07 dezembro 2012

Hoje, 7 de Dezembro, dia da infâmia


Os norte-americanos chamam-lhe o dia da infâmia, evocando o ataque inopinado, sem declaração de guerra, arrasador e cobarde desferido pela armada japonesa a Pearl Harbor naquele 7 de Dezembro de 1941. À escala portuguesa desta era de trevas, de gente pequenina, raivosa, anónima, maledicente, invejosa, incapaz de um desabrido gesto frontal, numa palavra vingativa, a coisa fica-se pela destruição das reputações. É evidente que o país está cheio de ladrões, de corruptos, de marajás da impunidade - farta sementeira de décadas em que a justiça desapareceu - e que não há esquina, beco, vão de escadas ou dispensa onde gente absolutamente nula mas cheia de influências, amigos e padrinhos dá largas à paixão pelo dinheiro fácil, ou seja, dinheiro roubado aos cofres do Estado.
Hoje, as parangonas derramam a baba venenosa em Medina Carreira. Pudera, Medina Carreira tem sido ao longo dos anos o porta-voz da verdade. Diz o que outros, por medo ou por comodidade, se recusam pronunciar, ataca sem quartel a fulanagem da vida airada, despe os sofismas, arrasa os medíocres, diz ao povo o que lhe espera se perseverarmos neste aquário de ilusões. É MC uma assombração para o pessoal de Liliput, os palavrosos sem substância, os mentirosos compulsivos, a burguesia meia-tigela vinda do nada e que proclama os socialismos, as virtudes do Estado social, os direitos e quejandas mentiras, conquanto o dinheiro (que já não existe) continue a encher bolsos de amigos, parentela, irmãos de templo. Não sei se MC está ou não envolvido no tal Monte Branco, mas se o regime tivesse um pingo de vergonha - o regime é um Himalaia de corrupção - calar-se-ia.


Morreu Niemeyer, génio da Utopia totalitária


Oscar Niemeyer morreu centenário, confirmando a longevidade dos génios, anúncio da imortalidade em que não cria. No obituário dos tolos que lhe quiseram render homenagem - e Deus fala quase sempre pelas crianças ou pelos simples - Niemeyer foi, apenas, o amigo de Fidel, de Chávez, o revolucionário que nunca desarmou, o Prémio Lenine da Paz e o arquitecto que desenhou a sede de um partido hoje quase inexistente (o Partido Comunista francês), expressão acabada de um futuro que o não foi. Niemeyer é muito mais. Fazia parte daquela geração de planificadores de cidades, escultores de monumentos, "poetas do betão armado" e entusiastas desse remoto sonho - tão provável como um centauro - da mudança do homem. Teve como inspirador Le Corbusier (amigo de Valois, de Mussolini e leal servidor de Vichy) e foi, no seu momento de ouro, o que Alfred Speer pretendera ser no regime nacional-socialista. 


Niemeyer entronca no construtivismo e no funcionalismo, mas a sua gramática, substituindo o bloco pela curva, mascara o fascínio irresistível pelo poder do Estado, tomado como caminho mais curto para a Utopia. As jubilosas sedes do poder (os ministérios, a sede da ONU, os palácios) em que deixou marca do seu génio - deixemos de lado as encomendas menores - são evidências estridentes  da visão totalitária da arte. Não há, escandalizem-se os adeptos do galerismo e da arte-mercado, arte que não seja totalitária, ou seja, total, absorvente, centrípeta, magalómana e psicótica. Brasília, a mais bizarra experiência bem-sucedida de centralização do poder dos tempos modernos - tão chocante na sua formulação como Tell el-Amarna de Akhetaton, Germânia de Hitler, Islamabad, Yamoussoukro ou Naypyidaw - é uma tese. Ali, não há escala humana, os homens não interessam. Como é sempre jovem a velha Utopia de Moro, asfixiante, codificadora e controleira, matriz do sonho de uma sociedade sem mudança, perfeita, tão perfeita que recusa o desejo, o sentimento, os afectos. Não se destina a pessoas, mas ao poder. 

Große Halle, de Speer

O meu velho amigo Gerardo Mello Mourão, já falecido, nome grande da poesia brasileira do século XX, contou-me um dia a acalorada discussão que tivera com Niemeyer a respeito de Brasília. Niemeyer afirmara que estava a construir uma tese e uma Utopia, que essa Utopia estava a transformar-se em verdade histórica. Mello Mourão respondeu-lhe que não queria viver numa tese, queria ser homem, viver habitualmente, ter jardim, ter mercearia, o quiosque de jornais, a tabacaria, a loja de pronto-a-vestir. Depois, desistiu. O olhar de Niemeyer tornou-se opaco, distante, desinteressado da pequenez humana. Há, entre Speer e Niemeyer coincidência de propósitos, disso não tenhamos dúvidas. A arte do poder cultiva deste os tempos da velha Babilónia a monumentalidade, o grande, o eterno. Na era da insignificância - a era em que o poder trocou o mármore, a pedra granítica (ou o betão) pelas caixas de vidro - o poder passou para as mãos da gente das habilidades e do dinheiro. A arquitectura, hoje, está para a arte como o heavy metal para Mozart, como António Vieira para a Rebelo Pinto, como Visconti para as telenovelas.

05 dezembro 2012

A força do Rei está no coração do povo



Imagens sem a grandeza cénica exigida pelo protocolo, mas bem expressivas da unânime adesão de todos os extractos da população tailandesa à monarquia e à pessoa do Rei. Ontem, em todas as províncias deste grande país, cerradas colunas convergiram para as praças centrais das capitais regionais para celebrar os 85 anos do monarca. Trabalhadores fabris, camponeses, empresários, funcionários públicos, estudantes do ensino básico e universitário, escuteiros, muitas associações de carácter profissional, cultural, social e cívico formaram uma impressionante muralha humana em torno do trono. Em Bangkok, foram centenas de milhares os que dormiram ao relento para guardar um lugar. É evidente que tudo isto tem um significado que extravasa a circunstância e a geografia. A "globalização" plutocrática não passou na Tailândia, os modos e adamanes de certo capitalismo apátrida que rima com alienação, subjugação ao estrangeiro, perda da identidade, do patriotismo e da soberania, não conseguiu e não conseguirá passar sobre a alma colectiva de um povo orgulhoso da sua cultura. Felizmente para o antigo Sião, glosando Castoriadis, a era da insignificância aqui não assentou arraiais.
Como alguém um dia me disse, os inimigos da especificidade thai teriam de passar por cima de toda esta gente. Haja Deus !

66 anos ao serviço do povo e da nação

Esta manhã, Bangkok inteiramente vestida de amarelo - a cor da monarquia - para prestar tributo de admiração, fidelidade e amor à pessoa do Rei. As palavras e os exercícios de estilo rendem-se perante a grandeza da festa do povo no dia em que o primeiro servidor da nação celebra 85 anos de vida. Quando pedimos a restauração monárquica é no modelo tailandês que nos inspiramos: firmemente implantada nos corações e nas inteligências, acima das classes, das etnias, das religiões e dos partidos, agente de conciliação, protectora das liberdades, a um tempo progressiva e cultora das tradições e da identidade. O que somos nós, na nossa mísera pequenez republicana, perante a evidência destas imagens?

3.000.000 nas ruas de Bangkok para tributar amor e respeito ao Rei


Um verdadeiro plebiscito nas ruas na capital tailandesa. Nunca tão grande massa humana se unira para celebrar o aniversário de S.M. o Rei. As imagens que aqui reproduzo foram captadas pelas 9 da manhã no hospital onde o idoso monarca tem recebido cuidados médicos. Para os nossos (poucos) republicanos, as imagens são suficientemente elucidativas. 

02 dezembro 2012

O mito da Idade Média


Já aqui, por duas vezes, aludi a um pequeno ensaio da autoria de Umberto Eco intitulado A Nova Idade Média. Em meados da década de 1980, Eco diagnosticava certeiramente o processo de decomposição do Iluminismo, pressentindo o advento de uma nova era cujos primeiros passos balbuciantes lembram esse longo período a que erradamente designamos como "Idade Média". Eco não exibe qualquer parti-pris a respeito da chamada "Idade Média", pois, soberbo medievalista, sabe que a má vontade, tinta de hostilidade e arrogante ignorância que por aí se continua a debitar sobre esses gloriosos mil anos de existência da civilização Ocidental foi uma invenção das "luzes". Como sabem, a alusão a um medium tempus foi cunhada por Petrarca (um homem "medieval"), mas só passou ao jargão historiográfico em finais do século XVII como sinónimo de trevas, superstição, clericalismo e violência. Seria fastidioso proceder aqui ao enumerar de erros que fizeram o mito dessa "Idade Média". Romano Guardini deixou, nos anos 40, o Fim da Idade Moderna, ensaio filosófico que define com precisão as características do pensamento e visão do mundo "medievais", por oposição à modernidade. Em Guardini há o refutar dos mitos anti-"medievais" da modernidade. Mais, Guardini afirma que a Idade Média conseguiu um notável equilíbrio entre a autoridade (cultural, política, religiosa) e a liberdade.

A "Idade Média" a que aludiam Burkhardt e Michelet no século XIX nunca existiu; ou antes, foi construída como ideologia oposta ao "Renascimento" e movimentos que se lhe seguiram (racionalismo, iluminismo, liberalismo, marxismo, etc). A Idade Média - cedamos à convenção - foi a mãe da civilização Ocidental. A velha história da herança grega e latina não resiste à mais leve acareação. A Idade Média foi reformista, foi inovadora sem chamar pelo nome e deixou as grandes instituições e institutos que ainda hoje são cimento do que resta do Ocidente. Para isso, basta lermos a fascinante biblioteca que é a obra de Jacques le Goff para raspar os cascões do preconceito. A literatura, tal como a entendemos (e sobretudo o romance) é criação da "Idade Média". A Universidade, sede de saber, transmissão, formalização e polémica em torno do conhecimento, é uma invenção medieval. A arte, neta de Deus como lhe chamava Dante, muito embora o conceito só fosse estabelecido no século XIX, é também uma conquista medieval. Até o "capitalismo" - passando por cima do errado lugar-comum que afirma a oposição da Igreja à economia, ao dinheiro e ao lucro - nasceu do processo de legitimação do dinheiro, fenómeno que ganhou expressão a partir do "renascimento do século XII. Coube, também à Idade Média, a invenção do trabalho entendido como valor moral. Ou não foi a Idade Média a inventora de uma sociedade que repousava sobre a organização do trabalho, de que as corporações, as guildas, as comunas, as liberdades burguesas e concelhias, raíz daquilo a que se vulgarizou chamar de "democracia"?

Tenho adquirido ao longo dos anos o Lexikon des Mittelalters, enciclopédia de 9 volumes de que possuo os seis primeiros. Folheio-a ludicamente, como quem lê antes de dormir, sem qualquer preocupação outra senão o entretenimento. Não há dia em que não leia uma ou duas páginas, saltando entradas. Faço-o para praticar o alemão - a mais inteligente das línguas - e não há leitura  em que não me deixo de espantar com a pujança, a grandeza e a simpatia contaminante dos avós dos nossos avós, os medievais. A "Idade Média" é viciante, tão viciante para mim como a matéria do Sudeste-Asiático pré-contemporâneo, com a qual, aliás, se assemelha em variadíssimas perspectivas sobre o entendimento da vida. Como estou cansado da ganga "moderna", do linearismo e da chocarreira banalidade do mundo sem o véu do sagrado e das grandes interrogações ! Viva a Idade Média.