22 novembro 2012

Novembro, de Jaime Nogueira Pinto


De Jaime Nogueira Pinto saiu recentemente "Novembro", obra que tem a vantagem de se apresentar como sendo de ficção, libertando o autor da inibidora máscara académica, mas que substituiu a historiografia e o memorialismo proibidos numa terra em que a memória só pode ser de esquerda e a historiografia não se aparta da genuflexão perante os mitos inatacáveis. Nogueira Pinto reúne muitas e estimáveis qualidades. É inteligente, culto, tem veia literária e tem chama, para além de nunca ter deixado transparecer medo na defesa das suas convicções, coisa tão rara em Portugal como um dodó. Nogueira Pinto nunca foi anónimo nem recorreu ao conforto da cobardia de um nome literário ou de um pseudónimo.

Jaime Nogueira Pinto é a outra parte escondida da geração do Maio de 68. Entre nós, essa geração teve Nogueira Pinto, Marques Bessa, Vale Figueiredo e o saudoso Rodrigo Emílio, um grande poeta, tão grande que trataram de o exterminar das letras portuguesas. Acompanhei, desde os meus 16 ou 17 anos, a obra de Nogueira Pinto. Os seus editoriais na Futuro Presente justificavam qualquer número da revista, os seus Direita e as Direitas, Visto de Direita e o best-seller Introdução à Política (I, II e III), lembrando um aguerrido Dicionário Político do Ocidente de finais da década de 70, são importantes contributos para a recepção em Portugal das correntes de uma direita culta europeia. 

Há quem diga que o autor e a obra são imiscíveis, ou antes, que o autor é indiferente à obra e vice-versa. Não concordo, pois o timbre da obra identifica a sombra do autor ausente-presente. No que toca a Nogueira Pinto, à sua pessoa e carácter, destacam-se a lisura, o gabarito intelectual mas, sobretudo, o seu bom carácter. Num país onde se premeiam as "boas pessoas" com o ferrete da imbecilidade, Nogueira Pinto é "boa pessoa" e é inteligente. Para mais, parece não haver na figura um choque entre as convicções expostas, os mitos que o mobilizam, a formação e a obra. Este Novembro consagra uma estreia literária e confirma uma grande pluma. Vai ficar certamente como o grito de libertação de parte de uma geração que foi impedida de participar de corpo inteiro na vida colectiva, que foi perseguida, silenciada e exilada por defender uma certa ideia de um Portugal ultramarino, integrador, fraterno e não-racista. Esse Portugal foi morto pela estupidez e má-consciência de alguma esquerda, mas foi-o também pela idiotia de uma certa direita anti-tudo, mal formada, mesquinha e de mau carácter, que nunca foi portuguesa, sempre detestou a especificidade portuguesa e nunca abandonou as primeira leituras adolescentes de coisas terríveis que despontaram na Europa nos anos 30. 

1 comentário:

Duarte Meira disse...


Dois grandes patriotas, Jaime Nogueira Pinto e sua esposa,Maria José.

Julgo que é a primeira obra de ficção, e muito curioso estou de a ler. E não menos do que o Miguel nos quiser dizer aqui sobre ela.