31 março 2012

Jóchanpay

O homem não se cala. É uma máquina de palavras, um chuveiro de conceitos, metediço, fazendo-se convidar e sôfrego de tudo que possa lembrar que um dia foi presidente. Sempre o achei uma nulidade montada sobre duas pernas, quiçá o pior que Belém teve no friso infindo de ómegas que por lá passaram ao longo de um século. Não percebo qual o fundamento dessa tão falada função de ex-presidente. Serve para justificar o carro? O motorista? O secretariado? A codeazinha do orçamento? No caso vertente, o homem foi um medíocre presidente de câmara, um medíocre secretário-geral da agremiação política que o alcandorou, um mau presidente que se serviu das mais tristes manobras de casuística para anavalhar um governo com maioria parlamentar, trucidar um Primeiro-Ministro e lançar o país nas mãos de gente que hoje anda em fuga. Hoje apareceu na pantalha. Discreteava sobre a Europa e dava conselhos. Que lata!

29 março 2012

Coisas que as pessoas não sabem: a esquerda colonialista


A propósito DISTO. Só hoje a li e pensei tratar-se de coisa inquinada pela má-fé e desonestidade. Depois, cheguei à conclusão tratar-se de simples ignorância. Já é tempo das pessoas perderem o atrevimento de falar do que não sabem. É tempo, também, de abrir uns livros. A desmitificação é um dos principais pilares da atitude científica. O Daniel fala muito, escreve mais ainda e opina sobre o que sabe e não sabe. Um dos temas recorrentes do Daniel é o colonialismo. Caramba, Daniel, informe-se e deixe-me que lhe lembre que aquilo a que chama de "colonialismo" é coisa recente, francesa e de esquerda.
A esquerda francesa foi a mais entusiástica defensora da criação do império colonial. Após a queda do II Império, coube a Jules Ferry e ao seu governo republicano incentivar o recobro da energia francesa pela adesão a um programa unificador. Que programa ? Dar um império à França. Quem queria oferecer à França o seu império colonial ? Os banqueiros ? Os produtores de armas ? Não, um homem de esquerda, o pai da Escola laica e influente maçon Jules Ferry.
A direita opunha-se ao império e era anticolonialista por duas razões maiores. Em primeiro lugar, sendo nacionalista, preferia a via do irredentismo (recuperação da Alsácia e da Lorena) ao da subjugação de outros povos. Em segundo lugar, ponderando os custos envolvidos na criação de um império ultramarino, a aventura colonialista seria pura perda de dinheiro. A direita defendia o investimento em França, aprofundando a industrialização, assim como tirar partido dos meios financeiros da banca para facultar empréstimos seguros a outros países europeus, nomeadamente a Rússia, Portugal e a Grécia.
O entusiasmo pelo império não terminou por aí. Foi à esquerda francesa que coube a defesa enérgica da ideia da Missão Civilizadora. Após a Segunda Guerra, Mitterrand e Georges Frêche opuseram-se a quaisquer independências. A OAS chegou a ser apoiada pelos socialistas-radicais na luta contra a traição de De Gaulle de abandono da Argélia Francesa. Há que lembrar estas pequenas coisas a muito papalvo palrador.

Passos em frente


Gostei de o ouvir. Está mais seguro - salvo seja - e parece ter-se autonomizado da quinquilharia e dos cacos velhos da nefanda era Cavaco. Passos Coelho não escolhe, decididamente, a via da salivação. As pessoas começam a gostar dele por não prometer, não iludir, não protelar. A dureza também é uma qualidade, sobretudo quando fala a língua da verdade. Que diferença entre o comedimento, a prudência, o ligeiro toque de pessimismo e o" phoney balonismo" de um certo gajame e tipame de sorrisinho tonto que ao longo de décadas foi abrindo a cova onde nos deitamos.
Passos Coelho precisa, agora, de ligeiro aprimoramento. É necessário que tenha coragem para alargar o leque do discurso e fale mais no futuro, sobretudo aquele que não jaz na Europa, aquele que é essência e destinação da comunidade portuguesa.

27 março 2012

Una trujillada


Rafael Leonidas Trujillo, o homem que governou com mão de ferro a República Dominicana entre 1930 e 1961, há muito que caíra no esquecimento. Foi um ditador sanguinário, dizem os seus opositores. Às mãos da sua polícia, terão sido torturadas e eliminadas mais de 30.000 pessoas. O impacto de Trujillo na vida da pequena república foi tão impressivo e traumático que após a morte do ditador e da queda do regime que criara, foram produzidas leis de damnatio memoriae, ainda hoje em vigor. Lembrar, defender e exaltar Trujillo é ainda passível de pena de prisão, não obstante ter sido considerado "o maior dominicano" no rescaldo de uma polémica votação pública realizada há anos. Nada que não conheçamos, pois Salazar foi, entre nós, considerado o Maior Português em similar programa aqui realizado.

Contudo, o preto e o branco raramente respondem às perguntas da História. A República Domicana é um oásis de paz e riqueza na Ilha de San Domingos.  Ali ao lado, o Haiti é a mais vil das cloacas de degradação extrema a que pode chegar o género humano. O Haiti teve como pai, verdugo, dono e senhor o Dr. Duvalier, logo substituído pelo seu rebento Baby Doc. A República Dominicana teve Trujillo, que tratou da sua grande fazenda com esmeros de violência transformadora. Era um homem inteligentíssimo, de modestas origens que trepou até à presidência para não mais a largar. Dele se contam histórias de erotismo canalha que fariam corar o autor de Fanny Hill. Dele ficou uma lenda de malfeitorias, crimes nunca investigados, suicídios misteriosos.

Porém, durante o seu consulado, o país deu saltos de gigante e foi, durante décadas, a coqueluche entre as repúblicas das bananas apoiadas por Washington. Trujillo era um homem complexo e o regime que construiu era o reflexo da sua habilidade. Foi aliado de Franco, mas recebeu milhares de exilados republicanos espanhóis fugidos. Era um homem de extrema-direita, mas recebeu antes e durante a guerra largas dezenas de milhares de judeus fugidos a Hitler. Desta personagem estranha e odiada, a biografia Trujillo, mi padre, da autoria da sua filha Angelita, última sobrevivente do clã Trujillo. Os filhos amam sempre os pais, é uma lapalissada, mas Angelita não se limitou a contar a sua história. Produziu o retrato de um homem e do seu tempo.  Leitura apaixonante para quem tem saudades das novelas de ambiência tropical de Graham Greene. Para quem gosta de enredos sangrentos, La Fiesta del Chivo, de Vargas Llosa, conta as últimas horas da vida de Trujillo, varado em noite sem lua pelas balas numa estrada quando se dirigia a uma das suas caçadas femeeiras.


26 março 2012

Satrapias esquerdistas

l'Express afirma que o candidato Hollande é senhor de património avaliado em 1.170.000 Euros e Mélenchon, o irritado o irritante candidato da Frente de Esquerda, possui um pequeno pé-de-meia de 760 .000 Euros. Assim vale a pena sonhar com novas tomadas da Bastilha !

25 março 2012

A Grécia limpa está no exílio


É evidente que a vergonha grega tem, colados, os nomes da oligarquia cleptocrática dos Papandreus e dos Karamanlis. Nociva como um tumor venenoso que tomou conta do Estado, se apropriou da vida política do país e corrompeu a extremos o ethos da nação helénica, a dita caricatura de democracia parece estar a pagar o preço que a mentira paga à honestidade. Que eu saiba, em toda a tragédia grega, há um nome que não se pronuncia: o de Constantino, Rei dos Gregos, que sonhou com a liberdade para o seu povo e foi forçado pelos coronéis a sair do país com a roupa que tinha no corpo. Constatino seria, talvez, a única força limpa com capacidade para reintegrar a Grécia na Europa. Infelizmente, os oligarcas não o querem. A Europa dos agiotas também não.

Devo estar a ficar velho

Um dia inteiro de reclusão, sentado em frente da secretária, dando toques finais na dissertação de quase 500 páginas que me consumiu quatro anos e meio de vida e trabalhos. De duas em duas horas, uma peça de fruta ou uma sopa trazidos pelo empregado. Nesses intervalos, abro a tv e faço o zapping aos canais portugueses, que por ausência dos futebóis se dedicam ao congresso do PSD e ao congressinho da JS. Varado fico pelo simples motivo de ali, tudo espremido, não sair uma gota. Discursatas vão-de-escada, um português inqualificável, gente banal a despejar banalidades, uma pobreza de horizontes e ideias que faz dó. O que ainda salva tudo isto é o Primeiro-Ministro. Creio que nunca leu um livro, que não sabe onde fica a Biblioteca Nacional e falharia em qualquer exerciciozinho do Trivial, mas parece-me honesto e quando comparado com as holotúrias, as alforrecas e os colóides a que o regime nos habituou ao longo dos últimos trinta e tal anos, nele vejo um gigante de boa vontade.