16 novembro 2012

Na morte de um grande português e diplomata, o Embaixador José Eduardo de Melo Gouveia (1930-2012)


A última manifestação da acção de Mello Gouveia, a Sala Thai em Lisboa

Morreu em Lisboa o Embaixador José Eduardo de Mello Gouveia, diplomata eficientíssimo, monárquico e patriota sem mácula, brilhante folha de serviços e um amigo que fiz. Mello Gouveia era oriundo de uma família com pergaminhos no serviço do Estado - o seu bisavô homónimo foi figura marcante da governação entre 1870 e 1890, ocupando funções ministeriais na Fazenda, na Justiça, na Marinha e Ultramar - e dele sempre retive expressões de grande argúcia, inteligência viva, uma graça sem par e raro conhecimento das coisas de Portugal no Oriente, onde foi Embaixador sucessivamente em Camberra, Bangkok e Tóquio. O seu último posto foi Bruxelas, mas não aceitou a reforma, logo oferecendo-se como Assessor Diplomático do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, funções que desempenhou como nenhum outro o poderia fazer. Lisboa ficou-lhe a dever muitos eventos relacionados com a divulgação e estreitamento de relações culturais com o Japão e a Tailândia, mas, sobretudo, a luta quase heróica que travou para conseguir a instalação em Belém do pavilhão em teca dourada que ali se inaugurou no passado ano, por altura das celebrações dos 500 anos de relações luso-tailandesas.


O palacete da embaixada de Portugal na Tailândia, reconstruído da quase-ruína por Mello Gouveia

Licenciado em letras, grande leitor e homem com quem cheguei a estar horas intermináveis falando da presença de Portugal na Tailândia, foi professor do ensino secundário e, em finais da década de 50, responsável pelo Boletim da Agência Geral do Ultramar, à qual emprestou o seu saber e energia transbordante, transformando aquela publicação em referência obrigatória para quantos se interessam pela presença de Portugal no mundo. Nos anos 60 ingressou na carreira diplomática, mas foi na década de 1980 que revelou o enorme potencial que guardaria até aos últimos dias. Quando em 1981 chegou à Tailândia, ali quase se haviam eclipsado os traços da presença portuguesa que fora hegemónica até meados do século XIX. Ficamos-lhe a dever a recuperação do majestoso edifício da representação portuguesa na capital do antigo Sião, o alindamento do jardim, a intensa actividade de estímulo à investigação e edição sobre a antiguidade das relações de Portugal com as potências regionais do Sudeste-Asiático moderno e contemporâneo, as escavações e criação do parque arqueológico da aldeia portuguesa na antiga capital (Ayuthaya), tarefa à qual se entregou com quase destemor, mercê do envolvimento que conseguiu da Fundação Calouste Gulbenkian. Como me disse um editor alemão fixado na Tailândia, "Mello Gouveia voltou a colocar Portugal no mapa". Foi dos raros diplomatas acreditados na Tailândia que mereceu a amizade do Rei Rama IX, que continuou a interessar-se pela sua carreira após o término da missão e lhe atribuiu a mais alta condecoração tailandesa - a de cavaleiro da Ordem do Elefante Branco - nunca antes concedida a um estrangeiro.


Não era, pois, um diplomata de papéis e intermináveis circunlóquios sem ponto de aplicação. Havia naquela inteligência um sentido prático e conversava como quem estivesse a despachar matéria diplomática, fazendo perguntas e pensando em soluções que dessem corpo ao redondo das conversas. Também não era um diplomata de trapos e poses, da fausse finesse que esconde nada. Era moderno, imaginativo e empreendedor. Coleccionador de arte asiática, detentor de uma excelente biblioteca e de arquivo de papéis que foi comprando ao longo de uma vida sem descanso - a ele ficámos a dever o empréstimo de peças da sua colecção, apresentadas ao público na exposição Das Partes do Sião - era daqueles raros homens que se abrem sem agenda à amizade. Dos inesquecíveis almoços que partilhámos, eu, o Professor Vasconcelos de Saldanha, ficou mais que a qualidade do anfitrião. Ficou, posso dizê-lo, uma quase-mágoa, pois o Embaixador gostaria de estar presente nas provas do meu doutoramento e sua edição. Assim não o quis o destino, mas Mello Gouveia ficará sempre marcado a estes longos anos da minha vida que dediquei a Portugal na Tailândia. Agora, Senhor Embaixador, trate de descansar.

Hora a hora Deus melhora


Afinal, tanta algazarra na capoeira nativa, com arrancar de cabelos e profetas a anunciar o fim do mundo antes de Dezembro e Portugal vai surpreender pela melhoria do rating. Sei que em tempos de crise os lunáticos, os tarados e toda a sorte de desclassificados e transtornados aproveitam os dez minutos de glória para saírem dos seus insignificantes buracos. As imagens colhidas em frente do parlamento são por demais elucidativas para que cada um saiba o que estaria destinado a Portugal se o discurso do ódio prevalecesse. Mas não vai, disso estou tão certo como o da subida iminente do rating. Hora a hora Deus melhora.

15 novembro 2012

Género e mentira


Só a imensa crosta de ignorância pode desculpar atrevimentos e mentiras que, de tão propaladas e repetidas, servidas para apascentar mitos e agendas ideológicas contemporâneas, teimam em ferir de morte a verdade histórica. Sim, porque aqui nesta casa, longe de efabulações e filosofices, somos estritamente adeptos de história descritiva, fundada em factos, acontecimentos, gente de carne e osso e documentos. Aqui não há Kants nem Hegéis nem Marxs: há factos. Ora, na imensa galeria de mentiras, mentirinhas e mentironas que se espalham como fogo no restolho cultural da sociedade portuguesa avulta, desonesto, impenitente e desavergonhado, o mito da inferioridade da mulher na sociedade portuguesa antiga. Há dias, foi em boa hora nomeada uma senhora para relevante cargo na diplomacia portuguesa. Muito bem. As mulheres portuguesas são, na sua generalidade, muitíssimo mais esforçadas, capazes e empreendedoras que as suas caras-metades masculinas. Porém, no foguetório de panegíricos e ditirambos que então se produziu na imprensa, não havia quem não afirmasse mais esta conquista. 

Descartando com gosto a breve, pelicular mas teimosa cinta de convenções burguesas, que não ultrapassam os 100 anos e escondem a frondosa floresta da história nacional, a verdade é que as mulheres foram, nesta terra, do nascimento da nacionalidade até meados do século XIX, um poderoso pilar da sociedade portuguesa. Estiveram ou foram decisivas em momentos axiais da nossa vida colectiva, dominaram o poder político, tiveram lugar cimeiro na vida cultural e tiveram, até, parte activa nas mais relevantes decisões. O mito mais glosado - uma mentirona - afirma que as mulheres estavam apartadas da actividade cultural no Portugal Antigo. Então, porque razão em todas as cidades portuguesas havia sempre, sem excepção, uma "Rua das Mestras" ? Mestras, sim , professoras. Então, ninguém se lembra de Públia Hortênsia de Castro, prodígio da Universidade de Coimbra, um dos vultos que maior sulco deixou no Renascimento português ? Então ninguém se dá conta, nos índices de nomes e profissões dos livros de portarias da Torre do Tombo que por ali há centos de mulheres que se dedicavam ao ensino ? Ninguém se lembra do rol interminável apresentado por Frei Luís dos Anjos no seu Jardim de Portugal em que se da noticia de alguas sanctas & outras molheres illustres em virtude (...), ou dessa imensa figura que foi Bernarda Ferreira de Lacerda, expoente da Restauração, latinista, poetisa, panfletária influentíssima ? E, porque não, lembrar também D. Leonor de Almeida Portugal (Alcipe) e a sua Sociedade da Rosa, um verdadeiro cripto-partido no Portugal pré-revolucionário do fim do Antigo Regime.
Se os entusiastas da mentira pedem mais, ora, atirem-lhes à cara as heroínas de Diu (Isabel Madeira, Isabel Fernandes, Catarina Lopes e Isabel Dias), mulheres soldados do batalhão feminino que empurraram muralha fora os atacantes, batendo-os em terreno descampado ? Ou ainda, porque não, de Antónia Rodrigues, agraciada e condecorada por D. Filipe II por feitos de armas realizados em Mazagão.

Compreenderá então o(a) caro(a) leitor(a) esse reles ódio machista e burguesito que o século XIX votou a Dona Carlota Joaquina, chefe de partido, mulher de armas, de sim e não que, enquanto viva, impediu o que se seguiu: uma guerra civil que destruiu para sempre o país.É fácil fazer filosofice. Mais difícil é queimar as pestanas. Ora, tratem de estudar.

14 novembro 2012

A batalha do rail


Hoje, na linha de Sintra, vários troços de carril foral levantados para impedir que os trabalhadores - ou seja, aqueles que não são delegados sindicais, que vencem com ou sem greve - chegassem aos seus lugares de trabalho.

O gestor das greves


O homem não se cala. Destila ódio por todos os poros e tem a agravante de se pavonear de gravatinha pelos piquetes de intimidação, com ar de quem vai à comunhão ou à quermesse de domingo no coreto do jardim municipal. Agora dá-se ares de dótor das greves, gestor de paralizações, empreendedor de desastre económico. O tal Arménio qualquer-coisa - antes fosse um Gulbenkian, que trouxe milhões para Portugal - faz a perfeita caricatura do sindicalismo bas fond destinado, não aos trabalhadores, mas aos profissionais que vencem para não-produzir. Hoje vi longas filas aguardando o autocarro, milhares calçando ténis deslocando-se a pé para os seus postos de trabalho, outros milhares saindo de casa às sete da manhã para não perderem o precioso dia de trabalho. O canelado Arménio, esse desloca-se de piquete em piquete, gravatinha à puxar ao pingarelho, perorando sobre a greve enquanto "investimento no futuro".Carvalho da Silva, que nunca aprendeu a falar correctamente o português, esse, pelo menos, sendo duro, não era nem rasca nem odioso como o Arménio qualquer-coisa. Ao pé de Arménio, Carvalho da Silva era um Kant, um arquiduque, um príncipe. Com sindicalismo à batalha do rail esta terra não vai a parte alguma.

13 novembro 2012

Alter-história: D. Manuel II encheu auditório da Biblioteca Nacional


Um quarto de hora antes da sessão, sala cheia para prestar tributo a Dom Manuel II

Não houve cadeiras para todos quantos, em hora de ponta, contrariando o derrotismo, o quebranto e as lamúrias de um tempo de cinzas, acorreram esta tarde à Biblioteca Nacional de Portugal para ouvir o Professor Artur Anselmo discorrer com graça, erudição e precisão sobre a figura do Rei Dom Manuel II, patriota, homem limpo, bibliófilo e bibliógrafo de renome internacional, cuja obra continua, oitenta anos após a sua morte, a reunir a aclamação de quantos se interessam pelo livro antigo português. Apresentado pelo Professor Nuno Pombo, presidente da Real Associação de Lisboa, Artur Anselmo riscou o retrato psicológico de um homem que dedicou a vida a servir Portugal. Como monarca empurrado para o doloroso exílio; logo como estudioso da história portuguesa, colecionador de incunábulos e autor de Livros Antigos Portugueses - ainda hoje referência obrigatória para a história do livro e dos alvores da imprensa em Portugal - D. Manuel II foi um modelo de seriedade, ponderação e serviço. 


A primeira parte da exposição dedicou-a o conferencista à biografia do Rei. Servindo-se de copiosos exemplos retirados da epistolografia trocada entre D. Manuel II e nomes de primeiro plano da vida académica portuguesa do primeiro quartel do século XX, ofereceu a imagem de um homem prudente, que nunca se imiscuiu na intriga política, sempre protestou  lealdade ao seu país e colocou acima dos seus direitos a paz, a unidade nacional e os supremos interesses da pátria. D. Manuel, disse Anselmo, é hoje unanimemente reconhecido por monárquicos e republicanos como um fiel intérprete do interesse colectivo. No exercício, como no exílio, foi um monarca sempre em busca do equilíbrio. Fiel ao juramento como monarca constitucional, compreendeu que a Restauração - a ocorrer - só poderia ter origem no apaziguamento e extinção dos ódios velhos que dilaceram a sociedade portuguesa desde 1820. Em 1916, quando Portugal interveio na Grande Guerra, D. Manuel II pediu a união de todos os portugueses, decretou trégua política, pediu aos seus apoiantes que se alistassem no Exército e foi intermediário entre o governo português e os Aliados.


Mas a biografia intelectual de D. Manuel II foi, talvez, ainda mais rica e perdurável. Homem cultíssimo, fez avant la lettre estudos de história do livro, num tempo em que tal área do saber ainda mal dera os primeiros passos. Intuitivo e certeiro nas questões que levantou na vasta obra historiográfica que deixou, infelizmente inconclusa, D. Manuel II determinou as condições para um conhecimento seguro sobre a instalação da arte negra (tipografia) em Portugal. Anselmo acrescentou que, ainda hoje, a obra deixada por D. Manuel II emparceira com os nomes mais marcantes da história do livro - Vitorino de Pina Martins, Francisco Leite de Faria, João Alves Dias - e que, sem uma ruga, é repositório de saber que exige a atenção dos historiadores da cultura portuguesa. D. Manuel II gastou o que tinha e não tinha para reunir a segunda maior coleção de obras de tipografia portuguesa dos séculos XV e XVI, apenas superada pela existente na Biblioteca Nacional.  Deixou-a em testamento ao seu país e hoje a livraria do Rei encontra-se em Portugal, à guarda da Fundação da Casa de Bragança.
Um fim de tarde de grande elevação cívica e patriótica, quase fazendo esquecer a decadência do Portugal de hoje. Se o país tivesse seguido o exemplo daquele bom, honesto, inteligente e sensato jovem monarca, hoje estaríamos certamente mais cultos, mais serenos, prósperos e civilizados.


CDS mete o ferro


O CDS disse, limpo e sem rebuço, aquilo que sucessivas décadas de tandem PSD-PS fizeram pela coutada da RTP: centuriaram, enriqueceram nulidades, mantiveram-nas e acumularam-nas. A RTP transformou-se num armazém de maus gestores, maus administradores, péssimos produtores, deploráveis jornalistas. O resultado está à vista. A RTP não presta serviço público. Existe, é tudo. É tempo de a reformar do tecto às fundações, rever o conceito fundacional, devolvê-la aos portugueses. Se assim não for, não vale uma missa. Para má televisão, bastam a SIC e a TVI, expoentes na arte de encanalhar o país.

12 novembro 2012

A inteligência do povo: uma mulher portentosa

Entrevista a O Clarim de Macau


MIGUEL CASTELO-BRANCO DEFENDE TESE DE DOUTORAMENTO SOBRE AS RELAÇÕES LUSO-TAILANDESAS

Macau foi importante no redesenho do Sião

Fez investigação histórica, consultando importantes acervos de Portugal, da Tailândia e do Cambodja. Viveu três anos em Banguecoque, onde aprendeu a falar, ler e escrever Tailandês. Na tese de doutoramento, em Inglês, que irá defender perante um júri internacional, em Janeiro do próximo ano, Miguel Castelo-Branco não esquece o importante papel que Macau desempenhou na construção e manutenção do Estado que deu origem à actual Tailândia. Até porque – segundo disse, em entrevista a’O CLARIM – «Macau será sempre, para os tailandeses, um pedaço da sua relação com o Ocidente».


O CLARIM – No início de 2013 irá apresentar a um júri internacional, na Universidade Técnica de Lisboa, a sua tese de doutoramento sobre as relações entre Portugal e o Sião, no chamado período Banguecoque. Por que razão escolheu os acontecimentos decorridos entre 1782 e 1939?

MIGUEL CASTELO-BRANCO – Na historiografia portuguesa têm merecido prioridade os séculos XVI e XVII. Sobre a permanência dessas relações nos séculos XVIII, XIX e XX, pouco ou nada se fez. O período mais recente, ou seja, o período Rattanakosin (Banguecoque), riquíssimo em fontes documentais existentes nos arquivos portugueses e tailandeses, bem como em colecções francesas, britânicas e macaenses, merecia investigação aturada. Foi o que fiz e o resultado desse trabalho lança nova luz sobre a intensidade e profundidade do impacto de Portugal na actual Tailândia.

CL – Curiosamente, parece não incluir o Chefe de Estado mais antigo do mundo ainda em exercício, o monarca tailandês, Bhumibol Adulyadej (Rama IX), que ascendeu ao trono a 9 de Junho de 1946...

M.C.B. – O último capítulo da tese dedica uma trintena de páginas às relações entre Portugal e a Tailândia, após a Segunda Guerra Mundial, não deixando de aludir à visita do Rei Rama IX a Portugal, em 1960; à passagem por Banguecoque do embaixador Mello Gouveia (repensou com pleno êxito o lugar da representação portuguesa no País); e às recentes comemorações dos 500 anos de relações luso-tailandesas.

CL – Como classifica as relações do Sião com Macau, entre 1782 e 1939?
M.C.B. – O Sião de Rama III, Rama IV e Rama V continuou a entender Macau como um objectivo permanente da sua política externa. É preciso não esquecer que Rama IV deu prioridade ao estabelecimento de um consulado siamês em Macau (em detrimento de Hong Kong), que partiram de Macau para o Sião vagas sucessivas de futuros quadros superiores dirigentes do Estado siamês do período das grandes reformas (1855-1910) e que sucessivos governadores de Macau – por inerência ministros plenipotenciários, junto da corte de Banguecoque – foram intermediários nas tensas relações entre o Sião e as potências europeias no Sudeste-Asiático, sobretudo a França e a Grã-Bretanha.

CL –Qual o episódio mais marcante? 
M.C.B – Destacaria, entre tantos, o importante papel dos conselheiros macaenses no redesenho do Estado siamês durante os reinados de Mongkut (Rama IV), Chulalongkorn (Rama V) e Vajiravudh (Rama VI). Diplomatas, militares, juristas, mas também empresários de sucesso, fotógrafos e músicos macaenses, emprestaram a Banguecoque parte do fascínio cosmopolita que permitiu a sobrevivência do Sião, enquanto Estado independente no momento da preia-mar do imperialismo europeu na região.

CL – Como vê as actuais relações da Tailândia com Portugal e Macau? 
M.C.B. – O estatuto de «Potência Histórica» que mantemos junto dos tailandeses não é conjuntural, nem ditado por mero interesse comercial. A prová-lo, a atenção com que a família real tailandesa seguiu as celebrações do meio milénio de relações entre os dois países. Quanto a Macau, será sempre, para os tailandeses, um pedaço da sua relação com o Ocidente.

CL – Como desenvolveu a sua investigação?
M.C.B – Para que o meu estudo não se confinasse à redutora e parcial perspectiva portuguesa oferecida pelas colecções da Biblioteca Nacional de Portugal, da Torre do Tombo, da Biblioteca da Ajuda e do Arquivo Histórico Diplomático, estive em Banguecoque ao longo de três anos, ali aprendendo a falar, ler e escrever o «thai» para desenvolver investigação nos Arquivos Nacionais da Tailândia, mas também no quase desconhecido Arquivo da Igreja Católica. Estive, também, em Phnom Pehn, onde – escapados às razias de Pol Pot – localizei importante safra documental sobre os luso-khmers (parte do «Império Invisível Português», que estudo com pormenor na tese) e, depois, nas Missions Étrangères de Paris, Dos mais de três mil documentos recolhidos, transcritos e estudados resultou um trabalho que estimo inovador e rompe com a ideia miserabilista de uma sempre falada «decadência» de Portugal.

BIOGRAFIA
Miguel Castelo-Branco, nascido em Lourenço Marques, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Concluiu mestrado em História Cultural e Política, na Universidade Nova, e possui ainda uma especialização em Ciências Documentais, também pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É técnico superior da Biblioteca Nacional de Portugal, foi assistente universitário e bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 2007 e 2010. Assinou, entre outras obras, «Homem Cristo Filho: do anarquismo ao fascismo» (2001); «Antes da Playstation: dois séculos de literatura de aventuras em Portugal» (2003); «Os Portugueses e o Oriente (1840-1940): Sião, China, Japão» (2004); «The Portuguese-Siamese Treaty of 1820» (2011); e «Das Partes do Sião» (2011), esta em co-autoria com o professor António Vasconcelos de Saldanha.




11 novembro 2012

Afinal, quem é o verdadeiro Chefe de Estado ?

A Aurora Dourada portuguesa


O grupo estalinista-trotsquista que não responde pelo nome conta já com treze anos a espalhar dissimuladamente ódio pela sociedade portuguesa. Não se trata de um partido, na acepção convencional, mas de uma seita, assentando a sua existência na exaltação do grupo de ruptura - num "nós" e os "outros", os inimigos; ou seja, todos quantos não fazem parte do grupo - e a verdade que proclama prescinde de explicitação externa ao grupo. Como em todas as seitas, o importante é pertencer ao grupo purificado, superior aos "outros" e que se julga vítima de permanente complot contra os justos (aqueles que detêm a verdade). Trata-se de um estado de hipnose e irracionalidade lúcida que se se identifica com o Bem, perante o qual todos quantos não sejam tocados pela pistis (a fé do grupo) representam o mal. Ouvi-os falar ao longo de dois dias e não percebi que modelo do sociedade advogam, que sistema económico subscrevem, qual o seu conceito de Estado e o que fariam se o poder lhes viesse parar às mãos. Para as seitas, o tempo não existe; ou antes, existe apenas um futuro radioso e difuso, ao qual não se sabe exactamente como se chegará. Não têm programa e as proclamações que deles se ouvem são meras colagens de tropismos, aquilo a que vulgarmente chamamos de bom-senso: que o homem deve ser feliz, que a justiça deve ser cega, que cada um deve ter um posto de trabalho, uma casa, assistência médica e educação. Contudo, por detrás da mais estreita vulgaridade burguesa - porque se trata de gente burguesa, que nunca trabalhou com as mãos - há um New Age religioso, tácita aceitação de violência construtiva, do espezinhamento das normas, das leis e das convenções nascidas e crescidas à sombra do mal. É a Aurora Dourada, versão portuguesa.