07 dezembro 2012

Morreu Niemeyer, génio da Utopia totalitária


Oscar Niemeyer morreu centenário, confirmando a longevidade dos génios, anúncio da imortalidade em que não cria. No obituário dos tolos que lhe quiseram render homenagem - e Deus fala quase sempre pelas crianças ou pelos simples - Niemeyer foi, apenas, o amigo de Fidel, de Chávez, o revolucionário que nunca desarmou, o Prémio Lenine da Paz e o arquitecto que desenhou a sede de um partido hoje quase inexistente (o Partido Comunista francês), expressão acabada de um futuro que o não foi. Niemeyer é muito mais. Fazia parte daquela geração de planificadores de cidades, escultores de monumentos, "poetas do betão armado" e entusiastas desse remoto sonho - tão provável como um centauro - da mudança do homem. Teve como inspirador Le Corbusier (amigo de Valois, de Mussolini e leal servidor de Vichy) e foi, no seu momento de ouro, o que Alfred Speer pretendera ser no regime nacional-socialista. 


Niemeyer entronca no construtivismo e no funcionalismo, mas a sua gramática, substituindo o bloco pela curva, mascara o fascínio irresistível pelo poder do Estado, tomado como caminho mais curto para a Utopia. As jubilosas sedes do poder (os ministérios, a sede da ONU, os palácios) em que deixou marca do seu génio - deixemos de lado as encomendas menores - são evidências estridentes  da visão totalitária da arte. Não há, escandalizem-se os adeptos do galerismo e da arte-mercado, arte que não seja totalitária, ou seja, total, absorvente, centrípeta, magalómana e psicótica. Brasília, a mais bizarra experiência bem-sucedida de centralização do poder dos tempos modernos - tão chocante na sua formulação como Tell el-Amarna de Akhetaton, Germânia de Hitler, Islamabad, Yamoussoukro ou Naypyidaw - é uma tese. Ali, não há escala humana, os homens não interessam. Como é sempre jovem a velha Utopia de Moro, asfixiante, codificadora e controleira, matriz do sonho de uma sociedade sem mudança, perfeita, tão perfeita que recusa o desejo, o sentimento, os afectos. Não se destina a pessoas, mas ao poder. 

Große Halle, de Speer

O meu velho amigo Gerardo Mello Mourão, já falecido, nome grande da poesia brasileira do século XX, contou-me um dia a acalorada discussão que tivera com Niemeyer a respeito de Brasília. Niemeyer afirmara que estava a construir uma tese e uma Utopia, que essa Utopia estava a transformar-se em verdade histórica. Mello Mourão respondeu-lhe que não queria viver numa tese, queria ser homem, viver habitualmente, ter jardim, ter mercearia, o quiosque de jornais, a tabacaria, a loja de pronto-a-vestir. Depois, desistiu. O olhar de Niemeyer tornou-se opaco, distante, desinteressado da pequenez humana. Há, entre Speer e Niemeyer coincidência de propósitos, disso não tenhamos dúvidas. A arte do poder cultiva deste os tempos da velha Babilónia a monumentalidade, o grande, o eterno. Na era da insignificância - a era em que o poder trocou o mármore, a pedra granítica (ou o betão) pelas caixas de vidro - o poder passou para as mãos da gente das habilidades e do dinheiro. A arquitectura, hoje, está para a arte como o heavy metal para Mozart, como António Vieira para a Rebelo Pinto, como Visconti para as telenovelas.

5 comentários:

Pi-Erre disse...

Excelente post!

Duarte Meira disse...


Mesmo assim, Niemeyer é infinitamente preferível a toda essa corja dos Sizas, Soutos, Soutinhos e multidão de imitadores, que têm enchido o país de caixotes de betão e vidro.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Gosto muito do texto!
Poderíamos referir, também nessa linha de arquitectura do poder, as catedrais góticas? Glorificando Deus mas, através da grandiosidade e do mistério, ostentando o poder dos homens que O representam, o clero?

Hermes Rodrigues Nery disse...

Em 1991, num café da manhã num Hotel da rua Augusta, em São Paulo, Niemeyer me disse numa entrevista ao Jornal da Tarde: "o caminho do socialismo é inevitável". Ele talvez já soubesse que o socialismo viria para a América Latina, e seria implantando em processo gramsciano, como hoje vai ocorrendo a revolução cultural que prepara o novo totalitarismo no Brasil, via PNDH3. Daí todas as homenagens ao amigo de Luis Carlos Prestes, ao longevo ateu e comunista, tão de acordo com o projeto de poder em curso no País.

Hermes Rodrigues Nery disse...

ao editor do Blog, peço corrigir no meu texto: e seria implantado