22 dezembro 2012

Bárbara sentença


O porta-voz da National Rifle Association, Wayne LaPierre, afirmou ontem que "a melhor defesa contra um tipo mau portador de arma de fogo é um bom tipo portador de arma". A lógica do far west num país onde circulam 350 milhões de armas aplica-se como uma luva à doutrina externa de um país habituado a exercer violência preventiva, bem como violência retaliativa numa escala nunca proporcional à ameaça do agressor real ou imaginado. A cultura da arma - invocada como um direito cidadão - gerou um complexo sistema de manifestações que contrariam o carácter apaziguador das sociedades face ao uso da violência individual. Neste particular - vide o cinema, os jogos de computador, o prático decisorialismo norte-americano - o recurso à violência assenta como condição prévia ao triunfo. O direito a matar, real ou figurado, o direito a passar por cima dos concorrentes gerou a convicção segundo a qual não há triunfo sem a eliminação do próximo. Coisa terrível, sem dúvida, pois a violência, ultima ratio, passou a prima ratio, da qual todas as outras se legitimizam. A democratização do porte de armas contraria a velhíssima instituição militar, que Georges Dumézil considerava um dos três pilares da ordem trifuncional (guerreiros, sacerdotes, camponeses) e é aval para o terrível diagnóstico de uma sociedade disfuncional onde todos se guerreiam e matam uns aos outros.

2 comentários:

Duarte Meira disse...

« ... o carácter apaziguador das sociedades face ao uso da violência individual.»

Caro Miguel Castelo Branco:

Não se trata de "violência individual", nem de "direito de matar", como bem sabe. Trata-se, muito simplesmente, de um Estado preocupado com a defesa dos cidadãos e conhecendo com realismo a impossibilidade de ter um polícia atrás de cada um - garantir aos cidadãos adultos o direito de legítima defesa da própria vida e dos seus. Trata-se de coadjuvar activamente e responsavelmente o Estado na mais básica das suas funções.

De resto, o seu «terrível diagnóstico de uma sociedade disfuncional onde todos se guerreiam e matam uns aos outros» é que não funciona, nem para o caso da evolução histórica da sociedade norte-americana; nem para a evolução histórica da sociedade portuguesa até ao séc. XVII; nem para a actual Suíça (para já não falar em Israel, onde as condições são peculiares).

Aliás, um relatório recente (2011) de um organismo da ONU (o Office for Drugs and Crime)não encontrou qualquer relação relevante entre o livre e legal acesso de porte de armas e as taxas de homicídios.


Luis disse...

http://www.publico.pt/mundo/jornal/em-marianna-existiam-duas-salas-do-chicote-mas-so-uma-das-violacoes-25806628