29 setembro 2012

A matinée das tv's


O comício da CGTP, do qual se disse faria três ou quatro vezes a Praça do Comércio, mas não chegou a uma, acabou como começou: em nada. Foi o comício das novas matinées das tv's em busca de programa grátis, não teve a alimentá-la a "classe média" da manif de há quinze dias. Se por ali passou a "classe média", depressa arrepiou caminho, pois a CGTP é um mundo antediluviano. Fala Arménio Carlos em tom de falsete. Estilo pobre, tiques e frases-feitas,velhas de décadas, enroladas nas mesmas banalidades, demagogia que espanta pelo primarismo, ausência de uma solução, exploração do sentimentalismo, ódio de classe,  inveja de cervejaria, tinta de bolchevismo envergonhado. Tudo terminou com a convocação de uma greve geral, o mais estafado dos mitos oitocentistas.
Arménio fez um grande favor ao governo e terá feito arrefecer os entusiastas dos messianismos burgueses que se expandiram ao longo das últimas semanas em boas-novas e flores de miosótis, pedindo novos 25's de Abris e novos 1.º's de Maios que terminariam inapelavelmente em novos PREC's.
O ajuntamento da CGTP, punho cerrado e Internacional, demonstra a que extremos de indigência chegou o "movimento sindical", reduzido ao funcionalismo público, às câmaras empregadoras, aos reformados e aos estivadores que vencem 3 e 4 000 Euros por mês. Para quantos pensavam ainda num golpe de Estado - definitivamente inviabilizado na reunião do Conselho de Estado - este ajuntamento terá sido suficientemente eloquente. Lembrou que, em Portugal, tudo começa e acaba com a ligeira distância que separa o sublime do ridículo. O governo pode voltar ao trabalho.

25 setembro 2012

A Campanha da Rússia na Biblioteca Nacional


Apresentação do catálogo na sessão presidida pelo Embaixador da Federação da Rússia e pela Directora-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal.


A águia bicéfala do Império Russo e a águia napoleónica encimando gravuras de Alexandre I e Napoleão I, abrindo a mostra hoje inaugurada em Lisboa, sessão que contou com a presença do embaixador da Rússia em Portugal. 
Memórias dos marechais de França, cartografia, gravuras, documentos provenientes dos arquivos russos e portugueses, assim como gazetas portuguesas de 1812-14, testemunhos da campanha que culminou com a expulsão da Grande Armée de solo russo e marcou o início do fim do domínio francês sobre a Europa. 


A batalha de Borodino, ferida a 7 de Setembro de 1812, o mais feroz choque militar da campanha e onde se perderam dezenas de milhares de vidas. A Legião Portuguesa participou na batalha, ocupando o centro do dispositivo atacante de Napoleão, perdendo meio milhar de homens. 

 A prática napoleónica de cunhar medalhas comemorativas de feitos militares iniciou-se em 1797, tradição inaugurada durante o reinado de Luís XIV e inspirada na medalhística romana da antiguidade. No decurso da Campanha de 1812 foram cunhadas seis medalhas, sendo a mais conhecida a Entrée a Moscou, XIV Septembre 1812, gravada por Bertrand Andrieu.


Cavaleiro da Legião Portuguesa, estampa aguarelada de Berger Levrault.


Uniforme do Regimento de Cavalaria 1, modelo 1806, que se veio a transformar no Regimento de Cavalaria da Legião Portuguesa, sob o comando do marquês de Alorna.

 Terçado francês, modelo regulamentar do ano XI para infantaria ligeira. Guarda em latão fundida em uma só peça em forma de D e punho com caneluras.


Ofício, do Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, datado de 31 de Agosto de 1812, para o Generalíssimo Kutuzov e para o Comandante do 1.º Corpo de Exército, Príncipe Wittgenstein, para que divulgassem a proclamação assinada em S. Petersburgo pelo representante de Portugal, apelando à deserção de militares portugueses integrados na Grande Armée.


Carta, do Rio de Janeiro, datada de 25 de Junho de 1814, do Príncipe Regente de Portugal,para o Imperador Alexandre I, comunicando que o Embaixador Extraordinário junto da corte russa, marquês de Marialva, fora encarregado de transmitir ao monarca russo felicitações por ocasião das vitórias sobre o exército napoleónico.

A entrada da Rússia na vida europeia em mostra na Biblioteca Nacional

Com o patrocínio da embaixada da Federação da Rússia, a Biblioteca Nacional de Portugal apresenta a partir de hoje ao público uma mostra documental intitulada "1812: a Campanha da Rússia", oferecendo ao público um percurso documental sobre esse acontecimento axial do nascimento da Europa contemporânea.

Foi produzido catálogo anotado, precedido por textos da autoria do embaixador da Rússia em Portugal, Pavel Petrovskiy e Lyubov Melnikova, Investigadora Chefe do Instituto da Historia da Rússia e membro da Academia das Ciências da Federação da Rússia. Enquanto comissário da mostra, coube-me seleccionar, catalogar e descrever as peças expostas, assim como o texto explicativo sobre as origens e consequências do conflito, do qual retiro um breve excerto.

"Um tema ainda marcado pela paixão

Dois séculos passados, a Campanha da Rússia de 1812, parece resistir aos proclamados princípios que distinguem o labor historiográfico de outras formas de saber. A deontologia que obriga os investigadores manifesta-se, sempre, através de veementes manifestações de isenção, limitação da paixão e do irracional, compreensibilidade e explicação dos factos; em suma, o estudo da história não consente explicações lineares, simplistas e apaixonadas.
Contudo, como lembrou Marc Ferro, independentemente da sua vocação científica, a história exerce outras funções, nomeadamente terapêutica e militante, abeirando-se do senso comum, produzindo imagens poderosas, servindo causas, justificando, anacronizando e fazendo leis, naquilo a que Popper chamou de miséria do historicismo. Se a história só interessa pela actualidade que repercute e se os “acontecimentos” só subsistem se transformados em “memória” dos agrupamentos humanos – das sociedades, das nações e dos Estados – a necessidade da história torna-se fenómeno cultural cujos factores são psicológicos, morais, políticos e ideológicos.
A Campanha da Rússia, pela diversidade de aspectos, é tema rico, ainda havido como marca identitária contemporânea. Subsiste a ideia de uma fronteira entre o Ocidente e o Oriente, sendo a Rússia tida como limite físico da Europa; o “mundo russo” equivale a vastidão, exotismo, “misticismo”, medos e fantasias: o gelo, a estepe, as hordas tártaras e cossacos, o “despotismo”… – o que as ideias literárias dos séculos XVIII e XIX, aliás sem marcas de envelhecimento, permitiriam substanciar.
2012 tem sido um ano de celebrações, de iniciativas e festividades: entre os russos – a Guerra Patriótica, assim cunhada ainda na primeira metade do século XIX por Mikhailovsky-Danilevsky, enquanto marco da identidade nacional e exemplo; e também entre os franceses, que nela identificam o fim da hegemonia da França sobre a Europa.
O entendimento que hoje se poderia fazer da contenda, encarada não apenas como conflito militar, mas antecâmara de uma Europa em busca do concerto da paz - que o Congresso de Viena e até a Santa Aliança inicial quiseram consagrar – colide com surda resistência de quantos mobilizam mitos, velhos de séculos, persistem em entender a campanha à luz de preconceitos de natureza civilizacional.
A dificuldade francesa, pese a importância e inegáveis méritos de muitos académicos especializados na matéria napoleónica, reside no facto dessa era continuar a ser interferidos por uma persistente indústria napoleónica, que se espraia sob a forma de obras de divulgação, sítios-web e blogues, associações de recreio entusiastas de militaria, jogos de guerra e miniaturismo, tour packages napoleónicos e revistas de divulgação – a mais recente das quais, Vive l’empereur, surgida em finais de 2011, afirmava no seu manifesto de intenções que “nous nous démarquerons résolument de la legende noire de Napoleón” – bem como conferências, simpósios internacionais e seminários organizados por institutos, círculos e associações de natureza mais testemunhal que académica. (...)"



24 setembro 2012

Compreender Marco Aurélio


O opiniarismo político transformou-se em pequena sofística e terapia ocupacional para a generalidade dos nossos concidadãos. Cada qual sentencia e detém a fórmula mágica para a crise em que Portugal mergulhou. Contudo, não foi um acordar sobressaltado, pois a generalidade dos catastrofistas de hoje são figuras cativas da indústria da análise. Confesso que os acidentes e minudências da vida política não me interessam e há muito que cultivo o meu jardim secreto, afastado da agenda política, das caras e carantonhas dos noticiários. Tudo é fugaz - os modos, as estridências, as polémicas, as cruzadas - e dentro de três ou quatro anos, questões que empolgaram, fracturaram relações, ensanguentaram tribunas, reduzir-se-ão a pouco mais que nada.
A actividade política - ressalvadas excepções - é uma arte paupérrima. Aqueles que a ela se dedicam são, amiúde, enganados pela exaltação do momento, pelo que me espanta que pessoas lidas, educadas e inteligentes consumam o brevíssimo tempo da existência em vãos torneios. A arte maior consistirá em criar distância perspectiva, evitar o tumulto, deixar barafustar os que não têm vida interior e fazer algo por nós, algo que justifique os 70 ou 80 anos que passamos nesta vida.