15 dezembro 2012

Um país absolutamente sinistro


O massacre ontem ocorrido nos EUA serve de manifesto para sublinhar aquilo que os mais empedernidos americanófilos teimam em ocultar. Trata-se de uma sociedade fundada por inteiro sobre a violência, constituída por gente dominada por instintos agressivos, uma cultura que exalta o "darwinismo social" e o direito da força. Assim foi desde o primeiro momento - o extermínio dos nativos, o esclavagismo, a segregação - e foi-se expandindo, primeiro pelas américas, depois pelo mundo em sucessivas guerras em nome dos mais nobres ideais. Não contem, pois, com entusiastas para repetir as pias mentiras do "sonho americano".

Sempre que vejo massacres destes - coqueluches para noitadas televisivas - ocorre-me a foto da americaninha escrevendo ao namorado a carta, enquanto olhava embevecida para a caveira do soldado japonês (decapitado e esfolado) que a cara-metade tivera o bom-gosto de lhe enviar. Nem a cadela de Buchenwald a tanto se atrevia.

14 dezembro 2012

Isabel Jonet e os palradores


Continua a via sacra de Isabel Jonet. Três senhores, rotundos e loquazes, discreteando por uma longa hora bem estipendiada sobre solidariedade e caridade. Lobo Xavier no papel de advogado, nem bem nem mal, António Costa menos mal e até com uma pontinha de simpatia, Pacheco Pereira odioso, sem cura possível para a erisipela vermelhusca que não desgruda e que de quando em vez lhe prega partidas de emerrepêpismo.
Jonet a pagar o preço pelo Bem que não veste a camisola vermelha das boas causas da santidade laica. Esta mulher tem alimentado dezenas de milhares, tem sido agasalho para a fome, a esperança para os abandonados, o aconchego para os desesperados. Ali não há fundos do Estado, não há agenda política, um cargo a filar, os louros de um prémio a receber. Trata-se de caridade - sim, caridade e não "solidariedade" -  amor ao próximo e mandato da consciência. Num país de palavrosos inconsequentes, de teóricos e de elites  presunçosas, Jonet é granítica, enorme, uma exemplar e teimosa força merecedora de um tapete de flores. Devia circular pelas ruas sob uma estrondosa e torrencial salva de palmas. Mas não, em Portugal, há sempre um Pacheco a espumar raiva, a perorar sobre sociologias, "conceitos" e "ideias".
Como em tudo, há pessoas que fazem, outras que não fazem, não querem fazer nem sabem fazer; outras ainda que só sabem desfazer. No género humano, tão previsível, há os que são talhados para dar, outros para receber. Jonet é líder, deixa. Os seus detractores, esses, criticam, amarfanham e querem a todo custo ver-se livres daquilo que não suportam. 

13 dezembro 2012

O fim do grande mito



"Há-de haver leis que presidem aos homens, que isto é dar a presidência a Deus; não hão-de presidir os homens com o seu arbítrio à lei e à razão, que isto é dar a presidência às feras, à cobiça, à ira e às paixões, como disse Aristóteles".
                                                    Manuel Rodrigues Leitão, Tratado analítico e apologético, 1715

A Europa no fim do ciclo do povo-rei. As tiranias do futuro, alimentando-se do caos, reúnem argumentos liberticidas e preparam-se para entrar em cena. A soberania sem cabeça - a soberania dos braços e das pernas - deu nisto. Ontem foi no parlamento ucraniano; amanhã será por todo o lado. Acabou o tempo dos senhores burgueses bem-postos afectando a gravitas dos comícios da Roma clássica. Agora, como previra Tocqueville, é este formigueiro de gente igual, violenta e incontrolável, presa dos instintos, falando com os punhos.
Ainda há tempo de mudar, lembrando a velhíssima sentença de São Francisco de Sales a propósito do suicídio de Judas: "entre o momento em que a corda estica e aquele em que a corda estrangula, ainda há lugar para que a [salvação] intervenha". O sistema representativo tem, pois, perante si a possibilidade de se redimir ou de se perder. Se o não fizer agora, o futuro pertencerá àqueles que o negam.


12 dezembro 2012

As esperas na traulitânia


"Nunca um Governo foi tão humilhado e odiado pelas pessoas como o atual, nem no tempo de Salazar, porque esse sabia manejar as coisas de outra maneira". Mário Soares, 11.12.2012

09 dezembro 2012

Medinho, convencionalismo, incapacidade para ganhar distância perspectiva



O documentário Estética, Propaganda, Utopia no Portugal de António Ferro, por aí tão incensado nas passerelles do academicamente autorizado, passou há minutos na RTP-2. Os mesmos clichés, a mesma desonestidade, essa quase doentia necessidade de dizer mal do país, de serrar as pernas a quantos superem o metro e meio da mansa mediocridade, o prestar serviço à carreirinha e à boa imagem pública exigindo dos depoentes referências "ao Salazar" e "ao Ferro"; em suma, uma bela oportunidade perdida para rever Ferro, esse homem grande que fez no campo da cultura o que nunca ninguém fizera ou voltaria a fazer. 

Há que acabar de vez com o ranço de uma "História Contemporânea" de facalhão em riste. Lá estavam Acciaioli a debitar palavrório, o nonagenário França (que devia ser coibido de continuar a escrever, para não deslustrar a boa obra que assinou há 30 ou 40 anos), um Rosas sempre superficial e adjectivador, uma menina formatada nos mestradros do corta-cola e, até, o pronto-para-tudo de serviço Eduardo Lourenço com a sua filosofice-light, redonda, sem ponto de aplicação. Só Dacosta, agigantado perante tão apoucada companhia, brilhou pela isenção. Esta gente não descola nem desanda. Vive imersa em ódios a mortos e coisas de há 80 anos. São conservadores, reaccionários, imobilistas, têm feito um mal terrível ao país e são, no diminuto campo em que operam, os ditadores das modas culturais. 

Sei que a "academia portuguesa" não passa disto. Continuamos pequenos, subdesenvolvidos, afectados e presunçosos. Esse cascão quase irremovível precisava de um novo Ferro. Mas os Ferros só surgem de 100 em 100 anos para contrastar com as Acciaioli's, os Rosas e as meninas "mestrandas" das banalidades exigidas pela máquina dos currículos. O João Amorim di-lo melhor que eu. Isto é, simplesmente, demagogia e desonestidade intelectual.

Ibi sunt leones


Os cartógrafos carolíngios, sempre que desconheciam com exactidão territórios localizados fora dos limites do império, escreviam displicentemente "ibi sunt leones" (aqui há leões); por outras palavras, inventavam, supunham. Medvedev fez declarações consideradas escandalosas para um responsável político. Escandalizada ficou a "boa imprensa" - a tal que mal sabe assinar o nome - e o coro de indignados foi alargando. Crenças são crenças, cada um acredita no que quer. Eu, por mim, acredito no purgatório, nos anjos, na percepção extra-sensorial. Mas há pior; há quem acredite na bondade do mercado, no calendário maia, na base hitleriana no Polo Sul, na Terra oca, nas guerras justas para espalhar democracia, em sociedades perfeitas e até numa Idade Nova joaquimita dada à luz pela tal mirífica revolução mundial. Pior ainda, há quem acredite na bondade da nossa república. É a nossa costela semita.