16 junho 2012

De Eva Duarte a Santa Evita: 60 anos depois



Ao morrer aos trinta e três anos de idade, minada pelo cancro - idade de martírio, como Cristo e José António Primo de Rivera - a Eva Péron só poderia ter ocorrido o célebre dito espirituoso que Suetónio atribuiu a Vespasiano nos momentos que antecederam o seu passamento: "pobre de mim, acho que estou a transformar-me num deus", ironizando com a prática romana de deificar os seus imperadores.
Sessenta anos após a sua morte, Eva Maria Duarte Péron, ou simplesmente Evita, continua um mistério, objecto de ódios inaplacáveis e de uma devoção popular, mistura de santidade laica e cristã. Odiada pela oligarquia argentina, que tinha nas mãos uma das nações mais ricas do hemisfério ocidental, mas onde as crianças andavam descalças e morriam de fome, adorada pelos pobres, usada e abusada após a morte pelos politiqueiros e por sindicalistas que transformaram a Argentina num caos, Eva é uma lenda, um ser à parte. Bela como uma santa virgem, tinha garra de tribuna, era nacionalista, socialista e fascista, fazia o bem por vocação, roubando aos ricos para dar aos miseráveis.
A profetiza justicialista vinda do nada, filha de mãe solteira, retirante chegada a Buenos Aires atraída pelas luzes da grande cidade, transformou-se em princesa das massas; foi espada vingadora, ressentida mas bem intencionada, deixou um legado discutível, mas também um mito. Contudo, Eva e o peronismo nunca puseram em forma uma ditadura e reivindicaram sempre a fórmula democrática, entendendo-a sob o lema da independência política, da independência económica e da justiça social. Num tempo de medíocres, fazem falta, à esquerda como à direita, estes seres quase irreais.

Evita capitana


15 junho 2012

As mães de Bragança tinham razão


Uma tarde perdida num tribunal de trabalho para resolver um insignificante caso de tentativa de extorsão movido por uma copeira brasileira a quem pagava ordenado igual ao de um técnico superior do Estado. Disse-me a juíza que os tribunais estão atulhados de casos envolvendo gente desta, aqui chegada aos trambolhões, com entradas mansas, melífluas e de paqueração e que terminam em acções movidas contra os ingénuos incautos que se deixaram ludibriar pelos superlativos tropicais. O modus faciendi é inalteravelmente o mesmo: trabalhar seis meses ou um ano sem acidentes, obter o contrato permanente, arranjar circunstância, provocar, mentir, roubar, levando o empregador à exasperação e, depois, mover ao desgraçado um processo, exigindo-lhe reparações superiores a dois dígitos de milhares. A indústria da extorsão está montada, com testemunhas que repetem uma lenga-lenga coreografada ao segundo, lágrimas e olhos macerados de dor, intervenção de "pastores" dessas igrejinhas que surgiram como tortulhos em todas as esquinas e até equipas de advogados brasileiros que estabelecem o preço, "fazem o trabalho" e dividem o bolo com as aventureiras.
O fenómeno das brasileiras não se limita a casos de cozinha. Há-as, aos centos, de banca montada na formidável rede de alterne que se espalhou pela geografia portuguesa - não há vilória sem uma maison close e respectivo serralho - mas também nas páginas a perder de vista dos jornais diários: os bum-buns de chocolate, trabalhos completos, os escortes e as "acompanhantes", as massagens sensuais, as jovens "morenas, tímidas, carinhosas e divertidas", "serejas maduras de curvas perigosas", as "amantes de cavalheiros de bom nível" e demais "mulheres pêras". Disseram-me que o plano de inserção rápida até incluiu casamentos com presidiários, que lhes garantem imediato acesso à cidadania portuguesa, bem como casamentos com desgraçados de 80 e 90 anos confinados a essas mortuárias de transição que são os "lares para a terceira idade". Com o passaporte na mão, Londres e Paris à vista. As capitais europeias estão cheias dessas e desses novos portugueses inundando os jornais com ofertas de sensualidade rasca. Afinal, as mães de Bragança tinham razão.
"Vá, me liga, dois, um, meia, meia, quatro, três."

13 junho 2012

Ter talante


Dizia o António Alçada Baptista com muito acerto e graça que, "após os 30 anos, cada um é responsável pela cara que tem". Não são os trapos, os adereços e o espampanante, mais a falsa importância e as arrogâncias atrevidas de quem se dá ares que fazem um homem ou uma mulher possuir dignidade e boa máscara. A vida interior, o carácter, o auto-domínio, a atitude são coisas indisfarçáveis. Olhava para esta foto ontem publicada no Família Real Portuguesa - que vale a imprensa que não temos - e dei comigo a pensar na galeria dos figurões, atrevidos e impantes que nos infernizam a vida. Caramba, que diferença de gabarito e talante entre essa gente que se parecerá sempre com aguadeiros e vendedores de patos e o Chefe da Casa Real. Há coisas que não se compram. Uma delas é a dignidade.

Modas


Anúncio da Bertrand, nos anos 30, com um busto mussoliniano

Disse-me um amigo francês, publicitário de profissão e que não via há 14 anos, que votou Marine Le Pen nas últimas presidenciais. Fiquei estupefacto, pois o Bernard era um declarado seguidor de Mitterrand e até contava velhas estórias resistencialistas do avô, dos tempos da ocupação alemã. Esquecia-se, tal era o arrebatamento, que Mitterrand era petanista medalhado no preciso momento em que o seu avô fazia resistência. Talvez, quem sabe - as pessoas contam as suas pequenas histórias sempre de forma diferente - a resistência do avô se limitasse a ouvir as emissões da rádio Londres.
Ontem, morreu Maria Keil, a talentosa ceramista. Era comunista, dizia-o e todos o sabiam, mas foi também colaboradora de António Ferro e do chefe do SNP recebeu um prémio nacional. O mesmo se passa em Itália. Cada artista plástico, realizador de cinema, jornalista ou escritor que morre já entrado nos anos foi, esteve próximo, trabalhou para ou esteve ligado ao regime fascista. São modas, inclinações, oportunidades irrecusáveis, oportunismo, vontade de estar junto do poder. As pessoas são, na generalidade, muito pouco interessadas na política. Querem ser reconhecidas, querem que as estimem pelo que valem e estão sempre dispostas a seguir o rumo que os acontecimentos indicam. O estar bem com o tempo tudo permite. Anteontem salazaristas, ontem comunistas ou socialistas, hoje seguidores do governo, amanhã, quem sabe, incondicionais do general que por aí virá mais tarde ou mais cedo.

Trio Lescano. Colei che debbo amar,1936

11 junho 2012

Requiem por uma capital

Lugares da minha remota memória. Ali nadava, logo que as aulas acabavam e o verão ainda era verão. Eram as piscinas municipais, antes dos clubes "chiques" de frequência duvidosa, da privatização do desporto e da entrada em cena dos bandidos argentários que foram matando e estropiando um a um os espaços públicos do outro regime, que era autoritário, anti-democrático, anti-tudo, mas cuidava dos parques, dos bairros sociais, das piscinas e das bibliotecas. Aqui estão, mutiladas, insultadas, cuspidas, a piscina do Areeiro e a piscina do Campo Grande, literalmente entregues à escória e aos vândalos. Podia discretear longamente sobre estas ruínas - a nossa ruína, o nosso abandono e, por que não, a nossa cobardia - mas deixo as imagens eloquentes tiradas do Lisboa SOS, que faz mais pela defesa da nossa capital que os peralvilhos iluminados que por aí andam a recitar teses e lavrar sentenças sobre cidades utópicas que nunca existiram nem existirão. Sinto vergonha por Lisboa, pelo Estado e por tudo o que nos foi enganando a extremos destes. Tenho ou não direito à indignação, esse clichézinho que parece só ser exclusivo das grávidas barrigas burguesas de tanto revolucionário de passadeira vermelha, segurança à porta, carro com condutor pago pelo contribuinte ? É para isto que vão os nossos impostos? 


Terrível: a crise global mal começou

Apartheid sanitário ou estupidez cavernícola

O confrade Portugal Contemporâneo questiona os seus leitores, creio de forma retórica, se O SNS deve garantir acesso gratuito aos residentes estrangeiros ilegais. Confiado na humanidade das pessoas e naquele mínimo sem o qual nos transformamos em selvagens, entendo a pergunta como um desafio à consciência de cada um e exigindo vibrante SIM. Qualquer ser humano é merecedor da protecção, da atenção e de tratamento, seja um clandestino sem-papéis, um apátrida ou, até, um criminoso. Verifico, com pesar, que há 77% de energúmenos aos quais agrada a ideia de deixar um homem a esvair-se em sangue na berma da estrada ou uma parturiente numas escadas só por serem residentes ilegais. Eu pago impostos, e muitos, e daria de bom grado o meu dinheiro para salvar a vida de um imigrante ilegal, fosse quem fosse, viesse de onde viesse. Há coisas com as quais não se negoceia, sobretudo com a maldade e mesquinhez dos bípedes implumes.

Dois robles de copa entre trepadeiras


Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen são, cada um à sua maneira e idiossincrasia, dois lutadores tenazes e de gabarito que destoam na paisagem francesa e europeia. São como robles de copa ampla, impondo-se num mundo de trepadeiras e esquálidas árvores-anãs. Tenho acompanhado os duelos ferozes entre estes dois inimigos figadais e em cada embate suspendo os meus preconceitos e aversões, inclinações e afectos ideológicos, e de tal forma as neutralizo que acabei por simpatizar com estas duas excepções. 

Marine representa a tradição da direita francesa resistente que vem desde os dias da Vendeia. A resistência face à Paris burguesa e burocrática, cosmopolita e afectada que quer dar lições ao resto da França, a defesa da milenar obra de Clóvis, do seu ethos e respectivos particularismos regionais, a defesa da memória, da identidade e do "voto dos mortos" - como dizia Barrés - assim como a concepção de uma sociedade em que os direitos dos corpos intermédios, das gentes e do trabalho dos artesãos, dos lavradores e dos pequenos proprietários mereçam o mesmo respeito que as abstracções dos legisladores saídos das baiúcas das Sciences Po.

Melénchon é herdeiro da França de Hugo, das barricadas, da igualdade e dessa propalada generosidade imperial parisiense que quis libertar, contra a sua vontade, o conjunto da população da velha França do "jugo feudal", que foi jacobina e guilhotinista, anti-clerical e laica a tal extremo que substituiu a velha religião pelas novas religiões da maçonaria e do marxismo. Mas Mélenchon é mais que a caricatura esquemática do agitador. É um homem culto e lido, um provocador nato que substitui os combates de boxe pelas violentas batalhas de ideias.

Hoje, a guerra entre Marine e Jean-Luc conheceu mais um episódio. Marine fala do povo e em nome do povo. É neta de pescador e filha de um dos mais espantosos fundibulários do nosso tempo, um homem que saiu do anonimato nos tempos de Poujade e tem imposto, desde há trinta anos, a agenda política, os temas e diferendos que marcam a sociedade francesa. Se o pai Le Pen é grosseiro, provocador, quase vergonhoso em algumas tiradas, Marine é gentil e sorridente. Jean-Luc é pied-noire, descendente de espanhóis, membro do Grande Oriente e comunista desde a juventude. Investiu-se em procurador dos interesses da classe operária, mas desta não mais conhece que a idealização poética saída dos romances sociais. Hoje, foi em torno dos dois que a França se suspendeu, aguardando o duelo no ignoto círculo eleitoral de Hénin-Beaumon, no Pas-de-Calais. Marine Le Pen obteve 42,36% e Mélenchon 21,48%, ou seja, o terceiro lugar. Não irá à segunda volta no próximo domingo. Qualquer que seja o resultado na próxima semana, tenho por dado que a França não se esquecerá tão cedo nem de Mélenchon, nem de Marine Le Pen. Estão para ficar. Por outras palavras, as pessoas ainda não perceberam que a Europa mudou?

10 junho 2012

Não é nostalgia, mas de um outro Portugal

Não se trata de nostalgia. Também não é "patrioteirismo", palavrão detestável, pois ou há patriotismo, ou não há. Décadas atrás, corriam tempos negros em que os nossos vultos grandes eram levados ao tribunal da história, alguém com a consciência pesada cunhou o dichote, e ficou. Seria, estou certo, ou um desertor ou alguém que, tendo agido em inteligência com o inimigo, queria justificar a sua falta. 
Para essa gente, patrioteirismo é sinónimo de mentira, sentimento postiço, alienação de muitos ou justificação de poucos para  cavilosos intuitos. Contudo, o patriotismo não é um adorno, mas um sentimento tão forte e profundo como aqueles sentimentos que dão sentido à vida dos indivíduos singulares e dos seres colectivos que são as nações. O patriotismo está para a sociedade organizada em Estado como a devoção filial ou o amor estão para os indivíduos. 
É forte, está lá e não se questiona. Sem ele, tudo soa a contrato, a interesse ou expectativa de retribuição. Péricles, na Oração Fúnebre aos atenienses caídos no campo da honra, pedia aos vivos que seguissem o exemplo dos mortos; por outras palavras, dizia-lhes que morressem eles também, se necessário, pela razão por que aqueles haviam dado as suas vidas. O patriotismo é, pois, uma razão objectiva e não uma razão subjectiva ou instrumental. Se não existe patriotismo - orgulho, vontade de viver em conjunto, percepção de tudo aquilo que faz um nós perante os outros - não há argumento algum que justifique a existência de um país. Sem patriotismo não há, também, cidadania, civismo, bem-comum.
O grande drama português é o do eclipse do patriotismo. Dizemos eclipse e não desaparição. Como todos os sentimentos, tem de ser cultivado, inculcado e exercitado. Tem de ser exibido. O patriotismo é um mito político colectivo e deve estar acima dos regimes e das circunstâncias. A tragédia portuguesa dos últimos quarenta anos tem precisamente a ver com a destruição metódica e tudo quanto fazia o nós que não se questionava. Em seu lugar, quiseram-nos fazer "europeus" sem pátria, indignados e reivindicativos e até espanhóis, conquanto tal garantisse a cada português uma "vida confortável". Abominou-se o patriotismo, como se este fosse exclusivo de uma forma de regime e como se democracia tivesse de ser, fatalmente, anti-patriótica. Da desaparição do patriotismo da paisagem emocional - exilado para os futebóis, coisa pequena - nasceram duas gerações de criaturas incapazes de entender o bem-comum, o serviço público, o papel e o lugar de Portugal no mundo. O resultado está à vista. Mais grave que a crise económica, a pobreza que trepa, o quebranto da coragem colectiva, a fuga dos indivíduos, é a inexistência de um sentimento colectivo.


Lourenço Marques. Comemorações do 10 de Junho (de 1963 e 1972). Retirado daqui.