18 dezembro 2012

Sombras: Malraux


O autor de Les Conquérants, La Tentation de l'Occident, La Statuaire, La Monnaie de l'absolu, André Malraux, jornalista, editor, conferencista, globe-troter, resistente, ministro da cultura, oficial da Legião de Honra, orador cativo em todos os grandes fastos da V República francesa, continua a reclamar sucessos editoriais trinta e seis anos a pós a sua morte: reedições, antologias, correspondência, biografias e estudos enchem estantes. Um dos mais recentes estudos sobre Malraux - André Malraux: un combattant sans frontières - está disponível numa das mais conhecidas livrarias de Lisboa. Apresenta-o como a perfeita coincidência entre o homem de acção e o intelectual, o arista da palavra e o metteur em scène dos grandes mitos pelos quais os homens se oferecem às balas e ao martírio laico na luta pela liberdade.
Folheei e procurei, procurei, mas não encontrei aquele pequeno detalhe que faz o retrato sem adorno do biografado. 

Especulador bolsista, em 1923 Malraux estava à beira do colapso financeiro. Ainda rapaz, tornara-se famoso pelas vibrantes conferências sobre a arte, abrira uma editora, aspirava à grandeza e ao reconhecimento público, sonhando, talvez, vir a ser o mais jovem imortal da Academia. O esteta, o amante das belas formas, o pregador do sublime que carrega qualquer peça artística, resolveu o problema que o afligia. Enganou a direcção da École Française d' Êxtreme Orient, falsificando documentos que o encartavam como arqueólogo, conseguiu cartas de apresentação destinadas a garantir o apoio do Governador-Geral em Saigão, meteu-se num vapor e rumou à Indochina Francesa. Ali chegado, organizou uma expedição e internou-se pelo Camboja, acampando nas imediações de Angkor. Durante semanas, em vez de extasiar perante as estátuas khmeres, Malraux dedicou-se a destruir baixos-relevos de  Banteay Srei, cortando-os, embalando-os e enviando-os para França, onde seriam vendidos a coleccionadores. Apanhado em flagrante, foi preso e condenando. Em tribunal defendeu-se, afirmando estar a ser vítima de perseguição política, pois era um feroz crítico do colonialismo. Ao regressar a Paris, entregou-se freneticamente à escrita da Voie Royale, romance em que relata o insucesso da sua peregrinação ao Camboja. Lutadores destes que escrevem junto malfeitorias e vocações libertadoras não são tão raros como podemos pensar; diria mesmo que a ego-história de qualquer ficção é mais poderosa que qualquer impulso criador. Desde o dia em que soube do passado de Malraux, deixei de lhe conferir o mínimo interesse, como homem e como autor. Sei que sou um desmancha-prazeres. Há quem idolatre o fazedor de proezas, mas quem pode gostar de um falsificador ou de um traficante de tesouros artísticos?

4 comentários:

Chardon Ardent disse...

L’université Silpakorn de Bangkok, sous l’impulsion d’ajarn Sodchuen Chaiprasathna s’est particulièrement intéressée à Malraux… En 2001, ajarn Sodchuen Chaiprasathna y a organisé un colloque international : « Le Centenaire de la naissance d'André Malraux »

Les actes du colloque peuvent être consulté à partir de ce lien : http://www.malraux.org/index.php/articles/1109-chaiprasathna1.html

Sûr que Malraux ne présente aucun intérêt, tout est faux dans ses bavasses… De plus, il s’est largement disqualifié, pas seulement par sa participation à la Guerre d’Espagne et son affiliation au degaullisme. J’aime beaucoup Banteay Srei (la Cité des femmes), un de mes sites préférés autour d’Angkor, ses vols et pillages sont un sacrilège… À Phnom Penh, la maison où Malraux a été détenu aux arrêts existe toujours…

Isabel Metello disse...

É mais um ícone de barro sacralizado?! Hum, não é novidade- tantos há por aí a darem-se como poetas malditos, mas pelo que se pelam mesmo é com "o vil metal"...são as máscaras, que caem um dia, ai caem!

José Domingos disse...

Se ele fosse de direita, o que seria, assim não faz mal.

João Pedro disse...

Confesso que tenho uma certa admiração por Malraux, pela sua faceta aventureira como poucos, pelo seu percurso que tendo chegado a passar pelo marxismo, acabou no gaullismo (creio que o comentador José Domingos se esqueceu desta). Sim, conhecia as suas vilanias arqueológicas, até pela citada Voie Royal (um livro pouco estimulante, aliás), mas sejamos francos, era uma personagem "bigger than life", e qual destes, na vida real, não cometeu as suas vária sacanices? Byron tinha manias várias, Hemingway era um beberrão, até o jovem poeta Verlaine acabou como traficante de armas no Corno de África (e fazendo uma analogia de ficção, Corto Maltese também se dedicava ao contrabando, e o seu criador, Hugo Pratt, outro aventureiro, também tinha as suas escapadelas). Preferia mil vezes que a t-shirt com a cara de Malraux fosse icónica do que a desse mito fanático conhecido como Che Guevara.