04 maio 2012

Monstrinhos de hoje






Algumas das mais destacadas faces da parvalhização. O agitador do mercado de ideias e micro-filósofo Bernard-Henri Lévy, aliás BHL, mais conhecido por Bazar Henri-Lévy. Bazar Henry-Lévy investiu todo o seu potencial na justificação da guerra da Líbia, quiçá o mais degradante episódio da intriga internacional desde a Guerra do Chaco, inventada por um tal Basil Zaharoff. Bazar está dada vez mais parecido com "Bernie" Madoff (um investiu em especulação financeira, outro no negócio da especulação para-filosófica) e ambos lembram DSK - que foi ejectado por Sarkozy na corrida às presidenciais mediante ignóbil expediente - e, porque não, o sinistro Soros, especialista na destruição de economias. A novíssima galeria teratológica não se limita, decididamente, apenas aos Bin Ladens, aos Joseph Kony's,  Kim Jon Un's e Ahmadinejad's. A tirania do dinheiro sem pátria, da amoralidade técnica, do jogo da especulação e do ódio a tudo quanto lembre a riqueza e diversidade da espécie humana é um perigo global. São estes, claramente, os homens que justificarão o nascimento de novas tiranias. Destruíram o velho capitalismo, transformaram o Liberalismo em justificação para a mais desenfreada pauperização, feriram de morte as democracias. Se gente desta não for detida a tempo, amanhã teremos novos Hitlers e novos Estalines um pouco por todo o lado. São estes, pois, os maiores aliados dos totalitarismos que despontam.

03 maio 2012

A pequena direita burguesa e rasca

Há quem goste do estilo. Uma burguesia desmazelada, exibicionista, parasitária, incapaz de dar o exemplo, boçal, inimiga da cultura, sem profissão e para mais mundialista e americanizada. Relógios de "marca", trapos "de marca", resorts, spa's, mais os condomínios e o golfe, a socialite e o jet set, fazem o retrato desta canalha endinheirada e snob . É o sonho de muita gente, cá como lá, mas entre esta burguesia e a classe operária, não havendo diferença nos impulsos e no exemplo, optamos decididamente pela classe operária. 




Sei que para muitos este é o must, a ficção dirigente, um programa de vida. No fundo, é a queda de uma civilização que herdou a velha tradição burguesa do amor pelo trabalho e da ascensão pelo mérito esforçado, o sacrifício - na poupança, no risco e no estudo - e a trocou pelo potlatch do consumismo. Estes são os fazedores dos novos comunistas e dos novos fascistas. É gente gananciosa e predadora, de um egoísmo anal, inimiga de tudo o que desconhece, presumida, aventureira e maligna, pois tudo aquilo em que toca se transforma em negócio e em dinheiro. Foi esta gente que transformou os trabalhadores em "colaboradores", que aderiu à globalização, deslocalizou, trocou a economia pelas finanças, a empresa pela bolsa, as pátrias pelos conglomerados, a Europa pela União. Entre nós, fez razias. Calcule-se o que não terá feito pelo mundo-fora ! A generalidade das pessoas não quer ver, julgando que esta direita pode contrariar o colapso que se aproxima. Não, a verdade é que foi esta gente quem abriu as portas ao abismo. 

Compreendemos, finalmente, a dialéctica entre esta direita plutocrática e a nova esquerda das "causas". Uns e outros precisam do caos, nutrem-se da confusão e são, sem tirar, a mesma moeda. São falsas elites e aspiram ao mesmo. Como sair daqui, eis o grande problema.





Soral, brilhante como sempre, sobre a burguesia de ontem e de hoje

Liberdade de imprensa

Dia internacional da liberdade de imprensa. Por mais que a procure, dela não encontro vestígios, para além - claro - da liberdade que assiste a uma reduzidíssima clique de intoxicadores, manipuladores e indutores de opiniões. No táxi que me levou ao trabalho abri o CM: futebol, facadas, violações, uma mãe que afogou o filho, uma miríade de anúncios de brasileiras "bum-bum de chocolate", mais o corta-cola da Lusa. Ao chegar, sobre a secretária, o DN - uma das rádios-Moscovo - e o mesmo, com variações sobre economia e uns "artigos de opinião" que fariam a vergonha de qualquer semi-letrado. Eis a "liberdade de imprensa": uma bomba atómica em papel, confeccionada por jornalistas analfabetos repetindo recados, frases-feitas e fazendo favores aos micro-lóbis de amiguismo e às panelinhas, mais uns cachets cativos para tipos que nada têm a dizer. Se esta é a liberdade, então sou adepto incondicional do receituário de Papini, para quem a maior higiene social assentava na prática de não ler jornais, não ouvir rádio e, por que não, jamais abrir a tv.

02 maio 2012

As pessoas não podem ser deixadas à solta

Alimenta

O primeiro de Maio encheu as parangonas e trouxe para as ruas milhares. À alienação de outrora, os ditos trabalhadores de hoje carregam uma nova alienação. Os sindicatos já não representam a classe trabalhadora - os operários, os mineiros, os camponeses e os pescadores, que não perfazem mais que 10% do total da população europeia - mas tão só o funcionalismo de escritório, trabalhadores sui generis que não produzem senão papel, têm por ferramenta o computador e trocaram os sonhos da libertação pelos mitos da abundância, do consumo, do crédito barato e do conforto. É gente hermafrodita, sem chama e agressividade, que não pede um amanhã ridente, mas exige, contra os números e os mitos a que aderiu com entusiasmo (a globalização, a divisão internacional do trabalho, as deslocalizações) que tudo fique como era. Eles, que são europeus, democratas, respeitadores dos direitos humanos, merecem 35 horas por semana, 30 dias de férias, carro à porta, casa na cidade e casa no campo, supermercado duas vezes por semana, internet, telemóvel, roupa nova três vezes por ano. Os chineses e os indianos, esses que trabalhem.
A mole que se arrasta aos gritos pelas ruas, bandeiras vermelhas ao vento, luta por causas nobres: 13º e 14º meses, emprego para a vida, aumento das reformas, saúde gratuita, ensino gratuito, subsídio de maternidade, subsídio de paternidade, passes sociais...
Nada dito é novo. Na Roma de Trajano dava pelo nome de Alimenta. Inicialmente, a alimenta destinava-se a garantir apoio às crianças pobres. Depois, veio o pão gratuito para a plebe. Ao pão acrescentou-se o circo gratuito. Sob Aureliano, o alimenta passou a integrar também vinho e azeite de graça. À plebe de Roma não interessava se aquele pão que vinha do Egipto e aquele vinho e aquele azeite vindos da Hispânia era produzido na ponta do chicote por escravos. O importante era que chegasse. No fundo, quem não sabe nem se interessa pela história, julga que estas coisas são novas. Nada é novo.

01 maio 2012

Escapismo puro

"Die Frau meiner Träume" (1944), com a frenética, talentosa e semi-vestida Marika Rökk - que punha a pandilha Fred Astaire&Ginger Rogers num saco - grandioso no género, monumental como o melhor Ziegfeld da Broadway, saído directamente da prodigiosa máquina da propaganda, não estivesse a Alemanha na altura, digamos, economicamente bastante pior que a Grécia, tão insegura como o Afeganistão e com uma percepção da realidade apenas igualável à da Coreia do Norte. Sonhar não custa. Conselho: não acreditar em nada. Ou não vivemos nós no tempo da mentira ?

29 abril 2012

A "Senhora Merkel"

Reunião de chefes de governo da União

A moda pegou, mas denuncia vergonhosa submissão neo-colonial. Ontem ouvia Ana Gomes - que está cada vez mais uma "hermanfrodita", um daqueles dos bonecos do Herman - e reparei no tom sopeiral de reverência mascarada de insubmissão sempre que nomeava a chanceler alemã. A "Senhora Merkel" para aqui, a "Senhora Merkel" para ali, numa tão despropositada forma de tratamento que acabei por concordar. Afinal, Ana Gomes tem razão. Aqueles chefes de governo que vão a Berlim genuflectir ante a campónia feita sucessora de Bismarck, comportam-se como a criadagem. Na copa, dão largas à intrigalhada própria de cozinheiras, mulheres da limpeza, lavadeiras, mordomos e jardineiros, mas mal acedem à parte da casa destinada aos "senhores", a espinha dobra-se-lhes instantaneamente.

Ars Longa Vita Brevis: Corrado Feroci 50 anos depois



Passam este ano 50 anos sobre a morte de Corrado Feroci (1892-1962), sobre quem já aqui havíamos falado noutra altura. Pouco conhecido entre nós, mas um gigante - daqueles que aparecem de século a século - que foi tudo e em tudo foi genial. Este florentino arrostou todas as incompreensões e até perseguições, sacrificando uma vida intensa de trabalho  pelo amor à arte e à Tailândia, a sua segunda pátria, onde viveu e se naturalizou. Foi Feroci quem introduziu a história da arte, a crítica de arte, o ensaísmo e o ensino académico das belas-artes no país; foi Feroci o pioneiro da arqueologia científica, da museologia e das técnicas de restauro e conservação. Foi, também,escultor, ceramista, decorador, pintor, ilustrador e muralista. Foi, sobretudo, professor, um homem de vida quase espartana que nunca faltou a uma aula e chegava à universidade de bicicleta, mesmo nos dias em que envergava a soberba farda de alto funcionário do Estado.
É notável como pôde um homem só fazer tanto com tão poucos meios - sem bibliotecas, sem arquivos, sem assessores, quase sem orçamento - e como conseguiu deixar tantos discípulos e um sulco tão profundo num país que lhe ficou eternamente grato.
Eu tenho uma explicação; ou antes, duas. O tempo é breve, e se não fazemos aquilo para o qual fomos escolhidos pelo destino, ninguém mais o fará. Depois, o dinheiro e a falsa fama acabam. Só os grandes espíritos vivem para além do seu tempo. Feroci inventou tudo, foi tão convincente que o que sonhou se transformou na Tailândia de hoje. Nos tempos que correm, da plutocracia desvairada, da arte-negócio e das "indústrias culturais", é quase impossível que homens destes surjam. A arte, a cultura e o ensino são aristocráticas por antonomásia. Ai de quem os queira transformar em meras mercadorias. Aqui está o epitáfio da cultura.