21 julho 2012

Renascer sucessivamente

José Hermano Saraiva estava predestinado, com o pai e o irmão que tinha, a ser alguém, e a florescer intelectualmente num país bisonho, misoneísta e silenciador. Cumpriu a promessa, elevou-se acima da multidão e traçou a sua rota entre ventos e marés, renascendo incessantemente, imparavelmente, por entre o alarido dos que não tinham força para o deter nem fôlego para o acompanhar. Podia ter sido o melhor Professor de Direito da sua geração; foi-lhe negado por razões políticas – mas nem essas lhe tolheram a possibilidade de regressar, por cima, à ágora de que tinham procurado proscrevê-lo, e depois metamorfosear-se em direcção à única consagração que conta, a da apreciação daqueles que sabem estimar.
Nunca esqueço que um dia um bando de carrancas engalanadas quis persegui-lo – mas teve a infelicidade de lhe conceder o direito de defesa. Ele, que vendia sozinho mais livros do que todos os perseguidores juntos, olhou para o conclave e rematou: "vejo que nesta caserna se marca falta a quem anda na guerra!".

Claro, no Ericeira Norte

Os novos amigos do Ocidente

Povo sírio,às armas !



Sabe-se, finalmente, quem municiou, adestrou, pagou e transportou os 60.000 mercenários fundamentalistas oriundos da Tunísia, Líbia, Afeganistão, Iraque e Arábia Saudita que invadiram a Síria no início da presente semana. Pelo dedo se conhece o gigante - diziam os romanos - mas no caso presente não se trata de um, mas de vários dedos (o dedo do turco, o dedo da plutocracia cujo nome não se pode pronunciar, o dedo do fundamentalismo, o dedo dos poderosos cartéis do tráfico de ópio que dominam as rotas da Asia Central para o Ocidente). Os sites dos jornais em língua inglesa publicados em Damasco foram atacados por cyber piratas, as emissões da televisão estatal e das rádios interferidas por fortes sinais emitidos a partir de dois países contíguos, as licenças dos satélites de comunicações suspensas. 
A televisão russa, a única que continua no terreno a dar cobertura directa e isenta, oferece uma perspectiva absolutamente diversa da situação, mostrando imagens terríveis das chacinas cometidas pelos terroristas, a vandalização de templos cristãos, fogo posto e queima de bibliotecas e museus, execução sumária de funcionários públicos, policias, magistrados, mutilações e espancamento de mulheres que recusam o véu. O exército está a reagir e a bater os invasores, mas para as CNN's e demais cadeias globais de intoxicação persistem em oferecer uma imagem de desagregação do regime. O Presidente lançou ontem um apelo às armas perante a invasão. Os cristãos foram os primeiros a apresentar-se. Parece ter chegado a hora decisiva.

20 julho 2012

José Hermano Saraiva R.I.P.


Há cinco anos escrevi isto sobre o Professor. Não tiro uma vírgula. Morreu um amigo do povo e um patriota, categorias quase extintas em tempos de burguesiazinha desmiolada e globalizada (parvalhizada) e de vende-tudo. Saraiva vai fazer falta ao país. "O Professor Saraiva vai fazer-nos muita falta. Quando um dia nos deixar, o país ficará decerto mais pobre, mais cinzento, mais entregue aos barbichinhas de quatro dias e sorriso idiota. O Professor Saraiva é petulante. Adoro a petulância, adoro o orgulho e o espectáculo. A direita não conhece o meio termo. Os direitistas ou são extremamente asnos - casmurros, ignorantes e odiosos - ou extremamente dotados. Aliás, atrevo-me dizer não existir grande inteligência à esquerda, com a agravante de alguma dessa auto-proclamada, pretendida ou chamada inteligência à esquerda ser, de facto, uma direita escondida ou, pior, aquela estupidez ilustrada que nos aflige e macera de suplícios nas universidades e no colunismo opinativo. Ponto final". Naturalmente, há sempre quem garatuje imundícies sobre Hermano Saraiva, por antonomásia "o Professor". Outros, igualmente baixos, encostam-se à vulgaridade. Afinal, estão certos. Se o mundo fosse só constituído por larvas e fungos, seria realmente aborrecido.

A super-democracia antiga: mentiras & representação


Há quem diga, impelido pela ilusão e pela ignorância - as pessoas não lêem - que nunca como hoje tantos tomam parte na governação da República. Conceptualmente, é uma entorse, estatisticamente é uma mentira. No Ancient Régime português, 10% da população pertencia à nobreza provincial ou à aristocracia (duas realidades sociais distintas, amiúde confundidas), 10% da população (masculina como feminina) pertencia ao clero regular, secular ou tomara votos, e 15% a 20% do total da população pertencia à antiga classe média - o "Estado intermédio" - de "gente limpa" relacionada com os ofícios, com a educação, as magistraturas e a governança local. Ou seja, de algum modo, cerca de 30 a 40% da população intervinha na vida política. Quando comparados tais números, ressalvadas as especificidades e privilégios, com os cerca de 100.000 fulanos que hoje vivem da vida pública (autarcas, deputados, membros da nomenclatura) o Ancien Régime era uma super-democracia.
Para mais, a partir do século XVII, o funcionalismo público e a "nova nobreza" (a nobreza dita togada) provinha directamente do braço popular, pelo que os privilégios de sangue estavam condenados ao desaparecimento. Há que explicar às pessoas que aquilo que lhes foi contado na escola-catequese-de-mitos não corresponde à verdade, que estão enganadas; ou melhor, foram enganadas. A filosofice serve para muita coisa, nomeadamente para fazer comboios de citações, mas não responde e nada impugna. É hora de deixar de lado as filosofias e fazer história descritiva, pois nos arquivos está tudo o que a má-fé e a ignorância atrevida não querem ver.

19 julho 2012

Um país esmagado por racistas


Não, sobre o Zimbabwe não há senão tímidas pressões, quase envergonhadas. Sobre o apartheid, o supremacismo e o racismo legislado do tirano Mugabe, campeão do socialismo, apoiado por todos quantos se convenceram ser a vanguarda das causas justas e da generosidade, nem uma só palavra. Um documentário terrível, porque não comove, não interessa nem altera a carapaça das luminárias dos estudos pós-coloniais, dos racistas do anti-racismo, os "compreensivos" que nada compreendem, os "sociólogos" que vêem a injustiça nas vítimas e direitos justiceiros nos carrascos. Submetidos à ditadura dos crápulas, os ocidentais só reagem se das famigeradas ONG's, dos areópagos palrantes, das praças-fortes da imprensa que mente, dos especuladores das ideias que rendem certidão de superioridade moral se proclamarem as mesmas mentiras que década após década trouxeram a África ao caos; talvez o maior retrocesso civilizacional de que há memória na vida planetária.
O continente vai morrendo, num movimento que surge como imparável. Nunca - nem no período máximo do tráfico esclavagista, que não foi português, mas sobretudo britânico, holandês e, por último, norte-americano - tantos africanos sofreram tantos atropelos àqueles direitos que os bem-pensantes palradores invocam. Onde estão os Bernard Henri-Lévy, os Daniel Cohn Bendit, os Al Gore, os Bob Geldof e demais bufarinheiros dos negócios sentimentalóides ?
Afinal, os heróis são aqueles que resistem ao mal, que não se submetem à chantagem e vencem o medo. São os agricultores brancos, que são africanos, amam a África, servem a África, alimentam a África. Coisas destas nunca as compreenderão os pequenos criminosos teóricos. Ao Ocidente falta, afinal, um pingo de vergonha.
  

18 julho 2012

Mais cultura da morte: o nazismo sorridente


O BE propõe a criação de "clubes sociais" destinados a garantir a intocabilidade penal para os amigos do canábis. Ideia interessante, sem dúvida, mas que merece um esclarecimento dos amigos do coração - o Instituto do Coração, a Ordem dos Médicos e até o observatório da toxicodependência - sabido que tal substância potencia doenças de coração, agudiza problemas psiquiátricos e neurológicos pré-existentes,  provoca a alterações comportamentais, reduz o rendimento cerebral, provocando incapacidade para a resolução de várias funções intelectivas, para além de desenvolver nos consumidores apetência para o consumo de drogas duras. Sei, dizem-no algumas autoridades, que o canábis pode ter aplicações médicas e melhor sintomatologia de algumas afecções. Mas, no caso vertente, não se trata disso.
O BE, que é uma máquina dependente de votos, não tem programa nem ideias e as que tem limitam-se a por o mundo a fazer o pino. É digno de caricatura, mas por vezes pretende afivelar a máscara séria do legislador. Quem paga ? O SNS, os tribunais, os cidadãos, expostos aos delírios desses senhoritos burgueses, que aparentam ser anódinos, mas vão lentamente espalhando  a cultura da morte. Aposto a mão direita em como o BE se prepara para introduzir na agenda das "causas" a introdução da eutanásia, a supina pretensão de quantos, dizendo-se libertadores, querem a todo o transe ver o Ocidente transformado num cemitério. 

200.000 turistas italianos e alemães à sombra da Acrópole ou na história só mudam os actores

17 julho 2012

Januário, mas não mártir


Já me cansa ouvir Januário e as suas prédicas tão incendiárias como desonestas. O Padre Malagrida, esse, que era um justo, corria perigos mortais e imolou-se pela verdade denunciando o nefando Sebastião José e respectiva comandita de corruptos, assim como o temerário Dom António Barroso, que pagou com o exílio não genuflectir perante os desmandos e prepotências da cáfila do Costa. Este Januário - que nada é a São Januário de Benevento, mártir da Igreja - vem de uma linha mais chã, aparentado do frade Melícias e do Martins de Setúbal. Aquela grosseria desabafo-de-taxista, a linguagem soez de cocheiro ou de moço de estrebaria, o facciosismo partidário de que dá provas - nunca o ouvi indignar-se com matérias atinentes ao seu múnus sacerdotal  - oferece sobejas provas da nova santa aliança entre o altar e as curibecas.
Januário acusa o governo de corrupção; acusação grave, merecedora de acção imediata do Primeiro-Ministro, que deve levar o assunto às instâncias judiciais competentes e exigir do bispo apresentação fundamentada de tais acusações. O governo não pode ficar impassível e fingir que nada foi dito. Januário pode ser mais um dos muitos manuelinhos que por aí andam a espalhar a boataria que os fabricantes de calúnias - cobardes e silenciosos - endossam a estes Savonarolas sem miolos. Por outro lado, deixando a calúnia cair de forma indiferenciada sobre todos os titulares de pastas ministeriais, cabe a cada ministro ferido pela insinuação exigir ao batinado desculpas públicas.
NB: Recebi mais de dez comentários impublicáveis. Todos se diziam "católicos". É-me indiferente que o sejam. Aprendi há muito a não respeitar um padre pelo mero facto de o ser. Tem de dar provas - talvez uma levitaçãozinha me convença da sua superioridade espiritual - mas no caso do díscolo Januário, não me convencem os argumentos. Aliás, já nada me convence desde que vi o Patriarca a fumar e de copo de whisky on the rocks numa cerimónia pública. 

16 julho 2012

1812-2012: para encher a alma em tempo de trevas



O Miguel, da Azambuja, antigo sargento da Legião, visita mestre Brás, pai do jovem tambor caído em Wagram:  “Vocemecê sabe lá, desde a Espanha até a esse fim do mundo da Rússia, como a gente se cobriu de glória! Quando era preciso marchar e morrer, - lá iam, à frente, os portugueses! Negros, alegres, ardidos do sol, com as barretinas de peles chapeadas de cobre, as baionetas adiante dos olhos, fuzilando nas cargas, - quantas vezes nós nos atirámos para a morte a cantar as cantigas da nossa terra! E o Imperador – juro-lhe, mestre Brás, por estas três divisas! – já não via outra coisa senão os portugueses! “Quem são aqueles carvoeiros que se batem como leões?” – perguntou ele em Wagram. E quando lhe disseram que era a legião, que eramos nós, o Imperador empinou-se nos estribos e gritou aos marechais: - “Qu’on me ménage les portugais!” Poupem-me os portugueses, que são os melhores soldados do mundo!”
“Dali a pouco, no campo, perante o cadáver do pequeno tambor caído de bruços e crivado de metralha, o coronel Pêgo, com as lágrimas nos olhos, contava a Napoleão e aos marechais como aquele pequeno de catorze anos conduzira à vitória os batalhões portugueses. (…) Enquanto Oudinot, comovido, cobria com a sua capa cinzenta de marechal o corpo mutilado, Napoleão, tirando do peito a sua própria cruz da Legião de Honra, deixou-a cair sobre o cadáver do pequeno tambor”.

Júlio Dantas, O Tambor, In: Pátria portuguesa, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1914, p. 111-126

Só para ser visto por gente intelectualmente honesta


Há tempos, em amigável conversa com duas figuras de relevo da vida académica portuguesa, conhecidos intelectuais situados naquela esquerda que não se deixou obnubilar, nem pelo estreito ideologismo, nem pela ganância que leva à imoralidade e à rendição ao dinheiro, dei-me conta da total desinformação por ambos manifestada em relação à situação na Síria. Repetiam as banais e desavergonhadas mentiras colhidas na CNN e quejandas máquinas de intoxicação, até que ousei dizer-lhes que na Síria há 10% de cristãos, todos apoiantes de Assad, 12% de xiítas e alauítas, apoiantes do governo, que há partidos políticos representados na nova assembleia nacional eleita em Maio através de eleições em que participou 55% do universo eleitoral, que o Ba'ath perdeu a hegemonia na vida política síria, que a Síria é o mais consistente dos Estados do mundo árabe, que a simples visita aos jornais em linha publicados no país em língua inglesa permite aquilatar da sofisticação, educação e excelente gabarito da elite do país. Continuaria por horas, mas aconselhou-me a boa educação não transformar o jantar numa discussão política.
É evidente que, para quem já se libertou de esquematismos e, sobretudo, da enorme vulgaridade inerente à visão americana das relações internacionais - tendo presentes os bombardeamentos de Belgrado, Bagdad e Trípoli - a situação na Síria é um déja vu e que ali se está a praticar, de forma tão clara como indecorosa, o cumprimento de acordo entre os pequenos aventureiros que tomaram rédeas em Washington e as forças mais destrutivas do Islão. Sim, o caos interessa a muitos - que não menciono, não me vão chamar nomes -mas parece constituir o grande objectivo dos EUA na região, após os absolutos fiascos no Afeganistão e no Iraque. A palavra de ordem - instituído em dogma nunca pronunciado - é o de espalhar caos e neutralizar politicamente a região.
Ouvindo o Presidente Assad nesta entrevista, poderão os leitores comparar a caricatura do genocida, veiculada pela imprensa da plutocracia, com a postura cordata, séria e transparente nos propósitos aqui revelada. Muito gostaria que os nossos diplomatas - se é que ainda os temos - suspendessem os seus repentes e tentassem por momentos afivelar o distanciamento, o julgamento sereno e imparcial que conduzem à análise.

15 julho 2012

Uma democracia imperfeita a caminho de um regime autoritário?


Portugal já não é considerado um país democrático pelos institutos internacionais, mas uma "democracia imperfeita", tal como  a França - onde as entorses da lei eleitoral são conhecidas - bem como a Itália e a Grécia, que perderam, de facto, governos soberanos e entregaram-se às determinações de procuradores financeiros estrangeiros. A Espanha acaba de juntar-se ao clube dos pelintras. É evidente que a nossa democracia tenderá a esvair-se na proporção directa da crise, da pauperização e da espiral de conflitualidade que se avizinha. Quem deve andar ufano com tantas inusitadas aproximações é Lukashenko, o último ditador de tipo clássico do velho continente. Dá vontade de rir. O velho Sartori, que foi quase esquartejado quando, na década de 70, se referiu às "democracias latinas", vê agora confirmados os piores vaticínios. Afinal, também o velho e saudoso Professor Jacinto Ferreira, um dos fundadores da Nova Monarquia, tinha razão ao afirmar que a história portuguesa contemporânea se limitava a dois ciclos: o da ditadura seguida de balbúrdia, e o da balbúrdia seguida de ditadura. Com a espiral de escândalos, o nepotismo, a desagregação e degradação do Estado, parece estarmos quase a passar de um ciclo a outro. Uma fatalidade.
Nota final: repararam os caros republicanos que as 7 mais bem sucedidas democracias são monarquias?


Lukashenko faz-me lembrar alguém, mas não sei ao certo quem. É a Europa a caminho do tianato.