11 maio 2012

Fastigímia russa: nostalgia dos Romanov

Ainda há potências com o sentido da dignidade do Estado
 

E Você, continua a apoiar o terrorismo?





O massacre que ontem teve lugar no centro da capital Síria, perpetrado pelos agentes terroristas instruídos no Líbano por militares franceses assessorados por milicianos líbios, demonstra de forma gráfica a que ponto chegou a subversão de todos os princípios elementares da ordem internacional. Quando o Presidente Sírio se dispunha a aceitar observadores internacionais e dava mais um passo decisivo para a institucionalização de um regime multipartidário (eleições para o parlamento realizaram-se na passada segunda-feira, ditando o fim do monopólio do Partido Baath), os amigos de Paris, Londres e Tel Avive deixaram um recado ao governo legal. Tal como acontecera na Líbia, tudo indica que forças externas poderosíssimas não aceitam a via do diálogo e apostam decididamente pela guerra civil. É tremendo o cinismo daqueles que, tendo feito do combate ao terrorismo a prioridade da política dos Estados do Ocidente, aplicam o double-standard, armando e ilibando terroristas salafistas. E você, caro leitor, continua a apoiar terroristas? As forças da morte andam à solta pelo mundo. Que raio de cruzada pela democracia é esta que justifica a matança por atacado de populações? Que raio de decisores ocidentais são estes que já condenaram à morte os 12% de cristãos sírios, incondicionais apoiantes de um regime que lhes garantiu plena cidadania e respeito pelo exercício do culto? Depois da Líbia, já me disponho aceitar as mais desvairadas teorias conspirativas. Quem manda no Ocidente? O que pretendem? Que forças pretendem acordar para justificar uma guerra global?




10 maio 2012

Quem recebe elogios destes de um Dragão?

Esta não posso deixar de publicar. Não é por mim, é pela bondade, pela generosidade e por essa qualidade tão rara entre nós a que se chama o elogio. Em Portugal não se elogia ninguém. Como bem diz o meu irmão Nuno, "há sempre umas minhoquinhas tontas que não suportam o brilho do trabalho alheio e assim poderemos considerá-las como uma espécie de oxíuros inúteis que provocam alguma comichão e nada mais. Uma purga e vão cano abaixo. A inveja é uma coisa fétida, não haja dúvida alguma". O Professor António Vasconcelos Saldanha, esse sim um académico, costuma citar o meu tetravô Camilo, que se referia aos "escaravelhos estercorários" que arrastam por montes e vales a sua imensa bola de esterco - o mundo é o vasto horizonte onde, sem barreiras, a bola de esterco se agiganta, é admirada e aplaudida pelos escaravelhos concorrentes na corrida à maior obra.



Disparates do mundo


Há dois ou três anos correu o mundo o dogma da beleza electrizante de Michelle Obama, um daqueles exageros que só ficam mal a quem é alvo de tão despropositados rapapés. Na África do Sul pós-Apartheid, um tonto tentou, debalde, impor a viúva de Machel e nova consorte do Madiba como símbolo da mulher sul-africada. A coisa era tão exaltada e descabelada que produziu uma sonora gargalhada.
Agora, pegou a moda Trierweiler, à qual - claro- o nosso Völkischer Beobachter aderiu com um zelo a puxar a Corin Tellado. Com a fome a apertar e pouco faltando para bailes à Os Cavalos Também se Abatem, a veia pirosa vem ao de cima.

08 maio 2012

Não há pontes longe demais: 1640 dias da minha vida


Foram mil seiscentos e quarenta dias, cerca de sete mil horas de leitura em arquivos e bibliotecas, duas mil horas de escrita. São 500 páginas. A tese que me queimou os olhos e pela qual jurei a quem em mim confiou tal responsabilidade - o meu orientador, a Fundação Gulbenkian - passa a agora por acelerado processo de tradução, pois que o júri será internacional e importa que a coisa portuguesa - na sua abundante safra de fontes, às quais adicionei centos de documentos em thai - seja conhecida. Uma grande prostração invade-me o espírito e o corpo. É reconfortante quando as mais intensas batalhas, às quais nos devemos entregar sem condições, terminam em bem.
Os meus leitores compreenderão certamente uma alegria que gostaria de partilhar com quantos, não me conhecendo, me concedem o privilégio da sua visita, da sua crítica ou anuência a pontos de vista que nem sempre compaginam com aquilo que parece bem dizer. No que à tese respeita, era voz corrente que pouco mais havia a dizer sobre as relações luso-tailandesas. Outros haviam abordado o assunto e pronto, estava tudo dito. Ora, não há nada que seja definitivo. Pelo caminho, localizei mais de 1000 documentos jamais lidos por outros que me precederam, tentei reconstituir procedimentos, práticas, incidentes diplomáticos, reinterpretar tratados, dar vida a portugueses há muito mortos. Prometo que a todos convidarei para o lançamento da obra.
É estúpido, mas ao terminar esta luta silenciosa, só me ocorreu aquela fita da Ponte Longe Demais. Mas a essa ponte consegui chegar.

                                                                                                                               Miguel Castelo-Branco

P.S. Obrigado a todos quantos deixaram mensagens (14), assim como a nove amigos que endereçaram votos de felicitações para a minha caixa de correio.

07 maio 2012

7% de brancos e 20% de abstenções

Em França, 7% do eleitorado que ontem acudiu às urnas votou em branco; aquilo a que se pode chamar um acto inédito de recusa (mas não de demissão) perante uma democracia que se foi blindando e oligarquizando a extremos dignos de estudo. A partida de Sarkozy - mais a sua direita plutocrática - não atenua o mal-estar da chegada de Hollande, homem de nomenclatura, sem vida profissional conhecida que nunca terá apanhado o metro, não deve saber pagar a conta de electricidade ou comprar um quilo de bifes. Um percurso igual ao de tantos fulanos: estribeiro de Mitterrand, caudatário de Delors, mufana de Jospin, consorte de Royal, substituto de DSK, tudo indica que se vergará ao primeiro grito de Merkel.
Elogiam-lhe a presidência de Tulle. Contudo, gaba-se nunca ter dormido uma noite nessa ignota municipalidade. No fundo, um entre milhares, cursou o ENA e a Ciência Política (muita teoria sem ponto de aplicação) e tem o desplante de afirmar que "não gosta dos ricos", muito embora seja filho de ricos (o pai, poujadista e amigo do OAS). Tudo como dantes.

Un idiot à Paris

Haverá milhares de Hollande pelas ruas de França. É daquelas caras que mal deixam memória. Contudo, há semanas que andava a matutar onde tinha encontrado aquele homem pardacento e quase invisível. Não sou bom fisionomista, mas tinha a certeza. Hoje, quando surgiu no palco, aclamado pela turba na Bastilha, lembrei-me: olha, o Bernard Blier. Bastou colocar-lhe os óculos e uns cabelos, bem pintados (pois) asa de morcego. Só espero que o novo ocupante do Eliseu não tente copiar o velho Blier e não usurpe as mais conhecidas fitas em que este foi vedeta: Cent mille dollars au soleil, Un idiot à Paris, Le Distrait ou Série Noire.


06 maio 2012

A primavera que não acaba


Contrariando as pitonisas da liberdade, o Cairo dava ontem eloquente testemunho do triunfo do caos.

Estamos já a viver os primeiros momentos de uma revolução ?



Étienne Chouard coloca o problema: vivemos em democracia ou em oligarquia? Quem manda? A vontade geral, impossibilidade rousseauniana que tudo justifica? Ou tratar-se, antes, de uma aristocracia que degenerou em oligarquia dos incapazes, incapaz de interpretar o bem-comum? Tudo indica encontrar-se o poder nas mãos de uma nomenclatura cúpida, sem obrigações e cujos privilégios não a obrigam à exemplaridade nem ao exemplo. Tudo indica que o Estado e os fins que prossegue foram raptados por gente que não serve; pelo contrário, se apropriou da coisa pública e manipula, induz, fabrica a ilusão da participação e do assentimento. Pelo tom das intervenções, estamos, meus amigos, à beira de uma revolução.
Infelizmente, a maioria das pessoas não está treinada para percepcionar a iminência de mudanças radicais. Aqueles que, imersos na teoria e na leitura dos teóricos se apegam à Filosofia, não sabendo história, discorrem longamente mas são incapazes de prever a chuva da tarde; aqueles que, agarrados às fantasias da ordem que as ideologias garantem, estão impossibilitados de pensar sem o amparo de quadros formais e de crenças; por último, aqueles que julgam termos há muito chegado ao fim da História.