As relações entre os EUA e a China estão na ordem do dia, pelo que não há semana em que não surjam nos escaparates obras que visem lançar luz sobre o confronto de duas potências em tudo distintas, condenadas à cooperação ou ao enfrentamento. Os EUA, potência global em declínio, confiscaram, hegemonizando-as, as relações com a China, detidas até meados do século XX pelas potências europeias, pelo que se compreende que os norte-americanos procurem, não sem alguma imperícia, inflaccionar - inchando-as - a importância relativíssima dos contactos de natureza comercial estabelecidos na primeira metade do século XIX.

Recurso a conceitos obsoletos, absoluta falta de informação de base sobre a antiguidade das relações entre os ocidentais e o Império do Meio, este When America first met China, de Eric J. Dolin, acabado de sair, constitui oportunidade perdida para um melhor entendimento do primeiro estádio da presença norte-americana no Oriente. Desconhecendo a hierarquia que separa relações de contactos, Dolin marginaliza e minimiza a presença portuguesa, então já multissecular na Ásia, confundindo trocas comerciais com relações de Estado-a-Estado. Colocar o chá, as porcelanas e as sedas - trocadas pelas peles de focas americanas - ao mesmo nível que as embaixadas portuguesas a Cantão e Pequim, a acção do Padroado, os matemáticos e astrónomos jesuítas na corte do Império Celeste - onde nem faltou a assessoria política para o estabelecimento das condições para a assinatura do primeiro tratado formal entre a China e a Rússia, façanha que coube ao padre Tomás Pereira, recentemente homenageado num soberbo In the Light and Shadow of an Emperor: Tomás Pereira, SJ (1645–1708), the Kangxi Emperor and the Jesuit Mission in China, obra de Artur Wardega e Vasconcelos de Saldanha - é por demais revelador do desequilíbrio e ausência do sentido das proporções.

Esquece - ah, como faz falta uma política sistemática de tradução dos nossos trabalhos historiográficos para a língua inglesa - que além do hard power militar e económico que Portugal detinha no Oriente, havia um soft power, um status que separava portugueses de outros europeus aos olhos dos asiáticos. Em finais do século XVIII e princípios do século XIX, Portugal era ainda, aos olhos dos asiáticos, uma potência desenvolvendo actividade em níveis diferentes, reunindo condições que o colocavam em vantagem sobre outros ocidentais. Dolin pouco diz sobre Macau, pois ali funcionou a partir de 1568 o primeiro hospital ocidental na China, responsável não apenas pela assistência, mas pela difusão das técnicas operatórias e de diagnóstico e até na introdução do quinino no Império do Meio. Esquece, igualmente, que a tipografia portuguesa trabalhava na Ásia desde o século XVI e que no início do século XIX, antes da criação de Singapura e Hong Kong, a única imprensa periódica editada no Extremo-Oriente era a macaense. Omite, desconhecendo-o, que o seminário superior de Macau era a única universidade no continente, que a sinologia foi, até Setecentos, portuguesa. 

O interesse pela barganha, gente levando mercadorias e carregando mercadorias, lobos-do-mar, contratadores de coolies, empresários do ópio e simples aventureiros são coisa pouca, quase marginal, no cômputo do encontro de duas civilizações. Dolin dá prioridade ao business, pelo que o seu trabalho - exótico, colorido, escrito para entreter - não passa de um texto para se ler na praia.