28 julho 2012

Quando o Rei dava o seu orçamento ao país


Uma das mais torpes campanhas republicanas contra a Casa Real ficou conhecida como o "escândalo da dotação". É sabido que tal dotação fora fixada em 1834 por D. Pedro IV. Haviam passado sessenta anos e não sofrera qualquer actualização, pelo que os gastos correntes e extraordinários de representação corriam directamente do bolso de Dom Carlos I. Há semanas, foi a leilão um bilhete manuscrito do punho do Rei a sua mãe, datado de 1902, no qual Dom Carlos pedia a Dona Maria Pia que lhe emprestasse os seus cavalos para, assim, poder receber com dignidade o Príncipe Vajiravudh, herdeiro do Sião.
Em 1890, a nossa economia foi profundamente abalada pela crise internacional que levou a sucessivas bancarrotas de grandes bancos britânicos e franceses. A crise atingiu Portugal. O Rei, que na sua vida diária se debatia já com uma situação de quase penúria, pediu ao governo que mandasse cortar 20% do seu orçamento e, assim, dar exemplo de contenção. Por amabilidade de Teresa Bandeira, aqui está a nota do governo de 29 de Janeiro de 1892.
Talvez, um exemplo a seguir por Belém !

Aventuras de Kim e Rissól no Oceanário, no mini-golfe, no Aquaparque e Feira Popular


No próximo episódio: Kim e Rissól na Ovibeja.

Leões desafiantes

27 julho 2012

25 de Abril de José Hermano Saraiva

Veio o 25 de Abril e os que queriam persegui-lo e prejudicá-lo expulsando-o de tudo o que era lado não faziam a mais remota ideia de que, ironicamente, estavam a abrir-lhe o tempo para o cultivo e florescimento da mais rematada das suas vocações. O 25 de Abril pensou ter vazado sobre ele a lia da ignomínia e o ferrete do banimento; ao invés, aliviou-o da canga dos deveres oficiais e devolveu-lhe o tesouro da liberdade individual; mais, deu-lhe gratuitamente a chave de um porto abrigado a partir do qual lhe foi permitido recriar-se e transcender-se. O 25 de Abril proporcionou-lhe, inadvertidamente, um novo Vale de Lobos a ser habitado por um novo Herculano; e deu-lhe tempo para tentar sê-lo deveras.

Confirma-se aliança entre Al-Qaeda e EUA

Burguesia de Estado





Outrora, a burguesia de Estado servia o Estado, temia e impunha a lei, raramente transgredindo. A lealdade ao Estado era a sua mais forte competência. Não enriquecia, mas tinha poder. Hoje, a burguesia do Estado é uma intrincada rede de favoritos e privilegiados que vivem do Estado mas querem matar o Estado, usando os meios informais e legais para controlar a transferência de riqueza do Estado para pessoas e grupos que, dizendo-se liberais e entusiastas da iniciativa privada, só medram graças a favores especiais e cumplicidades que têm no aparelho do Estado. A indiferença com que tais monstruosidades são acolhidas, demonstra o estado de apatia e embrutecimento a que se chegou. Ontem ouvi a ministra - contentíssima - afirmando que se tratava de um esplêndido negócio. E que negócio !!!! Portugal é, sem tirar, uma esplêndida república das bananas.É preciso renacionalizar o Estado. Se não o fizermos, o país acaba; ou antes, transforma-se num negócio.

Outras guerras por desertos



Cumprem-se hoje 70 anos sobre o fim da chamada primeira batalha de El Alamein. Outras guerras por uma miragem; a fatalidade dos desertos, que são praias de nada e parece terem sido criados para sepulcro de exércitos. Os desertos são para anacoretas, não para soldados. Nós, ocidentais, andamos há tempo demais a brincar com os desertos e com os profetas e loucos de Deus que ali habitam.

26 julho 2012

Os barões dos Alcatruzes deste regime e seus lacaios intelectuais


Quem não conhece Camilo não sabe português. Ontem, recebendo para jantar um velho e sempre leal amigo dos tempos da adolescência, rimo-nos até às lágrimas com Um Jantar de Barões, talvez a maior prova da desconhecida genialidade de Camilo como poeta de pilhéria; mais, Camilo mantém perfeita actualidade.
Vamos à história. O poeta fora convidado para o simpósio do barão dos Alcatruzes no seu palácio auriflamante. A fome apertava, as terrinas ferviam, o odor a toucinho pedia inspiração à musa da sopa e do cozido, mais o rodovalho que o senhor barão prodigalizara. Quem era, pois, o generoso anfitrião?

"D’Alcatruzes é chamado, 
Porque, sendo ainda moço,
Muitos baldes d’água fresca
Dizem que tirou dum poço.
Nenhum outro mais destreza
Revelou na árdua empresa
De puxar acima um balde.
Um que seja tão robusto
Há-de vir mui tarde e a custo
Do concelho de Ramalde. 


É barão; não vale a pena 
Discutir-lhe os nobres feitos;
É barão dos Alcatruzes,
Já tem pagos os direitos.
Inda é mais; pois, além disto,
É comendador de Cristo
Com bastante indiscrição.
Mal diria Cristo, outrora,
Que seria posto agora
No peito dum vendilhão!

Ou seja, o barão viera de nenhures, fora aguadeiro e fizera-se gente comprando um título de barão; mais, havia conseguido a Ordem de Cristo.
A vara de comensais ansiava pela abundante ração ali exposta à gula insatisfeita, até que, dado o sinal, se atiraram ao festim

Da terrina a caudal sopa
Em silêncio é devorada.
Só então fingiram d’homens,
Porque não disseram nada.
Mas venceu a natureza!
Um barão por sobre a mesa
Estendendo o prato diz:
“Ó compadre!isto é qu’ébô!
Venha sopa, e acabô!
Cá de mim torno à matriz!”

O barão de Cogumelos,
Junto estando à baronesa
Que se diz dos Sacatrapos,
Quis fazer-lhe uma fineza.
Arrastou pra junto dela
Um peru, e a cabidela
No prato lhe despejou.
E lhe diz: “Cá isto é nosso;
Coisa que não tenha osso
É pró estâmago, e arrimou!”

Outro diz à gorda esposa
Que bem perto de si tem:
“Bai-le bobendo po’riba,
Ó mulher, come-le bem!”
Este pede ao seu vizinho
“Que lh’atice bem no binho
Qu’é da bela Companhia.”
Diz aquele ao seu fronteiro
“Que lhe chegue um frango inteiro,
E biba a santa alegria!”

E como para tão selecta sociedade importava ter a seu pé um "intelectual" - os intelectuais são hoje o que os bobos e goliardos foram na Idade Média - pediram que "um literato em seu conceito"

A palavra pede, e reina 
Um silêncio de respeito.
Ele diz: “Risonhas galas
Que refrangem nestas salas
Repercutem, simbolizam
Acrimónias insolúveis,
Nos acrósticos volúveis
D’epopeias que eternizam.

Pandemónios exauríveis
De indeléveis congruências,
Requintados se escurecem
Nos empórios das ciências
E libérrimos se escudam
Nas façanhas que transsudam
Em fantasiosas luzes.
E, portanto, a mais aludo,
Quando, férvido, saúdo
O barão dos Alcatruzes!”


Camilo ridicularizava os poetastros da moda de então - os simbolistas - esmerados compositores de musicalidades ocas, destoando tal poeira dourada dos pedaços de humanidade que à volta de uma mesa batalhavam de faca e garfo para satisfazer o estômago. Sem nada terem compreendido, mas inebriados por tanta cultura - que eles, sim, eram uns senhores - deram largas à exaltação de tão sublime momento "cultural":

Sucedeu o grito ao pasmo!
Nunca se viu coisa assim!
O orador foi abraçado
Com furor, com frenesim!
“Isto é qu’é!” dizia um,
Convertido em rubro atum,
Beterraba até não mais.
“Viva Cic’ro!” outro dizia,
Despejando a malvazia
Com grasnidos infernais.

Os barões estão vivíssimos. Entram-nos casa adentro todos os dias - os banqueiros roncantes, os super-merceeiros das "grandes superfícies comerciais", os bezugos autarcas, os senhores deputados mão-de-porco e pé-de-vitela, os ministros e os bispos saídos da enxada, os presidentes e as presidentas arrancados de retrosarias. Portugal pouco mudou. as elites são hoje o que eram no liberalismo dos Alcatruzes, com a agravante de serem piores, bem piores. Quanto aos intelectuais, já não sabem a métrica de Eugénio de Castro, exibem títulos da lusófona e infernizam-nos os serões à televisão com análises, citações e flatus vocis.

25 julho 2012

O recobro da missão mundial da Rússia

Uma excelente lição de Relações Internacionais, demonstração que a Rússia voltou a afivelar o seu papel de grande potência e tem a servi-la verdadeiros diplomatas, ao contrário do restante Ocidente, cada vez mais entregue a gente do jaez da Clinton. Alexandre Orlov, embaixador da Rússia em França.

Renacionalizar o Estado: o problema não são os funcionários públicos


É uma lamentável confusão que persiste nas prédicas incendiárias contra os servidores do Estado. Não, o problema não está nos médicos, enfermeiros e socorristas do SNS, nos bombeiros, policias, empregados das finanças, nos juízes e oficiais de justiça que guarnecem os tribunais, nos professores dos ensinos básico, secundário e superior, nos varredores que nos limpam as ruas e nos polícias que as protegem, nos maquinistas e condutores dos transportes públicos, nos guardas prisionais, nos bibliotecários e arquivistas, nos burocratas que mantêm a racionalidade dos procedimentos e a sobrevivência das instituições públicas. Sem eles, estaríamos certamente mais doentes, mais desprotegidos, mais ignorantes.

O problema do Estado não são os funcionários. O problema do Estado são os adesivos - os chamados cargos de confiança política - amiúde de muito pouca ou nenhuma confiança pessoal, gente sem preparação que gere o que não conhece, que usurpa lugares aos servidores do Estado, que interfere e degrada o desempenho das instituições que os aturam. O problema resume-se a 1% da população, ou seja, cerca de 100.000 fulanos e fulanas nomeados pelos partidos para funções que nunca exerceram. São os meninos e meninas de vinte e poucos anos, os chefes de gabinete, os assessores, os "especialistas", os secretariados (de ministros, secretários de Estado, presidentes de câmara, presidentes de fundações e institutos, mais os apaniguados dos grupos parlamentares), os gabinetes de imprensa de mil e um figurões, os três mil dirigentes superiores nomeados cada vez que vem novo governo, as sinecuras oferecidas pelos governos em bancos, conselhos de administração, os embaixadores improvisados, os assessores do Presidente, etc. Porém, o mal não se contém por aqui. Se lhes juntarmos os milhares de presidentes de juntas de freguesia, a gente trazida pelos partidos para as câmaras, os concursos viciados para provimento de lugares, o Estado perde organicidade e racionalidade.Foi esta gente que trouxe para o Estado tudo aquilo que hoje se confunde com o Estado. Foi esta gente que trouxe o despesismo, as redes de favoritismo, a entorse nos procedimentos, a errância no funcionamento das instituições. São amadores, são incompetentes, não têm experiência e só dão maus exemplos.

O grande desafio que se coloca não é, ao contrário do que pensa muito bom liberal, a maior ou menor dimensão do Estado, mas o do maior ou menor número de pessoas que vive do Estado e da militância profissional nos partidos e assola, devasta, apropria-se e malbarata os meios do Estado. O grande desafio é o da despartidarização do Estado, o da profissionalização plena dos seus servidores, o fim dos cargos políticos na administração do Bem Comum. Aliás, julgo que seria de todo necessário proibir, com letras de ouro e juramento, a incompatibilidade entre funcionalismo público e filiação em partidos políticos, verdadeiro conflito de interesses. A palavra de ordem devia, pois, ser "Renacionalizar o Estado".

24 julho 2012

Sim, "que se lixem as eleições": Passos Coelho voltou a ser menino


Passos Coelho produziu hoje o dito mais desassombrado produzido ao longo das últimas décadas em Portugal. Aos deputados do seu partido, o Primeiro-Ministro (é a primeira vez que o escrevo com letras maiúsculas) afirmou que há coisas mais importantes que o número de deputados. Para os cultores da demagogia e da jogatana partidocrática, estas palavras soam a heresia. Passos Coelho hierarquiza valores e coloca, no topo, o interesse da Nação, a segurança do Estado e o futuro de todos nós. Habituámo-nos às falácias e à lógica de um regime absolutamente contraditório, que se afirma democrático mas mente consecutivamente, que afirma a soberania popular mas refastela-se na manipulação e só premeia quem mais prometer, quem mais mentir, quem mais ludibriar. Este tem sido, ao longo dos últimos 40 anos, o curso das vitórias e das maiorias. Que eu saiba, só Adriano Moreira quis alertar os portugueses do curso fatídico que iria levar Portugal ao abismo. Foi em 1987, e o eleitorado, que gosta de mentiras, reduziu o CDS a 4% e ao tal grupo parlamentar que cabia num táxi. 
Passos Coelho sobe dez furos na minha consideração. Finalmente, alguém declara guerra à desonestidade dos fulanos e fulanas que vivem da política e da expectativa de ocupar lugares. Nem todos os regressos são retrocessos. Passos Coelho voltou a ser criança e disse a verdade que mais ofende; aquela que vai directa ao bolso e conveniências dessa gente que nada faz, nunca fez e vive, apenas, das sinecuras proporcionadas pela industrialização da mentira, ou seja, as eleições.
Perguntei há dias ao Nuno Miguel, que tem 11 anos, o que faria se fosse primeiro-ministro. Respondeu-me sem pestanejar: "metia-os a todos na cadeia". Quem ? "Todos". Passos Coelho disse-o hoje, mas de forma mais adulta. As crianças são seres maravilhosos !

Exército sírio vence em toda a linha gangues fundamentalistas

23 julho 2012

A política externa portuguesa e a Síria


Há dois meses, mal informado ou obrigado, Portugal considerou persona non grata a embaixadora síria Lamia Chakkour, acreditada em Lisboa. A decisão decorria do encerramento pelos EUA, França e Grã-Bretanha das respectivas embaixadas em Damasco. Já em Novembro de 2011, Portugal pedira ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que condenasse a Síria pela violação sistemática dos direitos humanos. A declaração, assinada pelos representantes da Grã-Bretanha, França e Alemanha abria portas a outras iniciativas mais incisivas visando, quiçá, a aceitação de um governo sírio no exílio e seu reconhecimento pelas potências ocidentais. Pensava-se, então, que o regime sírio estava na sua última fase e que ali se repetiria algo análogo à Líbia.
Sei de fonte fidedigna que a embaixadora Lamia Chakkour - cristã e reconhecida pela sua grande autoridade em questões do desenvolvimento, bem como pela luta que tem travado pela defesa do património arquitectónico, facto que ditou a acumulação do cargo de embaixadora com o de representante da Síria na UNESCO - mostrou-se surpresa e triste pela associação portuguesa a um plano que ultrapassa largamente a capacidade de Lisboa em avaliar e apreender a realidade que se vive na Síria. Terá dito a alguém, cujo nome preservo, que os portugueses sempre haviam sido amigos e compreensivos e que a mudança súbita se ficaria a dever a má assessoria diplomática em Lisboa ou a simples coação exercida pela França e Gra-Bretanha.
Parece que o governo português não ouviu ou não fez caso da viagem de trabalho que SAR o Senhor Dom Duarte fez à Síria em meados do ano passado. O Duque de Bragança informou o governo português, facultou informação precisa - que se veio a mostrar a correcta - e disponibilizou-se para prestar esclarecimentos adicionais. Não voltou a ser ouvido, pelo que se deduz que o nosso governo deu prioridade a versões que lhe foram induzidas pelas chancelarias de Londres, Paris e Washington. 
Agora que Assad parece triunfante sobre o exército salafista que pretendeu tomar o poder pela força, vê-mo-nos na incómoda posição de não poder participar na solução do problema sírio. O Presidente Assad lançou as bases para uma reforma democrática e cumpriu até ao presente as expectativas. Portugal poderia estar bem posicionado para representar uma posição intermédia ocidental, cooperante e vigilante, no cumprimento daquelas expectativas aberturistas. Infelizmente, os senhores das Necessidades informaram mal o nosso Ministro. A velha incompetência da diplomacia croquete-e-falso-chique das recepções a comprometer qualquer possibilidade de valorização da nossa presença no jogo diplomático internacional. De fora, também, as empresas portuguesas, que poderiam fazer bons negócios na reconstrução da Síria, posto que Assad nada mais quer com franceses, ingleses e seus satélites. Sempre ouvi dizer que as pequenas potências devem ter uma forte diplomacia. Nas relações internacionais não há afinidades ideológicas. Há interesses. O corte de relações com a Síria foi um desaforo. Mutatis mutandis, por que razão não cortamos relações com o Zimbabwe?
Paulo Portas deve andar cansado de ter à sua volta umas dúzias de diplomatas que mais se preocupam com a pérola na gravata e com os botões de punho que com o interesse nacional. Se eu fosse Portas, fazia algo de espectacular. Ia à Síria, encontrava-me com Assad e pedia-lhe que cumprisse integralmente o plano de reformas.

Al-Basatin, nos arredores de Damasco, livre de terroristas

Dar voz aos cristãos sírios

Al-Qaboun libertada pelo exército sírio

Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e limpar as ruas da infecção fundamentalista

22 julho 2012

Reina a paz em Damasco: Al Midan foi desinfectada


Contrariando os trombeteiros da imprensa-propaganda, que há três dias anunciavam ao mundo a iminente queda do governo sírio e a tomada do poder pelos fanáticos wahabitas e mercenários contratados pela Al-Qaeda, a Damasco voltou a ordem. O casco histórico da capital foi expurgado de bandidos armados e a população regressa aos seus lares. Noticiário que não passa nas nossas subservientes tv's !

José Hermano Saraiva e o Oriente


Em 2004, no quadro das celebrações do 150º aniversário de Venceslau de Morais, comissariei na Biblioteca Nacional de Portugal uma exposição denominada "Os Portugueses e o Oriente:1840-1940". Com o talento do José Maria Saldanha da Gama - talvez o mais dotado metteur en scène de exposições, pois que numa exposição há qualquer coisa de teatral - com um texto meu, outro do Professor António Vasconcelos de Saldanha (então Presidente do IPOR) e palavras introdutórias de João de Lima Pimentel (então embaixador de Portugal na Tailândia), produziu-se para o efeito um catálogo. A exposição foi visitada por largos centos de interessados e o catálogo vendeu-se tão bem que hoje é uma raridade bibliográfica.
Contudo, por mais que procurasse o apoio da imprensa, o evento foi quase ignorado pelos senhores jornalistas, que nada sabendo do Oriente, raramente acorrem a estas raras iniciativas que visam rememorar o impacto da presença portuguesa na Ásia.


Não me dei por vencido e liguei directamente ao Professor José Hermano Saraiva, com quem estive quase uma hora ao telefone. Mostrou-se vivamente interessado, pediu-me que ligasse ao seu produtor e, no dia aprazado, lá estava à minha espera no hall da BN. Falava com todos, do porteiro ao Director-Geral, com o mesmo entusiasmo, contando histórias e respeitando os seus interlocutores com a sinceridade e afabilidade que marcam os homens que gostam verdadeiramente das pessoas. O Professor Saraiva era assim. Sem peneiras, sem arrogâncias e distâncias, era petulante, petulante mas generoso, ouvindo todos, falando com todos, sem corrigir, sem esmagar o próximo. Levamo-lo para um gabinete e as minhas amigas e colegas Ana Cristina Santana Ferreira e Margarida Silva Pinto até deram uma ajuda a compor-lhe o fato. Falou-se um pouco de tudo e o Professor Saraiva gracejou com a política e os políticos, rematando com algumas sentenças sobre a crassa ignorância atrevida da nossa "classe política sem classe alguma".


Mostrei-lhe o catálogo e ali esteve meia hora a ler, sublinhando passagens que lhe sugeriam boas sínteses. Depois, olhou-me, pôs-se de pé e disse: "caro amigo, vamos à luta". Assisti à gravação do programa e espantei-me com o desembaraço daquele ancião de 85 anos. Falou durante quarenta e cinco minutos sem qualquer ponto, parecendo estar a ler o catálogo que meia hora antes folheara pela primeira vez. Um prodígio de memória e um verdadeiro actor em palco. Apenas me pediu que escrevesse, sobre uma grande cartolina branca, alguns nomes de difícil pronunciação, para que tudo saísse correcto. Terminada a filmagem, falámos uns dez minutos mais e foi-se. Ao despedir-me, agradeci-lhe, ao que o Professor atalhou e disse: "não vim cá fazer favor algum. Vim aqui para servir o país e lembrar aos Portugueses o sulco que deixámos na Ásia". Não o voltei a ver. Hoje, ao cair da noite, voltei a ver o episódio da Alma da Gente e fiquei emocionado. Obrigado, Professor.