22 setembro 2012

O meu último livro: Portugal na Campanha da Rússia


No bicentenário da invasão da Rússia pela Grande Armée, campanha que precipitou a queda de Bonaparte e o fim da hegemonia política francesa, evoca-se o embate entre um projecto autoritário de unificação da Europa - construção artificial mantida pela força das armas - e o único Estado europeu com meios para de se lhe opor. O conflito foi moderno nos meios tecnológicos aplicados, total pela indiferenciação entre combatentes e não combatentes e anunciador das grandes guerras do século XX, pelo peso que nela tiveram a propaganda, a contra-informação e os movimentos da opinião pública. A Campanha de 1812 foi algo mais que uma guerra de proporções até aí jamais vivida; acontecimento marcante da consciência identitária da nação russa, revelou à Europa o poderio russo, consagrando-o como um dos pólos do equilíbrio europeu. Na Campanha participaram milhares de soldados da Legião Portuguesa, empurrados para a aventura russa que foi, para a quase totalidade, viagem sem regresso. Em consequência da derrota de Napoleão na Rússia e das sublevações nacionais anti-francesas que se lhe seguiram, germinaria no Congresso de Viena a primeira tentativa para um acordo para a preservação da paz no continente envolvendo em concerto todos os estados europeus. 

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21 setembro 2012

As quatro desgraças


Houve um tempo em que a sociedade portuguesa se sustentava sobre quatro instituições: a Igreja, o Exército, a Universidade e a Justiça. Delas provinham o exemplo, a marca da competência, o aprumo e o serviço. Hoje, por mais que queira, sobrelevadas as excepções que se contam pelos dedos, não vejo grande diferença entre um sacerdote, um general, um catedrático ou um juíz e um jogador de futebol, uma caixeira-balconista, um manga-de-alpaca ou um repórter dos tablóides. A única igualdade que reconheço é a do mérito. A igualdade que nos impuseram - estatística, terraplanada, anti-meritocrática - exibe um ódio exterminador pela qualidade, pela diferença e pela superioridade. Este abaixamento generalizado não só impede o reconhecimento das excepções, como as combate, sufoca e anula. Estamos mergulhados no esplendor da mediocridade. Não, não é o Zeitgeist, pois por outros azimutes surgem grandes nomes. É a atmosfera em que fomos nados e crescidos. Se foi este o "país novo" que cantaram, bem podem limpar as mãos à parede. Haverá saída para isto ?

Os senhores das moscas


Glosando Golding, excelente ocasião para lembrar o mal como predisposição intrínseca aos homens - outros chamar-lhe-ão genética, outros ainda etologia - verifico que cândidos trombeteiros da liberdade, da democracia e dos sacrossantos altares do individualismo não resistem à comoção do tumulto e das multidões. De sorridentes burgueses, transformam-se em feras, calcando em dias tudo quanto delas havíamos reunido em abono de inteireza de carácter, inteligência e disponibilidade para conhecer o mundo na sua variedade de aspectos. 
Sempre adepto da distância higiénica, da cautela e da reserva, comprovo - experiência dos anos - que os homens não se podem conhecer pelos adornos teóricos que proclamam, sejam estes políticos ou religiosos, mas pelo carácter. A vida dá-nos eloquentes testemunhos e ensinamentos. A maldita pulsão assassina, o demónio em forma de rouxinol invadindo a cela do ermita. 
No fundo, não passam de pirralhos. Aprendam, estudem, trabalhem e cresçam. 

20 setembro 2012

Coisas menores

Investimento estrangeiro ? Não resolve o problema da dívida soberana ! Aeronáutica em Portugal ? Antes fosse para projectos de intervenção artística, para animação de espaços públicos, OTL's e um observatório do estuário do Arado.Revitalização da actividade mineira em Portugal ? Ouro no Alentejo? E não há verbas e estímulos comunitários? Quimeras dessas não interessam. 
Enquanto continuarmos assim - raivosos, protestatários, negativos - não vamos a sítio algum.

Regimes há que sabem sair com a máxima dignidade, outros não. Regimes há que deixam um esteio de glória; outros não. Regimes há que marcam uma era; outros que só deixam ruínas. Regimes há que deixam nostálgicos; outros, só deixam traumatizados


19 setembro 2012

Será Portugal um Estado falhado ? A terrível pergunta que todos evitamos formular


Sociedades há que, tendo funcionado ao longo de séculos, são subitamente acometidas por incontroláveis forças internas de desagregação. A este fenómeno chamam os sociólogos de anomia - incapacidade de viver em conjunto, de estabelecer objectivos comuns - aplicando-lhe os politólogos o conceito de "Estado falhado". O conceito de Estado falhado recobre um largo espectro de modalidades e manifestações epifenoménicas, as quais não apresentam forçosamente relação entre si. Surdas, imperceptíveis, as tensões e a incomunicabilidade vão-se acastelando, provocando comportamentos de rejeição de viver em conjunto, de renúncia da identidade colectiva, até se corporizarem em corpus doutrinais irreconciliáveis . Inicialmente, os indícios parecem circunscritos a indivíduos, mas, depois de instalados, logo que transformados em sub-cultura, abrem porta ao enfrentamento. 

Não estamos, certamente, a entender o fracasso de uma comunidade organizada em Estado como uma guerra civil, em que dois grupos se batem pelo domínio do Estado, mas nunca assumindo a possibilidade de romper com a unidade de destino. Muitas são as guerras civis que, no desenlace, permitem o revigoramento da unidade social e da autoridade do Estado. Porém, há sociedades que, não chegando ao extremo de uma guerra civil, perdem a vontade de subsistir, se alheiam da unidade, recusam o nós. Procurando compreender a evolução da sociedade portuguesa nos últimos 30 anos, assisti ao longo da minha vida a este lento e inaudível esfacelamento do amor entre os portugueses, do desinteresse pela sorte colectiva, do embotamento e até da ridicularização do patriotismo, bem sem o qual não há vida social. O ódio, os ressentimentos, o despeito, as invejas, o destilar de fel, a evacuação substancial das instituições sem que outras preencham as funções de preservação, renovação e transmissão de valores que concorrem para a unidade, trouxeram-nos a este vazio odioso.

Há gente excelente neste país, mas quanto mais procuro, só as encontro exiladas, indiferentes e ensimesmadas. Temos tratado os melhores deste país com uma crueldade criminosa. A direita e a esquerda têm gente capaz. Os melhores da esquerda e da direita renunciaram voluntariamente à cidadania. Ficaram os mais incapazes, os carreiristas, os predadores e os diluídores. A crise é má conselheira e pode terminar em falência colectiva do valor que justifica a existência de Portugal. Portugal está a correr aceleradamente para a condição de Estado falhado. É triste, mas surge como evidência, até para os mais desastrados observadores. Talvez faça falta ao país uma monarquia. Estou tão certo disso como do colapso que se avizinha se não tivermos tino.

Alter-história:um carniceiro honoris causa


Santiago Carrillo morreu ontem na sua cama. Tributaram-lhe os jornais da estupidez inteligente os mais rasgados panegíricos. Carrillo foi, talvez, o mais brutal dos líderes comunistas espanhóis escapados à guerra civil e à justiça. Enquanto Conselheiro da Ordem Pública, respondendo directamente perante Largo Caballero, foi o responsável pela aplicação do terror de massas, pela coordenação das duzentas checas existentes em Madrid, assim como da gestão dos massacres multitudinários de Paracuellos del Jarama, onde em inícios de Novembro de 1936, foram executadas cerca de 3 000 pessoas tidas por inimigas da República. A maioria dessas vítimas eram padres, religiosas - algumas de setenta e oitenta anos de idade - membros da aristocracia, simples professores, comerciantes e até crianças de colo.
Há poucos anos, familiares e descendentes das vítimas moveram uma acção a Carillho, ao PCE e ao governo espanhol. A acção judicial foi recusada por Baltasar Garçón, o homem que provocou a detenção de Pinochet com o argumento do envolvimento do ex-chefe de Estado chileno na desaparição de 3000 opositores. A eterna protecção dada aos comunistas !

Muitos defenderam a inocência de Carrillo naqueles massacres. Contudo, após o colapso da URSS, abertos os arquivos do Comintern, confirmou-se o directo envolvimento do líder comunista na preparação de listas, logística, transporte e abate de prisioneiros. Carrillo foi acusado por Enrique Lister nas suas Memorias de un luchador, e Dimitrov confirmou o carácter implacável do homem que viria a ser um dos fundadores do chamado euro-comunismo. Mais, Carrillo foi também responsável pelo morte de muitos anarquistas do CNT e de centenas de comunistas espanhóis libertados dos campos de concentração alemães no imediato pós-guerra, considerados "infectados pelo vírus do fascismo". Como dele disse Lister, "Carrillo é um gangster da política e actuou sempre como um gangster".

Há anos, a Universidade Autónoma de Madrid concedeu-lhe o título de doutor honoris causa. A justiça dos homens é hemiplégica. A falta de vergonha, o embotamento voluntário da memória e a cobardia moral de tantos são prova que, afinal, tudo é relativo. O homem era um bandido. Escolheu sempre o momento certo para escolher os seus protectores: estalinista sob Estaline, democrata na Espanha da transição.

18 setembro 2012

Os alucinados da peste negra e o futuro de Portugal


Um bom amigo meu, pessoa que muito considero pelo esforço, lisura e preparação, foi à manifestação de sábado. Disse-me que aquilo foi um estado de alma e esconjuro colectivo do medo e da ansiedade que afectam a generalidade dos portugueses, sobretudo aqueles, menos sagazes, que se sentiam seguros pela educação, pelos rendimentos, pelos hábitos de consumo. É humano que o tido por adquirido, subitamente retirado, provoque ira, tumulto nos espíritos, sensação de engano e traição. Nada nesta vida é garantido. Se as pessoas prestassem menos atenção às generalizações e às abstracções filosóficas, se lessem a literatura como ensinamento histórico e a história como literatura despida de ficção, compreenderiam que poucas são as certezas que temos sobre o futuro.

Porém, o futuro, se não se pode prever, pode ser evitado; ou antes, em cada momento devemos ter sempre presentes os futuríveis. Ora, a grande objecção à tal "classe média" do regime - filha do regime, filha diletca e mimada que agora se volta contra tudo o que foi um modo de viver inculcado pelo regime - assenta precisamente na total inconsciência com que durante décadas (e sem o mínimo reparo) aderiram a um modelo que findaria. Dir-me-ão que a culpa não é das pessoas. Concordo, pois a noção de "culpa colectiva" é incómoda e quase sempre injusta. Aflige-me, contudo, que com tanto curso, tanto currículo académico, tanta viagem pelo estrangeiro, as pessoas não se tenham jamais questionado sobre o rumo seguido pela sociedade portuguesa. Não, a culpa não é só dos "políticos"; a culpa é de quase todos, com exclusão dos tais 60% de pobres que nunca participaram em "projectos", nunca abriram "espaços", não foram para as "privadas", não "jogaram na bolsa" e do regime receberam apenas as migalhas de um festim que agora terminou.

As reservas de capital disponível dão-nos para quatro meses. Estamos dependentes de credores. Somos, para todos os efeitos, reféns. Se o acordo fosse denunciado, 500 000 funcionários públicos deixariam de receber a partir de Novembro: os hospitais encerrariam, assim como as escolas, as bibliotecas, os museus, as repartições públicas, as esquadras de polícia, as câmaras municipais... Mais, 80% do que comemos deixaria de poder ser importado, o combustível  - temos reservas para duas semanas - deixaria de chegar aos terminais e às bombas de gasolina.

Os alter-troikistas moderados sonham com a "renegociação", não se dando conta que estamos a lidar com gente que detém o dinheiro, quer os juros e tem uma pistola. É gente capaz de tudo. Estamos a lidar com plutocratas. Os alter-troikistas exaltados e radicais, esses sonham com o colapso. São os videntes, os alucinados e os pregadores que surgem para anunciar o fim do mundo, o novo dilúvio e prometem a parúsia que virá após o fogo purificador. Os tempos de crise permitem que prédicas de loucos recebam os favores e a atenção das pessoas que nunca os ouviriam noutras circunstâncias.

Fala-se em 190 biliões destinados a revitalizar as economias dos países mais afectados pela presente crise. Se tal fundo for disponibilizado, poderemos, então, denunciar, atrasar pagamentos, renegociar e até protestar. Se não queremos conhecer a fome que martirizou a Argentina em 2001, importa que nos contenhamos. Estou certo que, passada a grande crise, os portugueses sairão mais fortes, mais sábios e mais contidos. Parece um lugar comum, mas deve ser dito e redito até que a "indignação" se transforme em programa. Nada será como dantes. Os portugueses aprenderam que nada, mas mesmo nada, é certo na vida. Talvez voltem a ter orgulho em Portugal, talvez descubram que Portugal merece sacrifícios, deixando para trás as fantasias de mentes desocupadas e "europeias" que tão mal lhes fizeram.

Seguro estabilizado sem risco e as anfetaminas golpistas da turma da Fátima


Para quem esperasse um António José Seguro de camisola garibaldina, mascando tabaco e pistolões à Zé do Telhado sobre a mesa, a entrevista concedida à RTP foi um desapontamento. Seguro fez o papel de forte-mole -talvez demasiado sério para coisas tão pouco sérias como aquelas que por aí tanto excitam os senhores jornalistas da SIC e da TVI, os dois últimos partidos em acção no sistema - e afirmou para quem quisesse perceber que não frequenta arruaças. Acabou o sonho do golpe de Estado.
Quanto ao voto de censura, é de uma tal desproporção que acaba por ter o efeito de uma consabidíssima ameaça sem efeito que se faz a uma criança tentada pelo bolo antes da festa: "se comes o bolo, mato-te". Não tem efeito algum. Paz na terra aos homens !

António José Seguro não quer ser primeiro-ministro - pelo menos até a gravidade da situação passar - nem quer atropelar o calendário da legislatura. Parece esperar, com calma e sabedoria, sem esganiçamentos e, sobretudo, sem ter a empurrá-lo aquela magnífica geração de Alegre, Almeida Santos e Soares-macro que se aproxima do século de existência. Sempre disse que Seguro tem por si a vantagem de não ser uma luminária e funcionar, no quadro da nomenclatura, como um discreto advogado da mediania bem-intencionada. Não fossem os loci de um partido marcado com tanta antiqualha da pior tradição nacional - com equivalente no PSD que milita contra Passos Coelho - e o PS de Seguro, sem Anas Gomes, sem Silvas Pereiras, Santos Silvas, Pinhos e Linos, talvez desse como parceiro num Governo de Salvação do Regime; repito, Governo de Salvação do Regime.

Seguro sabe como todos que o regime pode morrer a qualquer instante. Uma trapalhice seria o fim. Por isso, calmo, faz o papel que lhe compete. Subiu um ponto na minha consideração. De onze, passa a 12. No próximo ano poderá chegar ao suf+ e, se tudo correr bem, terá o bom - em 2014.
Um único senão. Seguro tem de deixar aquele pequeno toque sacerdotal, porque para padre já basta o cenho do filho do Almirante Louçã. Sorria, descontraia-se porque tem a sorte de ter boa índole e ser visto pela população como o Passos Coelho da oposição.

Saiu Seguro e entrou a inefável Fátima Campos qualquer-coisa. Assistência sonâmbula, com convidados artilhados para exprimir o "que vai no coração do país", particularmente um homem-tronco (apresentado como homem de "muitos cursos") que exalta "essas grandes figuras da democracia que são Sampaio e Soares-macro" para pedir o golpe de Estado do Conselho de Estado. "Eles andem aí", não param, prontos a todas as entorses e à casuística mais roncante para defenestrar o governo. Vigilância é necessária.

17 setembro 2012

Ó "dótores" , vão aprender a ler

É preciso ter uma paciência infinita para compreender as pessoas. Caiu-me meio mundo em cima pelos tais 10.000 - antes fossem os de Xenofonte, esses, sim, que passaram fome e frio na retirada - que estavam na José Fontana às 17 horas de sábado. Não perceberam os excitados que o texto foi escrito em três momentos, como tantos bloggers o fazem quando acompanham um acontecimento e que o mais importante lhes passou de lado. Não querem ver e, pior, falham numa competência exigida pela 4.ª classe: não sabem ler. 

Até o Daniel Oliveira - que evita este blogue, nunca o citou, nunca o criticou, pois aqui não há coisinhas de capitalismo xibante nem as politiquices do baixo campanário nativo - teve a infelicidade de me citar através do confrade Insurgente. O Daniel, não sendo iletrado - mas exaltado, assomadiço e por vozes espantosamente adolescente - logo concitou um coro de burguesinhas tricoteuses e diletantes revolucionários que me premiaram com as indignações costumeiras das guilhotinas moraleiras, todas elas - perdão pelo plebeísmo - bem foleiras.

Há muitos anos, o Professor Adriano Moreira disse-me que não prestasse atenção ao que a generalidade das pessoas dizem: não pensam, reagem: a quente, a frio, a morno e, sobretudo, reduzem tudo ao esquemático pela aposição de um rótulo. No fundo, um mecanismo que trata de evitar a discussão.. Há na maioria das pessoas um fundo pina-maniqueiro, de rato de Inquisição, de bufo e denunciante que detesto. Os dedos acusadores, amiúde com unhas em sangue roídas até ao sabugo, provêem habitualmente da mais bronca e limitada gente. Algum desses monumentos à inteligência sabe oferecer discussão limpa, clara, fundamentada ? Algum dos Sanson da guilhotina moraleira me pode explicar - peço-o de rastos, em kautaw - que alternativa têm para a denúncia do acordo de resgate? Não, e porque não a têm, tratam de reduzir o contraditório a tiras. Pior, querem continuar como viveram ao longo de décadas de mesa farta, consumo a crédito e indignações que desconheciam, porque, indignações e causas, só la para o Darfour.

Senhores dótores, vão aprender a ler ou, como aqui se diz, VÃO-SE DESPIR !

Sair da crise, como?

16 setembro 2012

O povo e a barricada


Hoje recebi mais de 100 mensagens de indignados; 3/4 foram para o lixo por não cumprirem as condições que sempre impus a esta tribuna. Sou "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato". Aqui, também não se pratica o ataque pessoal, não se cultiva o palavrão, não se proclamam votos de adesão a povos em marcha, coisa rara numa sociedade onde cada um se tenta aboletar em institutos, fundações, organizações secretas, grupos discretos. Há tempos, por ocasião da manif. dos "indignados", aqui lavrei testemunho presencial que mantenho. As pessoas pensam pequeno e tomam 10.000, 20.000 ou 100.000 - o bárbaro fascínio pelos números - como medida de certeza. Nesse pressuposto, os 6.000.000 que esperaram Khomeini no aeroporto de Teerão em 1979 estavam cheíssimos de razão; como o estariam os 9.000.000 de indignados chamados a Pequim por Mao no arranque da Revolução Cultural, em 1966. Os números são irrelevantes. Servem para tudo, até para legitimar as sucessivas maiorias com que o povo português tem premiado os notáveis que trouxeram Portugal à presente situação. Lembro que Adriano Moreira, em 1987, disse as verdades que todos repeliam e viu-se reduzido a 4,6%. As pessoas detestam que lhes digam a verdade !

Entendamo-nos !

Os portugueses viviam derrancados no sonho da riqueza, das Donas Brancas às croissanterias, dos montes alentejanos aos apart-hotéis. Queriam ser ricos, queriam "viver bem", dois carros à porta, cinco cartões de crédito, televisor de plasma, trapos de marca, uma saltada às Londres a às Romas duas vezes por ano. Trabalhar ? Ora, que viessem esses reles russos, essa turba de ucranianos, mais os negros e os brasileiros fazer as autoestradas, as pontes, as urbanizações crescendo como tortulhos em torno de Lisboa. Lisboa era para os patêgos, os velhos, os sem-beira, coisa a abater. Para sair da caquética antiga capital do império, um carro fazia o trabalho. Todos se motorizaram. Os carros topo-de-gama tornaram-nos conhecidos na Europa. Em 2004, a produção de Mercedes e Bentleys não chegava para as encomendas reclamadas por Portugal e anunciava-se ao mundo que se vendia um Maserati por dia no país do verde pinho. Comprar sapatos portugueses ? Comprar as camisoletas de algodão das nossas fabriquetas ? Ora, havia tanto para comprar nas lojas de marca !

Em 1998, por alturas da Expo, recebi dezenas de reportagens encomendadas aos mais influentes periódicos europeus e norte-americanos. Cantavam loas ao despertar de Portugal, ao crescimento do consumo - crescimento que nos empurrava para a condição de "novo dragão" da Europa do Sul -, exibiam os ricaços do dinheiro novo como modelos da nova "elite portuguesa". A elite cresceu depressa. Cada português, uma revistazinha do "coração" - a Holla, a Gent[inha], as Cara[ntonhas],  as Lux, as Premiere - com o "must" das "pessoas bonitas" e do  "tout monde" português: as Caneças, as Soraias, as Cátias da fama... Outros, mais afoitos, queriam descobrir o segredo de Midas e lá iam sobraçando o Portugal Global, a Gestão & Negócios, Ideias & Negócios, Capital de Risco, a Fortuna...

Para acelerar a ascensão, impunha-se cobrir o sucesso com o status universitário. Abriram-se centos de universidades, institutos e politécnicos. Assim, tivemos as brilhantes "privadas", que tornaram possível o enorme dislate da "mais bem preparada geração que Portugal jamais teve". As pessoas queriam ser europeias. Vai daí, todos ao Colombo, todos ao Vasco da Gama, ao Aqua Portimão, ao Guimarães Shopping, ao Corte Inglês. Comércio tradicional, merceariazinhas de bairro, cafés e papelarias ? Que se danassem !

***

Tenho, como tantos outros, razões e autoridade para reclamar inocência no vórtice de parvalhização em que Portugal se precipitou. Este Vosso criado começou a trabalhar aos 15 anos de idade, trabalhou numa tipografia, passou seis anos no exército para pagar os estudos, trabalhou em Elvas, Évora e Beja, dormindo em quartos para garantir o seu sustento, deu aulas a ciganos nos "bairros problemáticos" em regime de quase gratuidade, deu aulas no secundário e no superior, trabalhou para jornais, percorreu de autocarro metade da geografia portuguesa para localizar, catalogar e inventariar o património bibliográfico nacional a que ninguém prestava atenção - o importante era o futuro e as "novas tecnologias" - e ainda teve tempo para tirar um mestrado e um doutoramento, publicar meia dúzia de trabalhos, candidatar-se a um concurso público para chefe de divisão, que venceu perante o estupor de uns quantos (cartão do partido no bolso) que se insurgiram contra a deslealdade. Este Vosso criado perdeu 1500 Euros por mês para se estabelecer na Tailândia durante três anos, aí aprendendo a ler, escrever e falar uma língua estranha, só para poder cumprir os termos exigidos para um doutoramento que plasmasse o impacto de Portugal no Sudeste-Asiático, coisa de somenos para os meninos dos 3+2 das Bolonhas, afoitos na religião das liberalices made in USA, para os quais Portugal, a sobreviver, só com torres de vidro de setenta andares, meninos patetas a gerir negócios inexistentes e a bolsa das fantasias. Este Vosso criado trabalha 14 horas por dia, é fiel servidor do Estado, paga os impostos, não falta, nunca teve um processo disciplinar, cumpriu sempre. Este Vosso criado tem uma micro-empresa que dá trabalho a cinco pessoas. Paga-lhes aquilo que não vence um técnico superior do Estado, mais alimentação, passe, descontos para a segurança social. Sou tudo, menos um desses patrõeszitos à Fagin do Dickens que enchem as fantasias dos protestatários inúteis e dos  novos meninos do business.
Este Vosso criado poderia - era só querer - meter-se numa máquina e obter um lugar. Nunca o fez. Vejo por aí muito exaltado que, ainda há um ano, esperava por um lugar em S. Bento ou num dos gabinetes ministeriais, mas que perdida a corrida aos lugares, milita em excessos de linguagem contra o governo.
Este Vosso criado teria mil e uma razões para detestar o modelo de sociedade que alegremente se foi impondo como fim da história e ao qual a "classe média" aderiu com entusiasmo. Como tantos, habituei-me a calar, a aceitar chefias ineptas, verdadeiros imbecis, aves canoras, gente má, mesquinha, incapaz de riscar uma linha. Há fontes de enorme ressentimento na sociedade portuguesa. A má-língua, o rumor, a difamação, o "não vale ultrapassar", o comodismo, o desinteresse e o servilismo causaram estragos que estimo irreparáveis. Poderia ser um extremista e clamar por direitos, mas quem me ouviria ? Por isso, como tantos outros, resolvi emigrar. Há uma emigração interna tão forte como a saída física do país. O país é injusto e requer a tal "mudança de mentalidades" que tem sido mote para todas as falhadas regenerações. Não me dêem, por favor, lições de moral.

***

Algumas dezenas de milhares de portugueses saíram ontem às ruas. Tanto importa que fossem 10.000 como 100.000 ou dois milhões. Não tinham razão, pois foram cúmplices. O que ontem aconteceu foi o protesto da dita "classe média", a mesma que votou sempre pela "vida confortável", que aplaudiu Cavaco, Guterres, Ferro Rodrigues e as fantasias sem pensar nas consequências. Essas pessoas têm dores, passam por sofrimentos, angústias e até desespero, mas não é o povo. O povo, na acepção sociológica de classe de baixos rendimentos - isto é, o salário mínimo - nunca saiu à rua. Tem vivido do banco alimentar e da caridade das ONG's, de associações católicas e até da Jerónimo Martins, tão atacada por todos, mas que garante 60% do total de contribuições que assistem as vítimas da fome. 
Ontem, cantaram a Vila Morena e o Povo Unido Jamais Será Vencido. Sei que custa perder o sentido da vida e os mitos, mas há que abrir os olhos e ter um mínimo de lucidez. Afinal, não se ouviu uma ideia. Não têm qualquer ideia de como sair da situação. O governo tem feito o que se deveria ter feito há vinte ou trinta anos. Mas não, ninguém quis saber. Queriam "viver bem", queriam ser "europeus". Isso acabou. A crise pode ser boa conselheira. O governo que comece a pensar num plano de resgate económico, não se atenha às finanças e dê exemplo, começando por atacar os vergonhosos privilégios da matulagem que vive do sistema. A "classe média" que pense, mas proponha saídas. Afinal, com tanto "intelectual" e tanto "quadro", só se limitam a pedir direitos. Os direitos estão na lei, mas mais importante que os direitos de cidadania são os deveres, que estão na ética. É só!

É evidente que um texto destes não desperte os habituais pruridos. A generalidade das pessoas afoga-se no ódio gratuito. É mais cómodo. Querem sentir-se acompanhadas e aderem a todos os unanimismos. A tentação totalitária existe nos mais cândidos; pior, não há melhor maneira de legitimar uma nova tirania que canalizar o ressentimento das massas para inimigos imaginários. A extrema-esquerda pensa que, a cair o regime, teria a oportunidade por que espera há décadas. Engano tremendo, o novo regime seria o contrário.

Jogging


Desonestidade ou despolitização? Depois de quarenta anos de infantilização, manipulação ideológica e ausência de Escola, a amálgama, o vale-tudo.


Terceira idade desvalida, versão PSN-bis. Falta de remédios, exclusão social e abandono estampados na cara do 4.º Estado.


Os senhores professores exprimindo protesto poético.


Erudição extravasante na potência do futebol. Delegação de A Bola.


É preciso cortar nas gorduras. Este ano não há playstation nem República Dominicana.


Accionista maioritário do BE, filho de Almirante em busca de novas oportunidades.


A marcha da educação.

E porque as pessoas persistem em viver num mundo que passou, ISTO.

Sair da crise, como ?