25 agosto 2012

Адмиралъ, o Almirante traído


Na nova filmografia russa assume relevo o género histórico, acompanhando um generalizado movimento de retoma do passado que toca áreas tão distintas como a literatura (o romance histórico, os textos sapienciais e as vidas de santos, as lendas e contos populares), a historiografia (expurgada de marxismo), os textos doutrinais oitocentistas, a antropologia cultural e as artes tradicionais.No cinema, não há ano que não surja uma grande produção tocando as fibras mais profundas da consciência nacional. Tenho acompanhado com regularidade as fitas que vão chegando ao Ocidente, habitualmente silenciadas pelos críticos e impedidas de circularem nas cadeias de salas de cinema monopolizadas por multinacionais com sede nos EUA, as quais oferecem, sempre, em registo cada vez mais raiado de estupidez, a miserável concepção do mundo imposta além-Atlântico.
Ontem, tive finalmente oportunidade de visionar um filme que fez brado na Rússia em 2008. Intitulado O Almirante, dá vida ao malogrado Alexander Kolchak, o líder da Rússia Branca que se opôs com tenacidade aos bolchevistas e acabou traído por britânicos, americanos e japoneses. Entregue aos comunistas, foi fuzilado e com ele morreu a velha Rússia monárquica e ortodoxa. Um belo filme de heroísmo, lembrando que por vezes os homens de bem têm de aceitar a guerra justa, mesmo sabendo que não a ganharão.
Despedida a Slavianka, hino dos Russos Brancos

24 agosto 2012

Quem anda a mentir ao mundo?


Não ver televisão, não ler jornais, recusar colaborar com a demagogia e a mentira dos fabricadores de factos; eis a receita para manter a higiene. Há quem queira uma intervenção militar da OTAN na Síria, recorrendo a todo o arsenal de mentiras que legitimem e justifiquem um ataque. Hoje, as sirenes estridentes da manipulação global davam conta de ferozes combates em Homs. Ora, pela noitinha, esta era a atmosfera da tal "cidade mártir".

Antena 2: o último grão de dignidade


Sei que, para muitos liberais, aquilo que não se pode vender ao desbarato ou não se pode comer, nada vale.  Os homens do business first - as criaturas das gestões, os maníacos da bolsa, os paranóicos do marketing & publicidade, os fetichistas do management - são os bárbaros de hoje. Para essa tribo alucinada e selvagem, o Terreiro do Paço dava uma excelente urbanização, os Jerónimos um hotel de 5 estrelas com Spa, a Torre de Belém um centro multiusos, a Sé Catedral uma excelente discoteca. O fanatismo desses salafistas do mercado, desses comunistas dos cartões-de-crédito e desses fascistas do poder do dinheiro é alimentado por um profundo desprezo por tudo o que desconhecem, nomeadamente o inefável, inútil e grandioso que resplende da arte, do pensamento teórico, da leitura literária, da escrita criativa, da investigação. Em pouco mais de vinte anos, destruíram o movimento editorial - substituindo-o pelo consumo dessa livralhada que inunda escaparates - mataram o jornalismo - hoje nas mãos de grupos empresariais alvares - e tomaram de assalto os pequenos mundos da fruição que eram os museus, as galerias, os círculos literários, erigindo as "indústrias culturais".
Ouvi hoje, de fonte que reputo credível, que se querem desfazer da Antena 2 - o canal de música clássica - no "package" da transação do canal 2 da RTP. Sim, a Antena 2 não gera receitas, não vende, não tem publicidade de cremes, comidas e ténis; não faz dinheiro. Ora, se algo ainda garante um pingo de dignidade a esta terra transformada nisto, é essa Antena 2.
Senhor Primeiro-Ministro, não mate aquilo que ainda nos distingue da Mauritânia e das Honduras.

23 agosto 2012

Os "repressores" recebidos como salvadores



As imagens foram ontem registadas no centro de Aleppo. As ruas desertas deram lugar a esta explosão de júbilo popular, quando as forças armadas terminaram a limpeza dos grupos terroristas - leia-se, freedom fighters - que se haviam instalado no coração da cidade e aí tinham instaurado uma amostra do poder nu, revolucionário e salafista, hoje em tão alta consideração nas chancelarias ocidentais. Ouvindo os nossos paupérrimos telejornais, só me apetece dizer "vão-se despir".

22 agosto 2012

Síria, o abrigo de emergência para os cristãos do Médio Oriente, alvo prioritário daquela que foi outrora a OTAN

Mais que perplexidade, isto inspira-me profundo desprezo por aquela que foi em tempos a OTAN, agora transformada em agente promotor da destruição da mais antiga comunidade cristã do planeta.

A propósito da polémica de Rui Ramos com um plumitivo


O João Gonçalves já apresentou o caso com meridiana clareza, pelo que qualquer esforço adicional para situar o nível da diatribe que um ignaro plumitivo dirigiu a Rui Ramos surgiria como redundante e gratuita. Limito-me, por ora, fazer dois comentários exteriores à matéria em questão, mas que estimo relevantes para que se compreenda aquilo que está verdadeiramente em questão.

À cabeça, naturalmente, o efeito a que os psicólogos chamam de superjustificação. Em tudo o que fazemos ou dizemos há, sempre, uma motivação. Ora, o plumitivo não existe, ninguém o lê, ninguém o conhece, sente-se diminuído na sua quase invisibilidade. Nas garatujas com que maculou as páginas do Público, pressente-se ódio quimicamente puro e despeito profissional por um colega de ofício, pelo que, como todas as expressões de ódio e inveja, a vítima acaba por ser o arremessor. O corta-cola, a notória incapacidade em interpretar e situar as acusações que faz a Rui Ramos, vão caindo uma a uma, numa quase dolorosa exibição pública de mentecaptismo.Como lembrou Ferro, independentemente da sua vocação científica, a História exerce outras funções que não são de natureza científica, nomeadamente terapêutica e militante, abeirando-se do senso comum, produzindo imagens poderosas, servindo causas, justificando, anacronizando. A criatura, tão obcecada que vive no acerto da sua infantil visão ideológica, não se deu conta que Rui Ramos situa os problemas sobre os quais se debruça num patamar bem mais interessante. Rui Ramos interpreta e sugere leituras distintas daquelas impostas como verdades inquestionáveis. Não concordando com algumas conclusões de RR - que são mais que opiniões, mas conhecimento - não posso deixar de reconhecer a dimensão da sua obra. Ramos tem partido muito traste velho que se instalara na cristaleira da historiografia portuguesa, tem varrido muito lixo que se acumulara sob as passadeiras vermelhas da História-ao-serviço-da-politicazinha, pelo que concitou inimizades, às quais se somou a sempiterna invejazinha lusitana. Que culpa tem Rui Ramos de viver entre académicos que nunca produziram uma partícula de conhecimento, que nunca acrescentaram um grama, que escreveram aquilo que lhes garantia a ficção de uma carreirinha sem horizonte?

Outro aspecto do problema é o do lugar e do papel do historiador na sociedade. Rui Ramos sabe que o seu trabalho académico tem implicações que extravasam largamente a vidinha tola e as vaidades microscópicas em que vive imersa a universidade portuguesa. Para ser franco, com excepção de duas ou três figuras, a História que produz a nossa academia é má, é insignificante, é pouco mais que nada. As pessoas não investigam, não possuem travejamento de leitura e referências; ainda mais grave, não sabem pensar. Se os profissionais encartados fazem o que fazem, o problema assume proporções terrificantes com o assédio que à História fazem os amadores. Em Portugal, qualquer criatura com a 4.ª classe atreve-se "fazer História", havendo médicos "a fazer História", músicos a "fazer História", diplomatas "a fazer História". Daí resulta que os investigadores sérios - aqueles que queimam as pestanas - são obrigados a conviver com oportunistas de toda a sorte.

Rui Ramos que vá em frente, que continue a partir a loiça saloia e até os falsos Ming que por aí se vendem como pão quente. Rui Ramos tem passado, tem presente e tem futuro. Os outros, nada têm, nada são, pelo que lhes sobra a inveja.


21 agosto 2012

As imagens que não vemos


A Guarda Nacional Síria procede à limpeza dos últimos vestígios de grupos terroristas que se infiltraram na capital há duas semanas. Esta manhã, remanesciam pequenas bolsas nos subúrbios, oferecendo resistência esporádica como insignificante ao poder de fogo das forças da ordem. Estas imagens exprimem com eloquência o retorno da calma a Damasco, a proximidade entre militares e civis e a instalação lenta e sem sobressaltos da autoridade. Quanto a Aleppo, no norte do país, aguarda-se a cada instante uma grande ofensiva governamental. Decididamente, parece estar por dias a guerra imposta à Síria, pelo que os recentes desenvolvimentos - a visita quase histérica da criatura Clinton à Turquia, o envolvimento da Alemanha ao lado dos rebeldes, as diligências ocidentais junto de Moscovo - constituem indicadores seguros que a cartada falhou. A segunda fase pode estar iminente: matar o Presidente Assad ou um simples assalto militar unilateral dos EUA e da Turquia ao país. 

O telefonema do coronel


Diabolizar, caricaturar e reduzir à semi-animalidade quem luta pela sua terra, defendendo uma sociedade tolerante e secularizada, eis o que nos tem sido servido ao longo de meses pelos causadores directos de um conflito que, tudo o demonstra, foi minuciosamente preparado. Este simples apontamento - o Coronel que telefona de Aleppo à sua família em Damasco, família sem interdições e véus - tem o efeito de uma pedrada. Entre a turba de bandidos degoladores, bombistas e salafistas incensados pelas cadeias de condicionamento do cruzadismo belicista e esta família, por quem optaria o caro leitor?

Os "religiosos" apoiados pela "comunidade internacional" e pelos angelistas dos dedinhos em V

Da mono-arquia à diarquia bloquista


Afinal, o bloco é ainda mais que uma sociedade por quotas de responsabilidade limitada. Já se sabia que por ali funcionava um colectivismo sui generis, nas mãos da pandilha Louçã, pois a quem tivesse veleidades em adquirir acesso à sala dos acionistas maioritários, era indicada a porta de saída, a empurrões e pontapés, segundo o estado de espírito do António Conselheiro desta Utopia de bons vivants. António Conselheiro está cansado; aliás, gastou-se e o produto já não vende. Vai daí, indica sucessores, partindo do princípio que um profeta só pode ser substituído por dois apóstolos. Es lebe die Partei !

20 agosto 2012

O PS em calções de banho


Ao longo das últimas semanas, para dar sinais de vida e fazer crer que esta coisa dos partidos ainda mexe, os plantões de serviço à sede das agremiações que se dedicam à geringonça não param de enviar comunicados à imprensa a propósito e a despropósito das mais insignificantes minudências. Hoje, com direito a parangonas, o sargento de dia ao Rato tomou posição sobre umas meretrizes russas que há dias foram sentenciadas por actos hooliganescos de profanação de um templo e acicate ao ódio religioso. Afirma o PS que "a condenação de três jovens, duas das quais mães de crianças pequenas, a dois anos de prisão, pela expressão pacífica mesmo que controversa, dos seus pontos de vista é (...) profundamente inaceitável". Fico pasmado com o enternecimento pela sorte de mães e criancinhas, sabendo que em 2010 as duas extremosas mães, então em adiantada fase de gravidez, se exibiram em pública copulação num museu. Copulação terminada, dirigiram-se ao hospital mais próximo para parir.
O ódio à religião e às crenças alheias parece não incomodar o porta-voz do PS em calções de banho. Desenterra a empresa do Rato coisas velhas, tristes e datadas, que fizeram da jacobinagem dos Costas de antanho a vergonha de Portugal. Mas isso não interessa. Se as Pussy qualquer-coisa se tivessem exibido numa sinagoga ou numa mesquita, não haveria tomadas de posição, mas aplauso à condenação. O que ressuma de tudo isto é a duplicidade de critérios que a afectação do parece-bem impõe. A condenação de três barregãs por desrespeito, vandalização de sentimentos e crenças alheias, demonstra que a Rússia de hoje é infinitamente mais correcta na aplicação das cláusulas constitucionais e do Estado de Direito que as decrépitas democracias ocidentais, que na Rússia se aplicam as leis que visam impedir o ódio, que a Rússia cumpre a Declaração Universal dos Direitos Humanos  no que à defesa e respeito devidos à cultura e à  religião concerne. 
Mas o PS em calções de banho não quer saber dessas coisas. Esperou que ondas frenéticas de falsa indignação de manifestassem nos states e nas inglaterras para fazer copy-page e entrar no coro. Para informação do PS em calções de banho, o problema não tem a ver com a Rússia, mas com todos os Estados onde ainda se respeita a liberdade religiosa. Fosse na pacífica Tailândia budista, as três galdérias teriam sido esquartejadas no terreiro do templo e atiradas ao canal mais próximo.
Seguro que volte depressa dos sóis e dos cremes, pois se a ausência for longa, ainda corre o risco de ver o sargento de dia opinar sobre o buraco do ozono, o último jogo da terceira divisão ou os saldos na Rua dos Fanqueiros.

A preta do mexilhão está de volta


Hoje, ao sair de casa, deparei-me com a nova preta do mexilhão, que anda por aí a destroçar em concorrência a Jerónimo Martins e restantes merceeiros. É uma boa notícia. Que venham o aguadeiro, o homem dos patos, o vendedor de azeite, a leiteira e o homem do tabaco dessa Lisboa de outrora, popular e sem parentes na lama, que sabia ser imperial e rústica . Chega de Europa de perliquitetes.

Sifilização americana

19 agosto 2012

Os liberais tout court


Há liberais que se esforçam no desbravamento dos textos - uns mais clássicos que outros, mas quase todos muito pouco originais, pois o que diziam no século XVIII continuam a dizê-lo hoje - e os liberais práticos, que não lêem nem têm tempo para ler, quanto mais pensar. São adoradores do dinheiro, da riqueza e disso fizeram a sua religião. Há tempos, lendo um desses fabulosos ensaios arrasadores de Henri Guillemin . o homem que pulverizou a reputação de Napoleão, um tirano muito aplaudido ainda hoje - descobri a mais certeira definição desses "liberais" que por aí andam a praticar o mal em grande escala e a defender, entre outras enormidades, que, afinal, a justiça não existe e que existindo, é um mal. Dizia Guillemin: "são dessas pessoas que sonham com um mundo onde os pobres sejam ainda mais pobres, e os ricos ainda mais ricos". Sem tirar !