07 abril 2012

Uma brilhante democracia



Sabe o leitor que 60% do eleitorado francês não está representado na Assembleia Nacional? A lei eleitoral, sempre favorável à oligarquia dos partidos que partem e repartem o orçamento e as as sinecuras, trata de anular na primeira volta - por arranjos e alianças - 45% dos votos, impedindo que os outros 15% remanescentes consigam, sequer, a possibilidade de arranjinhos. A isso chamam, na semântica da mentira, o ballotage. Em português soarista chamar-lhe-ia batotage.
Para as presidenciais, não existe recolha de assinaturas de iniciativa cidadã; não, são requeridas 500 assinaturas de patrocínio recolhidas entre eleitos [pelas máquinas dos partidos hegemónicos]. A solução foi engendrada por De Gaulle e não foi corrigida; antes, foi aumentada. Em 1976, eram requeridas 100 assinaturas de autarcas, mas correspondia já, de facto, a um logro, porquanto eram requeridas a um candidato assinaturas provenientes de mais de 30 circunscrições eleitorais. A essa regra dão o nome de parrainages, mas tem-se mostrado a regra de ouro, por excelência, da oligarquia. Quem não pertence à classe política, não entra. Os maires que ousam quebrar a regra, são denunciados pelos parceiros obedientes; logo, excluídos de integrarem de novo listas antecipadamente vitoriosas.
Finalmente, a vida democrática, já profundamente diminuída na sua autenticidade, transformou-se num negócio. O número de votos recebidos é pago, do orçamento de Estado, num ratio correspondente ao peso de cada candidato. São milhões, na ordem dos dois dígitos. Mas há mais. Só recebem a fortuna se ultrapassarem 5% dos votos. Ou seja, quem não tem meios, teve de os pedir à banca para, depois - se não alcançar os tais 5% - terá de os pagar ou ser preso por dívidas.
É por tudo isto que as sondagens, outro negócio de Midas, indicam que 30% dos franceses se recusam votar. Bela república, aquela !

06 abril 2012

Fantasias mortas: a Jugoslávia morreu há 20 anos


Druže Tito, mi ti se kunemo = Tito, juramos-te fidelidade

Coisas abracadabrantes


Para reforçar o "policiamento de proximidade", algum portento teve a brilhante ideia de mandar entrar a polícia espanhola em Lisboa e Braga, com o intuito de proporcionar aos turistas espanhóis melhor estadia em Portugal. Lá apareceu, com o brilhozinho tonto nos olhos, dando largas aos "afectos portugueses", um eufórico porta-voz da nossa segurança pública cantando loas à colaboração entre as duas polícias. Sei que isto não é intencional. É produto da estupidez, mas não só. Os espanhóis estão cá e sabem pelo que vêm. Os portugueses fazem-no por que não sabem. Tenho a certeza que a conspiração de estúpidos terá por responsável um desses meninos feitos micro-estadistas que em visita a Espanha, depois de uma boa garrafada de Fernando de Castilla, assinou de cruz tamanha estultice. Mas será apenas patetice? No ano em que o governo aboliu o feriado do 1º de Dezembro ?

05 abril 2012

Max Raabe wieder: Hallo, was machst du heut Daisy

Max Raabe & Palast Orchester: vivere (1937)



Max Raabe é a grande estrela do revivalismo. Dizem possuir públicos multitudinários onde quer que actue, de Berlim a Nova Iorque, de Munique a Budapeste. Ao princípio, foi ridicularizado por cantar repertório de bisavós. Hoje, não há quem o ultrapasse. Raabe recuperou as belíssimas cançonetas dos anos 30 e 40 - o período de ouro da rádio, do cinema e da propaganda - e voltou a popularizá-las. Foi, decerto, o zénite da música popular. Depois, veio o lixo.

04 abril 2012

Mais autoridade moral dos comunistas


Li em tempos a maravilhosa e terrível viagem de Josef Martin Bauer - o Virgil Gheorghiou alemão - dos campos da Sibéria ao Irão. O mesmo diagnóstico sobre o terrível século XX; que o diabo o leve e faça esquecer e enterrar no fundo dos infernos. Um filme grande pelo que revela da luta entre a escravidão e a sede de liberdade, mas também da heroicidade que é sempre solitária. A ver, porque coisas destas não passam nas televisões, onde os comunistas inconscientes continuam a aferroar o grande segredo da mais longa e letal das tiranias que assolaram o mundo.

O meu comunista de estimação


Tenho um comunista de estimação. É o BB, um senhor - um "homem de bem", como antes se dizia, quando ainda os havia - e sei dele aquilo que a maioria desconhece. Lembro com admiração o que fez pelo velho, doente e abandonado António Maria Zorro, que era o extremo político oposto de BB, mas por quem este comunista de lacinho e sempre impecavelmente vestido fez o que muito católico de cepa e patriota empedernido se recusou: visitar, estar ao lado do agonizante, dar-lhe alento antes da grande viagem.
Leio BB e concordo com quase tudo. O país está a morrer, devagarinho, entre a estupidez de uns, a incapacidade de outros, a miserável maldade de muitos. No fundo, o comunismo de BB é a sua narrativa. É um auto-engano, pois BB, ao contrário do que pensa, pensa e age como um patriota. É verdade que BB insiste no blá-blá-blá roncante dos amanhãs cantantes. Contudo, não acredito que acredite naquilo. Fá-lo por coerência, para não perder a face. BB acredita - e como eu muitos outros - que mudar Portugal não se fará jamais com revistas e teorias. Teorias há-as de sobra. O que importa é fazer coisas mas, sobretudo, servir fanaticamte o país, sem jamais duvidar que para lá dos indivíduos há uma nação. Como homem com biblioteca, devorador de livros e apaixonado pela língua portuguesa, ele já compreendeu que Portugal é maior que as querelazinhas, os ódiozinhos, as invejazinhas, as carreirecas dessa gentuça insignificante que tomou conta de tudo e não arredará pé antes que o país se afunde e desapareça.

03 abril 2012

França e Salazar depois de Ploncard d'Assac


Está a concitar grande interesse em França a recente obra Salazar le Regretté (Salazar, o Suspirado), da autoria de Jean-Claude Rolinat, que depois de amanhã profere em Paris conferência sobre o fundador do Estado Novo. A relação de Salazar com França não é nova. Foram salazarianos muitos activistas católicos franceses da década de 30, sobretudo oriundos das bandas dos Camelots du Roi, assim como depois,durante o regime de Vichy o foram os mais relevantes intelectuais e jornalistas-doutrinadores apoiantes do Marechal. Lembramo-nos, entre outros, de Ploncard d'Assac, que se refugiou em Lisboa entre 1945 e 1974 e que foi um divulgador entusiasta do pensamento de Salazar. O renovado interesse por Salazar entre os franceses terá certamente a ver com a atmosfera política que se vive no hexágono. Tal como acontecera nos anos 30, na atracção pelo pensamento de Salazar pesará certamente a orientação in media res de um radicalismo não extremista, prudente e conservador, de um nacionalismo fundado na identidade cultural de matriz católica, na adesão ao consensualiamo integrador, na recusa das utopias, da desconfiança pelo cosmopolitismo e, até, do individualismo burguês.
Salazar é um pensador e até um autor de textos marcadamente literários. Os seus discursos são peças de rigor e podem figurar em qualquer antologia de literatura. Já é tempo de deixarmos os mortos aos mortos e tratar de os integrar no seu tempo. Sabemos, como dizia Zweig no seu belíssimo O Mundo em que Vivi, que "é mil vezes mais fácil reconstruir os factos de uma época do que a sua atmosfera emocional". Deixar de lado a apologia e a catilinária anti-salazarista, deixar Salazar morrer como homem, eis o melhor caminho para lhe apreender o espírito e estudá-lo enquanto um dos mais importantes marcos da cultura política (e literária) portuguesa do século XX. Só os patetas, os facciosos, os labregos do espírito o não querem ver.

02 abril 2012

A "autoridade moral" dos comunistas

Plagiadores

Coube agora a vez ao presidente húngaro, Pál Schmitt. Há ano e meio, a ascendente estrela conservadora alemã, Karl-Theodor Freiherr zu Guttenberg, caía fulminado, vítima do crime de plagiato. O plágio é um crime de desonestidade académica. Alheando a sua dimensão jurídica - recoberta por legislação que protege a propriedade intelectual - o plágio é algo mais: trata-se de roubar obra alheia, omitindo a sua paternidade, um crime de natureza ética e deontológica, de usurpação e engano. Há quem se espante e insurja contra os plagiadores. Contudo, ao contrário daquilo que pensamos, o plágio é intensamente praticado e tende a instituir-se como uma prática corrente, pelo que se vai transformando em mero pecadilho. O plágio não é só praticado na academia. Ou não foi um dos Nobel português coroado por uma obra copiada, linha a linha, do velho, já esquecido e nunca traduzido Carlos Lobo de Ávila? 
No que à vida política, é um fartar de cheques-carecas de erudição pedida de empréstimo dez minutos antes das entrevistas. Fulanos que nunca abriram um livro, debitam Rawls, Adam Smith, Kant e Aristóteles. Outros, que não sabem a mera cronologia e não conseguem ordenar as dinastias portuguesas, usam e abusam da "pátria", da "memória" e do nome de Portugal.