07 setembro 2012

A indecência do pirosismo

As medidas de urgência que gostaria de ver tomadas pelo Primeiro-Ministro

1. Fim do regime dos quadros superiores dirigentes do Estado oriundos das máquinas partidárias, substituindo-o por funcionalismo público de carreira;
2. Denúncia de todos os contratos de assessores exercendo funções nos ministérios, secretarias de Estado, parlamento, câmaras municipais, institutos e fundações e sua substituição por funcionários de carreira;
3. Redução do parque automóvel do Estado, circunscrevendo-o a titulares ministeriais e secretários de Estado;
4. Passagem à reserva dos oficiais superiores do Exército, Marinha e Força Aérea e limitação do quadro a seis generais ou brigadeiros;
5. Anúncio da abolição de todas as regalias e ajudas de custo auferidas por titulares de cargos públicos;
6. Redução dos vencimentos de deputados e presidentes de câmara;
7. Anulação, com efeitos imediatos, de reformas concedidas a ex-deputados e ex-governantes, com contagem de tempo de serviço e respectiva conversão ao regime geral de pensões e reformas;
8. Fim do regime de acumulação de pensões;
9. Nacionalização de todas as PPP em obras já realizadas;

Se o Primeiro-Ministro o fizesse, estou certo que teria nas ruas multidões a perder de vista a aplaudi-lo. Os grandes homens revelam-se nos momentos difíceis.

05 setembro 2012

Daniel Oliveira, a sério


O negócio infame dura há mais de trinta anos. Enriquece editoras, empobrece as famílias, dilui a dimensão meta-escolar da educação e do ensino, confunde e, por vezes, constituiu-se em abuso de confiança e manipulação das crianças. Antes de fazer profissionais, a escola deve fazer cidadãos - corrijo, cidadãos patriotas - e deve reforçar o sentimento de pertença e promover a integração, sem os quais não há sociedade nem Estado. Os experimentalismos didáticos mostraram a que ponto o ensino é coisa demasiado séria para ser deixado nas mãos de "cientistas da educação".

04 setembro 2012

Saber apertar e saber recusar o aperto


Não há códigos universais. Só quem desconhece ou despreza os códigos dos outros se pode surpreender com coisas destas. O Ocidente tem de reaprender a viver com as diferenças civilizacionais e não ousar ensinar os outros a macaquear fórmulas nossas, importantes para nós, mas que para outros não passam de ofensas. Certamente que na aldeia global dos propagandistas da pseudoformose exigida pelos Zakaria e pelos BH Levy's - com bombas e corpos expedicionários, se necessário - um aperto de mão, um afago na cabeça de uma criança, umas patorras em cima de uma mesa, um beijo, uma conversa sobre doenças ou dinheiro; tudo isso faz parte da civilização. Ora, para os outros que não são como nós, coisas dessas são tidas como exibição de grosseria. Durante muito tempo - demasiado tempo - não nos preocupamos e eles fingiam, calavam ou disfarçavam o mal-estar. Agora, isso acabou. Ao longo dos anos em que vivi na Tailândia, apercebi-me que os europeus (pomposamente chamados expatriados, pois recusam a palavra emigrante) ali faziam tudo, sem nunca se preocuparem em abrir um vulgar dos and dont's. No fundo, esses insignificantes sátrapas - que semanalmente nos surgem na tv num programa inqualificável que dá pelo nome de Portugueses pelo Mundo - julgam que estar num país é conhecer um outro mundo: o portugês que leva como prenda uma garrafa de vinho ao casal marroquino amigo, o "expatriado" que em Israel exige que os seus convidados comam a chouriçada na brasa, o europeu que obriga o chinês a comer o coelho à caçadora,ou aquele outro - vi com os olhos que a terra há-de comer - que insistia em falar sobre as intimidades da família real aos tailandeses; tudo isso faz parte do reportório infindo de patetices que acaba por sair caro à nossa imagem de ocidentais. Já nem falo, claro, da imposição dos horários e dos regimes  laborais, do dia de descanso, do tipo de regime político, da exigência de leis sobre o divórcio, da contracepção, das regras de urbanismo, dos modelos de ensino, da ideia de natureza, da maioridade legal, do "trabalho infantil", da "idade legal para o casamento", dos prémios de produtividade e dos 13.º e 14.º vencimentos, dos "rendimentos mínimos garantidos", das objecções de consciência... uma lista que nos ocuparia em fastidioso elencar de diktats. 


Ontem, no Trio de Ataque, um desses debates descabelados que bem podiam ser substituídos por uma hora de música clássica, um dos vociferadores terminou o estendal canoro falando dos "países civilizados", referindo-se à Europa e aos EUA, contraponto de "países bárbaros" como o Irão, a Índia, a China e, por que não, à Rússia. Esquecia-se o bípede que o Irão carrega 4000 anos de civilização às costas, a China 5000 e a Índia para mais de 8000. Os europeus - ou o que deles sobra nesta brilhante civilização do consumo e dos patetas engalanados com as "regalias" e os "direitos" - não se dão conta que o melhor que poderiam fazer, enquanto é tempo, seria reaprender um pouco o papel de pastores do ser, enterrar bem fundo as engenharias e os experimentalismos, readquirir um pouco a contenção e sobriedade da Europa anterior ao capitalismo e - já é pedir demais - pedir umas esmolas de espiritualidade à nossa Idade Média.

02 setembro 2012

Hoje, em Borodino, também foram lembrados os 500 portugueses caídos em combate


Com grande solenidade e imagens lembrando Griffith e Bondarchuk,  celebrou-se hoje em Borodino o bicentenário da batalha que Lermontov e Tolstoy eternizaram. Uma multidão avaliada em 100.000 espectadores seguiu com entusiasmo as evoluções de 3000 figurantes envergando fardamentos da Grande Armée e do exército de Alexandre I, naquele toque de grandeza teatral que é atributo dos russos.



Putin, no seu discurso, prestou homenagem aos trezentos mil combatentes dos dois campos que naquele 12 de Setembro de 1812, interpretando duas visões da Europa, se digladiaram em furiosas cargas e contra-ataques, do nascer do dia até ao por do sol. A batalha custou quase oitenta mil mortos e feridos e nela caíram cerca de 500 portugueses. Estranho que Portugal não se tenha feito representar, não tenha enviado uma modesta coroa, não tivesse organizado um simples colóquio. Se não fosse a Biblioteca Nacional de Portugal, que prepara uma exposição e um catálogo alusivo à Campanha de 1812, Portugal teria morto pela segunda vez, enterrando-os no esquecimento, esses cinco mil compatriotas caídos nessa luta.

O único que Estaline temia


Acabada de sair, a nova biografia de Zhukov, despida de mitos e propaganda, revela um militar duro, tenaz, obstinado e até brutal no exercício de funções, mas também um homem que na vida social se pautava pela afabilidade e um interesse indisfarçável pelo Ocidente. Zukhov soube subir a pulso e sobreviver num dos mais violentos, imprevisíveis e caprichosos regimes do mundo contemporâneo. Invejado pelo seu génio táctico, temido por Estaline, foi chamado para salvar a Rússia do colapso em finais de 1941 e manteve, como a nova documentação disponível revela, uma independência digna de registo numa sociedade fanatizada e privada do mínimo exercício crítico. Típico soldado feito general, filho de camponeses e homem de poucas letras, não era destituído de inteligência política. À morte de Estaline, coube-lhe dirigir o golpe palaciano que liquidou Beria, protagonismo que pagaria caro, dez anos mais tarde, com o retorno ao poder dos altos burocratas estalinistas liderados por Brezhnev. Um estudo importante que revela a existência e permanência de uma força de contenção à propalada omnipotência de Estaline.

Салют Москвы