03 agosto 2012

Mitomanias


O país tem andado a correr de miragem em miragem, esbracejando para afugentar fantasmas, falando sem parar, evitando o silêncio da reflexão. É a segunda crise neste verão. Primeiro foi o futebol, a gritaria e as cãibras de estômago sempre que se abeirava o "jogo decisivo", aquele que nos catapultaria de novo para a condição de potência. Agora, os jogos olímpicos, com um estendal de logros, desistências e desclassificações fragorosas. O respeito de um país e o auto-respeito não se fazem com o pé na bola, a mão na raqueta, as sapatilhas no tartan. Não há jogo, medalha ou taça que substituam uma patente científica, uma nova empresa de excelência, a subida de uma posição no podium das estatísticas de produtividade, competitividade, escolarização e literacia. Parece que pusemos tudo de pernas para o ar.

02 agosto 2012

Agosto de 1812: a Legião Portuguesa transpunha o Dnieper e estabelecia a testa de ponte da Grande Armée para o assalto a Smolensk


Bernardino Moniz, [comandante do 2º batalhão do 2º Regimento da Legião] atravessou o rio [Dnieper] debaixo de um fogo vivíssimo dos russos, e, como estes, entrincheirados num dos arrabaldes de Smolensk, o incomodavam seriamente, arrojou-se à baioneta contra o arrabalde, tomou-o com muitas e consideráveis perdas, deitou-lhe fogo, e em seguida foi postar-se nuns quintais que ficavam à beira do rio, próximo do sítio onde se lançou a primeira ponte”.

(Chagas, Manuel Joaquim Manuel Pinheiro, Historia da Legião Portuguesa, In A Ilustração Portuguesa, nº25, 1885)

01 agosto 2012

67º aniversário das forças armadas da Síria: um povo unido em luta pela liberdade religiosa e independência nacional, contra a ingerência estrangeira e o fanatismo

Gore Vidal: conservador protestatário


Morreu, talvez, o último grande vulto literário de um tempo em que os homens de letras eram instituições montadas sobre duas pernas. Uma vida inteiramente dedicada à arte e à escrita não é coisa de somenos; para mais, a obra e o homem jamais se renderam às tolas convenções morais, políticas e económicas da classe anti-cultura por natureza - a burguesia - e disse sempre aquilo que dele não se esperava. A grande glória de Gore foi, também, a de se manter em olímpica grandeza solitária, com toque de desdém aristocrático perante um mundo povoado por formigas.
O João Gonçalves dele pinta traços impressivos, leitura recomendável por não compaginar com a necrologia de ocasião.

31 julho 2012

A madonna dos "jovens"



A figura é insignificante do ponto de vista artístico. Sendo epítome da cultura de plástico da globalização - as chamadas "indústrias culturais" - objecto de insistentes campanhas promocionais - foram-lhe atribuídas recentemente funções de mâitresse à penser (antes diria, à non penser)  dos chamados "jovens". Os "jovens" constituem uma categoria imprecisa do mercado em que se incluem todos quantos se recusam reconhecer a respectiva idade biológica a partir dos 30 anos mas, sobretudo, aqueles nascidos nas décadas de 80 e 90 do século passado, filhos por excelência da parvalhização planetária, sem referências e deseducados no culto do dinheiro. 
Madonna, milionária e lóbista, exprime o horizonte da santidade laica ; logo, de campeã de "causas justas" desta gente que pensa como os empresários, quer ser rica e reclama o direito a um coupet do pior gosto do dinheiro novo, mas tem na boca o blá-blá das preocupações pelo ambiente, pelas pedofilias, pelas escravaturas sexuais e também, porque não, das guerras justas.
Está a dita Madonna, com as Angelinas Jolies e suas adopções-espectáculo, as ONG's milionárias e os caçadores de Joseph Kony, na fila da frente do analfabetismo arrogante que fez em vinte e poucos anos aquilo que não teriam conseguido, juntos, o impacto de um cometa, a peste negra e um Átila. Mas teimam, insistem em ter algo a ensinar. A dita foi a Paris, e em vez de exibir as nádegas, apresentou-se como educadora. Cobrou 400 Euros, dançaricou 5 minutos, cantarolou outros dez e discorreu por meia hora, pretendendo dar lições de "nova ordem mundial" aos meninos e meninas de 30 e 40 anos aos quais foi dito e redito mil vezes serem "a geração mais bem preparada" que o Ocidente produziu. O produto foi rejeitado entre pateadas e palavrório ao gosto do senhor Gil Vicente. Maus tempos para a cultura da aldeia global. A coisa está por um fio. 

Um bom mês de Julho para esta tribuna

29 julho 2012

Defender Assad ou defender a mais antiga cristandade do mundo ?



Têm-me perguntado vezes sem conta por que razão tem esta tribuna oferecido, por argumentos e testemunhos, uma perspectiva que outros blogues - sobretudo a comunicação social acéfala e teledirigida -  se recusam facultar. Mil e um argumentos abonaria em defesa da manutenção do regime sírio, o único regime laico do Médio Oriente, o único que inscreve na constituição a igualdade das religiões perante o Estado; o único que garante plena cidadania sem diferenciação de origem religiosa. Defender a Síria perante as arremetidas do salafismo apoiado pela mesma gente que destruiu o Iraque e a Líbia, estriba-se na adesão a um conjunto elementar de princípios que regem as relações internacionais, tais como o respeito pela soberania dos estados, a não ingerência, a cooperação e diálogo conducente à paz, mas mais importante que isso, a defesa da mais antiga cristandade do planeta. Os cristão árabes estão em risco de desaparição. Foram expulsos da Turquia de Mustafá Kemal, fugiram de Israel e do Líbano. Desde a queda de Saddam Hussein, os cristãos iraquianos têm sido alvo prioritário do terrorismo islâmico, tendo-se deslocado muitas dezenas de milhares para a Síria de Assad. Na Síria, os cristão têm sido protegidos e compõem um dos grupos mais dinâmicos de uma sociedade onde ocupam relevantes postos no aparelho do Estado, na vida empresarial, na vida cultural e no sistema educativo. 
Nesta batalha de vida e morte pela sua identidade, têm-se batido na primeira linha contra a imposição da sharia e de um regime teocrático. Se a perderem, acaba-se o núcleo fundador do cristianismo no Médio Oriente. Compreende-se, assim, a posição do Vaticano em contrariar a grosseira propaganda de americanos e seus aliados sauditas na abordagem ao problema sírio.

Dois mistérios evidentes

Há semanas que aguardo dos confrades Jugular e 5 Dias - que leio sempre com interesse, como lia o já falecido Diário de Lisboa - um tímido esboço de análise, um leve movimento de interesse, uma insignificante notícula de duas linhas sobre os acontecimentos na Síria. Nem uma palavra. A isso chamo, simplesmente, "embotamento do episteme", ou mais prosaicamente, incómodo comprometimento, vergonha digamos, por haverem caído de forma tão desastrada nas euforias da "Primavera Árabe" que, era, tudo o demonstra, um magistral golpe da CIA e dos seus novéis aliados da Al Qaeda.
Avec le temps tout s'évanouit !