26 novembro 2012

Para nossa segurança, a Espanha resistiu


É em momentos críticos que se revelam as patologias políticas e as soluções extremistas ganham respeitabilidade, sentimentos represados encontram voz e profetas, o impensável atreve-se e rompe com os lugares-comuns. É nas crises que os furiosos, os imoderados e os inacessíveis ao razonamento ganham adeptos e seguidores, como cegos badalando um sinete levando pela cana uma legião de cegos para o abismo.
Ainda ontem, havia quem sonhasse com o desmembramento da Espanha, uma Catalunha independente e, quem sabe, um País Basco, uma Galiza e umas Canárias independentes. Portugueses há que torceriam pela desagregação da unidade espanhola, ignorando ou querendo ignorar que uma península multipolar seria mais pobre, mais violenta e perigosa para o que resta da unidade portuguesa. É matéria de toda a evidência que desde 1668 - ano em que se firmou pelo tratado de Lisboa a paz entre a Espanha e Portugal - não há espaço na península ibérica para mais Estados. Uma Espanha "Estado-nação império", glosando a fórmula de Nial Fergusson, e um Portugal homogéneo que se fez  diferente pelo Estado, eis as únicas entidades com ossatura, memória e unidade de destino. Tudo o mais são regionalismos e localismos reinventados pelo romantismo e exorbitados pelo delírio das autonomias fictícias que tiveram o seu momento após a transição espanhola.
A Catalunha disse não a uma independência sem sentido, pois a Catalunha não é castelhana, mas espanhola e na história cultural de Espanha as letras, os políticos, os banqueiros, os industriais catalães sempre tiveram lugar de honra. Desta vez, a quixotada foi da burguesia catalã, inebriada com os tais 27000 Euros per capita que a aproximariam da Finlândia. Esquecem-se os catalães que sem a Espanha essa mirífica entidade não seria maior que a Bélgica, que os seus 5 milhões de habitantes igualariam os sicilianos em número, que uma Catalunha independente teria de discriminar 25% de população não catalã, que a pujança económica da região se deve à integração espanhola no mercado europeu e que as 500 empresas catalãs operando à escala global muito devem ao apoio e redes de influência da Espanha no mundo. Se tudo isso se desmoronasse, os catalães compreenderiam que, afinal, a Catalunha é mais forte no quadro da monarquia espanhola, hoje como há trezentos ou mais anos.

2 comentários:

jorge.oraetlabora disse...

Miguel, parabéns por mais uma lúcida análise!

Duarte Meira disse...


Caro Miguel Castelo Branco:

Permita-me discordar. Questões de conjuntura e de hipotéticas consequências não forçam princípios - em homens de princípios.

E o princípio é muito simples:os catalães, como qualquer comunidade nacional, têm o direito de levar a "autonomia" de organização à lógica consequência política.

(Suponha que éramos nós que estávamos no lugar deles, e que, como portugueses, queríamos levar vida independente com SAR o senhor D. Duarte como rei próprio. O Miguel opunha-se?...)