27 outubro 2012

Jornadas parlamentares da maioria


Foi boa a ideia, esta das jornadas parlamentares do PSD/PP, pois lembra que há uma maioria eleita há pouco mais de um ano - escrutinada, constitucional, legal e legítima - e que não há lóbi, não há comandita, "rede social", catilinária e difamação periodiqueira que a possam desalojar. Tenho seguido as intervenções, escrutinado a linguagem física e gestual dos deputados e tudo indica ter sido retomado o controlo emocional , após meses consecutivos em que a rua, os enragés (agora crismados indignados) e a irracionalidade dos opinadores fundibulários e demais jihadistas do quanto-pior melhor fez do país uma nave de loucos em busca do naufrágio nos baixios da mais chã estupidez.
Destas jornadas começa a contra-ofensiva. Que se faça em todas as frentes, pois a governação não é um futebol. À porta, como sarcófilos, os pobres dos senhores jornalistas fazendo perguntas sobre o caso relvas e a lixófila, demonstrando que este é um país de cismas e teimas, inacessível ao bom-senso e que requer paciência infinita. Lembro ter um dia passado uma tarde inteira a dar ordem unida a um pelotão de recrutas que não sabia distinguir o pé direito do pé esquerdo. Depois de horas a explicar a direita e a esquerda, recorri ao velho método da pedrinha na mão esquerda e lá aprenderam a distinguir os dois hemisférios. Assim é o país. O governo que faça pedagogia e muita propaganda, colocando na consciência de cada cidadão-rei a pedrinha negra na mão esquerda e, com o tempo, lá aprenderão.


Nótula: pela noite, no Eixo do Mal, os pândegos comensais de Balsemão sem graça e sem inteligência, inesperado comedimento nas palavras e no reles. Parece, decididamente, que as jornadas tiveram o efeito pretendido. A ressequida e pergaminhada Clara Ferreira Alves - que o meu querido pai dizia estar cada vez mais parecida com Ramsés II - entreteve-se em reparar piramidal flatus vocis (referira-se a Zenão como "Zénon"), os seus convivas repetindo à náusea piadas que já tiveram o seu tempo e até o Daniel Oliveira, o único com circunvoluções naquela estafada trupe de ouomine di paglia (ou seja, momos, palhaços), subitamente privado da loquacidade habitual.



26 outubro 2012

A América que os liberais não querem ver


A Grécia está a viver involuntariamente o sistema de saúde norte-americano. Com o esgotamento dos recursos e o encurtamento dos meios para assistir aos doentes que acorrem aos serviços públicos, já só sobrevive a um cancro quem tiver meios para se deslocar a clínicas privadas nos países circunvizinhos ou quem se tiver a ventura de ser socorrido pela Igreja Ortodoxa Grega. Nos EUA, quem não tem seguro de saúde, não sobrevive. Morrem, todos os anos, 50 000 pessoas sem assistência médica - ou seja, 115 pessoas por dia - facto que coloca os EUA no quadro negro de infâmia da OMS. Li há tempos que 30% da população norte-americana padece de cáries jamais tratadas e que os 39 milhões de pobres dependem da instituições de caridade. A cultura da pobreza e da exclusão explica os 50% de ausências nos escrutínios eleitorais, os 27% de analfabetos no Tennessee (25% no Arkansas, 24% no Alabama), o primeiro lugar dos EUA nas estatísticas mundiais do crime, a maior população prisional do planeta. Há quem ainda persista na doce falácia do "sonho americano", sem atentar que o país das oportunidades se aproxima perigosamente dos Estados do terceiro mundo. Os nossos entusiastas da América lembram cada vez mais os incondicionais da antiga União Soviética: obnubilaram.
Há, decididamente, qualquer coisa de sórdido nos EUA; o centro do império apodrece.

25 outubro 2012

Já só falta conversar, falazar, falazar


O 31 é o fado, 
eterno e cantado ai, 
como nenhum. 
Desde a Abissínia ao Japão, 
aquilo hoje é pão, 
só há 31.

Chegou à Rússia e à China, 
em Espanha domina, 
e chega a Irún. 
Ai meus filhos em Baiona, 
ai que tapona, 
que 31. 

[refrão]
Vai-se a Pequim, 31, há chinfrim. 
Vai-se a Ceilão, 31, revolução. 
Vai-se a Nanquim, 31, há motim. 
Vai-se a Aragão, 31, cachação.
O 31 hoje em dia é comum, 
é tudo a dar, a cascar, a arrear;
Em Portugal  é que é só,
conversar, falazar, falazar.

Em Portugal, este fado,
ergueu no passado
um hino ao zum-zum.
À porta da Brasileira,
a trova guerreira era o 31.
Depois, veio o 28,
e foi-se o biscoito, a bomba e o pum.
Ficou tudo sossegado,
morreu o fado do 31.

Beatriz Costa, O polícia 17, de Arre Burro, 1936

23 outubro 2012

Victor Wladimiro (1934-2012): pelo meu Pai


c. 1954

Victor Wladimir, que as disposições legais obrigaram a ser Vítor Vladimiro Ferreira, nasceu em Lourenço Marques a 27 de Junho de 1934, onde frequentou o Liceu Salazar, esperando depois que na colónia se constituísse faculdade, onde cursou Letras. Desde os seus treze ou catorze anos foi convocado pelas musas, tendo convivido - sempre o mais novo das tertúlias - com os os atormentados pelas humanidades, a gente dos livros, dos jornais e da Rádio Clube de Moçambique, onde colaborou com Manuela Arraiano. Queriam que seguisse ciências, como o irmão mais novo, mas  sempre preferiu os livros (que não fazem cabedais) aos negócios, que sempre viu como escola de atropelos e safadezas. O rapaz preferia Reinado Ferreira (filho), abandonara-se a Balzac, Baudelaire, Zola e Sue e aos 17 anos dele se queixavam que preferia Camilo aos bailes, aos namoros, às praias do Índico e ao Clube Naval, onde só terá ido meia dúzia de vezes. Mal imaginava que Camilo lhe entraria pela vida ao conhecer Ana Plácido, com quem se casou em 1958. Tiveram três filhos, pelo que, para prover o sustento da família, empregou-se na SONAP, fazendo do que não gostava e lidando com a insípida gente das compras, das vendas e publicidades. Ali, foi escolhido por Jorge Jardim, então estrela ascendente, que nele notou particularidades de excelente conversador, devoção pelos livros e pela História. Jardim era um trabalhador fanático e por vezes, pelas duas ou três da manhã - horas proibitivas para a pacatez colonial de Moçambique, onde todos se deitavam às dez - irrompia pelo gabinete do Víctor e ali passavam horas de conversa sobre o passado e o presente de Portugal. Víctor era das esquerdas - optimista, amante da liberdade, igualitário, simpatia pelos oprimidos, não racista, pacifista, irreligioso mas nunca anti-católico (os filhos foram sempre inscritos em Moral e Religião, colocou-os no coro dos Pequenos Cantores da Polana e na catequese) - mas de um esquerdismo jamais ensanguentado pelo marxismo, preferindo-lhe os socialismos utópicos, Kropotkine e Tolstoi, que leu até ao fim da vida. Porém, como quase todos os filhos e netos de colonos, tinha um amor profundo pelo Portugal distante, que era ali, pelo que, sem contradição, sempre foi monárquico. Do Duque de Bragança, Dom Duarte Nuno, recebia todos os anos pelo Natal um cartão de boas festas. No dia em que Salazar morreu, em 1970, o pai entrou-nos pelo quarto e disse-nos que não brincássemos. "Morreu um grande homem". Ao fundo, na rádio, ouvia-se música fúnebre. Víctor estivera com Delgado em 1958, fizera parte das mesas de escrutínio, mas sabia separar e separar-se dos ninhos do ódio político, pecha indecente da nossa vida política.

A vida foi correndo. Mudanças de casa, um moderado desafogo, amigos indianos, mulatos e brancos (alemães e italianos exilados) - até excelentes amigos sul-africanos, que vistávamos anualmente - e conversas sem medos sobre a "situação", onde se diziam coisas que hoje calamos deste democrático regime. Por prazer, dava aulas e explicações em casa e no colégio ao lado de casa, preparando dezenas de filhos e filhas de vizinhos para o latinório, o grego, a literatura portuguesa e a história. Foi sentado na alcatifa que ao longo de anos, com cinco, seis, sete anos, o ouvi sábados e domingos exercitar os explicandos para as provas fatais do 7º ano dos liceus.
Em 1973, amigos chegados informaram-no que os nossos dias estavam contados, que se conspirava, que o nosso mundo estava por um fio. Nunca confiou em Spínola - sempre o achou "um parvalhão" - e achava que a guerra em Moçambique, a ter de ser feita, devia levar a "um novo Brasil". No dia 25 de Abril, já os de véspera exorbitavam em demonstrações de euforia, Víctor disse à minha mãe: "Ana Maria, prepara-te, vamos sair daqui, pois esta terra vai deixar deixar de ser nossa". Quando souberam que o Víctor Wladimiro ia abandonar, os FICOS ficaram furiosos, mas mais agastados os frelimeiros e os "democratas de Moçambique" - brancos, ricos e tontos, que julgavam poder manter em África a vida de outrora. Em inícios de Agosto, bateu-nos à porta uma delegação da FRELIMO. Vinham para lhe pedir que ficasse, que tinha bom nome, que sempre fora um homem correcto e fizera nome como amigo de artistas, letrados e jornalistas, mesmo daqueles [negros] que raramente pisavam casa de branco, como era o caso de Malangatana, amigo de sempre. Um dos enviados chegou a convidá-lo para ministro da cultura do "novo Moçambique". Víctor despediu-se cortesmente, dizendo-lhes que era português e em Portugal haveria de morrer. A 30 Agosto de 1974, sem ajudas, sem subsídios, saiu de Moçambique. Uma semana depois, Lourenço Marques explodia em sangue e massacres. A Moçambique não mais regressaria.




c.1995

Chegámos a Portugal no zénite dos dedinhos em V, das fraternidades dos amanhãs cantantes. Para nós, ninguém olhava. Após 100 anos fora do retângulo, ninguém nos conhecia, ninguém de nós queria saber, para lá, claro, dos insultos e da estúpida maldade dos recém-conversos, como aquele taxista que, apercebendo-se que aquele casal com três crianças desconhecia onde ficava o Rossio, os pôs fora do táxi dizendo "fora daqui seus bandidos exploradores de negros". Ou ainda, em plena travessia do Tejo, a bordo do batelão que o levava a Alcochete, quando distraidamente, pensando na penúria em que vivíamos, se pôs a arrancar um papel meio-tombado que se desprendia  da popa. Era um cartaz do PCP e quase o mataram, ameaçando que o deitariam borda-fora. Foi necessária a intervenção da Polícia Marítima, que o retirou de bordo. Não sabiam os justiceiros que aquele "fascista" vivia no Parque de Campismo de Monsanto, numa roulotte de 6 metros quadrados, sem aquecimento e sem água e que o "fascista" estivera desempregado quase um ano - obrigado a vender livros de porta em porta - até arranjar um lugar como professor na Escola Preparatória na vila de Alcochete, escola onde os alunos entravam e saíam pelas janelas e os pais  se lhes referiam ternamente como "a cabrada".

Professor

Em meados de 1975 - o país perdera o controlo, ninguém podia prever as próximas 24 horas - fomos chamados altas horas da noite por um conhecido, por acaso um empregado de um proprietário absentista, que nos pediu que ocupássemos uma casa no Campo Grande, num prédio secular que a LUAR ocuparia na manhã seguinte. Lá fomos em tropel ocupar a casa. Dali, todas as madrugadas, Víctor saía a pé, atravessava a Avenida da República até ao Marquês de Pombal para dali apanhar o autocarro para o Terreiro do Paço, de onde apanhava o cacilheiro para Alcochete. De Alcochete vinha às sete da noite para a Faculdade de Letras, para completar uma qualquer mesquinha imposição de "aferição de conhecimentos", pois "aquela gente lá de Moçambique não sabia". Em Letras, conheceu o Professor António José Saraiva, que lhe deu 18 e 19 e o convidou para seu assistente. Foi uma fúria para muitos quando o viram entrar numa casa onde não dava aulas quem não possuísse cartão de partido.

"Recordo que na FLL correu o boato de eu - por me chamar Wladimiro e não ser comunista nem filho de comunista - devia ter sangue russo, dos russos-brancos, pois claro. Assentei de cabeça e confessei à puridade que descendia dos príncipes ucranianos, os Dolgurouky, que tinham fugido à Revolução de 917! Como eu me ri com essa treta! Então, não é que poucos dias depois um dos "catárticos" me veio perguntar se era verdade! Confessei-lhe que não mas - como Ferreira que era - talvez pudesse estar aparentado com os Ferreirinha da Régua de que sempre ouvira o meu pai falar. A família do meu Pai chegou à Barca de Alva, chegada não sei de onde, e tinha uma compleição muito diferente da dos nativos que eram pequenos; a gente do Douro fronteiriço com a Espanha será, possivelmente, arraçada de judiaria.
Na época mal sabia eu que era verdade pois a nora da D. Antónia Ferreirinha - que ainda surge nos rótulos do vinho do Porto Ferreirinha - era irmã da D. Ana Plácido, tua 6.ª avó!!! Só o descobri muito mais tarde bem como uma lenda? "estória", "invenção" acerca dessa mesma D. Antónia Cândida que sofreu tratos de polé às mãos do Ferreirinha de que há, ainda, descendentes, uma das quais, a Isabel, é a viúva do Sá-Carneiro! " (Dezembro de 2009)

Em Letras leccionou as cadeiras de História da Cultura Portuguesa Moderna e Contemporânea, sendo também docente nos centros de apoio universitário da FLL no Funchal, Beja e Castelo Branco (1979-1987) e membro do júri dos exames ad hoc de acesso ao ensino superior (1977-1989). O Víctor Wladimiro fez sulco. Ainda hoje, trinta anos depois, recebo de antigos alunos elogios ao seu magistério, à sua proverbial faceta de grande orador, cultura enciclopédica e facilidade em travar amizades [e inimizades] com meio mundo.Nunca se calou, tinha sempre opinião e a ele todos recorriam para pedir, para opinar, para resolver um problema de secretaria, para fazer umas horas extraordinárias, para dar aulas a candidatos ao had hoc - foram milhares de horas dadas em casa a centos de futuros ingratos que o esqueceram - e até para impedir que colegas fossem trespassados naquelas guerras infames que em Portugal se movem às pessoas. Era amigo dos novos senhores, como sempre se deu, sem qualquer medo, com aqueles que haviam sido saneados e depois readmitidos em inícios da década de 1980 (Veríssimo Serrão, Borges de Macedo). Um dia, o velho mobbing, a terrível inveja que faz razias. Aguardando defesa de doutoramento, uma comandita assestou-lhe o golpe mortal. O mandante ? Um catedrático que nos visitava semanalmente. Os executantes? Muitos daqueles que ele convidara para assistentes. Eu conheço a história, pelo que guardo o anonimato dos ingratos.
Depois, foi convidado para director da Comissão Instaladora da Escola Superior de Turismo (1991). O ensino sempre o atraiu como a luz e já em 2004, aceitou funções de docência na Associação de profissionais de educação do Norte Alentejo (2004).

Autor

Ao longo dos anos foi deixando obra. De Manuel Teixeira Gomes, trabalhando com Urbano Tavares Rodrigues e Helena Carvalhão Buescu, reeditou, anotando e prefaciando Agosto Azul (1986), Cartas sem Moral Nenhuma (1988), Sabina Freire (1987), Regressos (1991), Miscelânea (1991), Maria Adelaide (1992), dela publicando também uma Epistolografia de Manuel Teixeira Gomes para Afonso Lopes Vieira (1999). De Roque Gameiro, o Álbum de Costumes Portugueses (1987), de Alfredo Mesquita, Lisboa (1987), de Júlio César Machado, Aquele Tempo (1989), Contos ao Luar (1992) e um Júlio César Machado no Oeste (1996) e  um Júlio César Machado, estórias e paparocas (2000). De Luís Augusto Palmeirim, a velha e então quase esquecida Galeria de Figuras Portuguesas (1989), de Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, 1986, Memórias, 1986 e, de sua autoria, No Monte com Bulhão Pato (2000). De Tomás Ribeiro, o quase inacessível D. Jaime (1990) e de Fialho de Almeida, O Enterro de D. Luís (1998).
Em 1998, nos 50 anos do Centro Nacional de Cultura, coordenou Portugal nas Artes, nas Letras e nas Ideias 45-95, balanço de meio século de vida cultural portuguesa em que colaboraram, entre outros, Guilherme de Oliveira Martins, Rui Mário Gonçalves, António Laginha, Fernando Pinto do Amaral.
Em 2006, saiu a Sociedade Portuguesa de Autores: uma casa de memórias (2006), obra de grande fôlego que lhe exigiu anos de pesquisa, mas que a SPA publicaria sem indicar o nome do autor. Coisas de direitos autorais ! Ultrajado por tão indigna atitude da entidade, deixou-me sentida dedicatória: "muitos e muitos meses de pesquisa e de frustração (...)".
Escreveu dezenas de prefácios, estudos introdutórios, notas e comentários espraiados por obras literárias, ensaios, estudos monográficos, álbuns de fotografia, obras historiográficas, tantos que deles  não poderei aqui fazer cotejo. 
Deixa, por terminar, a sua obra magna, a história do teatro e dos teatros lisboetas de finais do século XIX. 


Actividade editorial

Foi director editorial da Ediclube (1991-1995), onde tentou uma linha editorial de qualidade, publicando, entre outras o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, clássico de José Pedro Machado, de 13 volumes (1990),o Atlas do Mundo: cartografia antiga fundamental, dirigida por Luís de Albuquerque (1992) e a História de Portugal dirigida por João Medina (1993). Em finais de 1997, aceitou a co-direcção da revista literária Sol XXI (1998-2007).


Periodismo

Foi autor de programas sobre História e cultura no Canal 2 da RDP (anos 70 e 80), colaborador do JL (Jornal de Letras), da revista História (década de 1980), do Boletim da Casa de Camilo (anos 70), da revista Arquelogia e História, da Associação de Arqueólogos Portugueses (década de 80), da Revista da Faculdade de Letras (anos 70 e 80), Olisipo, boletim do Grupo de Amigos de Lisboa (década de 1990), colaborador  da revista de cultura e pensamento Boca do Inferno (1997-2001) da Câmara Municipal de Cascais - onde publicou um “Bisturi de Bordalo ou de como o Poder se perdia pela graça…”, (1997), “Um peregrino no Mediterrâneo. Le séjour et les écrits de Manuel Teixeira Gomes à Bougie (1931-1941)”, 1999 e "Manuel Laranjeira em auto de fé" (Abril de 2001), da revista do Centro de Estudos Camilianos (década de 1990), da Tempo Livre do INATEL (década de 90), deixando também artigos na revista Metrópoles: revista da área metropolitana de Lisboa (c. 2005-2006).


Activismo cultural
Foi membro do Centro Nacional de Cultura, ali promovendo e proferindo palestras, colóquios, seminários e visitas de estudo, foi membro da direcção da Associação dos Arqueólogos Portugueses, colaborador da Associação Helen Keller, colaborador das vereações da cultura das câmaras municipais do Bombarral e Sintra, membro do Conselho Consultivo da Fundação Marquês de Pombal e doador do Museu do Trajo. Proferiu centenas de palestras, aninou charlas, fez comunicações em congressos, preparou congressos, colaborou com bibliotecas, museus e casas-museu.


Bibliofilia
Não sendo rico, sentia prazer que raiava o entusiasmo em percorrer em longas jornadas os alfarrabistas e antiquários em busca de raridades bibliográficas, sendo figura cativa em todos os leilões. Reuniu uma importante biblioteca - cerca de 30 000 volumes - especializada em história local, corografia, teatro, literatura portuguesa de Oitocentos, memorialismo, biografia e arte, dela sendo importante núcleo as colecções completas de revistas e jornais literários portugueses, do século XIX à actualidade.

2012

Sem desencanto, mas sem esperança

A nova classe dirigente
"Eu e o Nuno rimo-nos muito ontem de manhã; assistimos pela TV à cerimónia da assinatura do pomposamente chamado "Tratado Reformador de Lisboa"; só visto! O Nuno chegou a dizer que o Màrio Soares era um Senhor ao pé da ralé que governa a Europa. Não concordo lá muito com isso. Não se trata de ralé, mas muito pior, de uma micro burguesia foleira, grosseira, pindérica e analfabeta que discursa banalidades. O último a chegar foi o Sarkozy; sabes o que fez? saiu do carro, voltou as costas a quem o esperava junto à entrada dos Jerónimos e foi conversar com os jornalistas! Uma ministra dos Negócios Estrangeiros de um dos 27 - não consegui descobrir de quem se tratava - chegou com um vestidinho estampado e aconchegava-se num casaquinho de malha muito apertado, assim a modos de quem vai à Ribeira comprar grelos. Alguns dos chefes de estado e de governo, eram enormes - creio que vindos dos países que irromperam na Europa Central e/ou no Báltico -, encaixavam-se em casacos muito apertados e a mole de carne imensa de cada um deles rebentava-lhes por fora do corpanzil e tinham um ar mesmo pândego; uns mequetrefes que mais pareciam integrar uma procissão de abortos em exibição. Safavam-se alguns, claro: o Min. dos Neg. Estr. da Grã-Bretanha ( O Gordon Brown - que esteve para ser marido da princesa herdeira da Roménia!) só veio no final do almoço no Museu dos Coches. Diz o Nuno que o pagode ministerial nem olhou para os coches! Estavam todos muito contentes com uma "mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma"! Uma saloiada à portuguesa! Afinal, à europeia! Está tudo, cada vez mais igual!" Dezembro 2007

A loucura da riqueza que nos trouxe a desgraça



"Então, digam lá, se ser político não compensa? Como é que há tantos a esmerarem-se em trabalhar pelo Bem!
Que os santos do catolicismo, os apóstolos da credibilidade, da justiça e da pureza da fé calvinista, os santos eremitas dos desertos africanos, os devotos de Alá, os seguidores de Buda, Confúcio, até de Wall Street e da City, o bendito Sr. Berluscoti mais a sua corte de carnudas e apetitosas coelhinhas, a malta de copo de cerveja na mão pelas noites de Lisboa e que encanta os papás babados.. etc! Tudo, todos, benquistos merecedores dos melhores encómios e até merecedores de criarem mais prosélitos e devotos!
Parabéns, temos figura! Bendita seja a vara em causa. Não podes imaginar como me sinto feliz! Está tudo de ananazes (!), aliás, uma "seca" como escrevia o Eça. Não recorro ao Camilo porque esse recorria a uma terminologia mais canalha se bem que bem adequada; nem levanto mãos ao Bordalo que os desenhava como bem mereciam.
As fortunas que se tem feito por aqui! " Novembro 2009

A doença do lutador: não parar, nunca

"Como te disse lá fui ao Congresso dedicado ao Rafafel e que tinha vários estrangeiros que fizeram comunicações. Depois da "faladura" fiquei apenas uns instantes. Estava tão cansado, tão cansado, que não podes imaginar. Tive, porém, que fazer sala mesmo que por instantes para não ser indelicado com quem me recebeu tão bem. Sabes, tenho vivido tão recolhido que não é possível "reentrar" sem complicações, até porque não sei se desejo regressar a um passado que muito me atormentou. No caminho para o carro - que me atrevi a guiar até Caxias! -, ardia como carburante em chamas, vítima de cansaço e de dores.


Mal cheguei a Caxias meti-me na cama; parecia que o corpo estava todo partido; só depois de estar no conchego dos cobertores é que me pus a ver os meus apontamentos e a rememorar os meus destemperos; verifiquei, então, que não disse metade do que queria dizer e que falara do que não devia.

Depois dos meus sucessivos males saí da UN mais confortado". Novembro 2009


Duvidar das proclamações
"Como vês, há de tudo. Não são as convicções políticas que definem as pessoas. E, como sempre te tenho dito, o regime também o não consegue. Há de tudo e em todos os cantos. Infelizmente, a actual massa portuguesa não é nada que se destaque. Mudando-se o regime, não será por aí que a tal "massa" se tornará melhor. Depois, a demasiada sede ao pote, sempre causa desatinos e o regresso dos fantasmas do passado e o Dom Duarte já deve ter uma boa dose de pesadelos para o resto da vida, muitos dos quais que devem vir dos tempos do exílio do D. Miguel I e das carências que a sua descendência teve quase até aos nossos dias. Carências financeiras? Não só!" Outubro de 2007

Esquerda e direita
"Como toda a gente sabe, os políticos - de esquerda e de direita - tem sempre quem os prepare para o enfrentamento inquisitorial da comunicação social, para que não caiam nas armadilhas que lhes tecem. Não vale a pena vivermos na lua; o Mundo está terrível e há que ter os pés bem assentes no chão para que eles e o resto do corpo se aguentem até ao final dos dias". Dezembro 2010

Victor Vladimiro não recebeu em vida qualquer homenagem, nem comenda, nem doutoramento honoris causa, nem favor algum dos governantes. Não foi membro de qualquer partido ou movimento político, não ocupou quaisquer funções de favorecimento, não fazia parte de redes informais de promoção. Morreu absolutamente nu de facciosismo.

O meu pai partiu. Hoje, quando o funeral vindo da Igreja de Laveiras Caxias) chegar ao Cemitério dos Olivais pelas 16.30 horas, lembrarei num ápice tudo o que meu deu mas, sobretudo, que foi, talvez, um dos homens mais livres, tolerantes e ingénuos que o pobre Portugal de hoje teve, sempre, disposto a ensinar, a ajudar e servir sem pensar em lugares e dinheiros. Pai, descansa em paz.



21 outubro 2012

A prisão constitucional


O texto tem sido responsável por todos os bloqueios da sociedade portuguesa. Datado, programático, insusceptível de se adaptar ao mundo, redigido por legisladores que não conheciam o país, ao invés de ser um instrumento de liberdade, transformou-se na prisão dos portugueses. 
As constituições escritas são coisa do tempo de Condorcet, fundadas nos enunciados do jusnaturalismo e na  preocupação de limitar a monarquia e de destruir os corpos sociais do Antigo Regime. Hoje, todas sem excepção, são manifestamente impotentes. Hirtas, vigilantes, interventivas e cheias de tabus e interditos, impõem-se à realidade e são por excelência a imagem da repressão.
Só isso explica que um Orçamento Geral do Estado, instrumento político de um governo legitimamente referendado pelas urnas, se tenha de submeter ao Tribunal Constitucional e seus fariseus. Jorge Miranda, o sumo sacerdote do culto, chega ao extremo de pedir análise da suposta inconstitucionalidade da alteração dos escalões do IRS. As pessoas adoram a servidão.
A Constituição de 76 foi redigida por homens demasiado novos (Vital Moreira tinha 32 anos, Jorge Miranda 34, Gomes Canotilho 34, Mota Pinto tinha 39) para evitarem o esquematismo ideológico e a tentação utópica. Hoje, a Constituição de 76 é uma distopia.

E por falar em Camilo


Ana Plácido, em foto de A. Fillon, inspiradora da sanguínea de António Carneiro, nova aquisição da colecção Ângela Camila Castelo-Branco / António Faria, a quem devo o privilégio desta première. O livro repousando sobre os joelhos, óculos caídos sobre corpete em bico em trajo de verão II Império, ainda sem sombra do recato da pragmática do puritanismo victoriano. 
A grande mulher detrás da mais refractária, tumultuosa e vibrante figura da cultura portuguesa de Oitocentos, em imagem praticamente desconhecida de camilianistas e de profanos.