30 novembro 2012

"Vai muy bien gobernadita"


Antropologia peninsular. Uma horta, um camponês, um naco de jota aragonesa. Neo-realismo? Lutas sociais? Não, aqui era outra história. Imperdível.

29 novembro 2012

A "carta aberta" e outras tecnologias do passado


As cartas abertas tiveram o seu tempo. Faziam parte do horizonte tecnológico nos anos de ouro do jornalismo - entre finais do Oitocentos e os do advento da rádio - e confundiam-se com o mundo, nos termos em que os frequentadores das tertúlias e dos cafés da conspirata e da maledicência entendiam o mundo: uma centena de senhores bem-postos, umas dezenas de jornalistas à cata de fofocas, políticos em busca de lugar, uns miúdos em volta dos velhotes do reviralho aguardando um lugar na revolução que se esperava. As cartas abertas, hoje, há-as aos centos circulando com profusão de praga na internet. Há abaixo-assinados para tudo o que interessa e não interessa e não há dia em que no facebook ou no twitter não nos interpelam para deixar uma assinatura virtual. Em suma, cartas abertas e ácaros é o que não falta.

Tomei conhecimento da carta aberta que Soares, encabeçando um comboio de octogenários, enviou à Assembleia e ao presidente de Belém exigindo a demissão do Primeiro-Ministro. Mário Soares (88), Eduardo Lourenço (89), Júlio Pomar (87), Pires Veloso (86), mais uns amigos reformados (Bruto da Costa, 74; Siza Vieira, 78; Boaventura Sousa Santos, 70, João Cutileiro, 75) e uma lista interminável de gente independente, que nunca amesendou, que sempre repeliu a canga de um alfinete na lapela (Eduardo Ferro Rodrigues, Fernando Rosas), "teólogos" (Bento Domingues), "filósofos" (Barata Moura do fungagá), "artistas" (Abrunhosa e Tordo) e até o omnipresente Jojó papa-prémios, todos com exigências de diktat pedindo a cabeça de Passos Coelho. Vão-se despir, tenham vergonha, usufruam das reformas e deixem que outros, eleitos, amenizem os efeitos dos quarenta anos de regime de benefício e senhorialização que os abaixo-assinantes aplicaram ao país. Há dias em que não tenho paciência para compreender terapias ocupacionais, muito menos demências senis.

28 novembro 2012

A profanação do passado, génese do totalitarismo


Com quatro anos de atraso sobre a publicação, chegou-me finalmente às mãos o Livre Noire de la Révolution Française, tremendo juízo historiográfico sobre a mãe de todos os totalitarismos. Não se trata, bem entendido, de peça de propaganda, mas de obra colectiva de grande envergadura que conta com a colaboração da nata da academia francesa: Pierre Chaunu, Emmanuel Le Roy Ladurie, Xavier Martin, Jean Sévillia, Jean Tulard, Christophe Boutin. Quem não leu a Revolução Francesa, de Pierre Gaxotte, Le Terrorisme Révolutionnaire 1789-1799, de Bernard Lerat, Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévilla, poderá persistir na ingénua opinião de pensar a Revolução como um bem manchado por erros e excessos. Contudo, lendo os autores que levaram à Revolução, aí encontra-se o pan in herbis dessa hacatombe, a ideologia homicida, o ódio à cultura que fazem a genética de todos os totalitarismos.
Foi com sobressalto e indignação que li o capítulo dedicado ao vandalismo revolucionário, essa guerra sem quartel que os governantes da Convenção votaram aos tesouros da memória do seu povo, num entusiasmo paranóico que não poupou abadias, mosteiros, palácios, bibliotecas, teatros. Entre estes feitos criminosos, que prepararam as matanças generalizadas que encheram a França de valas comuns, avulta a destruição metódica da Basílica de Saint Denis - um manifesto em pedra da arte gótica - alvo do ódio à história e à cultura. Saint Denis, o equivalente francês ao Escorial, era mais que o panteão das dinastias francesas, dos Merovingios aos Bourbons. Ali percorria-se um milénio de arte sacra que se confundia com a cristianização da Europa.

Em 31 de Julho de 1793, da tribuna da Convenção, Bertrand Barrere pedia em nome do Comité de Salvação Pública a destruição dos mausoléus reais em Saint-Denis . O deputado ganhou facilmente o apoio dos seus pares. A destruição ritual serviria para comemorar os eventos de 10 de Agosto de 1792, que haviam derrubado o trono. No dia seguinte, a Convenção Nacional decretava a imediata destruição dos "túmulos e mausoléus dos reis levantados na igreja de Saint-Denis, bem como em templos e outros lugares em toda a extensão da república", operação que devia terminar até um prazo de dez dias. A população não aderiu, pelo que foram criados grupos, coordenados por uma comissão mandatada pela Convenção para executar tal medida. A comissão foi entregue a um antigo beneditino, Germain Poirier, pedindo-se-lhe que procedesse à localização dos corpos das cinco dinastias dinastias presentes em Saint Denis.

Ao longo do mês de Outubro de 1793, dezenas de sepulturas de reis e rainhas, membros da família real, assim como as de nobres do reino foram profanados: a matança póstuma de Dagoberto, Hugo Capeto, Henrique IV, São Luís, Francisco I, Luís XIV, Isabel da Baviera, Maria de Médicis, Carlos Martel, de Constable Bertrand du Guesclin foram algumas das muitas vítimas sacrificiais de uma raiva revolucionária aparentemente irracional. Estes abusos continuaram com a exumação do Cardeal de Retz, 19 de novembro de 1793, de Margarida de Flandres, filha de Filipe V, 18 de janeiro de 1794.
Não foi, porém, um movimento espontâneo. Foi um crime metódico, legislado, pago pelo governo. Que diferença, pois, entre Pol Pot, a queima dos livros na Berlim de 1933, a dinamitação da catedral de Moscovo e a destruição de Saint Denis pelos comités revolucionários ? No próximo ano celebram-se 220 anos sobre esse acto de barbárie. É evidente que Hollande passará ao lado. Há coisas que não interessam aos baladeiros das mentiras reverenciadas. Em 1793, precisamente em Outubro, plantava-se a Árvore da Liberdade sobre a morte do passado. As tiranias só crescem entre gente privada de passado.


26 novembro 2012

Alter-história: 17 milhões de escravos castrados em nome de Alá

Para nossa segurança, a Espanha resistiu


É em momentos críticos que se revelam as patologias políticas e as soluções extremistas ganham respeitabilidade, sentimentos represados encontram voz e profetas, o impensável atreve-se e rompe com os lugares-comuns. É nas crises que os furiosos, os imoderados e os inacessíveis ao razonamento ganham adeptos e seguidores, como cegos badalando um sinete levando pela cana uma legião de cegos para o abismo.
Ainda ontem, havia quem sonhasse com o desmembramento da Espanha, uma Catalunha independente e, quem sabe, um País Basco, uma Galiza e umas Canárias independentes. Portugueses há que torceriam pela desagregação da unidade espanhola, ignorando ou querendo ignorar que uma península multipolar seria mais pobre, mais violenta e perigosa para o que resta da unidade portuguesa. É matéria de toda a evidência que desde 1668 - ano em que se firmou pelo tratado de Lisboa a paz entre a Espanha e Portugal - não há espaço na península ibérica para mais Estados. Uma Espanha "Estado-nação império", glosando a fórmula de Nial Fergusson, e um Portugal homogéneo que se fez  diferente pelo Estado, eis as únicas entidades com ossatura, memória e unidade de destino. Tudo o mais são regionalismos e localismos reinventados pelo romantismo e exorbitados pelo delírio das autonomias fictícias que tiveram o seu momento após a transição espanhola.
A Catalunha disse não a uma independência sem sentido, pois a Catalunha não é castelhana, mas espanhola e na história cultural de Espanha as letras, os políticos, os banqueiros, os industriais catalães sempre tiveram lugar de honra. Desta vez, a quixotada foi da burguesia catalã, inebriada com os tais 27000 Euros per capita que a aproximariam da Finlândia. Esquecem-se os catalães que sem a Espanha essa mirífica entidade não seria maior que a Bélgica, que os seus 5 milhões de habitantes igualariam os sicilianos em número, que uma Catalunha independente teria de discriminar 25% de população não catalã, que a pujança económica da região se deve à integração espanhola no mercado europeu e que as 500 empresas catalãs operando à escala global muito devem ao apoio e redes de influência da Espanha no mundo. Se tudo isso se desmoronasse, os catalães compreenderiam que, afinal, a Catalunha é mais forte no quadro da monarquia espanhola, hoje como há trezentos ou mais anos.