24 novembro 2012

O último aviso


O Príncipe Carlos - talvez o maior inimigo do chamado "progresso", do "desenvolvimento" e do "crescimento", bezerros de ouro da mitologia industrialista e da religião do lucro - deixa um tremendo aviso que deve ser ouvido. Ficam, pois, explicadas, as sucessivas campanhas difamatórias que lhe têm sido movidas pela plutocracia. Carlos faz lembrar, cada vez mais, o velho Konrad Lorenz nos seus Oito Pecados Mortais da Civilização. À beira do abismo, a voz de um Príncipe, representante de um passado verde, de agricultura biológica sem transgénicos, regimes alimentares sem hormonas, águas limpas, florestas reverenciadas, urbanismo à escala humana; em suma, a ideia medieval da natureza como um limite ao atrevimento destruidor do homem. 

22 novembro 2012

Alter-história:o pai de Magarila Machel, aliás Samora Machel, em 1973


Notícias da Beira, 31 de Outubro de 1973


"LOURENÇO MARQUES, 30 (Delega­ção) — «Meus olhos choram e meu coração fica triste quando o pessoal vem dizer o que meu filho faz», afirma, com voz em­baraçada, comandante Moisés Machel. 
A nossa, frente está um negro de feições duras, cabelos esbranquiçados, olhos perspicazes. Fato escuro, camisa cor-de-rosa, bem vestido. É praticante da Igreja Metodista Livre. Pesa as palavras, falando lenta e prudentemente. A nossa frente está o pai de Samora Machel, presidente do movimento anti-português (FRELIMO) (ou Frente de Libertação de Moçambique). À sua volta, reúne-se grande parte do clã, constituído por três mulheres (uma é a mãe de Samora), vários filhos, irmãos, sobrinhos. Ele não é só comandante de nome; é também o comandante de facto, no conjunto das cinco palhotas maticadas da sua terra.
«Nasci aqui mesmo, a 1 de Fevereiro de 1900. Esta terra, que era já dos meus pais, chamava-se Mananganine», refere papá Machel. Hoje aquela terra situa-se à entrada da Aldeia da Madragoa, onde vivem quase duas centenas de europeus, e que é o núcleo de povoamento mais progressivo do célebre Co­lonato do Limpopo, a duas cen­tenas de quilómetros de Lou­renço Marques.
«Esta é a mamã de Samora», apresenta o comandante. «Chama-se Gougnia Thema Zimba. É filha de Matonga, chefe do gru­po de povoações Zungula (já fa­lecido), da regedoria Canheze, aqui vizinha. Nasceu em 1902».
Thema Zimba, pequenina, tem uma cara prazenteira. Sor­ri. O cabelo branco tapado com o chapéu «beige» como usam as mulheres da Suazilândia.
E comandante Machel pros­segue: «Desta mulher tive 13 filhos. Nove morreram. Quatro estão vivos. O mais velho chama-se Josefate Moisés Machel. Enquanto trabalhou na garagem dos Oliveiras, em Chilunguine (Lourenço Marques), fez a quarta classe. Depois estudou mais. Hoje é lá enfermeiro, no Hospital Miguel Bombarda. O segundo filho chama-se Magarila Samora Machel. Fez a quar­ta classe na Missão Católica de S. Paulo de Messano, Bilene, do Distrito de Gaza. Depois mandaram-no estudar para a Ilha da Inhaca. Parece que fez o quarto ano do Liceu, enquanto aprendeu para enfermeiro. Em 1951, mais ou menos, empregou-se no Hospital Miguel Bombarda».
Interrompemos. Trata-se do chamado Samora Moisés Ma­chel, actual Presidente da FRELIMO ? O pai reafirma que seu nome verdadeiro é Magarila. Que ele optou pelo nome Sa­mora, porque assim era conhe­cido. Que também nasceu ali, naquela «sua» terra, a 11 de Maio de 1932, numa palhota on­de, mais ou menos, fica hoje o edifício da Administração. Que Magarila tem um filho de cer­ca de onze anos a estudar em Lourenço Marques.
Comandante Machel, sempre lentamente, fala ainda dos ou­tros irmãos de Samora: de Boa­ventura Moisés Machel, nascido em 1936, a trabalhar numa la­vandaria em Benoni (Transval, África do Sul); e de Enosse Or­lando Machel, nascido em 1939, electricista, a residir no Sul de Moçambique.
Perguntámos subitamente se sabem que Samora é viúvo. Não mostraram espanto, mas a mãe, Thema Zimba, comove-se e cho­ra com visível comoção. Fica­mos convencidos que, tal como ainda recentemente afirmou Feliciano Dimbeju (ex-FRELIMO regressado de Nairobi com o apoio da Cruz Vermelha In­ternacional), eles sabem que Samora mandou envenenar a mulher, Josina Mutemba.
O pai de Samora, porém, in­flexível, quebra o gelo da situa­ção, continuando a falar, embo­ra com palavras ainda mais mastigadas: «Ele visitou-nos, pe­la última vez, no Natal de 1961. Nada nos disse do que pensava fazer. Nunca nos disse nada, tal como nunca escreveu. Nesse Natal, eu fiz grande festa, aqui mesmo, na minha terra. Mais tarde soube que ele foi para «outra parte». E meus olhos cho­ram e meu coração fica triste quando as pessoas vêm dizer o que o meu filho faz. Porque eu não gosto, e a mamã também, que ele ande na «outra parte».
E mais adiante: «E usei que ele tem muitos inimigos, muito perigosos. Que esses inimigos são os camaradas dele, os macondes e outra gente do Norte. Querem matá-lo. E isso traz sempre o meu coração triste. E o meu coração ainda sofre mais, quando sei que ele também tem medo...»
«Como sabe isso, se não rece­be notícias?», interrompemos.
O comandante Machel sentiu-se apanhado. Hesitou pela única vez. Mas respondeu mui­to lentamente: «Eu sei disso porque conheço o Samora».
«Acha que Samora poderá ga­nhar a guerra? E, se ganhar, poderá ser um bom presidente de Moçambique?» — indagámos ainda.
«Samora tem muitos inimigos ao lado dele», responde. Nunca pode conquistar Moçambique, que é muito grande. Também nunca poderia ser o governa­dor, pois para isso é preciso es­tudar em muitos liceus, ter muito saber. E Samora é ape­nas um bom enfermeiro.»
O pai do Presidente da FRELIMO, velho agricultor, aceita um dos nossos cigarros. Começa a desenhar-se mais confiança no seu rosto, enquanto disparámos a máquina fotográfica, e falá­mos da sua gleba.
Tem vinte mil metros quadra­dos de terreno, irrigados e apoiados tecnicamente pelo Ga­binete do Limpopo, que integra o maior núcleo de povoamento de Moçambique, incluindo a ci­dade de Trigo de Morais, uma dúzia de aldeias com todos os requisitos, uma Cooperativa Agrícola com cinco fábricas transformadoras. A sua terra, outrora estéril, está hoje inte­grada num dos maiores planos de irrigação do Ultramar português (cerca de 80 mil hecta­res) que lhe permite ser, por exemplo, a maior produtora de arroz, tomate e luzerna de Mo­çambique. Desse plano faz par­te a barragem de Massingir, obra no montante de 590 mil contos, em adiantada fase de construção.
Comandante Samora fala: «O Governo tem trabalhado bem. E eu colaboro, até nas «banjas» (reuniões das autori­dades com as populações), quando é preciso. Mas agora pedi mais 40 mil metros qua­drados de terreno, porque só assim poderei expandir à vontade a minha casa. Porque o meu filho mais novo, aquele que ali está, tem quatro meses. E meu irmão, Tanquisso Gabriel, também precisa de mais quatro hectares».
Estávamos a poucas horas das eleições para deputados à As­sembleia Nacional. Perguntámos ao pai do Presidente da FRELlMO se iria votar pelo Governo que o filho combate. “Voto pelo Governo Português, porque fez da minha terra uma grande terra”, salienta com energia. «Na­da percebo das ideias do meu filho. Só desejo mais quatro hectares para aumentar a gle­ba. E Samora pode voltar, que muita alegria dará aos nossos corações. Não sabemos se as autoridades lhe fariam bem ou mal. Mas pelo que vemos em relação aos outros, haviam de o receber bem. E eu e mamã havíamos então de morrer feli­zes...».



Novembro, de Jaime Nogueira Pinto


De Jaime Nogueira Pinto saiu recentemente "Novembro", obra que tem a vantagem de se apresentar como sendo de ficção, libertando o autor da inibidora máscara académica, mas que substituiu a historiografia e o memorialismo proibidos numa terra em que a memória só pode ser de esquerda e a historiografia não se aparta da genuflexão perante os mitos inatacáveis. Nogueira Pinto reúne muitas e estimáveis qualidades. É inteligente, culto, tem veia literária e tem chama, para além de nunca ter deixado transparecer medo na defesa das suas convicções, coisa tão rara em Portugal como um dodó. Nogueira Pinto nunca foi anónimo nem recorreu ao conforto da cobardia de um nome literário ou de um pseudónimo.

Jaime Nogueira Pinto é a outra parte escondida da geração do Maio de 68. Entre nós, essa geração teve Nogueira Pinto, Marques Bessa, Vale Figueiredo e o saudoso Rodrigo Emílio, um grande poeta, tão grande que trataram de o exterminar das letras portuguesas. Acompanhei, desde os meus 16 ou 17 anos, a obra de Nogueira Pinto. Os seus editoriais na Futuro Presente justificavam qualquer número da revista, os seus Direita e as Direitas, Visto de Direita e o best-seller Introdução à Política (I, II e III), lembrando um aguerrido Dicionário Político do Ocidente de finais da década de 70, são importantes contributos para a recepção em Portugal das correntes de uma direita culta europeia. 

Há quem diga que o autor e a obra são imiscíveis, ou antes, que o autor é indiferente à obra e vice-versa. Não concordo, pois o timbre da obra identifica a sombra do autor ausente-presente. No que toca a Nogueira Pinto, à sua pessoa e carácter, destacam-se a lisura, o gabarito intelectual mas, sobretudo, o seu bom carácter. Num país onde se premeiam as "boas pessoas" com o ferrete da imbecilidade, Nogueira Pinto é "boa pessoa" e é inteligente. Para mais, parece não haver na figura um choque entre as convicções expostas, os mitos que o mobilizam, a formação e a obra. Este Novembro consagra uma estreia literária e confirma uma grande pluma. Vai ficar certamente como o grito de libertação de parte de uma geração que foi impedida de participar de corpo inteiro na vida colectiva, que foi perseguida, silenciada e exilada por defender uma certa ideia de um Portugal ultramarino, integrador, fraterno e não-racista. Esse Portugal foi morto pela estupidez e má-consciência de alguma esquerda, mas foi-o também pela idiotia de uma certa direita anti-tudo, mal formada, mesquinha e de mau carácter, que nunca foi portuguesa, sempre detestou a especificidade portuguesa e nunca abandonou as primeira leituras adolescentes de coisas terríveis que despontaram na Europa nos anos 30. 

20 novembro 2012

Triste apotegma

"O meu avô disse-me uma vez que havia dois tipos de pessoas: as que fazem o trabalho e as que ficam com os louvores. Ele disse-me para tentar ficar no primeiro grupo, pois há menos concorrência".

                                                                                                                                Indira Gandhi

Efeitos devastadores da ignorância


Obama acaba de destruir num ápice a reputação de Aung San Suu Kyi aos olhos dos birmaneses. Ao abraçá-la e beijá-la em público no decurso da visita que realiza a Myanmar, gesto localmente interpretado como indecente - no Sudeste-Asiático um beijo a uma mulher coloca-a na condição de meretriz - Obama exibiu a absoluta inépcia dos serviços de assessoria de protocolo da Secretaria de Estado, confirmando tudo quanto se deixara entrever nos explosivos ficheiros divulgados pela Wikileaks. Beijar alguém, tanto mais tratando-se de uma viúva, significa, tão só, que essa mulher não é merecedora de qualquer respeito, que está disponível e, também, um preliminar ao acto sexual. No Ocidente há quem exulte com estas torrentes de abraços e beijos. Obama foi mais longe. Por duas vezes colocou a mão na cintura e por duas vezes a mão pousou sobre os ombros da anfitriã. Na região, porém, basta consultar um reles do's and don'ts para viajantes para compreender tratar-se de  interditos.
Infelizmente, os americanos são tolos, são ignorantes e absolutamente insensíveis à cultura.Ouve-se habitualmente dizer que as generalizações são sempre perigosas. Discordo. Em ciências sociais trabalha-se sempre com regularidades estatísticas. Há comportamentos colectivos - isto é, que se repetem por padronização - e Obama não terá feito nem mais nem menos que outro qualquer americano. A América, o que resta do Ocidente, parece não ter competência para carregar as responsabilidades de uma potência global.

19 novembro 2012

A monomania do 13º e do 14º


Bagão Félix não se cala e insiste. Tenho-o por homem sensato e inteligente, mas quando alguém vive obcecado por algo que é contrário à razão e ao bom-sendo - no vertente, o economista passou a adventista  - aconselha-se um retirozinho e um pouco de amor-próprio. O demónio teima em ensandecer aqueles que quer ver perdidos.

Não à Constituição, pela revolução


Há dois anos, preparando um dos capítulos da minha dissertação, ao consultar a tratadística birmanesa sobre cosmologia e filosofia do Estado e da política - sobretudo os textos de Maung Maung Tin, académico de envergadura intelectual agigantada - deparei com surpreendentes analogias entre o pensamento tradicional budista theravada e a teoria da história europeia pré-revolucionária. Para os budistas, o progresso não existe nem pode existir, dado haver uma ordem sócio-cósmica que se aplica à natureza e ao homem - daí a existência de conhecimento - e, como tal. inalterável. Os europeus têm, desde o século XVIII, exorbitado a importância das rupturas e das perturbações, tomando-as como nucleares. Ora, as perturbações são, sempre, conjunturais. No pensamento pré-moderno, as convulsões indicavam doença no organismo, pelo que exigiam reformas, o que quer dizer cura, recuperação do equilíbrio, retorno à normalidade.
Em Portugal, esse retorno (essa "revolução" / revolutio, acto de re-volver) chamava pelo nome de Regeneração. Foi em nome da Regeneração que os homens de 1640 sacudiram a monarquia dual, foi em nome da Regeneração que os vintistas exigiram no preâmbulo à Constituição de 1822 o restabelecimento das leis fundamentais da monarquia, foi em nome da Regeneração que Dom Miguel voltou de Viena para devolver aos portugueses a Lusitana antiga liberdade.
Depois, caiu sobre Portugal o progressismo. Há uma clara distinção entre ser-se progressivo e progressista. O progressivo exprime continuidade, ajustamento ao tempo, recuperação da vitalidade perdida. O progressismo, por seu turno, implica alienação, criação ex-nihilo (a partir do nada), perigo, ruptura, engenharia, experimentalismo. Onde antes, na monarquia, havia empirismo da Constituição histórica fundada em leis produzidas pela necessidade, passou a haver essa coisa programática, normativa, limitadora, imobilista e cronofóbica que dá pelo nome de Constituição (de 1822, de 1826, de 1838, de 1911, de 1933, de 1976). 
Por alguma razão, o único país europeu que não tombou no progressismo - o Reino Unido, que não tem outra Constituição que a Constituição histórica - é o mais estável, adaptável e bem sucedido regime numa Europa assolada por revoluções, pela cultura da "indignação" e pela rabugice inconsequente. É tempo de, nós portugueses, voltarmos à tradição da revolução e das leis históricas. É tempo de voltarmos à monarquia.

18 novembro 2012

Na rua também se vota


Em 1908, para demonstrar que a maioria esmagadora do país estava com a Carta e com o legítimo governo do Rei, Lisboa saiu pacificamente à rua em defesa da normalidade e das liberdades políticas ameaçadas pelos grupos terroristas republicanos.

Desde que Portugal se começou a desconjuntar, ou seja, em 1820, que a violência tem sido aplicada com uma regularidade quase geracional, com o argumento de que as mudanças, a ocorrerem, só se podem produzir mediante ruptura. Seria ocioso enumerarmos a sucessão de acontecimentos que desde o século XIX ao presente exprimem essa constante adesão de minorias a soluções expeditas. Para os adeptos da violência como instrumento da acção política, o derramamento de sangue anula ipso facto a legitimidade de quem governa e o império das leis, justificando o momento excepcional. Há, latente ou expresso em alguns sectores da vida política portuguesa, um desprezo quase epidérmico pela crença básica da cultura e do método democrático (como do liberalismo) que se funda na aceitação da vontade da maioria como premissa para o consenso/ contrato social. Hoje, calcando resultados eleitorais que datam de há pouco mais de um ano, essa tentação putchista, esse desrespeito pela voz das urnas e da representação saída das eleições de 2011 assume proporções quase indecorosas. Há gente que só aceita a legalidade se tiver por si a maioria. Há gente que se considera democrática, conquanto os outros se lhes submetam. Os resultados de 2011 são trocados ao desbarato por sondagens, os deputados da maioria desrespeitados por comentadores pagos e sem qualquer mandato, o governo e os seus ministros permanentemente insultados por gente que nada é.
O governo parece não se ter dado conta que os seus adversários já passaram da acção parlamentar para o escrutínio das ruas. Seria interessante saber se as forças que apoiam a maioria estão dispostas a uma prova de força nas ruas e, assim, neutralizar uma escalada que poderá vir a justificar uma ruptura anti-democrática em nome da "vontade geral" de partidos e grupos, que juntos, não ultrapassam 1/5 do eleitorado.