24 dezembro 2012

O portentoso país dos bitaites: os falsos Dom Sebastião


Aparece um indivíduo afirmando-se cumulado de títulos e funções (ex-bolseiro da Gulbenkian, consultor do Banco Mundial, coordenador mandatado pelo Secretário-Geral da ONU, professor universitário), desdobra-se em entrevistas à imprensa, a reuters certifica-o, senta-se nas mesas redondas das intermináveis parlapatanices televisivas, é orador convidado em jantares promovidos pelas mais desvairadas instituições - umas sérias, outras nem tanto - ganha respeitabilidade sentando-se com Bagão e Maria Barroso, é coqueluche de blogues

O país rende-se-lhe, ouve-o, exulta com o tom de milagre no ar das boas novas que debita. A crise não existe, a dívida é uma ilusão, quem tem culpa é o governo. O Cagliostro de trazer-por-casa, o Rei da Ericeira, o novo pasteleiro do Madrigal continua, alarga-se a multidão de seguidores. Para mais, é de esquerda, cidadão empenhado, abaixo-assinante em tudo que envolva amanhãs cantantes, senador da esquerda revolucionária, defende um onírico "ministério da Felicidadetudo aquilo que faz pergaminhos e confirma brasão e título. O português, maioritariamente semita ou berbere, acredita em elixires, em sinais e presságios, curas milagrosas. É contra tudo e de tudo duvida, não ouve a razão, desdenha da clareza, mas se lhe surgir pela frente um António Conselheiro - e tantos têm sido os messias ao longo dos quarenta anos que levamos deste regime - transfigura-se, adere cegamente, não balbucia. O fim do mundo passou, e com o alívio do não cumprido armagedão, o falso Dom Sebastião é posto a descoberto. Seixas da Costa ainda protesta a presunção de inocência, outros descalçam as botas que ajudaram a fabricar para o novel marquês de Carabas. Mas para este caso não vai haver uma cela na Bastilha, uma galé ou uma carnificina no Paço da Ribeira. Isso era dantes. No paraíso da Dona Branca, de Vale e Azevedo, Alves dos Reis e Duarte Lima, permite-se que haja mágicos, conquanto seja apenas um de cada vez.
Ao longo da vida todos temos conhecido a mais diversa casta de aldrabões, mentirosos e falsários aos pés dos quais são depostos os mais sonoros pachões e os mais cheirosos pivetes. Já o meu saudoso pai me advertia: "não te aproximes demasiado", "isto não é gente de confiança", "estão sempre prontos para todo o tipo de habilidades e, depois, paga quem foi ingénuo". É altura, caros leitores, de duvidarmos por princípio, duvidar sempre, até prova em contrário. Bom Natal no grande Rilhafoles em que se transformou Portugal !

4 comentários:

Bic Laranja disse...

Esta está boa!

Votos dum óptimo Natal e de feliz ano novo!
Cumpts.

Bonaparte disse...


Tenho muita admiração por alguns patriotas que fizeram-se passar por El-Rei D. Sebastião e tenho muito pouco, senão mesmo um grande asco, por esta cambada de ladrões.

Lionheart disse...

O cerne da questão era que a "mensagem" veiculada por este charlatão, por mais enganosa, interessava aos media e a muitos sectores da vida nacional. Só por isso foi possível que ele tivesse tanto espaço mediático sem que se averiguasse a sua credibilidade. Isto diz bem sobre o que é o "debate" político em Portugal. Mas atenção que o governo agiu logo numa matéria que não lhe competia, o que também é perturbante. Os media é que têm de escrutinar o que os outros publicam e asseverar a credibilidade das suas fontes.

alberico.lopes disse...

O que mais gozo me deu foi o nicolau do lacinho a "beber"as palavras do tal convidado como que revendo ali o sábio que vinha afiançar com toda a presciência os dislates que ele e o monhé Costa têm vindo a berrar contra o governo,desde que o Relvas apareceu a afiançar que a RTP iria ser privatizada!
E o mais impressionante é que não se demitem!