19 maio 2012

Não se incomodem, este blogue não procura lugar para estacionar


Esta é uma página pessoal e intransmissível, um passatempo e não mais que isso. Não foi concebida para atacar pessoas, remoer ódios e invejas, fazer lóbi, insinuar calúnias, pedir empregos, favorecer amigos e familiares, agitar bandeiras de grupos. Aqui não há abaixo-assinados, não se faz coro, não se organizam cruzadas; tudo corre fora das coordenadas da agenda política e das agências de empregos, não é antena da Lusa nem das rádios-Moscovo, não se fazem favores. Acresce que, aqui, não há palavrões, não se fala dos futebóis nem de filosofia - esse estilo literário que não cabe, decididamente, na efemeridade vaporosa da blogação - nem se cultiva a falta de gosto da música do nosso tempo, pelo que Combustões é, absolutamente, uma inutilidade.
Aqui vêm 400 pessoas por dia - nem muito, nem pouco - à procura de um instante, de impressões numa prosa inconstante que raramente releio e corrijo nas imprecisões. Sei quem aqui vem - pois a origem obtenho-a com precisão de fuso horário, local e identidade através de um programa secretíssimo que rastreia ao milímetro - mas raramente me incomoda quem, porquê, quanto tempo e quantas vezes lê, relê e deixa uma mensagem. Há quem invente duas, três ou quatro identidades para deixar um recado, um amuo, um insulto. O maior desconsolo dos anónimos reside, precisamente, no facto de se esconderem e de, em vinte anónimos desabafos, apenas um ser publicado em anexo. Aqui faço censura.
Ontem foi uma polvorosa. Combustões foi lido por 54 (cinquenta e quatro) senhores deputados da "Casa da Democracia", assim como dezoito comentários a despejar iras. Não passou um só no crivo de elegância, português e nível argumentativo. Foram todos chumbados e chumbados seriam em qualquer exame liceal. Se os 54 senhores deputados quiserem umas aulas gratuitas de redacção, concisão e estilo, sejam bem vindos.

O Império é Você


Um belo texto de Javier Moro. Incómoda para os portugueses, incómoda para os brasileiros, a figura e as errâncias românticas de Dom Pedro de Bragança numa biografia que capta a intensidade, desacertos e frustrações de um homem exaltado e apaixonado. Um homem intuitivo, sofrendo de grandes alterações de humor, educação deficiente e até, talvez, problemas cognitivos - nunca soube escrever correctamente - Dom Pedro é uma mistura de D. Quixote e Don Juan, mas, apaziguemos os nossos rancores caseiros, foi sempre de uma coragem e de uma dignidade notáveis, na vitória como no ocaso. Se o romance histórico já não convence, este é, sem dúvida, uma excepção.


18 maio 2012

Quando é que os deputados vão para o desemprego?


Debate no Parlamento sobre o desemprego. Discursatas mal lidas e monocórdicas, com a elegância de desabafos na Ginginha do Rossio, gravíssimas falhas de dicção, de sintaxe e concordância, um português vão-de-escadas, umas figuras pouco menos que inexistentes; eles na pragmática do fateco cor-de-rato cinzento, elas a brincar às senhoras; todos de uma pobreza confrangedora deslustrando o sistema representativo e a democracia. Ouvi um homenzinho do PC, que Demóstenes condenaria às galés, mais uma serigaita do BE, uma máquina canora com a elegância de um piaçaba e uma provinciana Barbie envelhecida do PSD metida num embrulho rosa-choque acabado de comprar na loja do chinês da esquina. 
Assim não dá ! O bom do ministro Álvaro até corava de vergonha, por ter de descer tão baixo para ouvir o Povo-Rei. Assim não dá ! Às vezes até tenho ganas de ser ordinário.
A Assembleia só voltará a merecer o respeito quando as lideranças partidárias estabelecerem critérios de qualidade nas listas para deputados. Infelizmente, a preferência é dada aos mais ignaros, aos mais seguidistas, aos mais incapazes. Por outro lado - na AR, como nos ministérios - deviam ser constituídas escolas regimentais destinadas à formação de quadros. Gente que não sabe redigir, desconhece o português básico e não possui a mais chã formação cultural, não pode desempenhar funções. Lembro-me de diplomatas portugueses cuja ignorância ultrapassa a mais liberal das condescendências, como lembro Directores-Gerais, chefes de gabinete de ministros e secretários de Estado absolutamente inclassificáveis.

17 maio 2012

Kathleen Ferrier: 100 anos



Kathleen Ferrier (1912-1952). Estranho a ingratidão e a amnésia dos melómanos, tão poucos os que a evocam neste ano do seu centenário. Felizmente, os seus mais devotados seguidores encontram-se entre a gente comum. Isso tem uma explicação. Tal como Mario Lanza, Tito Schipa e a grande Erna Sack, Kathleen foi um prodígio da natureza, caso raro de ascensão pelo mérito, de telefonista aos mais disputados palcos da fama. Alma aristocrática em tempo de raleficação e demissão do gosto, daquelas que elevam, foi, à sua maneira, um dique perante a imparável canalhização.
 

16 maio 2012

O primeiro dia de escola: Hollande desorientado e confuso à chegada ao Führerhauptquartier

Hollandismo tremelicante


O novel presidente já apostatou duas vezes antes que o galo cantasse. Encheu-se de atrevimentos, apostrofou Merkel, mas lá foi humilde, suplicante, quase patético beijar-lhe o anel. Lembrou Ferry e uma das fracturas aqui já referidas há tempos, para logo de imediato pedir desculpas e lembrar a ilegibilidade parcial dos escritos e discursos do pai da escola laica
Vivemos numa época tenebrosa, de tolos para tolos, em que o fanatismo, o proibido e o tabu tudo dominam. Se a figurinha hollandesa tivesse tido tempo para ler - não leu nem estudou, pois vive derrancado na politiquice desde que lhe despontou o buço - saberia que metade das bibliotecas teriam de ser lançadas ao expurgo do fogo purificador. Cicero iria para a pira, assim como Tomás de Aquino, Lutero, Diderot, Bacon, Voltaire, Twain, Emerson, pois todos esses marcos do pensamento escreveram coisas hoje tidas por heréticas a respeito dos judeus, do género e das raças. 
Ouvi em tempos da boca de uma furiosa pseudo-académica americana uma afirmação que, fosse pronunciada por Goebbels, encontraria de imediato um coro de indignados e uns quantos vigilantes pedindo a aplicação de leis celeradas. A bípede dizia com a máxima segurança que Voltaire não podia ser lido senão com uma solene advertência prévia, pois escrevera coisas terríveis a respeito do povo eleito. Sim, Voltaire devia ser queimado e substituído pelos escritos da dita alforreca mental. Como alguém disse, vivemos sob a tirania dos estúpidos e a única conspiração com real capacidade para anular três mil anos de história do pensamento é a conspiração dos idiotas.

15 maio 2012

Pensamento colonial e liberalismo


O Samuel Pires tem seguramente grandes qualidades, infelizmente bem pouco presentes na paisagem portuguesa: é esforçado, inquiridor, estudioso, curioso, ambicioso, dedicado. Lê o que os da sua geração não lêem, não se faz aos grupos por onde passa uma carreira sem esforço, não é politicamente correcto e até cultiva o polemismo - isto é, a guerra - afrontando os lugares-comuns, o ramerrão e os enigmas que tudo querem dizer e nada dizem, apanágio dos emaranhadores ditos académicos. O matagal de citações e autores não são, decididamente, o seu forte. Para mais, Samuel é uma excelente pessoa, num tempo em que a bondade de carácter se tornou tão rara como os dodós.

Feito o elogio merecido, impõe-se-me uma breve crítica, que estimo pertinente, aos ditirambos que o Samuel faz ao "pensamento americano". Perdoem-me os americanistas, mas não há pensamento americano. Não há, como nunca houve. Glosando o Cachimbo, Samuel exalta a figura e o pensamento de James Madison, seguramente um homem de espírito vigoroso, mas que deve ser contextualizado e comparado com os homens do seu tempo. Convém lembrar que o "pensamento" produzido numa colónia não pode ser comparado com aquele que encontramos nos grandes centros académicos europeus. Estamos a falar de colonos nascidos e crescidos em plantações, tal como o foi Madison, nado numa plantação de tabaco e cuja formação - esforçada, estou certo - foi obtida no trívio e, depois, num remoto colégio, ninho de predicadores escoceses, que mais tarde viria a ser a Universidade de Princetown. Com toda a propriedade, Madison foi, como todos os restantes literatos e plumitivos da sua época, um autodidacta. Se o seu The Federalist é, sem dúvida, o único importante trabalho teórico de teoria política da história americana, não deixa de ser, quando comparado com o vigor de um Hume (de quem Madison copiou extensas passagens, sem jamais as citar), um pequeno texto. Será, talvez, o cume de um pensamento colonial.

A independência cultural não coincide com a independência política; por exemplo, a independência cultural do Brasil só aconteceria em finais do século XIX, quando os chamados luso-brasileiros deram lugar a uma plêiade de homens já inteiramente crescidos e educados num Brasil pós-colonial (José d'Alencar, talvez Machado de Assis, Euclides da Cunha, Leonel França, etc). Uma colónia produz "pensamento" coincidente com a sua circunstância. Ora, em Madison, não se pode pensar o problema do federalismo e da liberdade dos indivíduos sem alienar os factores precipitadores dessa assunção. Uma colónia transformada em Estado requer um novo "ordo" jurídico. O "ordo" é mais que uma justificação; ensaia, teoriza, compõe e precipita o trabalho legislativo. 

Os plantadores queriam que o novo Estado fosse o Estado dos proprietários que haviam feito a revolução; daí o entusiasmo e o finca-pé na defesa da propriedade. A propriedade era, para os plantadores, a matriz de um "ordo" que queriam ampliar em Estado. O federalismo era, pois - tal como o confederalismo - a procura de um acordo que a todos os beati possidentes unisse. Gente que nada mais tinha a uni-la que propriedade, inscreveram-na no habeas corpus, uma extensão do seu próprio corpo e nesse entendimento construíram a (sua) liberdade insusceptível de interferência. A grande contradição do "pensamento" colonial americano reside precisamente nisso. O small is beautifull dos few good acabou por atropelar a unidade de destino que faz uma nação. Uma nação é mais que a soma de plantadores de tabaco e algodão. Daí que enxertassem ao liberalismo chão das primícias da revolução doses crescentes de teleologia. O liberalismo americano não é o liberalismo britânico nem o liberalismo continental europeus. O liberalismo americano é uma fuga ao problema da gestão de um conceito original que se encarquilhou na defesa do egoísmo de uns poucos. Foi necessário que lhe dessem um cunho messiânico e religioso que confunde racionalidade com crença e logo confundissem a crença com "direito natural". O direito natural é coisa que assusta qualquer teórico, pois oferece como dado um conjunto de condições que fazem parte da constituição de uma sociedade. Mais assustador se transforma esse direito natural quando se transforma em direitos inalienáveis dos indivíduos, associando à liberdade e à felicidade o direito à propriedade. Ora, se algo há no jusnaturalismo que justifica a defesa do homem, esse é a defesa da sua vida. Como bem sabe o Samuel, a América fez desse direito um sofisma. Na América, que não é uma república mas uma plutocracia, o poder é sinónimo de propriedade. Quem não tem propriedade, não existe. A grande e única preocupação é controlar a acção governo sobre a propriedade, mesmo que aquele se limite a lembrar que a sua existência tem como fim o bem-comum.

Meteram alguns dos nossos liberais naquelas cabeças bem-aventuradas que a Europa é um mal, que os europeus perderam liberdade em benefício do Estado, que o Estado é o mal. Eu bem gostaria de saber como esses liberais solucionariam o problema de um imenso abcesso e umas dores tremendas de dentes se não tivessem dinheiro para pagar a um dentista. Por mim, se não olhasse pelos outros, seria um liberal - dos furiosos - pois até sou liberal praticante e pago impostos na proporção dos empregos que dou e das receitas que faço. Infelizmente, o liberalismo português é bem português. Está, todo, no Estado a teorizar para fora do Estado.

A Europa não é, como os EUA, uma empresa ou um conglomerado de empresas. Os negócios e o tipo de regime económico são, para a Europa, um dos muitos aspectos da vida colectiva. Depois, a Europa não foi inventada e não teve de se inventar para se justificar. O patriotismo americano é postiço de cima a baixo. Tudo ali está preso à artificialidade: as fronteiras talhadas a régua e esquadro, as "tradições", as instituições. Do mero copismo adolescente dos pais fundadores - que foram buscar à "romanidade" romântica as imagens de que careciam para engrandecer uma bem prosaica realidade colonial - ficou o que é a América. Não é, caro Samuel, modelo para nada. A prová-lo, a evidência dos americanos serem apenas, ou invejados pelo dinheiro que têm, ou odiados pelo facto dele não se conseguirem libertar.

Kowtow no Führerhauptquartier


O novo governador da marca de França vai esta semana ao Führerhauptquartier pagar tributo de vassalagem. Contrariando a tocante ingenuidade da generalidade dos ditos analistas piegas, convém lembrar que nas relações entre Estados a ideologia, o carácter e personalidade dos actores, assim como a vontade só ocupam um lugar marginal e quase insignificante. Nas relações internacionais funciona o primado da força. Quem tem poder, exige, quem o não tem submete-se. A Alemanha tem poder. A França já não o tem.

14 maio 2012

Caterva


As vaias e insultos dirigidos a Passos Coelho fazem um programa. A indignação de alguns vaza-se num Primeiro-Ministro que comete a imprudência de relatar ao país a situação calamitosa em que 37 anos de governos corruptos e demagógicos nos precipitaram. Que eu saiba, Passos Coelho foi único a não recorrer à mentira, ao populismo e à propaganda. Isso paga-se caro. Os portugueses, que não viram, não quiseram ver e tudo fizeram para chegarmos ao descalabro presente - queriam ser ricos, sem trabalhar; tiveram milhões e milhões e gastaram-nos em jipes, cartões de crédito, trapos e apartamentos que não podiam pagar - esquecem-se da galeria infinda de crápulas, idiotas rapaces, locupletadores e bandidos sorridentes que centuriaram pelos seus os dinheiros oferecidos a fundo duplamente perdido pela injustamente caluniada Merkel e seus predecessores. Foram décadas de mordomias e sinecuras, milhares de milhões enterrados em elefantes brancos, pagos a amigos e camarilhas, das câmaras às juntas, às fundações e institutos, betoneiras, futebóis,  viagens e lugares destinados a "grandes senhores" e "grandes senhoras" que nunca estudaram, nunca trabalharam e a isso se habituaram.
Os meninos indignados - essa burguesia inútil, reivindicativa e parasitária produzida por um regime que acanalhou os portugueses até às fezes - podiam por de lado os seus ipod, as mesadas dos pais que os alimentaram e pagaram os estudos até aos 30 - e fazer uma revolução a sério. Não, essa gente não vai fazer revolução alguma, pois em Portugal, as revoluções não passam de alterações à ordem pública, começam às 10 e acabam às 13, quando a fome convida a uma passagem pelo fast food.
É uma cobardia insultar um homem público no espaço público, sobretudo quando se tem a quase certeza da impunidade. Passos Coelho, pelo menos, não está indiciado em terríveis casos de roubo organizado, não fugiu para o estrangeiro e tenta, talvez tolamente, ser fiel ao seu fardo.

A loucura de um César negro



Agora disponível, um aterrador documentário sobre a ascensão ao poder solitário de um homem impreparado, mas também sobre os mitos que fizeram de África um desolado horizonte sem esperança. No Congo ex-belga como na Angola de hoje, o cinismo e o colaboracionismo dos ocidentais na perpetuação de cleptocracias. No caso de Mobutu, um epílogo que quase o desculpou por tantos e repetidos crimes caucionados pelos Chirac e Giscard deste mundo. O velho leão perdeu os dentes e as garras, mas não perdeu a fibra. Canceroso, voltou ao Zaire e deu luta aos Cabila, flagelo dos flagelos. Lembrando as Vidas Paralelas, de Suetónio, vejo nestes dias finais o fim de Eduardo dos Santos.

13 maio 2012

Escravaturas


Coisas terríveis acontecem sem que com elas se preocupem as nossas rádios Moscovo, os nossos fracturantes, os nossos liberais - todos com o credo das grandes Cartas e dos imorredouros princípios de 1789 na boca - nem tão pouco as ONG's milionárias, os SOS's e os "cidadãos esclarecidos". Eu não acredito, pois, nos homens, fiel àquela velha máxima de Chesterton, segundo o qual as mais nobres ideias estão quase sempre associadas às mais torpes práticas.
Ora, aqui está uma historiazinha de terror. Tenho, entre os meus empregados - legalizados e descontando - dois empregados nepaleses. Atraídos pelos fumos dourados de uma vida de abundância, vieram parar a Portugal há dois ou três anos. Um deles, licenciado em Direito, fala e escreve perfeitamente três línguas e é um leitor compulsivo, conseguiu emprego num restaurante lá para os lados da Ericeira. Trabalhava 12 horas por dia, deram-lhe um catre na dispensa do restaurante e trancavam-no entre a meia-noite e as dez da manhã. Para cúmulo, não chegou a vencer um só dos ordenados inicialmente acordados e era forçado pelo patrão - que dizia "democrata" e "socialista" - a pagar as refeições. Resultado, nunca recebeu um cêntimo.
O outro, com mulher e três filhos vivendo no Nepal, viu-se obrigado a trabalhar sem remuneração numa empresa a troco de cobertor, acesso ao chuveiro (de água fria) e duas refeições diárias.
Compreendo, pois, a aliança estratégica entre as extremas-esquerdas das cruzadas libertadoras - do "homem como cidadão do mundo" - e a mais desvairada plutocracia global. Uns semeiam a confusão, os outros tiram partido da escravatura. Dois irmãos, ou talvez, o Janus da mesma realidade.