02 junho 2012

O doente não se cura mudando-o de cama

Li em tempos, da pena de um místico italiano já falecido, que o doente não se cura mudando-o de cama. O que o cura é o boa prescrição que o médico lhe receita. Porém, antes da medicação, há que saber fazer o diagnóstico correcto. Assistindo aos últimos tumultos da paupérrima vida política portuguesa - que perdeu o rumo e desbaratou as últimas três semanas num risível folhetim - surge de manifesto que o mal de que padece  Portugal e o regime não pode ser corrigido sem o diagnóstico correcto. Que cada um tire as ilações e reflicta sobre isto.
O problema, meus caros, foi diagnosticado há quase 20 anos por Richard von Weizsäcker, para não referir outras autoridades menos consensuais. Para Weizsäcker, que na altura levantou imenso coro de protestos, a democracia foi pervertida e substituída pela partidocracia. Os partidos políticos transformaram-se num quinto poder e destruíram lentamente a autonomia dos restantes quatro poderes: ocupam o legislativo, o executivo, o judicial e até os poderes moderadores. O problema é que esta forma corrupta de democracia se transformou numa nomenclatura fechada, incapaz de discernir a medida justa, o bem-comum e os interesses gerais da sociedade. Sendo os partidos um elemento fundamental da democracia, não são a democracia.
É esta, fundamentalmente, uma das razões pelas quais sou monárquico. O reforço do poder moderador - que por ser aquele que maior consenso reune - pode permitir que o Estado e a sua maquinaria se libertem do clientelismo dos partidos; que os juízes que velam pela imparcialidade não sejam cooptados entre gente de partidos; que o critério de competência para o exercício de funções técnicas e executivas não passe por acordos entre partidos. Enquanto daqui não sairmos, não vamos a parte nenhuma.

01 junho 2012

ทรงพระเจริญ (Song Phra Charoen), a mística da realeza thai



SM o Rei da Tailândia, de 84 anos anos de idade e que há mais de quatro anos padece de doença, abandonou o hospital onde se encontra internado para se deslocar a Ayutthaya, antiga capital do Sião. A popularidade, o respeito e o amor que o povo chão dedica ao seu Rei foi uma vez mais exuberantemente demonstrado. Sem palavras. É esta a sempre jovem e inalterada aliança entre o povo e o seu monarca.

Parceria Ibérica


Dom Felipe de Borbón y Grecia veio a Lisboa em viagem de reconhecimento e falou em parceria estratégica ibérica. O refrão foi prontamente assimilado e repetido, chegando o Presidente Cavaco Silva a lamentar que a integração sistémica - económica e cultural - de Portugal no "mundo ibérico" (isto é, na Espanha) não seja mais profundo. O nosso Presidente parece nunca ter lido Franco Nogueira - recomendo-lhe, sobretudo o Juízo Final - e alhear-se de algumas das mais elementares noções da geopolítica e da geoestratégia. A ideia de Espanha é sinónimo de império: exerce atracção, é centrípeta e coordenadora. Portugal sempre o foi sem a Espanha; aliás, Portugal não cumpriu o projecto espanhol de substituição das "Espanhas" por um Estado único ibérico com que Castela quis, desde o século XVI, fazer coincidir um conceito geográfico com uma entidade política.
Portugal só tem um adversário histórico e este dá pelo nome de Espanha. A tensão não envolve, necessariamente, hostilidade, mas precaução. Contudo, associar dois parceiros de peso e massa crítica tão diferentes convida fatalmente à submissão do mais fraco e é uma autorização tácita para que o mais forte exerça a sua posição dominante. No caso da Espanha, não se trata de supremacia, mas de hegemonia. Hegemonia, na tradição centralista de Madrid quer dizer integração. As pessoas têm de começar a ler antes de poderem pensar. Não devem os portugueses falar no assunto com os espanhóis. Com eles devemos ser cordiais, sorridentes, generosos no receber. A casa real espanhola sente por Portugal grande afecto, mas não deixa de ser a casa real de Espanha.
No dia em que tivermos um Rei em Belém, o problema desaparece automaticamente. A monarquia é a maior caução e garante da liberdade de Portugal . Até lá, não falar nem abordar o tema das parcerias.

30 maio 2012

Obama foi reeleito


A confirmação de Romney como candidato republicano à Casa Branca merece a atribuição do justo prémio "Desastre da Semana". A figura é absolutamente nula e no pleito pelo asinismo só seria preterido pela monumental estupidez de Sarah Palin, essa, sim, um portento de ignorância. Obama tem sido um presidente sem história. Refém da lógica de um império em declínio, tudo indica que o segundo mandato será tão insípido como o primeiro. Os EUA perderam irradiação, sofrem de pauperização incontrolável e irreversível e estão destinados a um lento ocaso. Segundo os mais categorizados estudos prospectivos, o Império perderá o lugar de potência global em meados do século e tenderá a recuar para posições defensivas no hemisfério ocidental.
Romney insiste no "sonho americano" - casarões em madeira varridos por qualquer tornado, violência urbana incontrolável, comezainhas de hambúrgueres, um terço do país vivendo em caravanas, outra metade sofrendo de maleitas sem poder recorrer a um médico, sistema de ensino primário e secundário digno de um país do terceiro mundo - e esse sonho está cansado. Por ironia do destino, Romney nasceu em Detroit, a vitrina do desastre americano. Ali já não há esperança. Transformou-se num gueto de insalubridade, crime e violência. A antiga capital mundial da indústria automobilística perdeu em dez anos 25% da população, tem 50% de desempregados e os subúrbios ardem incontrolavelmente, casa a casa, quarteirão a quarteirão. Os bombeiros já não acodem, pois os carros avariaram há muito, água não há e bombeiros também não. Faliu tudo, das empresas ao governo estadual. 

Fotos e momentos: o confronto com António José Seguro


Foi há vinte e dois anos. António José Seguro, então líder da JS; eu, então secretário-geral da Nova Monarquia. Um debate franco, sem mortos nem feridos no Diário de Lisboa, definindo posições, marcando diferenças - que mantenho e manterei - não obstante não fazer política e não militar em qualquer grupo. Naquele tempo distante já se manifestavam os primeiros sintomas da obsessão de alguma direita pelo primado da economia - leia-se, pelos negócios - e o principio do fim  da identidade histórica da direita portuguesa, atlantista, universalista e patriótica. Cavaco começava a fazer razias.
Seguro era um defensor apaixonado da tradição socialista. Hoje, pouco se distingue de um morno liberal. As pessoas mudam. Umas mudam mais que outras.

29 maio 2012

Obviamente, demitiram-se

Demitiram-se para não serem demitidos. É o que dá quando os senhores jornalistas - que nasceram para não pensar, nem o devem fazer por respeito à hierarquia das manifestações do espírito - se deixam envolver em seriados mais elaborados que a reportagem do atropelamento da Dona Cremilde e do coma alcoólico do cantor Vitrolino. Afinal, não havia Relvas coisa alguma. Havia, apenas, uma camioneta com areia a mais para as pobres circunvoluções dos senhores jornalistas. Este país transformou-se numa gargalhada.

Nada é novo, só a ignorância


Estava Portugal; mas não estava;
Jazia Portugal; mas não jazia:
Que o estado e o sepulcro em que se achava
De vida nem de morte lhe servia.
Para sofrer, a vida sustentava,
Para viver, da vida carecia,
Provando cada instante em triste abismo
Um golpe, uma ruína, um paracismo.

(Vicente Gusmão Soares, Lusitânia Restaurada, 1641)

Ao consultar ontem pela noite os Poemas Narrativos Portugueses, de Cabral do Nascimento, uma dessas pequenas grandes obras que desterram para os confins do ridículo e da pobreza aquilo que se vai fazendo pelas universidades portuguesas, dei com a oitava que acima transcrevo. A ruína mortal, o abandono, a iminência do abismo. Assim era em 1640; assim o é no presente. Para quem lida com documentos de velhas chancelarias, com memórias e velhos textos literários - isto é, para quantos não perdem tempo com os senhores jornalistas e os plumitivos que adornam os escaparates das livrarias - nada do que hoje enche de medos e ódios os nossos pobres e tolos contemporâneos é motivo de surpresa. A história não se repete, é certo, mas os homens são sempre os mesmos. Às trevas e ao abismo sucederão o renascimento e a ascensão. Tudo está nas mãos dos homens. Que os haja, com o mínimo de amor-próprio de quem não quer ser escravo para sempre. Voltaremos a fugir às mão da morte. Basta que acordemos e não queiramos viver mais nesta apagada e vil tristeza.

28 maio 2012

Relvas tem de ficar


Um dramalhão de faca e alguidar, com depoentes e rumores que só me fazem lembrar os Dramas Judiciários Portugueses do Sousa Costa, uma novela do Rocha Martins ou um daqueles livrinhos do Américo Faria, é isto que tem prendido os "portugueses" ao longo dos últimos quinze dias. Quando dizemos "os portugueses", queremos dizer as quinhentas pessoas que se sentam no ripanço de S. Bento, mais os senhores jornalistas, os senhores comentadores e as senhoras comentadeiras e seus pontos - digo, empresários - das televisões que se querem ver livres do Relvas para impedirem a privatização do tal canal que vai esboroar as receitas da publicidade. Há histórias de espiões, de escutas, há relatórios sobre a vida privada - vida privada quer dizer sexual - de um Cressus de oitenta anos que não tem, não pode ter, vida sexual para além de fanadas fantasias. Este país é um portento de baixa criatividade. Quando não lhe dá para a inveja, dá-lhe para a porcaria.
"Eles" não param. Ou é agora ou nunca. Servem-se de todos os expedientes - sobretudo aqueles que tratam de fazer rugir a parte boa dos patetas - para alijar o ministro antes que as tais 1500 freguesias para as micro-lideranças sejam extintas, mas sobretudo, que a RTP 2 vá parar às mãos da filha de Eduardo dos Santos e assim deixe de pingar para centos de fulanos e fulanas que enchem corredores da televisão do Estado. Ontem, até ao Professor Marcelo (curioso, mas a marca soa-me a vidente ou cartomante) e ao pobre Capucho recorreram para fabricar a rábula do Relvas criminoso.
Eu não gosto nem desgosto de Relvas, é-me indiferente, mas tenho o faro político suficiente para ver que neste coro de chorões e carpideiras de faces cobertas de lágrimas e cinzas é tudo estudado, do enganiçamento das vozes trémulas aos olhos em água alimentados por generosas doses de produtos lacrimejantes. A política é coisa dura, um corredor escuro cheio de ódios, vinganças, punhais e venenos. O que "eles" querem sei-o bem. Querem tirar do governo o homem que conhece bem os modos e práticas da política e assestar o golpe mortal no governo que, ainda não fez um ano e já tem contra si o tal 1% de comedores que nos trouxeram ao mais vil beco sem saída da nossa história enquanto nação. Se Relvas caísse, os profissionais da arte dos ódios, das vinganças, dos punhais e dos venenos não iriam parar. Querem regressar ao governo o mais depressa possível e não olharão a meios para fazerem aquilo que julgam um direito adquirido. Podem ter a certeza que a Relvas seguir-se-iam Álvaro Santos Pereira (que está a madurar um inquérito profundo às PPP's) e Paulo Portas. "Eles" não vão permitir que a legislatura chegue ao fim. Tenho-o agora como dado adquirido.
Daria um conselho a Relvas: dê luta, da mais dura, a um ataque responda com três, a uma insinuação responda com a velha "retaliação preventiva" a que aludia Mao. Sobretudo, bata com o pé, pois as baratas fugirão para debaixo dos armários de onde vieram; mais, abra as luzes, pois detestam a luz !

27 maio 2012

Fotos e momentos: José Campos e Sousa e a Nova Monarquia


José Campos e Sousa é a voz portuguesa, fiel a uma certa ideia de Portugal que não se deixou vencer pela censura, pelas modas de um tempo de crepes e rendições. Nunca se lhe conheceu o mais leve atrevimento, nunca abdicou da sua condição de monárquico e patriota, nunca deixou de cantar os temas proibidos que fatalmente lhe ditariam o ostracismo daqueles que, invocando sempre a liberdade, são os polícias do espírito, os pina-maniqueiros das listas negras, os abarbatadores de prémios. Tem sido, desde os anos 70, a expressão da liberdade, mas também caso único de perseverança na defesa do imenso património literário de cunho vincadamente português que os baladeiros do protesto fingido quiseram substituir pelas cantilenas marxistóides. 

Tivemo-lo como animador numa sessão da Nova Monarquia no Teatro S. Luís em meados da década de 80. Sala cheia e entusiasta, patriotismo transbordante. Esse tempo passou; aliás, foi implacavelmente assassinado por gente que se dizia monárquica, mas que então vivia derrancada na adoração do mais deslavado servilismo esquerdista. A Nova Monarquia foi caso único de um movimento de ideias, patriótico, nacional e democrático, não extremista e anti-totalitário, que poderia ter evoluído para partido político e, assim, antecipar o futuro. Ainda hoje, reencontrando muitos daqueles que connosco militaram nesse movimento patriótico, não deixo de pensar no que teria podido ser a NM se a nossa direita, sempre tão incapaz, sempre iletrada, nos tivesse dado o apoio de que necessitávamos. A NM pensava a CPLP dez anos antes da sua génese, promovia actos públicos de apoio à independência de Timor, quando todos se resignavam à colonização indonésia, pedia a atribuição da dupla cidadania a cabo-verdianos e a todos os ex-soldados negros que haviam lutado por Portugal, pedia uma câmara alta que pudesse minorar os efeitos do amadorismo da partidocracia, pedia o sistema uninominal, personalizado e responsável para a Assembleia da República, reclamava um poder local profissionalizado que evitasse a destruição da paisagem portuguesa e o apossamento da vida municipal por quadrilhas de malfeitores. Mais, pedia a adesão de Marrocos à então Comunidade Económica Europeia, defendia o Serviço Militar Obrigatório, a defesa da presença fiscalizadora do Estado em sectores vitais da vida colectiva - ensino, saúde, águas, energia, planeamento urbano - e optava, sem titubeios, por um plano nacional de desenvolvimento, opondo-se à terceirização (vulgo PPP's) e advogando a mudança de pele da estrutura económica produtiva mercê da fixação prioritária na agricultura e nas empresas produtivas. Ninguém nos quis ouvir. Portugal viveu, nos anos 80 e 90, soo o signo do dinheiro, dos "negócios" e do "empreendedorismo". A NM surgia aos dos entusiastas dos saltos em frente como a expressão do passado. Estavam enganados e o resultado está à vista !

Fotos e momentos: o que me disse Vera Lagoa


A Maria Armanda Falcão terá sido na história do jornalismo português - talvez só comparável a Francisco Homem Cristo (Pai), Manuel Maria Múrias e Francisco Sousa Tavares - uma dessas pessoas cujos artigos valiam por um grupo parlamentar na Assembleia. Teve inimigos mortais, desfez hierarquias e nunca renunciou ao direito sagrado de defender as suas posições com uma coragem tremenda, correndo riscos sobre riscos. Aquele cálamo valia um regimento de choque. Encontrei-a uma boa dúzia de vezes na embaixada do Brasil, nos saudosos tempos em que José Aparecido de Oliveira, amigo de quem guardo tocantes gestos de simpatia, movia céus e infernos para convencer a nossa pequena e míope classe política a aderir à ideia daquela que viria a ser a CPLP.
Um dia, Vera Lagoa disse-me que evitasse escrever aquilo que as pessoas não querem ler. As pessoas gostam de banalidades, gostam de mentiras, pelam-se por insignificâncias. Vera Lagoa estaria já naquela fase da vida em que a sabedoria se instala e o conhecimento dos homens e das suas cobardias, inconsequências e pequenez aconselham à máxima precaução. A Vera Lagoa tinha razão.

PS: o que diz dizer está aqui explicado pelo talento do JG.