30 junho 2012

Um bom ministro não pode descer à ralé



Álvaro Santos Pereira tem manifestado em todas as ocasiões traços de um carácter decente. De discreta elegância, uma timidez simpática e sempre disposto a explicar de forma cordata as decisões do governo, revelou ontem a rara característica da coragem física. Contudo, Álvaro Santos Pereira, na sua boníssima ingenuidade, esqueceu-se que os bandos que acodem a estas cobardes esperas não vão para dialogar, mas para  cevarem instintos homicidas a que a hipocrisia comunista chama de "justiça popular", que nunca foi justiça, nem nunca foi popular, por que realizada pela caudilhagem local dos partidos e dessa coisa a que se dá o nome de sindicatos. Não se fala nem negoceia na rua com a ralé. Conta-se que um dia, numa estalagem de muda, o autor do Contrato Social, quis explicar ao povo da aldeola alguns aspectos do seu trabalho, confiando que aqueles rústicos sem mácula de letras - logo, próximos do bom selvagem - o acolheriam com simpatia. Qual quê, foi agredido e quase chacinado pela plebe, tendo de fugir para a carruagem sempre perseguido pela ira da turbamulta.
Os governantes devem falar com o povo, devem colher informações que os relatórios não mencionam, devem ouvir testemunhos para depois os avaliarem no quadro de uma racionalidade que está para além do grito, da lágrima, do caso isolado.
Quanto ao autarca do PSD, demonstra à saciedade que o "poder local" é uma regressão histórica sem precedentes, com a agravante de os "homens bons" de outrora - o chamado Estado intermédio - terem dado lugar a pequenos caciques oportunistas. O PSD, se tivesse um pingo da coragem do ministro Santos Pereira, devia começar por expulsar de imediato tal autarca. Mas não vai, porque em Portugal falta a todos aquilo que Álvaro mostrou ontem. um pingo de coragem.

29 junho 2012

Exaltação do autoditatismo


Uma discussão à volta da mesa do almoço. Um choque. O fulano, palavra sim, palavra não, lembrava a sua condição de "universitário", "académico" e "intelectual", acrescentando o palito métrico dos comboios de citações. Por que raio não consegue essa gente andar sem as muletas do citacionismo dos Hegel, dos Foucault, dos Kants & C.ª (só falta o Bazar Henri-Lévy) para discorrer sobre uma cólica, uma dor de garganta ou um creme de praia? Respondi-lhe que o género filosófico - género literário, sem dúvida - é uma forma airosa de não saber. Pessoas que não sabem uma data, não conseguem esgrimir com um facto, nada leram daquilo que faz uma pessoa civilizada, não conseguem separar um Rafael de um Rubens, não sabem onde fica o Volga, nunca leram um Stendhal, de Paris conhecem o Estádio de França e não o Louvre, nunca puseram os pés numa ópera ou num teatro, nunca perderam 10 minutos na Biblioteca Nacional, têm o desplante de puxar pelas dragonas de uma autoridade académica que nada diz. Partem do nada, preenchem o vazio com qoutations, ponderam sobre coisa alguma e aí está, impante, o "saber universitário".

Para o provocar, disse aquilo que penso há muito. Sim, sou autoditacta, sou diletante (que quer dizer aquele que gosta e se inebria), sou amador (que quer dizer aquele que ama) as coisas pelo acto de gostar e não porque as coisas asseguram status. Na universidade nunca aprendi nada. Nunca professor algum me ensinou o que quer que fosse. Claro, tenho as minhas excepções: da escola primária, a professora Ana Cândida, que me ensinou a ler,  a escrever e contar; do liceu, a professora Marina Pestana e o professor Simões Serra, que me incutiram, respectivamente, o amor da literatura e da história; do mestrado, o Professor José Esteves Pereira (uma máquina de pensar) e do doutoramento o Professor Saldanha, que sabe da coisa asiática o que milhares de espevitados bolonheses jamais saberão com as suas "especializações, investigações, aportações, comunicações", mais os que se esgalgam para aparecer na pantalha, mesmo que seja para falar de brownies.
Curioso. Regressei ao meu gabinete e consultei a bibliografia nacional actualizada. O homem nunca tinha publicado uma linha ! E viva o autodidatismo.

O bom pimba tailandês



A cinquentona ดาว มยุรี (Daw Mayuri), sujeita a mil e um liftings é a grande vedeta pimba do "country" Issan (a região leste da Tailândia). Aqui não há peneiras de estrelato, muito embora  Daw signifique precisamente isso, estrela. É a alegria dos latinos do sudeste-asiático em plena explosão afrodisíaca. Quanto à letra, poderão imaginar o mesmo jaez do Quim Barreiros, com as limitações [justíssimas] da boa censura thai.

28 junho 2012

O primeiro western bacalhau



Simpático atrevimento, a somar aos western spaghetti de Leone, aos western paella, aos western DDR e aos western Tito da defunta Jugoslávia. Atrevimento inofensivo e simpático, não fosse o sub-género da mais despretensiosa ligeireza. Depois de tanto celulóide gasto em soporíferas intelectualices e pedanterias de longos monólogos monocórdicos, que a Secretaria de Estado vai pagando às fitas menos vistas do mundo, um toque de pequena graça caseira. Que me lembre, das quatro vezes que me sentei num cinema para ver uma daquelas fitas apaparicadas pela "imprensa de referência", adormeci com o Morfeu.
Que venha, pois, o western bacalhau com todos. Só rezo que não misturem os malfadados Pessoa e Eça à brincadeira, pois os intelectuais, se não fazem asneira à entrada, acabam sempre por fazer à saída. E não venham já os patetas reaccionários sem mundo, os contra-tudo, pedir coisa melhor. Depois das 999 "geniais realizações" do Manoel de Oliveira - com excepção do Pão, das Estátuas de Lisboa, do Aniki-Bobó e Douro, Fainal Fluvial - tudo que cheire a cinema é bom.

27 junho 2012

Para dias de depressão: Napoleão sobre os portugueses


O dito é conhecido, mas importa lembrá-lo para afagar o nosso amor-próprio. Em Fontainebleau, na primeira audiência diplomática após a grande vitória de Wagram, na qual os portugueses da Legião Portuguesa se haviam batido como leões, Bonaparte, "ao entrar na sala dirigiu-se primeiramente ao embaixador da Rússia e depois voltou-se para o Conde da Ega dando alguns passos para o lugar onde este estava e lhe disse diante de todo o corpo diplomático e de toda a corte: Senhor Conde, estou muito satisfeito dos vossos portugueses. Eles combateram sempre com muita galhardia nesta guerra e decerto na Europa não há melhores soldados que eles" (1).
Dois anos depois, no decurso da retirada da Rússia, com a Grande Armée em decomposição, "passando Bonaparte a cavalo junto [das tropas de Ney], e reparando que eram os portugueses que marchavam na testa da coluna, não sendo costume entre os franceses dar aquele lugar a estrangeiros, fez a este respeito uma observação ao marechal, [ao] que este respondeu: sim, Senhor, os portugueses são os nossos guias, e os que os seguirem não se hão-de desviar nunca do caminho da honra" (2).
O ditador nunca deixou de lançar sobre os legionários portugueses a magia da sua retórica. Em 1810, em arenga feita à Legião em Grenoble disse: "a águia que paira sobre Paris cobrirá os povos com as suas asas, do Bósforo ao Tejo"(3). Terrível profecia que nunca se cumpriu.

(1) Manuel de Castro Pereira de Mesquita, Historia da Legião Portugueza em França, Londres: T.C.
Hansard, 1814
(2) Idem
(3) Teotónio Banha, Apontamentos para a história da Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão, Lisboa, IN, 1863.

Quando os monárquicos lideraram a libertação da Faculdade de Letras

O Dia, 11 de Novembro de 1985

Em 1985, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa era um cortiço do PC, que ali produzia os seus  intelectuais orgânicos e acorrentava milhares de alunos à mais estrita pedagogia marxista. Haviam passado dez anos sobre a revolução. A FLL fora campeã das paralizações, das assembleias gerais, dos saneamentos e do terror - das chamadas anónimas, dos abaixo-assinados, do processo de escolha dos professores pelos alunos, da recusa em permitir a avaliação "não negociada", das ameaças físicas constantes, da participação obrigatória em sessões - mas em 1985 persistia o mais férreo controleirismo. Fiéis à divisa de Monnerot de "desmarxizar a universidade", o núcleo da Nova Monarquia, estudantes centristas e do PSD iniciaram uma escalada desafiante que provocou a breve trecho incidentes de natureza vária e conduziu à formação de uma lista de unidade anti-totalitária encabeçada por monárquicos. Foi o começo do fim do feudo comunista. Em finais desse ano, nas eleições para a Assembleia de Representantes, a NM e seus aliados obtinham quase 40% dos representantes. O PREC durara 11 anos e foi a Nova Monarquia que o terminou no mais fossilizado dos bastiões da anti-cultura.

Coisas antigas que não se repetirão

O Diabo, 3 de Julho de 1984


Em meados de 1984, perante as primeiras arremetidas da Nova Monarquia, alguns monárquicos inquietos quiseram travar o ímpeto do movimento, procurando associá-lo a posições "corporativas, mesmo que mitigadas". O tempo se encarregou de demonstrar que a proposição do alargamento da representação mediante a criação de uma câmara alta e especializada (vulgo senado), ao invés de diminuir o papel dos partidos na vida política, teria sido poderoso agente de participação dos portugueses na vida da cidade. A inteira confiscação da vida política pelos directórios partidários - uma das causas do actual afastamento e desencanto da população - teria sido evitado. Um senado especializado, eleito pelo voto das forças económicas, do trabalho, do ensino e da investigação, e das regiões teria podido aplicar as reformas negociadas que um parlamento entregue ao amadorismo e à tão funesta disciplina de voto dos grupos parlamentares não pode ou não tem querido fazer.
No que ao movimento monárquico respeita, sanados desentendimentos e esclarecidas dúvidas, o tempo é de unidade na diferença pois hoje, passado mais de um quarto de século, sabemos que todos, sem excepção, tínhamos razão ao defender a restauração da monarquia como o começo da restauração do país. 

25 junho 2012

Ernstfall: à espera de Dom Sebastião


Fotos colhidas do incontornável Lisboa SOS. Acabaram os cartões de crédito, os carros poligrupo foram apreendidos pelos bancos, do subsídio de férias subsiste uma vaga memória, já não há vôos "vá agora e pague no próximo ano" para as repúblicas dominicanas e maceiós. Calaram-se, também, as goelas  de que nos lembrava, minuto-sim, minuto-não, que "antigamente" havia fome, o velho botinhas puídas tinha galinhas em S. Bento, o português contentava-se com uma sopa de nabiças (nossas), uma rodelinha de chouriço (nosso) e um pedaço de pão (de trigo português). Esta gente sentia-se rica, "europeia" e "branca". Finalmente, acordámos e estávamos na miséria. Agora que Maceió está no fim do mundo e à Costa da Caparica não se pode ir a pé, pois que venha o Terreiro do Paço. Bela praia, a sonhar com Dom Sebastião que regressará de espada flamejante, com 40 graus à sombra.


Não discutimos o hino

O Estado Sentido teve a feliz ideia de lembrar a origem monárquica do hino nacional e o respeito que nos merecem os símbolos nacionais. As discussões de natureza himnológica não cabem, decididamente, no horizonte das preocupações daqueles que pela razão e pelo afecto advogam a restauração da monarquia; corrijo, a restauração de Portugal e a implantação de uma nova monarquia. A marcha de Keil é um apelo vibrante ao ressurgimento, interpelando os portugueses, exortando-os às armas e ao recobro do orgulho. Só me lembra o poema de António Manuel Couto Viana:

Vem ser manhã na noite sepulcral !
Vem expulsar de nós a névoa do presente
E acorda Portugal !