02 março 2012

Aqui estão os salvadores da Líbia



Imagens captadas em Bengazi no passado dia 24: os novos senhores da Líbia destruindo um cemitério de guerra da Commonwealth e derrubando a cruz. Uma excelente lição dada aos idiotas úteis e à estupidez inteligente que por todos os meios quis ver naquela revolução - armada do exterior - uma primavera democrática. As pessoas são, na generalidade, crédulas e pouco argutas. Conclusão. Melhor seria que não opinassem e se remetessem à insignificância dos seus afectos. Diabolizaram Kadhafi. Agora que se pronunciem se têm um pingo de decência. Este é o único Islão.

Genocídio e memoricídio



A revolução francesa continua a ser objecto de culto para as esquerdas, em particular para os adeptos da violência, justificada como necessária para o nascimento de um mundo novo. A revolução absolve-se, assim, argumentando com uma suposta finalidade teleológica, necessidade inscrita nos mecanismos que regem história, lei que impele os acontecimentos e na qual os revolucionários agem como agentes da história. O terror de 1793 passou, pois, a autorizar os massacres da Comuna (1871) e justificar o "Comunismo de Guerra" de Trostky, as fomes artificiais decretadas por Estaline, a deskulakização, a construção do Gulague, a dizimação dos "parasitas feudais" na China maoísta e a lei dos 10%, número bem presente nos escritos de Marx e Engels; ou seja, a autorização "higiénica" de despoluição social sem a qual os amanhãs ridentes jamais aconteceriam. De facto, para a formação do carácter genocida do comunismo, o jacobinismo - que continua bem presente na paisagem política ocidental - ficou com a parte de leão. Hoje, é da herança jacobina, mais que da comunista que parte apreciável das esquerdas se revê. O comunismo é demasiado claro, não argumenta. Aplica-se mecanicamente. É uma receita. O jacobinismo, esse, rodeia-se de cuidados de justificação, vitimiza-se para poder matar, cria inimigos para legislar, invoca a liberdade para prender. É uma doutrina.

A revolução, que o clássico de Pierre Gaxotte há mais de setenta anos expôs na sua metódica, organizada e premeditada intencionalidade genocida e Bernard Lerat (Le Terrorisme Révolutionnaire 1789-1799) confirmou como um plano de habituação lento dos franceses ao terrorismo imposto pelo Estado aos cidadãos, conhece novo desenvolvimento com o espantoso Guerres de Vendée : après le génocide, le mémoricide, de Reynald Secher, autor que já havia dado relevante contribuição para Le Livre noir de la Révolution française (2008).
O genocídio da Vendeia, comprova-o Secher, foi decretado e aplicado com metódica e inalterada inflexibilidade por Paris contra o velho espírito das liberdades regionais da velha França. As colunas assassinas provocaram 600.000 vítimas entre 1793 e 1794. Fizeram-no selectivamente: primeiro os nobres, e os sacerdotes, depois os  proprietários os letrados e os homens jovens, em idade para pegarem em armas; finalmente, os produtores e artífices, os caçadores, os pescadores e os marítimos. A revolução, que Furet demonstrou ter sido uma conspiração e não uma sucessão de acidentes, fica assim, absolutamente responsável. Sabendo-o, os seus apologistas tratam de fazer esquecer os seus crimes. É o memoricídio.
Assim foi em França; assim o é em Portugal, com essa coisa violenta e primitiva que dá pelo nome da República.

01 março 2012

Os "gajos" e os "tipos"

O João di-lo com clareza, pelo que não é necessário acrescentar uma palavra. Não gosto, decididamente, de ouvir um ex-chefe de Estado referir-se a terceiros nos termos em que o licenciado Mário Soares o fez repetidamente num programa de travo memorialístico-vindicativo. Aos apodos de "gajo" e "tipo", generosamente distribuídos, somou-se um quase desprezo pelos "bons tipos", aqueles que não sendo "gajos" nem "tipos" (os adversários), se situam no patamar dos pobres-diabos satelizados. Mas nada disto é novo. Ainda há semanas, um professor universitário referia-se publicamente a SAR como "um bom tipo". Não gostei, mas não é esta a factura que todos pagamos pelo declínio irresistível para o atoleiro do rasca?

29 fevereiro 2012

Das Partes do Sião: fecho com chave de ouro


Encerrou com chave de ouro a exposição Das Partes do Sião, com a honrosa visita da Marinha Portuguesa e seus jovens cadetes a quem cabe preservar o nosso futuro como nação livre e independente. Foi um evento que se pretendeu a todos os títulos patriótico na evocação dos caminhos do mar e do mundo que deram a Portugal a sua dimensão planetária, assim como na demonstração do grande potencial de respeito que ainda nos é tributado por esse mundo fora. 
Das Partes do Sião, que esteve patente na Biblioteca Nacional desde 7 de Dezembro, atraiu muitas centenas de visitantes e marcou uma nova fase para o conhecimento das mais antigas relações existentes entre Portugal e um Estado asiático.
As celebrações dos 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia passam agora para Bangkok, onde se realiza na próxima semana um colóquio internacional de historiadores. Dela daremos conhecimento oportunamente.

Uma religião de ódio



Não, não há islamismo "moderado". A coisa é o que é, insuportável, mesquinha, odiosa e eriçada de selvajaria, incorrigível, persecutória, cruel. O halal, as excisões, as lapidações. Agora deu-lhes para os cães. Por cada dia que passa, tenho mais respeito por Brigitte Bardot !

28 fevereiro 2012

Palhaçada trágica


A gunboat policy está de novo na moda, na versão "diplomacia cowboy". Um destes episódios tragicómicos - guerras desiguais, gratuitas, sem motivo, fundadas em premissas erradas - foi a invasão de Granada. Dessa estúpida aventura saiu há dois ou três anos livro que me chegou às mãos. É, garanto, um verdadeiro monumento ao elefante em loja de porcelanas em que se transformou o Pentágono. Os EUA parece não conseguirem acertarem uma.Nunca na longa história dos grandes impérios terá havido potência tão descerebrada.
Lembram-se? Em 1983, inventando uma abracadabrante ameaça "russo-cubana" a Granada, ilhota três vezes menor que a Madeira, uma esquadra americana tomou de assalto esse minúsculo território. Diziam os alarmistas que os russos ali estavam a construir uma enorme pista de aviação destinada a uma "agressão comunista" à América central. O Pentágono ofereceu fotos de satélite dessa misteriosa construção, os jornais gastaram rios de tinta para excitar os medos infantis que em revoadas sacodem os americanos. A coisa foi de imediato impugnada. Qualquer turista ou jornalista ocidental podia tirar fotografias in situ à ameaça, que não era ameaça, mas um projecto financiado pela Grã-Bretanha, pela Dinamarca e Alemanha, destinado ao maximizar o potencial turístico da ilha. Depois, invocou-se que tal operação visava resgatar umas centenas de estudantes americanos matriculados na universidade local. Ora, os estudantes adoravam a ilha e a sua população, não eram incomodados e viviam como queriam, entre a praia e as aulas.
Os senhores da guerra deram instruções para que uma grande operação fosse desencadeada. Foi um fracasso do primeiro ao último minuto. Os homens rãs lançados para se infiltrarem no ilhéu morreram afogados (!!!), os dormitórios dos estudantes supostamente detidos foram impiedosamente metralhados pelos helicópteros da US Navy, o Quartel General do inimigo (que por acaso era um hospital), foi bombardeado e destruído, morrendo na chacina doentes acamados, o Governador da Ilha (pois Granada tem como chefe de Estado a Rainha Isabel II) foi detido. Afinal, as baixas americanas resultaram de "fogo amigo", com aviões a bombardear os Marines, os Marines a atingir os Comandos, os Comandos a metralhar os helicópteros. A América é, convenhamos, um país fantástico.

27 fevereiro 2012

Nostalgia da liberdade perdida


Vive Louis XVI ce bon roi citoyen
son coeur est aise de faire notre bien
vive Louis XVI ce bon roi citoyen
vive sans cesse nos dignes députés
dont la sagesse fait nos félicités
vive sans cesse nos dignes députés vive la France ,
vive la liberté paix, abondance,justice ,
égalité vive la France , vive la liberté

Vive Louis XVI
Marcha monárquica, 1789

Em 1798 perdeu a França o seu encontro com a verdadeira mudança, ou seja, sem a tradição.

França: imposturas republicanas


A pré-campanha para as presidenciais francesas atingiu o rubro. A 5ª República, regime nascido de um golpe de Estado, dos impulsos cesaristas de de Gaulle e decalcado da nostalgia da monarquia, parece ter atingido a fase que precede a morte. A França é um complexo problema e parece reunir o catálogo completo da crise sistémica - económica, institucional, social e cultural - que ameaça transformar a Europa do Euro, a Europa da União e, sobretudo, a Europa do Tratado de Lisboa, num caso perdido. Ora, em momentos de crise, a história di-lo, importa que as elites, por elementar assunção de bom-senso, se abram e concedam o benefício da dúvida a novas soluções de governança; ou seja, que se adaptem para evitar a ruptura. 

Ao invés de corrigir, rever e reformar, a casta política que vive no poder e do poder há mais de meio século, cerra fileiras para defender a continuidade de algo que falhou estrepitosamente. A Europa é, desde há dez anos, a região do planeta que menor crescimento conhece. A globalização, que um certo messianismo quis apresentar como solução para uma nova ordem mundial, destruiu as fronteiras económicas, a competitividade, os produtores e o tecido empresarial, destruiu a estabilidade social e capitulou perante poderes e interesses estranhos ao continente, às nações e aos cidadãos. É elemento de toda a evidência que o sistema político democrático corre perigo, pois as tensões a que se submete são de tal modo graves que a aparência de ordem hoje existente pode romper-se a qualquer instante. O tão gabado grande consenso ao centro, a lenta desaparição da direita e da esquerda e a aceitação do "fim das ideologias" teve como consequência o que todos sabemos. A política escorraçou a inteligência e a cultura. O divórcio entre a sociedade e os políticos tornou-se tão insuportável, que o continente - todo o continente - é governado por gente que há trinta anos não mais poderia aspirar que um ignoto lugarzinho numa qualquer secretaria de junta de freguesia. A morte dos homens de Estado e a sua substituição pelos homúnculos que nos invadem as pantalhas diz isso mesmo: a Europa já não tem liderança. Não havendo liderança, não há ordem, nem exemplo, nem rumo.

É humano que quem detém o poder procure por todos os meios mantê-lo; que quem vive exclusivamente da vida política, dos partidos e das escandalosas regalias e privilégios que tal ocupação proporciona, nada mais sabendo fazer senão política no sentido menos nobre do termo, se queira agarrar a esses privilégios, às sinecuras e a vantagens proporcionadas por redes de amiguismo e enriquecimento sem trabalho. Perante o desastre, a casta dirigente cerra fileiras, mas não quer mudar. Recorre a artifícios legais, legisla contra o interesse da população transformada em passiva espectadora, tenta por todas as formas impedir o acesso de novos competidores. A França está a fazê-lo. Já não bastava a lei eleitoral iníqua, que trata de escorraçar a representação proporcional mediante eleições a duas voltas e agora exige-se aos candidatos à presidência a exibição de 500 assinaturas de presidentes de câmara. É a serpente a morder a sua própria cauda. Como pode um regime reclamar-se democrático - isto é, que aceita a soberania popular e a iniciativa dos cidadãos - aferrando-se a um dispositivo de selecção que coloca o sim e o não nas mãos da casta política que não aceita discutir nem pensar fora das regras que ela mesmo instituiu para justificar o poder que não quer abandonar?

Que saudades da velha monarquia, onde havia os Estados Gerais, o poder dos parlamentos regionais que Paris temia, a força  das ordens profissionais independentes, intermediação entre o Estado e a sociedade mas, sobretudo um sistema meritocrático - aberto, limpo - que permitia a ascensão social dos indivíduos capazes. A tricolor, na expressão que os constituintes de 1789 lhe quiseram dar - o azul da França de Carlos Magno, o vermelho de Paris e o branco do Rei; ou seja, a nação, o Estado e o Rei - transformou-se numa mera e irreconciliável justaposição de interesses. Sem Rei, o Estado passou a ser Paris e um dos grupos que antes ocupava o poder - a nobreza togada - passou a disputar o lugar do Rei, árbitro independente. Fazem cada vez mais sentido as velhas dicotomias entre a França legal e a França real, a maioria política e a maioria silenciosa. As democracias ainda não viram que a única república possível é a resultante da existência de uma Coroa ?

A propósito do desecanto, das mentiras, embustes, trapaças, manipulações que França se vão fazendo em nome da democracia, um cómico registo da reacção de uma candidata ao Eliseu - Marine Le Pen, bem mais contida nos gestos e palavras que o brutamontes do pai - a propósito das promessas recentemente feitas por Sarkozy sobre uma vaga reforma social e política.