07 julho 2012

Eu fui crucificado na dita-cuja: as patifarias que se fazem nas universidades privadas


Nunca falei do assunto por razões de defeso de intimidade e pudor, mas julgo que o silêncio que tolera e cala nos torna, também, cúmplices de instituições que não merecem o nome que têm, nem tão pouco a função para as quais foram autorizadas a exercer actividade. Na dita-cuja, metástase de uma metástase da Livre, logo da Autónoma, perdi grande parte daquela espontaneidade - filha da ilusão - e aprendi que, afinal, nada nesta terra obedece à supina suposição que o trabalho, o esforço, a dedicação e a fidelidade são recompensados; que o profissionalismo, o entusiasmo, a verdade e o estudo compensam. Afinal, tudo é negócio; as universidades privadas, entregues a camarilhas predatórias de analfabetos criminosos, pouco se distinguem de cortiços que viciam, desvirtuam e mutilam a ideia de universidade.

Possuo provas tremendas que seriam suficientes para uma auditoria do Ministério da Educação, assisti a coisas dignas de um filme negro, arranjos, vergonhas, fabricação de curriculos; fui vítima de um dos centos de indignidades cometidos entre-muros na dita-cuja. Ali há de tudo: um antigo sacristão, logo assistente social, que se apresenta como Professor Doutor; um antigo padre, feito Professor Doutor e Magnífico Reitor, com título académico enigmático, que se passeava na pelintrice de um carocha até ser promovido a valetudinário do Professor Doutor assistente social e antigo sacristão; uma funcionária menoríssima que começou como contínua e que depois me apareceu uma ou duas vezes nas aulas como aluna e que nunca avaliei, logo promovida a "Dr-ª" e a Directora dos Recursos Humanos; um assistentezinho da Faculdade de Letras, homem conhecido por nunca ter dado uma aula e que foi afastado por incompetência da universidade pública, mas que na dita-cuja se transformou em pivot todo-poderoso por ser notório maçon, com capacidade de recrutar protectores para a dita-cuja. Perder-me-ia por longas perífrases enunciando coisas espantosas, mas limitar-me-ei a abrir a frincha do meu dossier.

Na dita-cuja entrei em 1990, como docente. Desde o início me dei conta que as criaturas que a animavam tentavam, à esquerda e à direita, lançar a rede ao maior número de cúmplices, recrutando deputados (do PSD, do CDS, do PCP, do Bloco), bem como quadros superiores dirigentes do MEC, gente dos jornais e das televisões, até sacerdotes de várias confissões. Bem via a direcção dessa casa mal-frequentada a espolinhar-se miseravelmente aos pés dos governos, mudando subitamente de orientação sempre que nova pandilha tomava as rédeas da governação. Se o governo era PS, ao casinhoto só faltava hastear a bandeira da rosa; se fosse o PSD, conferências, entrevistas e rapapés ao PSD. Tudo isso me enchia de repulsa, mas incomodava-me, sobretudo, o assédio quase sórdido a pessoas que poderiam de algum modo conceder os seus favores. Fui professor de muitas das criaturas que se pavoneiam diariamente nas pantalhas. Estavam ali, homens já na casa dos 40 ou 50, vindos do nada mas com um lugar no parlamento, ciosos de obter o tal diploma e, depois poderem, cada um na medida das suas possibilidades, retribuir em favores à dita-cuja. Estou há oito anos a preparar um doutoramento - um verdadeiro - e apresentei provas públicas de mestrado (numa universidade verdadeira), mas ali assisti a licenciaturas, seguidas de mestrados e doutoramentos de fulanos absolutamente falhos, em tempo recorde, já "Professores Doutores" enquanto eu, pateta, dedicava três anos ao mestrado e oito ao doutoramento.

Certo dia, fui convocado de urgência à reitoria. O MEC fizera uma inspecção à dita-cuja e requerera, como condição, que tivesse uma biblioteca correspondente à ambição latitudinal das áreas científicas e curriculares recobertas pela dita-cuja. Como sou bibliotecário encartado, dediquei quatro anos de sacrifícios inenarráveis a dotar a dita-cuja de um centro de documentação. Formei o pessoal, dei-lhes aulas de catalogação e indexação, arranjei-lhes estágios na agência bibliográfica nacional, instituí as regras de funcionamento, a política de aquisições, a assinatura de revistas científicas e respectivo cardex, a informatização e a criação do catálogo em-linha, a política de empréstimo domiciliário. Ali passei quatro anos, seis e sete horas por dia e até sábados, das 4 da tarde às 10 ou à meia noite, actividade que acumulava como docente. Um ano após o início da minha actividade, a biblioteca já o era, não só de nome, mas um dos mais bem organizados e úteis módulos da dita-cuja. Depois, sempre ingénuo, sugeri que se requeresse ao MEC a autorização para um curso de especialização em Ciências Documentais.  O tal curso, destinado a habilitar e credenciar bibliotecários e arquivistas, transformou-se numa das mais dinâmicas pós-graduações da dita-cuja. Por tudo - pela biblioteca, pelas aulas e pela direcção da pós-graduação - recebia um ordenado quase simbólico, sabendo que na dita-cuja se pagavam ordenados milionários a alguns manipanços cuja função era a de apenas figurarem nos cartazes de publicidade enganosa, mas que nunca davam uma aula. Mais, havia maridos, mulheres, filhos e filhas da comandita da direcção ocupando lugares relevantes, salários quase insultuosos.

A biblioteca foi, finalmente inaugurada, num daqueles muitos foguetórios que contam com a presença do ministro e do secretário de Estado da tutela. Estava um brinco. Foi-me lavrado louvor. Na manhã seguinte, fui demitido sem explicações e o lugar oferecido a um amigo da direcção. O mesmo aconteceu com a pós-graduação, a tal que de vinte alunos no primeiro ano de vigência, subira para 50 no segundo ano e setenta alunos no terceiro. Trabalho feito, convocou o tal "magnífico reitor" uma sessão plenária, no decorrer da qual, tendo-me feito os mais exaltados panegíricos, agradeceu em nome da dita-cuja o meu ardor e dedicação, para logo confrontar os circunstantes com o "novo Director do curso", um homenzinho idoso muito diminuído por doença incapacitante, mas que exigira à dita-cuja a minha cabeça em troca da abertura de um protocolo de cooperação com uma certa universidade espanhola que doravante passaria a dar doutoramentos a todo e qualquer que quisesse enriquecer o paupérrimo currículo. O homenzinho apareceu-me no gabinete, tratou-me por tu e por "rapaz", deu-me vinte minutos para "sair daqui para fora". Saí e não voltei, até hoje. Confesso que senti uma tremenda raiva por essa gentuça, que tanto mal gratuito me provocra. Mas não morri nem carpi mágoas. Dois meses após a defenestração, ganhei um concurso público para a chefia da divisão de investigação científica na Biblioteca Nacional e três anos depois, em concurso límpido - como o são todos da FCG - segui para a Tailândia para desenvolver investigação para o doutoramento que receberei até finais deste ano. Jurei a mim mesmo nunca mais entrar naquela grande barraca e não mencionar, sequer, o seu nome, pois os nomes marcados pela ignomínia - acreditavam os romanos - também sujam quem os profere.

Hoje, sinto-me aplacado. Afinal, não me conspurquei com tão sórdidas companhias, não me tornei um pequeno cúmplice, não beijei o anel do Padrinho. Perdi dez anos da minha vida entre canalhas e na altura não o quis ver ou não percebi. Ao contrário de tanto bom como ingénuo liberal, não acredito na iniciativa privada senão sob forte vigilância. Quando deixadas à solta, as pessoas (sobretudo os atrevidos e os ladrões genéticos) tomam a dianteira aos homens limpos e transformam a liberdade em pesadelo.

06 julho 2012

Universidadezecas

As privadas, desde que existem, têm sido justamente apontadas como maus exemplos. Foi a Livre, depois a Moderna, logo de seguida a Independente e a Internacional. Com sinceridade digo que, sempre que confrontado com um currículo, o primeiro olhar certificador detém-se na instituição de origem. Até prova em contrário, desconfio da competência académica dos produtos dessas para-universidades.
As universidadezinhas e as suas negociatas, os atrevimentos impantes e conúbios que as caracterizam, a desclassificação da maioria dos seus corpos sociais dirigentes, os acordos internacionais que estabelecem para garantir turbo-doutoramentos; tudo isso é suficiente para as subalternizar. Sinto, até, algum acanhamento e vergonha naquelas pessoas que por lá estudaram. Motivos vários concorrem para essa diminuição. Lembro-me de uma certa universidade, onde se constituiu uma "Associação dos Antigos Alunos da L..." duas semanas após homologação ministerial. Não é a excitação das praxes violentas, os coros, o trajo, as queimas e a bênção das pastas que fazem uma universidade. Há-as sem biblioteca, entregues a sapateiros e famílias (pai, filho, filha, mulher), há-as instaladas em apartamentos sem quaisquer condições; há-as com centos de licenciaturas, pós-graduações e mestrados absolutamente absurdos. A culpa não é dos atrevidos que se meteram no negócio, mas dos titulares ministeriais que as aprovaram. A promiscuidade das universidades soit-disant com os partidos, com os jornalistas, os sindicatos e até com organizações secretas-discretas; tudo isso, de tão estranho, seria suficiente para que narinas mais sensíveis se afastassem. Mas há dinheiro, saguates, recompensas em género ou diplomas, favores. Tudo isso me enoja.

Coisas espantosas. Tanto Professor Doutor ou um país de excelência

05 julho 2012

Delenda est Universitas ou Anita quer um canudo sem estudar


Ouvi ontem o Damásio pai e o Moutinho da Lusófona e fiquei siderado. Digo que foi com um quase sentimento de revindicta que assisti àqueles terríveis instantâneos. Os dois homens expuseram em dois minutos aquilo que centos de páginas não o fariam. Mostrou-se o amadorismo, a impreparação, o postiço, a negociata em que vão essas coisas chamadas pomposamente de "universidades".
O bruá em torno de Relvas e Sócrates (e, porque não, em torno dos milhares de licenciados, mestres e doutores produzidos pelas universidades privadas) obriga-nos à aceitação de um velho princípio de prudência, segundo o qual há áreas demasiado sensíveis para ficarem entregues aos privados. A escola é uma delas. Em nome de uma fábula libertadora, transformou-se o ensino num negócio. Em nome da confiança na capacidade empreeendedora dos cidadãos, o ensino privado converteu-se em sórdido negócio de merceeiros. Eu sei do que falo. Num desses tugúrios de negociatas, golpes, negócios e tráfico de influências, perdi doze preciosos anos da minha actividade profissional como docente e bibliotecário, fui testemunha e vítima das mais espantosas entorses e perdi para todo o sempre o mais leve vislumbre de respeito pelos ratoneiros que transformaram a velha universidade em pantomima. 
No que ao ensino respeita sou, aberta, convitcta e resolutamente defensor do sistema francês. Ensino concordatário, tudo bem; ensino privado, nos moldes daquele que vigora em Portugal, não.
Se neste país houvesse Estado, as universidades privadas - todas, sem excepção - seriam nacionalizadas sem demora, os seus bens centuriados pelos campus universitários públicos, o corpo docente e respectivos títulos esmiuçados, os negócios e investimentos a que se dedicam esses cortiços submetidos a auditorias.
Sei que o escândalo Relvas não tem a ver com a universidade, nem com a licenciatura. É uma história outra, de uma guerra entre maçonarias, mas, sobretudo, uma guerra contra Relvas, porque Relvas está a querer mudar coisas que dão dinheiro a muita gente poderosa (autarquias, televisão).

04 julho 2012

Não me falem de diplomas, mostrem-me uma redacçãozinha


Ano-sim, ano-sim, uma polemicazinha em torno de uma suposta licenciatura fraudulenta. O doutorismo/engenheirismo/arquitectorismo português, sem dúvida uma das muitas bolsas de subdesenvolvimento existentes numa sociedade que requer títulos para cobrir a nudez dos Silvas, dos Pereiras e dos Lopes, requer algumas considerações. Já aqui contei o episódio de uma delegação japonesa que um dia me expressou deferente espanto pelo facto de, durante a visita a Portugal, ter sido confrontada com tantos doutores e doutoras. Até as secretárias eram doutoras, mais a senhora das relações públicas, o homem do economato, o montador de exposições, o revisor de textos, a fulana da livraria. Um mar de scholars a somar aos mestres, aos pós-graduados, aos "especialistas" e aos verdadeiros "doutores", que já são tantos que até foi necessário inventar os pós-docs. Quando lhes disse que "doutor" é um arranjo semântico correspondente a uns três reles anos na universidade, riram-se e perderam a gravitas nipónica. "Então, no Japão temos 75% de doutores", comentou um dos japões (Luís Fróis dixit).
O pior é quando as pessoas, ofendidas e envergonhadas por não serem doutores, nos dizem: "não sou doutor". É como se dissessem "não existo".
Sinceramente, já não dou uma caracoleta por um título académico. Para saber quem é quem, não dispenso ler um texto - até pode ser a receita para um pudim; a Maria de Lourdes Modesto é uma grande escritora - e ouvir o curriculado a falar em público sem a maldita muleta do discurso escrito que é, para além de acto de má educação para quem ouve, uma tremenda e insofismável prova de incapacidade de comunicação.
Se Miguel Relvas precisa do doutor para sobreviver, se foi tentado a ser doutor para garantir reconhecimento público, o problema é dele, mas é, sobretudo, um problema português que importa corrigir quanto antes. Em Espanha, o problema foi corrigido num só dia, em simultâneo no campo nacionalista e no campo republicano. Em 1938, Burgos, num assomo falangista, e Madrid, em arrancada igualitária, legislaram e proclamaram o fim dos doutores. Doutores e doutorecas há muitos. Presumo, até, que há mais analfabetos entre os doutores que entre os analfabetos rudimentares. Os mais perigosos são, certamente, os doutorinhos e doutorinhas alvares.
Ora, meus amigos, Camilo, Herculano e Pessoa, nem António Ferro (talvez o mais talentoso dos nossos responsáveis governamentais do século XX) foram doutores. Não sejamos ridículos. Inventando um neologismo, desridicularizemo-nos..

03 julho 2012

Venenos portugueses e sociedades secretas: desfazendo o mito da perna de frango no bolso da casaca


As matérias relacionadas com a história política só ganham plena inteligibilidade se encaradas numa perspectiva absolutamente policial. Tal como o criminalista deve possuir uma estrutura mental simétrica à do criminoso - os policias são, à sua maneira, os únicos criminosos tolerados pelo Estado - os analistas políticos agarrados à ficção do angelismo ou submetidos à piedosa crença da predominância das ideias na vida política, nunca compreenderão a verdadeira força que move os homens atraídos pelo poder. A actividade política obedece, não às ideias e às crenças, mas às forças cegas da rapacidade, da ambição predatória e do saque. A intriga, a destruição do adversário-concorrente, a absoluta falta de limites e regras no combate para atingir o poder ou garantir a sua posse, é isenta de qualquer escrúpulo . Não, há, pois, qualquer moral nem tão pouco regras, se bem que aqueles que à política se dediquem sejam os mais prolíferos arautos da moralidade. Quem diz política, deve ler também, o ofício de historiador.

Vem isto a propósito de uma pequena historieta, sempre em voga entre aqueles que se interessam pelas coisas da história contemporânea portuguesa, e que de tão repetida ficou. A historieta voltou à baila há três ou quatro anos - aquando do bicentenário da transferência da família real para o Brasil - e resume-se a parodiar, escarnecer, diminuir, ridicularizar ou desprezar a figura do então Príncipe Regente e futuro Dom João VI. A historieta é velha, cabendo a parte de leão a Oliveira Martins, que era homem de génio, mas também criatura venenosa que deixou centos de assassínios de reputação nas belas páginas do seu Portugal Contemporâneo. Pegando nos três maiores defeitos da alma portuguesa - a inveja, a mesquinhez, a ingratidão - Oliveira Martins, logo seguido dos Josés de Arriaga, dos Junqueiros e quejandos, pintou um retrato devastador de Dom João e da Princesa Carlota Joaquina. Da estupidez de um e do carácter de Messalina de outra não ficou, porém, qualquer prova documental. Não há, de Carlota Joaquina, uma só das famosas cartas pornográficas enviadas às irmãs, como de Dom João VI um só testemunho da sua imbecilidade. Pelo contrário, de todos os documentos e memórias a nós chegados - cito, arbitrariamente, o Copiador de Junot, as memórias da receptadora Laura Junot, os relatórios dos secretários de Estado da Marinha e Ultramar - transparece a imagem de um Príncipe Regente inteligente, diligente, trabalhador e informado. De Carlota Joaquina, a de uma mulher de armas, temível inimiga das maquinações das sociedades secretas (de cariz francês, como das de obediência britânica) e uma servidora da paz e da ordem.
Enquanto um e outro foram vivos, os inimigos da Coroa não conseguiram uma vitória. Havia, pois, que os eliminar. A Dom João VI eliminaram-no fisicamente, com o veneno. A Dona Carlota Joaquina, infamaram-na após a morte. Enquanto foram vivos, Dom Pedro e Dom Miguel - infelizmente deixados ao Deus dará e de educação descurada - não foram usados pelos grupos que se guerreavam para fazer essa bela obra que foi o tão afamado liberalismo, o avô da bagunça de hoje.


Voltemos à historieta. Compreendo, agora, sem caricatura e sem "ideias", a razão da imagem (certíssima) de um Dom João VI tirando coxas de frango do bolso da casaca. Dom João VI sabia bem que na sombra se movimentavam forças assassinas capazes das mais atrevidas iniciativas homicidas. Dom João VI e Dona Carlota Joaquina viviam rodeados de traidores. Hoje, sabemos quem eram, que lhes pagava, a quem serviam. O tema é actualíssimo. Os jornais estão cheios de referências a essa curibecas. Assim, ele comia as coxas de frango porque temia ser envenenado. Tinha razão. Quando deixou de as transportar na sua casaca, morreu envenenado.

01 julho 2012

O duplo mistério do bolchevismo



Embora tratando-se de uma simples fita para a televisão, e porque quase tudo o que se faz para a tv nasce sob o signo do péssimo (com exclusão, datada, das saudosas séries britânicas dos anos 70 e 80), o Stalin interpretado por Robert Duvall enche o ecrã. O locus horrendus  das distopias criadas pelo bolchevismo exerce sobre qualquer um a mesma atracção que Nero, Átila e Hitler. Mas pior, bem pior. De facto, mais que o nazismo - que durou 12 anos, morreu de morte macaca, nunca escondeu os seus propósitos e exerceu o seu poder sobre uma fracção mínima da geografia planetária - o comunismo foi quase centenário, chegou a dominar metade da população mundial, teve e tem defensores e nunca foi submetido a julgamento.
O bolchevismo foi um salto sem fase intermédia do individualismo para o colectivismo; da economia de mercado para o primitivismo dos regimes da mais recuada antiguidade pré-clássica; o ódio quase selvagem ao espírito e à cultura; o total desprezo pelas pequenas e grandes coisas que fazem a felicidade e a honra das pessoas; a atracção pela violência e a moralização do extermínio.
O mistério que envolve esta crença primitiva que impôs uma regressão tolerada e aplaudida centra-se, afinal, no carácter da gentalha que o animou. Como foi possível que um gang de facínoras, gente absolutamente falha de formação recrutada entre o lumpen de desocupados, revoltados e inúteis, se pudesse apossar do Estado russo, e logo no poder, montasse um regime que não passava de ampliação de um reles grupo de criminosos? Mas mais preocupante - o mistério dos mistérios - por que razão não se exigiu que os seus dirigentes e colaboradores não pagassem por tantas dezenas de milhões de crimes, quando as estatísticas mais sólidas apontam para mais de 100 milhões de mortes causadas por tal flagelo.