07 junho 2012

O sirtaki grego


Como diz a Isabel Metello, eis a marabunta em acção. Acabou o tempo de uma certa ideia de democracia aristocrática. As elites caíram e agora é o poder nu dos punhos, dos copos de água atirados às ventas dos adversários; em suma, o regresso aos tempos de Péricles que levaram a Hélade à guerra civil e ao colapso. Começo a ter alguma simpatia pelas posições de Platão e Aristóteles. 

Novena de disparates


D. Januário Torgal Ferreira pede que se reze pela democracia e lança ferrões ao Primeiro-Ministro. Infelizmente, Portugal tem uma Igreja pobre, sem príncipes como antigamente, mas com muita enxada que não cava. O bispo camuflado pouco acrescenta às antológicas ninharias bem-aventuradas daquele Manuel Martins de má memória, que por ser bispo de Setúbal, julgava poder apascentar o povo CDU. Depois de Melícias -  cujo nome anunciava o acordo ortográfico - dos tempos do maná (aquilo eram só graças e dádivas, mas o Melícias confundia os cartões de crédito e o consumo com a generosidade do Senhor) fica Januário a fazer de plantão. É evidente que nada do que diz amansa aqueles que não vacilariam dois segundos em tirar à Igreja os feriados, mais o património e reduzi-la à igualdade com os manás, as testemunhas e outras quejandas. Com o Cardeal Patriarca que temos - que fosso entre Policarpo e os seus dois antecessores - já pouco nos surpreende na Igreja Católica Portuguesa-ml.

Lembrando O Jansenista, mas em versão solar

Estou a ficar velho. Há uns anos não teria perdido, por nada deste mundo, um concerto de Bruce Springsteen. Hoje irrita-me ver uma multidão de grunhos a repetirem incessantemente clichés sobre "The Boss" e curtirem-no como se se tratasse de um frasco de pickles. AQUI

06 junho 2012

Remédios e comida

Os portugueses estão tomados pela monomania dos remédios e da comida. Tudo anda à volta de medicamentos e comida. Inacessíveis a explicações mais complexas, exigem direitos que perderam efectividade, por esgotamento daquele dinheiro generoso, barato e até dado que em tempos fez a agenda das "políticas sociais". O dinheiro acabou, os bancos estão virtualmente falidos, o Estado tem de pedir para pagar aos seus funcionários, mas ouvindo o Bloco e o Jerónimo - que nunca proferem as palavras empresa, produção, indústria, agricultura - dir-se-ia que não aprenderam nada com a sua parte de leão nas responsabilidades por décadas de loucura despesista, incentivo ao parasitismo e ao dolce fare niente. Esta gente não tem emenda; têm uma visão do mundo de amibas, ácaros ou percevejos. 

05 junho 2012

Vamos sair desta


A sondagem hoje divulgada merece alguns - breves - comentários. A fazer fé no inquérito, os partidos que apoiam o governo mantêm a maioria absoluta, mesmo que tangencial. É um feito, uma façanha, que um executivo chamado na 25ª hora a assumir responsabilidades governativas num país à beira do abismo, tolhido na sua acção por tantas contingências e mesmo limitação do exercício por força de um acordo de resgate, continue a merecer o apoio da maioria da população. Portugal é um país antigo e tem, infusa, a percepção de grandes perigos. Tem, também, queiram ou não os pregoeiros da rendição, inculcado um grande amor-próprio. Os portugueses perceberam a dimensão do desastre de quase 40 anos de demagogia. Se o governo, por hora, pouco mais pode fazer que aguentar o transe, tem por si um argumento invejável. Que se saiba, o governo não está em mãos de criminosos, locupletadores e aventureiros. O Primeiro-Ministro mantém inalterada a imagem de um homem de boa vontade. É pouco, num país que se habituou a ter em S. Bento angariadores de negociatas e promotores de fortunas furtadas ao erário público?
Ainda não passou um ano e já muito se fez. Deixou este governo obra material? Não, mas limpou - disso estou certo - o proverbial ferrete que entre os europeus corria de ser Portugal um caso clínico incurável.
Apenas uma nota marginal. Como em todas as sondagens, os 6% do CDS corresponderiam, em eleições, a 9 ou 10%. Somando resultados, a maioria teria, não 46 ou 47%. Uma façanha !

Secessio plebis funchalensis


Ontem, não havendo Aventino, os deputados da Madeira montaram assembleia na rua. Entre eles, um padre, comunista, a perorar sobre liberdade. Sei que a assembleia da RAM é coisa poucochinha. Aquilo não são deputados; talvez uma coisa entre uma assembleia municipal e uma reunião de condóminos. Se a AR se deve envergonhar pelo que tem portas adentro, na Madeira aquilo só se devia reunir de madrugada, de vez em quando, em noites de insónia. Esta gente ainda não meteu na cabeça que estes arremedos de democracia latina, com turbamulta que mal sabe ler, é o maior insulto à liberdade e à soberania popular. Que saudades do bom e velho liberalismo e, porque não, dos concelhos medievais.

03 junho 2012

Em busca dos portugueses da Grande Armée



A 23 de Junho de 1812 deu-se início a uma das operações militares mais importantes da história mundial. Do seu desfecho nasceu o equilíbrio e a polarização que desde então marca a fronteira entre a Europa atlântica e o vasto Leste. Tratou-se, sem dúvida, não apenas de uma campanha, mas do violento parto do nacionalismo, situado erroneamente pela historiografia europeia na década de 1830. Sobre a campanha da Rússia, a batalha de Borodino, o incêndio de Moscovo, a retirada e a tragédia do Berezina muito se tem escrito e publicado. As imagens fazem parte da mitologia europeia. Quem nunca leu a Guerra e Paz, de Tolstoi ? Quem nunca leu a Campanha da Rússia, de Karl von Clausewitz, ou  as Mémoires du sergent Bourgogne? Quem nunca ouviu falar da Legião Portuguesa e dos seus cinco mil homens que se perderam nas estepes geladas? Dos 650.000 europeus que partiram para a Rússia, 1% eram portugueses. Deles, pouco ou nada se sabe, para além das cartas de Gomes Freire à sua mulher Matilde, do noticiário inserto nas gazetas francesas, prussianas e britânicas, das listas de feridos e doentes terminais que foram chegando a Lisboa para aqui morrerem. Partiram ao engano em 1808 e não puderam mais regressar à sua pátria. Olhados com desconfiança pelo imperador, deram tais provas de lealdade e bravura em Wagram (1809) que, ao partir para a Rússia, Napoleão os quis sempre nas proximidades do seu quartel-general o para defender das hordas de cossacos.
Para assinalar o bicentenário, foi-me indicada a responsabilidade de, até ao outono, preparar uma exposição e um catálogo sobre os recursos documentais portugueses - manuscritos, gazetas, memórias, cartografia e gravuras - alusivos a essa efeméride. Até Outubro, com este novo encargo a somar à tese sobre as relações luso-siamesas, praticamente terminada, prometo ir facultando aos meus leitores curiosidades referentes à sorte de milhares de compatriotas nossos apanhados numa das mais mortais armadilhas da história europeia.




Explicações à Troika

O vídeo tem mais de dois anos, mas só hoje ganha plena legibilidade. Foi isto o que Portugal andou a fazer com os fundos europeus e os empréstimos que alguém afirmava não serem para pagar ? Este é o retrato acabado de décadas de loucura e a ética da auto-proclamada elite. Pertinente será perguntar o que andou a fazer o regime ao longo de 40 anos.