14 abril 2012

Porque não houve "primavera árabe" em Marrocos



Marrocos não é governado por uma oligarquia. A simples existência de uma monarquia é freio para as arremetidas do gangsterismo político. Mas há uma explicação para o silêncio das grandes centrais da demagogia e da parvalhização. Segundo os mais atentos analistas, o Reino está a passar por uma verdadeira revolução silenciosa. Está-se a adaptar à nova realidade mundial, ganhou peso concorrencial e está a investir grande parte dos recursos na modernização das comunicações e infraestruturas. Acresce que o investimento na educação científica e tecnológica o vai libertando da dependência externa. O milagre económico tem um animador: o Rei. As boas notícias não são objecto dos noticiários. Os especuladores internacionais também não têm razão para qualquer euforia. Em Marrocos não vai haver turbamulta nas ruas. Nem barbudos, nem plutocratas!

13 abril 2012

Estado falhado

Bissau, 1972. Passaram 40 anos. A "Guiné-Bissau" revelou-se um Estado falhado. Afinal, quem tinha razão ?

Estaline em grande forma


Os estudantes russos estão delirantes com as capas dos seus novos cadernos de exercícios escolares. Um Estaline coberto de medalhas será, talvez, um estímulo para o estudo da matemática, da história, da biologia e da moral e religião. O revivalismo tem destas coisas. As pessoas pelam-se por um bom chicote no lombo.

12 abril 2012

Titanic's


Um desenho meu, rabiscado em 1968, que o meu irmão Nuno - que tem espírito de arquivista - desencantou nas pirâmides da memória em papel que se salvaram do naufrágio da nossa África. É curioso - sem querer comparar e discutir orientações pedagógicas - a diferença existente entre a educação que os meus pais me deram e essa outra de hoje. Sei que para muitas crianças viver numa casa sem livros (ou só com livros "técnicos") é uma fatalidade. Nascem e crescem a ouvir os paizinhos a discutir o enredo de telenovelas da SIC e da TVI, o pai a falar de futebóis e carros de corrida e a mãe que não passa da conversa das compras no supermercado. A minha mãe folheava-me página a página os livros da Guilde du Livre, as ilustrações do Gustave Doré e obrigava-me a desenhar, copiando (a cópia é um excelente exercício) os retratos dos nossos reis, tirados da Nobreza em Portugal. O meu pai recebia em casa revistas francesas e aos 8 ou 9 anos, eu, o Nuno e dois ou três amigos vizinhos, discutíamos acaloradamente as guerras napoleónicas, a batalha de Naseby ou o afundamento do Lusitania. 
Havia, também, longos serões - em África um longo serão era coisa que não passava das onze da noite - de slides do Goya, do Picasso, da estatuária de Louvre ou dos Brueghel; isto se não fosse lá a casa o Areosa Pena para as costumeiras conversas de política.
A educação é integral e não é na universidade que se faz aquilo que não aconteceu dez ou quinze anos antes. Sou a falso tudo o que é falso. Ainda hoje, ao ouvir alguns senhores falar com propriedade sobre tudo e nada, ali vejo, só, colagens, citações e postas-de-pescada que iludem uma coisa tão simples como isto: aos 13 ou 14, ainda não tinham passado do Patinhas.

11 abril 2012

DSP (Direita Sexual Portuguesa)


Quando não lhe dá para o sol e os touros, dá-lhe para a moralzinha. Aliás, a direita portuguesa preza por ser como é: não ter ideias, não ler, fantasiar e criar fantasmas, ser absolutamente incapaz de justificar a sua existência e utilidade para além das costumeiras questões de cuecas, ceroulas, capotte ou não capotte, maternidade assistida e anti-maternidade assistida, IVG ou não IVG, tareia nas mulheres ou não tareia nas mulheres, educação sexual nas escolas ou não educação sexual nas escolas, DST's e demais coisas interessantes. A direita diverte-se com isto porque desconhece tudo o mais. Quando não lhe dá para o sexo, dá-lhe para a metafísica, coisas muito parecidas, pois uma e outra são fugas retóricas. Quem não compreende a humanidade, vira-se para a biologia ou para as nuvens. 

Nas décadas de 10 e 20 do século passado andava pelo Chiado, de bengala em riste, a atacar os antros do "deboche". Era a célebre Liga para a Moralidade, também conhecida por Liga de Acção dos. Estudantes de Lisboa, comandada por Teotónio Pereira, que acusava meio mundo de viver na cama do próximo. Essas insignificâncias literárias que davam pelo nome de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, António Ferro, Mário de Sá-Carneiro e António Botto foram atacados e espancados por esses justiceiros mosaicos. Pessoa escreveu então: Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Tudo acabou, em 1923, com uma queima pública de livros de uma "desavergonhada" chamada Judite Teixeira.Afinal, vieram a encontrar-se todos no Estado Novo: a Ferro como prodigioso criador dos grandes mitos de mobilização do regime, Almada como artista oficial da modernidade do regime, Botto como criador da "mística" da MP, Pessoa como bardo da Mensagem. Os moralistas de ontem, esses, nunca foram nada de especial, não acrescentaram um grama ao regime que os agasalhou e engordou, mas deles não ficou molécula de obra.

Sei que as pessoas mais tiranizadas pelo sexo são aquelas que mais falam dos assuntos de que ninguém fala, por pudor, por educação, respeito ou, até, por desinteresse. A direita portuguesa, sempre com o credo na boca, tem a particular característica de se saber enrolar na teia das discussões dos seus inimigos. Julga poder combater o BE assumindo-se como dique. Se é dique a alguma coisa, é dique de estupidez, pois assume sempre o papel odioso em matérias que não deviam sair do mais estrito reduto da vida privada. Assim vamos, cantando e rindo, ou, lembrando Almada: "coragem portugueses, só vos faltam as qualidades".

Para finalizar, uma historieta. Na Roma Antiga, era prática corrente abandonar crianças indesejadas em monturos de esterco ainda quente. O quente do estrume permita que as frágeis criancinhas não morressem de frio. Eram adoptadas e algumas eram chamadas de Kopros. Havia muitos Kipros na Cidade Eterna. Aqui também.

10 abril 2012

Fantasias judaico-baptistas


Na biblioteca pedi o livro de Carla Melo sobre o Sião. Afinal, tratava-se de Sião a que aludia Camões, o Sião dos "protocolos", o Sião que não me interessa. "Carla Melo declara que não foi Portugal quem descobriu o Brasil, mas, sim, Deus quem foi o descobridor da Nação brasileira. Ela ora para que sejam derrubadas todas as maldições, criadas no início da história entre as duas nações". Isto é mais grave. Para os loucos de Deus - o Deus de Israel - Portugal manchou o Brasil e que havia uma "nação brasileira" antes de Cabral. Já há anos, uma criaturinha brasileira lamentava a "violação" do Brasil por Portugal. Para ilustrar a fúria contra o pai, lá vinha a catilinariazeca da escravatura e a fábula do "Brasil holandês". Lembrei-lhe que nunca haveria Brasil com os holandeses e que estes estavam lá, precisamente, pelos engenhos do açúcar. 
No que à "apóstola" respeita, o seu arzinho de pistis afogueada e o punho do fulano dizem tudo. Abri, li. A apóstola não escreve mal: "por mim teria ido buscar os filhos que ficaram em Portugal e sem qualquer dúvida encetava vida tranquilamente em Israel. Sair [de Israel] foi como que arrancar do peito o coração, era uma dor lancinante e as lágrimas rolavam espontaneamente no rosto (...)". Caramba, parece uma passagem de um dramalhete camiliano do género do Maria, não me mates, que sou tua mãe.
A apóstola e o apóstolo - a apóstola é casada com um apóstolo - continuam a podar nas videiras do Senhor. Sejam felizes, mas ponham por momentos o Livro de lado e leiam umas suculentas páginas do velho Gilberto Freyre ou do sempre jovem Viana Moog. Ali está o Brasil português, feito à imagem de Portugal, não esse outro Brasil dos maluquinhos dos candomblés, das seitas e igrejolas à americana. Bolas, Sião !

Soarenomics


Para Mário Soares - um eterno improvisador - a solução para crise financeira e a salvação do tal "modelo social" que nos levou ao abismo tem uma cura: emitir mais moeda. Para quem se interessa por questões de história económica - se o Dr. Soares já leu alguma coisa - depara-se com esta crónica tendência. Quando os governantes querem mais dinheiro e dinheiro não há, emitem moeda. Sabe-se hoje que parte apreciável da chamada crise romana, agudizada a partir do século III, se deveu precisamente à infantil ilusão da solução dos problemas pela via da emissão de mais moeda. O mesmo aconteceu em Portugal ao longo dos séculos XVI e XVII. Os Reis convocavam cortes e pediam que se partisse moeda; ou seja, para a mesma quantidade de prata cunhavam-se mais moedas com valor facial supostamente idêntico, mas sem valor intrínseco correspondente àquele que exibiam. Daí nasceu (e nasce) a inflação. Há mais moeda, as preços aumentam. É básico, tão básico como o populismo socialista que continua a persistir no erro de julgar que o Estado (neste caso o BCE) pode inventar riqueza por decreto, mesmo que a economia real já não produza os meios para alimentar os delírios dos governantes. O "paradigma" a que se refere Soares tem um nome: socialismo. O socialismo [explicado às crianças como o Dr. Soares] resume-se a uma crença: o Estado é Deus, cria recursos do nada e distribui-os com magnanimidade entre a plebe. Ora, o Dr. Soares sabe que há uma diferença entre riqueza e moeda. A riqueza tem a ver com a produção, com a propriedade útil a que chamamos empresas, com o risco de quem investe, dá emprego, paga impostos. Soares ataca o "neo-liberalismo", mas teima no velhíssimo e caquético keynesianismo. O problema, claro, é o capitalismo de subsidiação, que tanta guerra fez às empresas, tributando-as ao extremo, e simultaneamente tudo fez para construir a tal globalização, abatendo fronteiras económicas, acicatando as deslocalizações e criou a ilusão que os europeus poderia viver ad eternum de crédito. Aqui está a resposta para estes 38 anos de loucura que nos trouxe à miséria. Arrependam-se, pois o dia do castigo está a chegar.

09 abril 2012

Um grande esquecido

A intervenção arrasa-quarteirões que Paulo Varela Gomes fez há cerca de cinco anos mantém-se actualíssima. Explica, também - para além do profetismo e da tremenda coragem - o estado a que isto chegou. Explica, por último, o fim do acesso às tv's de um homem que é, talvez, das últimas vozes livres que ousa afrontar os muitos bezerros de ouro em que temos vivido ao longo de décadas. Não, Paulo Varela Gomes não é um "extremista" nem um anti-democrata. Pede, apenas, que esta forma de governar dê lugar à soberania da inteligência e do patriotismo. Vale a pena ouvi-lo. Uma verdadeira aula em tempos de colunas vergadas e medos.