17 março 2012

Esses liberais que não se calam


Insistem os liberais em fazer pública prova de fé na desigualdade natural entre os homens. Aos atrevidos, tudo; aos outros, nada. Juntam liberdade individual com felicidade e entendem a sociedade nos limites do estritamente necessário. Cada um por si. Tudo isso é muito bonito. Está lá, sem tirar, tudo o que fez de Rousseau um tarado genial, mas na sua grande maioria, os ditos liberais não têm nem os méritos nem as fraquezas do Promeneur Solitaire, nem as suas rêveries ultrapassam o estreito limite do hedonismo consumista, da tripa bem nutrida, como da pochete.
Que um fulano caia em plena rua fulminado. Culpa dele não ter dinheiro para um médico, não ter seguro de saúde, não poder pagar uma cama de hospital, não poder ser operado a um tumor, não poder pagar uns óculos.
Alguém [Garrett] disse em Portugal, há mais de um século, que o liberalismo trataria de destruir tudo por princípio para garantir o enriquecimento de uns quantos. Sim, perante isto lá vêm eles com as banalidades do Hayek, versão simplificada do Caminho para a Servidão, afirmando que tudo é preferível ao Estado. São patetices recorrentes deste jaez que fazem parte do arsenal de argumentos dos liberais. Esquecem-se que sem o tal Estado, tudo o que entendemos como vital desapareceria, que as ruas pertenceriam ao direito da força, que a educação, os transportes e as comunicações, a segurança interna e a defesa, o funcionamento regular do mercado, os tribunais e as leis, a assistência aos desvalidos, o simples direito a um pão ou a uma aspirina; tudo isso emana da existência dessa coisa tão diabolizada pelos liberais que dá pelo nome de Estado.
Um conhecido meu recitou-me em tempos uma breve receita para um liberal deixar de o ser:

1) Cair no desemprego e não receber qualquer subsídio;
2) Chegar aos 65 ou 70 anos e viver em exclusivo das poupanças feitas ao longo da vida;
3) Ser-lhe diagnosticada doença crónica e ser forçado a pagar a totalidade dos tratamentos;
4) Querer estudar ou garantir a escolarização dos filhos e pagar propinas a uma empresa de educação;
5) Querer abrir conta bancária e não o poder sem fazer garantia de rendimentos;
6) Querer deslocar-se e submeter-se aos preços dos cartéis;
7) Não poder aceder a bibliotecas sem pagar a uma empresa de armazenamento e difusão de informação;
8) Não saber se no dia seguinte pode voltar ao seu posto de trabalho, pois entretanto a autoridade patronal poderá te-lo dispensado sem aviso prévio;
9) Viver sob pressão de criminosos e só poder recorrer, para sua segurança pessoal e dos seus bens, a uma empresa de segurança;
10) Saber que só poder ser aquilo que quiser se for rico.

No fundo, o liberalismo, na sua lógica extrema, é uma forma de anarquismo: o anarquismo dos ricos ou daqueles pobres diabos que se rendem à religião do dinheiro. Tudo isso é excelente ou repugnante segundo os gostos de cada um, mas não funciona.

16 março 2012

Com os Portugueses de Bangkok

É sempre com a maior emoção que reencontro a família Wongngernyuang Dias, estabelecida na Tailândia desde o século XVII. Cidadãos tailandeses, fiéis ao Rei e ao Estado, que servem ininterruptamente, nos dias de triunfo como nos dias amargos das grandes provações, são também, sem pingo de contradição, grandes portugueses. Ao longo da minha estadia em Bangkok, entre 2007 e 2010, fui recebido como amigo e até como familiar por esta boa gente que tem sempre a aflorar nos lábios o nome de Portugal.


Não, não se trata de bandel, gente à margem e socialmente desclassificada. Neles não há qualquer vestígio do "português à solta" ou daquela praga de assomadiços que tão mal fizeram ao nome de Portugal em terras do Oriente. Usando a expressão portuguesa antiga, trata-se gente limpa, habituada à governança e ao comando de homens, com todos os traços distintivos de uma excelente educação, bondade de propósitos, orgulho e dignidade. O Capitão de Mar e Guerra Ing Saravut Dias, chefe da comunidade católica luso-descendente, é Director dos Estaleiros e da Doca-Seca de Bangkok, descende de generais que batalharam em todos os azimutes do velho Sião, o seu avô foi Embaixador do Sião em Roma e Ministro do Sião junto da Santa Sé. Saravut Dias é detentor de importante curriculum. Engenheiro naval de formação, com especialização em arquitectura naval pela Universidade de New Orleans e cursos de formação na Itália, possuiu o Curso Superior Naval de Guerra tendo saído do seu risco as vedetas rápidas de intercepção em alto mar que equipam a Marinha de Guerra da Tailândia, bem como os navios de treino. Professor universitário e na Academia de Marinha, é autor de oito títulos no seu campo de especialidade. Merecia, sem dúvida, uma medalha do Estado Português.


Foi com a maior alegria que o Comandante Dias recebeu a notícia da próxima doação pela Biblioteca Nacional de Portugal dos materiais provenientes da exposição Das Partes do Sião, que esteve patente entre Dezembro e Fevereiro passado na maior biblioteca portuguesa. Anuncia-se, pois, a instalação para breve de uma mostra documental permanente no edifício da antiga igreja da Conceição, no bairro de Samsen, berço de Bangkok. A ideia foi divulgada pelo chefe da missão académica portuguesa à Tailândia, Professor Vasconcelos Saldanha, no último dia dos trabalhos.

Príncipe herdeiro tailandês sobre Portugal

SAR, o Príncipe Maha Vajiralongkorn, herdeiro do Trono Tailandês, proferiu o seguinte discurso por ocasião do Colóquio Internacional sobre as relações luso-tailandesas que decorreu em Bangkok por iniciativa da Universidade Técnica de Lisboa / Instituto do Oriente e da Universidade Chulalongkorn.

"É com grande prazer que acorro a este importante evento em que a Tailândia e Portugal se juntam para celebrar 500 anos de relações amistosas entre os povos de ambos os países. Esta relação pode ser seguida desde aquele ano de 1511 quando, animados pelo fervor de descobrir novas terras, os navegadores Portugueses tocaram o Sião. A História lembra-nos que foi graças ao pensamento visionário do monarca português e do apoio concedido a Vasco da Gama na sua primeira expedição que Portugal se antecipou aos restantes países europeus e se estabeleceu na Índia e no Sudeste-asiático. Os Portugueses chegaram a Ayutthaya, então capital do Reino do Sião, no reinado de Ramthibodi II, corria o mês de Julho de 1511.

Ao longo dos tempos, as cordiais relações abriram passo a outras formas de relacionamento e trocas culturais e artísticas, do comércio à arquitectura, da gastronomia à introdução do uso da artilharia ocidental. Portugueses estabeleceram-se em Ayutthaya sob protecção real e aí exerceram livremente o comércio e puderam praticar a sua religião.

Desde o seu início, as relações luso-tailandesas diferiram acentuadamente daquelas existentes entre o Sião e outras nações europeias, pois não foram marcadas nem pela ambição de cristianizar o Sião nem na presunção de estabelecer dominação militar mascarada pelo argumento da protecção ao comércio. Estas relações desenvolveram-se em permanente interacção entre os dois povos e mediante integração dos Portugueses na sociedade siamesa, em cujo exército se alistaram e destacaram na luta contra os inimigos de Ayutthaya.

Prova de que a amizade entre Thais e Portugueses ultrapassou aquela existente com outras nações europeias, o desejo do Rei Chulalongkorn em visitar Portugal no périplo que realizou à Europa em 1897. Ao longo dessa viagem, merece apontamento a diferença de tratamento que a imprensa europeia e a imprensa portuguesa deu ao Rei Chulalongkorn. Para a imprensa europeia de então, o Rei do Sião era o "Rei o Elefante Branco", enquanto que para a imprensa portuguesa aludia a Chulalongkorn como o "Senhor da Vida".

Gostaria ainda de aludir a um outro aspecto da amizade entre as duas nações: a do estabelecimento dos Portugueses em Ayutthaya. Ali, o assentamento de Portugueses diferiu daquele ocorrido noutras paragens da Ásia, por exemplo, em Malaca e Singapura.

Nomomento em que a Universidade Chulalongkorn, através do seu Centro de Estudos Europeus e com o apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em colaboração com a Universidade Técnica de Lisboa e o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal organizam este simpósio internacional para promover o estudo e conhecimento sobre as relações luso-tailandesas (...), gostaria de formular os meus mais sinceros desejos de pleno sucesso. É minha esperança que este esforço fortaleça os laços entre nós e conduza a uma maior colaboração nos campos académico, científico, cultural e comercial.

Assim, declaro aberto este Simpósio Internacional sobre os 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia.

15 março 2012

Príncipe Herdeiro encerra colóquio internacional sobre as relações luso-tailandesas




O Príncipe Herdeiro tailandês encerrou anteontem com grande brilho o colóquio internacional sobre os 500 anos das relações luso-tailandesas, realizado em Bangkok pelas universidade Técnica de Lisboa /Instituto do Oriente e Universidade de Chulalongkorn. A presença do Príncipe Vajiralongkorn constituiu, sem dúvida, uma grande honra para Portugal, pois raramente acede a convites desta natureza.
O colóquio contou com a presença de nove académicos portugueses, uma dezena de docentes tailandeses e ainda de George Sioris, antigo embaixador da Grécia e empenhado lusófilo. Pediu-me o Professor Vasconcelos de Saldanha, coordenador português das jornadas, que o substituísse em representação da delegação.
Após proferir discurso alusivo às celebrações, o herdeiro do trono inaugurou uma exposição de artes plásticas do Professor Arquitecto Assani, inteiramente composta por aguarelas que o artista produziu no passado ano em Lisboa. A ideia de uma exposição nasceu em Lisboa há meses, no decorrer de um jantar que ofereci em minha casa. Então, confrontado com uma belíssima série de apontamentos riscados pelo conhecido pintor, o Professor Vasconcelos Saldanha sugeriu que as obras fossem expostas na capital tailandesa.

12 março 2012

Academia portuguesa desembarca em Bangkok



Um necessário pedido de desculpas aos leitores desta tribuna por tão prolongado silêncio, pois aqui em Bangkok os dias correm céleres entre reuniões de trabalho, almoços e jantares com amigos que há muito não via mas, principalmente, tudo fazendo para que o Colóquio Internacional sobre os 500 anos de relações luso-tailandesas termine com dignidade e "a Bem da Nação", como outrora se dizia.
Os trabalhos acadêmicos terminaram. Aqui vieram, graças ao acordo em boa hora selado entre as universidades Técnica de Lisboa e Chulalongkorn de Bangkok, os mais bem preparados especialistas portugueses (Francisco Contente Domingues, Vitor Rodrigues, Manuel Lobato, Maria da Conceição Flores, Tereza de Sena, Nuno Vassalo e Silva e este Vosso criado), representando respectivamente a Universidade Clássica de Lisboa, o Instituto de Investigação Científica Tropical, a Universidade Técnica de Lisboa, o Instituto Politécnico de Macau e a Fundação Calouste Gulbenkian.
A delegação portuguesa, encabeçada pelo Professor António Vasconcelos Saldanha, prestou provas e o resultado foi, como se esperava, excelente. Nunca antes Portugal havia enviado a esta terra tão grande número de académicos. Correu bem; corrijo, correu como devia: excelente planeamento, escolhas certas e sem favores, dignidade, saber e empenho. Como em tudo na vida, há os que fazem e os que não fazem, os que edificam e os que criticam mas não sabem fazer. Os portugueses que aqui vieram fizeram o melhor e destas jornadas irá sair em breve, em letra de forma e para sempre, o resultado da participação portuguesa.