02 novembro 2012

Gente de 10 no oráculo


Há muitos anos, o Independente publicou a biografia de um certo comentadeiro que em tempos foi presidente do PSD, agora um dos mais ouvidos críticos do governo. O homem terminara a primária com 10, fizera o ciclo preparatório com dez, o curso geral dos liceus com 11, o complementar dos liceus com dez e o curso de Direito com 10. Nem mais, nem menos: 10 valores. É esta a gente que opina, faz guerrilha, analisa, condena, propõe e alvitra. A gente do 10. Se alguma vez terminasse o que quer que fosse com 10, emigrava para o Baluquistão.

01 novembro 2012

Conselheiros e pró-ministros estrangeiros contratados


Conde de Lipe, reorganizador do Exército Português

Como esta gente da comunicação social e do parlamento é de uma ignorância espantosa, há que esclarecer que a contratação de peritos estrangeiros não é coisa nova, nem anti-patriótica, nem é sinónimo de dependência, colonização ou ingerência. É praticada há mais de três séculos e pode, até, ser agente de fortalecimento do Estado e do país.
Deve ou não Portugal recorrer a peritos estrangeiros para a realização de reformas profundas do Estado? A questão está na ordem do dia e concita reacções violentas. O PS e as restantes bancadas da esquerda opõem-se a qualquer interferência de técnicos contratados. Por mim, tenho por adquirido que essa é a única via para redesenhar o Estado. Em abono da verdade, a questão é que não há Estado há mais de trinta anos e, se o há, é o Estado dos partidos e das clientelas que vivem disto. Em Portugal, após décadas de subversão do lugar e papel do Estado, não há serviço público, a superioridade do Estado foi usada e abusada por interesses e agendas que nada têm a ver com o interesse colectivo e qualquer reforma anunciada entra em colisão com lóbis, grupos, panelinhas e interesses de campanário. Há sempre uma tia, um irmão, um amigo, um cunhado, pelo que tocar na Saúde, na Justiça, no Ensino, na Defesa ou na Cultura implica entrar em coutada alheia.

A figura do conselheiro técnico estrangeiro foi prática comum no século XIX, sobretudo em Estados desejosos de integrarem a comunidade internacional e em busca de reconhecimento pleno, num tempo em que a todos eram reclamadas provas claras de aceitação do modelo ocidental. Tal como no Japão Meiji, na Pérsia dos Qajar, no Egipto dos kedivas Tewfik Pascha e Abbas II ou ainda na China do movimento de auto-fortalecimento – cujo maior animador foi o Príncipe Gong – o Sião de Chulalongkorn e Vajiravudh recorreu a centenas de peritos estrangeiros para conceber reformas estruturais, aplica-las e monitorizá-las, treinar quadros e permitir a transferência de tecnologias, mas igualmente para assistir os governantes em delicados processos negociais com as potências ocidentais. Antes, no século XVIII, os governos recorriam a estrangeiros - sem vínculo familiares, sem interesses a defender - para introduzir novos processos de governança.
Esse trabalho de redesenho do Estado era animado pelo declarado propósito de fazer avançar reformas genéticas que permitissem aos estados queimar etapas. Os meios disponíveis eram escassos, pelo que para o escalonamento das prioridades foi necessário criar uma hierarquia de conselheiros que garantissem efectiva arrumação orgânica do processo de mudança e permitir fiscalizar os vários planos de desenvolvimento. Como o governo se encontravam quase inteiramente nas mãos da parentela real – irmãos, meios-irmãos e, depois, filhos do Rei – ou da alta nobreza, importava que os conselheiros detivessem margem de liberdade para fazer aquilo que os naturais não podiam. No caso português, é manifesto que a elite nativa não consegue produzir reformas. Está manietada, tem medo ou está conluiada com interesses profundamente enraizados, pelo que a única solução é o recurso a gente não comprometida, ou seja, estrangeiros. Quem disser o contrário está a mentir, ou, se preferirmos, a lutar pela preservação de privilégios oligárquicos que não querem abrir mão das regalias de casta que se foram encastelando.

31 outubro 2012

Velhas pechas portuguesas ou aqueles que desdenham do patriotismo


Na apologia que precede a Década 4.ª da Ásia, João de Barros - talvez o inventor do patriotismo português - desabafava as mágoas que lhe haviam causado o entusiasmo e o ciclópico trabalho a que dedicara trinta anos da sua vida. Não sendo o cronista do Reino, mas feitor da Casa da Índia, redigiu as quatro primeiras décadas sem receber qualquer recompensa. Os seus inimigos não lhe perdoaram. As murmurações perseguiam-no, acusando-o de aplicar o seu tempo em ofício que não era do interesse do Rei.
"E junto [d'El Rei Midas = D. João III], (...) uma mulher chamada Calúnia, que é a falsa acusação. E logo junto dele, juíz [Rei], estavam duas mulheres, que eram a Ignorância e [a] Suspeita; e a figura da Calúnia estava mui afeitada por mãos de duas moças que tinha junto de si, chamadas Traição e Insídia, que espreitava vidas alheias; a qual Calúnia estava mui furiosa e indignada (...). E diante da Calúnia ia uma mulher já mui velha, disforme em figura torpe e vil em hábito, que via muito, chamada Inveja".
Sem poder responder directamente aos seus detractores, Barros lembrou a história da calúnia de Apeles (pintor da Antiguidade que fora difamado junto do Rei Ptolomeu), o qual, para se defender, pintara numa tela um animal que reunia todas as características dos seus inimigos. "Tem [esse animal] mais por condição ranger por inveja, ladrar por ódio, morder por vingança e, o que é pior, é que ninguém lhe sabe em que parte há-de sossegar e quietar o seu espírito, porque, quando o quer fazer, anda redondo, até que se enrosca à maneira da cobra"(1).
Barros foi o criador da historiografia ultramarina, género discursivo empolgante, grandioso e patriótico que Camões certamente terá lido. Num tempo em que o os soldados práticos campeavam e em que o serviço do Rei justificava a riqueza fácil, poucos lhe perdoaram ter vivido imune ao demónio do ouro, ele que vivia cercado das riquezas que afluíam da Ásia a Lisboa. Barros escreveu as Décadas sem outro interesse que o edificante, contar os feitos e glórias que doutro modo se perderiam na memória da humanidade.
Ou não conhecemos, todos nós - aqueles que tentam fazer algo pelo país - o latir desse animal que Barros tão bem conheceu ?

(1) Andrade, António Alberto Banha de, João de Barros: historiador do pensamento humanista português de Quinhentos, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1980..

30 outubro 2012

O naufrágio da Bounty e a parte boa da América


O terrível furacão que se abateu sobre Nova Iorque deixou um rasto de morte e destruição avaliado em biliões de dólares. Mau grado todos os defeitos de carácter inscritos na sua matriz cultural, os americanos são gente tenaz e forte. Decerto tirarão partido da calamidade e farão negócio, impulsionarão a economia, darão trabalho a dezenas de milhares, salvarão milhares de companhias em risco de insolvência e darão uma lição ao pieguismo de meio-mundo. A parte boa da América vai certamente revelar a que ponto  aquela gente sabe arregaçar as mangas e fazer uma vitória de um desastre. Ao tomar o pequeno almoço, sentou-se ao meu lado um casal dando largas à mais sórdida exultação pelos feitos de Sandy na Big Apple. Naturalmente, viram naquela tragédia uma vingança dos elementos contra os EUA. Só me apeteceu despejar-lhes em cima a chávena de chá.

No meio, o afundamento da réplica da Bounty, palco para um dos mais impressivos momentos da cinematografia de inícios da década de 1960, protagonizada por Marlon Brando e Trevor Howard, fita que vi e revi dezenas de vezes e comprova a inultrapassável qualidade da filmografia made in USA.

29 outubro 2012

Grandezas pretéritas: já ninguém lembra o boticário de Dom Manuel I



Passaram este ano 500 anos sobre o início da redacção da Suma Oriental, de Tomé Pires (c.1468- c.1540). Infelizmente, tão importante acontecimento passou quase despercebido pela nossa academia e pelo movimento editorial, marca do alheamento e incúria que nos vão lentamente alienando das referências, dos homens, dos factos, circunstâncias e ideias que fizeram outrora a grandeza de Portugal no mundo. Que eu saiba, só a Biblioteca Nacional lembrou a efeméride. Com os poucos meios disponíveis, organizou-se uma mostra. Tomé Pires merecia um congresso, mas parece haver coisas mais importantes para quem detém o sim e o não das coisas da cultura. Lembrando tardiamente a passagem desse acontecimento, aqui transcrevo passagens do texto que então escrevi sobre o boticário do Rei Dom Manuel. 

Mandado à Índia em 1511 como “feitor e vedor das drogarias”, passou sucessivamente por Cochin (1511-1512) e Malaca (1512-1513), onde inquiriu, com descrição minuciosa, sem adornos de estilo, mas incontida inclinação para o humor – e até para a revelação de coisas escabrosas para a sensibilidade do tempo – a origem e atributos das drogas e especiarias que faziam a fortuna da Coroa. Missão cumprida e cabedais amealhados, foi-lhe negado o regresso ao Reino por Lopo Soares de Albergaria, que o mandatou para encabeçar uma embaixada à China por ser o “mais hábil e apto que podia ser, para além de ter pessoa, e natural discrição com letras, segundo sua faculdade, e largo de condição, e aprazível em negócios, era curioso de inquirir, e saber as cousas, e tinha um espírito vivo para tudo” (João de Barros). Nas Lendas da Índia, Gaspar Correia dele informava tratar-se de homem “muito prudente e muito curioso em saber todas as coisas da Índia”. Porém, a missão à China foi um clamoroso fracasso, pois no Império do Meio perdeu-se-lhe o rasto, após execução dos seus companheiros por ordem dos mandarins, e ali terá placidamente morrido, já entrado nos anos, deixando como filha uma Inês de Leiria, que Mendes Pinto encontraria em 1543 no decurso da sua Peregrinação.

Giovanni Battista Ramusio dera conta da existência da Suma no seu Navegazione e Viaggi. Em meados do século XIX, o texto foi referido pelo Visconde de Santarém nos seus Estudos sobre Cartografia Antiga, sem contudo a ter podido consultar nem indicar o seu paradeiro, pelo que a obra só ressuscitou para os vivos pela mão de Armando Cortesão em finais da década de 1930, quando o manuscrito há muito perdido foi finalmente identificado na Biblioteca da Assembleia Nacional de França. Tão surpreendente como a descoberta do manuscrito, foi a aventura e deambulações por que passou até chegar à biblioteca onde actualmente repousa. Da biblioteca de Dom Jerónimo Osório, bispo de Silves e figura proeminente do Humanismo português de Quinhentos, fora parar às mãos de um corsário inglês – talvez em finais do século XVI – e depois vendido a um bibliófilo francês que o arrematou em Londres . O exemplar terá sido confiscado e nacionalizado por alturas da Revolução em França. Armando Cortesão dispôs-se e publicá-lo, mas e primeira edição foi publicada em língua inglesa em 1945. Em Portugal só conheceria a letra de forma em 1976.

28 outubro 2012

Os Amigos do meu pai e os outros


Não posso deixar de aqui referir gestos de amizade de alguns bloggers a respeito do falecimento do meu pai, sobretudo das pessoas que com ele conviveram e trabalharam. A todos, muito obrigado.