09 dezembro 2012

Medinho, convencionalismo, incapacidade para ganhar distância perspectiva



O documentário Estética, Propaganda, Utopia no Portugal de António Ferro, por aí tão incensado nas passerelles do academicamente autorizado, passou há minutos na RTP-2. Os mesmos clichés, a mesma desonestidade, essa quase doentia necessidade de dizer mal do país, de serrar as pernas a quantos superem o metro e meio da mansa mediocridade, o prestar serviço à carreirinha e à boa imagem pública exigindo dos depoentes referências "ao Salazar" e "ao Ferro"; em suma, uma bela oportunidade perdida para rever Ferro, esse homem grande que fez no campo da cultura o que nunca ninguém fizera ou voltaria a fazer. 

Há que acabar de vez com o ranço de uma "História Contemporânea" de facalhão em riste. Lá estavam Acciaioli a debitar palavrório, o nonagenário França (que devia ser coibido de continuar a escrever, para não deslustrar a boa obra que assinou há 30 ou 40 anos), um Rosas sempre superficial e adjectivador, uma menina formatada nos mestradros do corta-cola e, até, o pronto-para-tudo de serviço Eduardo Lourenço com a sua filosofice-light, redonda, sem ponto de aplicação. Só Dacosta, agigantado perante tão apoucada companhia, brilhou pela isenção. Esta gente não descola nem desanda. Vive imersa em ódios a mortos e coisas de há 80 anos. São conservadores, reaccionários, imobilistas, têm feito um mal terrível ao país e são, no diminuto campo em que operam, os ditadores das modas culturais. 

Sei que a "academia portuguesa" não passa disto. Continuamos pequenos, subdesenvolvidos, afectados e presunçosos. Esse cascão quase irremovível precisava de um novo Ferro. Mas os Ferros só surgem de 100 em 100 anos para contrastar com as Acciaioli's, os Rosas e as meninas "mestrandas" das banalidades exigidas pela máquina dos currículos. O João Amorim di-lo melhor que eu. Isto é, simplesmente, demagogia e desonestidade intelectual.

6 comentários:

Rita disse...

Aleluia!

Obrigada

Rita Ferro

João Amorim disse...

caro Miguel

Os Rosas querem este "serviço público" e "esta" televisão pública financiadora de amestrados documentários. António Ferro e Duarte Pacheco foram os melhores ministros que a República conheceu. Qualquer comparação com os actuais ministros é uma ofensa às virtudes e valores que devem pontuar o ofício dos agentes do estado.

Rita disse...

Ora bem, João Amorim. Não o conheço, mas leva um beijo: tau!

Maria disse...

Tivessemos nós neste momento outro António Ferro, mais um Duarte Pacheco e um descendente directo de Oliveira Salazar e outro galo cantaria.
A nossa maior desgraça como povo foi ter deixado entrar no país e, pior ainda, permitido que um gangue de crápulas do mais maquiavélico que é possível conceber-se, tomasse conta do governo desta nossa querida Nação.
Os portugueses só terão paz no dia em que estes miseráveis forem corridos daqui para fora (e parafraseando um Patriota com maiúscula, noutro contexto mas aqui aplicável com toda a propriedade) "ràpidamente e em força", para todo o sempre.

Nesse dia, que se quer muito próximo, os portugueses de bem tudo farão para que no seu seguimento se levantem monumentos grandiosos por todo o país comemorando com salvas de artilharia em todas as cidades e vilas, a recuperada Liberdade - porque é da sua genuinidade em toda a extensão da palabra, que efectivamente se trata - para apaziguamento das almas daqueles milhões d'inocentes que perderam a vida por instigação directa de um punhado de malditos; para honrar os Bravos do presente que ininterrupta e heròicamente, agora não já pela valente espada mas pela brilhante pena, tanto têm batalhado pela recuperação da soberania perdida e reposição dos nossos valores ancestrais; e para que as gerações futuras tomem conhecimento desta que foi/é a época mais dramàticamente negra da História de Portugal.

As palavras premonitórias de Salazar confirmaram-se na totalidade e só pecaram por defeito: "se eles (os traidores-oposicionistas luxuosamente refastelados em Paris, Londres, Berlim, Genebra, etc., entretidos a conspirar contra a Pátria) um dia alcançarem o poder destroiem o país".
Esta corja maldita continua a difamar o Estadista e continua a ter-lhe um ódio de morte. É natural. Salazar conhecia-os a todos de ginjeira e manteve-os bem longe da Pátria enquanto teve forças para tal. Foi quando estas lhe faltaram que tudo se desmoronou. Tinha finalmente chegado a hora dos abutres atacarem em força. E assim fizeram. Ao país e ao povo português, comeram-nos a carne e roeram-nos os ossos.

João José Horta Nobre disse...

Apoiado!

Plexu disse...

Não podia estar mais de acordo no que diz respeito à crítica feita ao discurso desonesto, e necrófago do programa, mas há outro aspecto do qual discordo profundamente: por mais que tente, não consigo encontrar qualquer pretexto para desejar outro António Ferro na cultura. Os tempos mudaram de tal forma que qualquer exercício de imaginação que transponha António Ferro para os nossos dias torna a sua política totalmente inviável e obsoleta. Deixemo-lo estar no seu tempo e contexto.

A minha costela independentista e alguns (já largos) anos dedicados ao estudo da história e teoria da arte ocidental levam-me a defender que os homens fortes da cultura ao serviço do Estado sempre foram inimigos castradores da livre expressão artística e cultural. Os exemplos são inúmeros e repetem-se ao longo dos tempos. António Ferro era, sem qualquer dúvida, um homem muito culto e situava-se no extremo oposto da teoria marxista das artes, no entanto não conseguia ser diferente de Marx na concessão de liberdade de expressão criativa. Esse, para mim, o seu grande defeito.

O que me parece paradoxal e profundamente irritante é que esta gentalha, que o seu texto tão bem critica, dedica-se nas horas vagas a contaminar a opinião pública com a necessidade de criação de um ministério da cultura, com um papel interventivo tão ou mais forte do que o SNI do António Ferro, pois só assim veriam satisfeitos os seus caprichos “culturais”.

Apenas uma pequena nota sobre o que diz da academia: sei bem o que é estar contra a corrente num universo académico de humanísticas carregadinho de bibliografias doutrinadoras da sociedade perfeita e do pensamento “correcto” – quase todos pensam da mesma forma e raramente alguém cria algo de novo. Mas para mim esse é o desafio, encaro-o como um avião que precisa do vento contra para aumentar a sua sustentabilidade.

Saudações

Paulo Maia