02 dezembro 2012

O mito da Idade Média


Já aqui, por duas vezes, aludi a um pequeno ensaio da autoria de Umberto Eco intitulado A Nova Idade Média. Em meados da década de 1980, Eco diagnosticava certeiramente o processo de decomposição do Iluminismo, pressentindo o advento de uma nova era cujos primeiros passos balbuciantes lembram esse longo período a que erradamente designamos como "Idade Média". Eco não exibe qualquer parti-pris a respeito da chamada "Idade Média", pois, soberbo medievalista, sabe que a má vontade, tinta de hostilidade e arrogante ignorância que por aí se continua a debitar sobre esses gloriosos mil anos de existência da civilização Ocidental foi uma invenção das "luzes". Como sabem, a alusão a um medium tempus foi cunhada por Petrarca (um homem "medieval"), mas só passou ao jargão historiográfico em finais do século XVII como sinónimo de trevas, superstição, clericalismo e violência. Seria fastidioso proceder aqui ao enumerar de erros que fizeram o mito dessa "Idade Média". Romano Guardini deixou, nos anos 40, o Fim da Idade Moderna, ensaio filosófico que define com precisão as características do pensamento e visão do mundo "medievais", por oposição à modernidade. Em Guardini há o refutar dos mitos anti-"medievais" da modernidade. Mais, Guardini afirma que a Idade Média conseguiu um notável equilíbrio entre a autoridade (cultural, política, religiosa) e a liberdade.

A "Idade Média" a que aludiam Burkhardt e Michelet no século XIX nunca existiu; ou antes, foi construída como ideologia oposta ao "Renascimento" e movimentos que se lhe seguiram (racionalismo, iluminismo, liberalismo, marxismo, etc). A Idade Média - cedamos à convenção - foi a mãe da civilização Ocidental. A velha história da herança grega e latina não resiste à mais leve acareação. A Idade Média foi reformista, foi inovadora sem chamar pelo nome e deixou as grandes instituições e institutos que ainda hoje são cimento do que resta do Ocidente. Para isso, basta lermos a fascinante biblioteca que é a obra de Jacques le Goff para raspar os cascões do preconceito. A literatura, tal como a entendemos (e sobretudo o romance) é criação da "Idade Média". A Universidade, sede de saber, transmissão, formalização e polémica em torno do conhecimento, é uma invenção medieval. A arte, neta de Deus como lhe chamava Dante, muito embora o conceito só fosse estabelecido no século XIX, é também uma conquista medieval. Até o "capitalismo" - passando por cima do errado lugar-comum que afirma a oposição da Igreja à economia, ao dinheiro e ao lucro - nasceu do processo de legitimação do dinheiro, fenómeno que ganhou expressão a partir do "renascimento do século XII. Coube, também à Idade Média, a invenção do trabalho entendido como valor moral. Ou não foi a Idade Média a inventora de uma sociedade que repousava sobre a organização do trabalho, de que as corporações, as guildas, as comunas, as liberdades burguesas e concelhias, raíz daquilo a que se vulgarizou chamar de "democracia"?

Tenho adquirido ao longo dos anos o Lexikon des Mittelalters, enciclopédia de 9 volumes de que possuo os seis primeiros. Folheio-a ludicamente, como quem lê antes de dormir, sem qualquer preocupação outra senão o entretenimento. Não há dia em que não leia uma ou duas páginas, saltando entradas. Faço-o para praticar o alemão - a mais inteligente das línguas - e não há leitura  em que não me deixo de espantar com a pujança, a grandeza e a simpatia contaminante dos avós dos nossos avós, os medievais. A "Idade Média" é viciante, tão viciante para mim como a matéria do Sudeste-Asiático pré-contemporâneo, com a qual, aliás, se assemelha em variadíssimas perspectivas sobre o entendimento da vida. Como estou cansado da ganga "moderna", do linearismo e da chocarreira banalidade do mundo sem o véu do sagrado e das grandes interrogações ! Viva a Idade Média.

8 comentários:

João José Horta Nobre disse...

A Idade Média foi e é sem dúvida um dos períodos históricos sobre os quais se inventa e mente mais.

Ainda me recordo,logo no 1º ano da minha licenciatura em História, de ter a professora Dra. Nobre Veloso às 9 da manhã a desconstruir por completo esse mito sobre a Idade Média que foi fermentado durante o Renascimento europeu.

Estas erradas concepções sobre a Idade Média foram mais tarde apropriadas por Marx que faz uma análise puramente simplista e muito incompleta da forma como funcionava a economia na Idade Média.

Hoje, todos estes mitos e mentiras continuam ainda a circular na sociedade e existe um estereotipo bastante negativo sobre a Idade Média que foi cunhado por décadas de uma historiografia no mínimo injusta e irresponsável.

Abraço,
João José Horta Nobre

MIGUEL disse...

ESQUECEU A CONSTRUÇÃO. MUITO IMPORTANTE O QUE SE CONSTROI
PARA OS ROMANOS AS ESTRADAS. PARA OS MEDIEVOS AS CATEDRAIS !

Pedro Almeida disse...

A notável medievalista Régine Pernoud, na sua obra O Mito da Idade Média, desconstrói os mitos criados precisamente sobre a Idade Média.


Entretanto, um abraço para o Dr. Miguel Castelo Branco! Já enviei mail, mas ainda não tive resposta ao mesmo.

António Bettencourt disse...

Oh a Idade Média, como a podemos esquecer? Essa idade em que a terra era plana, em que o sol girava à volta da terra, em que a peste grassava, em que as bruxas eram queimadas nas fogueiras, em que a religião e o poder dos grandes senhores mantinham o resto da populaça na ordem.

Mitos, apenas mitos.

Como é bom estar sentado no nosso sofá burguês do século XXI a ler em línguas difíceis, dar-se ares de especialista e admirar um passado de enciclopédia e de académicos.

Esperem lá...onde é que eu já vi isto? Ah pois... os Românticos...

Conservador disse...

Ser um monge com reverência a S. Bento e a catedrais em plena era da desmaterialização, da buzina, e da "informação", ...eis uma ética diária.!

cardo disse...

Só foi o Miguel falar nos mitos sobre a idade média, que apareceu um António para exemplificar com a sua pessoa esse fenômeno. Era inevitável.

"Essa idade em que a terra era plana"

Risos Mil.

"em que a peste grassava"

Quer dizer, segundo o Bettencourt, a gripe espanhola depõe contra a Europa moderna. Menino esperto.

Miguel, por falar em sofá burguês, talvez fosse o caso de você escrever um post sobre o Ortega y Gasset e os "señoritos satisfechos."

Dava um bom post.

Duarte Meira disse...


«Viva a Idade Média»!
Viva!

Caro Miguel Castelo Branco:

Pena o nome do diletante Eco, a destoar, quando podia a propósito ser citado "Uma Nova Idade Média. Reflexões Acerca dos Destinos da Rússia e da Europa" (1924), de Nicolau Berdiaev.

Parabéns ao comentador Pedro Almeida, pela lembrança de Régine Pernoud, e não me esqueça eu de lembrar o nosso grande medievalista Armando de Almeida Fernandes.


José Lima disse...

http://distributistreview.com/mag/2012/05/an-introduction-to-the-social-theories-of-the-middle-ages/